A HISTÓRIA DO FEMINISMO NO CONTINENTE AFRICANO

A HISTÓRIA DO FEMINISMO NO CONTINENTE AFRICANO

Esta coluna foi escrita a partir de textos produzidos por duas africanas: Minna Salami e Florita Cuhanga António Telo. O objetivo desta coluna é mostrar as suas visões sobre a importância e a luta do feminismo em seu continente.

O continente africano ocupa o lugar mais baixo no índice global da igualdade de gênero, possui uma estatística alta de violência doméstica e números elevados de mutilações femininas (SALAMI, 2017). Por isso, o feminismo consiste em uma primordialidade para as sociedades africanas. E, ao contrário das opiniões de alguns estrangeiros — que dizem que “as mulheres africanas não sentem a mesma urgência ou necessidade de se verem livres dos papéis de gênero tradicionais” (SALAMI, 2017, online) —, o feminismo é um componente significativo da trajetória da vida destas mulheres (SALAMI, 2017).

Essa visão errônea sobre o feminismo na África acontece porque há uma predominância de teorias, vindas do Norte do mundo, que são usadas como referências universais. Dessa forma, a academia não consegue interagir com o feminismo atuante e dinâmico do continente (TELO, 2017).

Destaca-se que algumas realidades em relação ao direito das mulheres são comuns na África. Entre estas: a violência, a mortalidade materna, a AIDS/HIV, os fundamentalismos culturais e religiosos e a gravidez e casamento precoce. Esses acontecimentos são destacados na mídia e passam a imagem de que na África não persiste uma resistência e nem produção acadêmica contra tais infortúnios (TELO, 2017).

Assim, de acordo com Florita Telo (2017, p. 02):

Para MacFadden (2001, p. 51-52) um ponto de partida útil para qualquer discussão do feminismo em África é defini-lo como sendo fundamentalmente a luta das mulheres contra o controle patriarcal e a sua exclusão. As mulheres africanas têm se engajado nesta luta, quer como indivíduos, quer em coletividades, há milênios.

O feminismo surgiu na África, como um grupo organizado de interesse no início do século XX, com mulheres como Charlotte Maxeke, que criou a Liga das Mulheres Bantu na África do Sul, em 1918; Adelaide Casely-Hayford, ativista do feminismo na Serra Leoa; e, Huda Sharaawi, que instituiu a União Feminista Egípcia em 1923 (SALAMI, 2017).

As lutas pela independência dos países do continente africano serviram, também, como base para a formação do feminismo na África. Singularmente nações como Angola, Argélia, Guiné, Quénia e Moçambique. Algumas africanas que se destacaram nesse período foram:

a rebelde Mau-Mau Wambui Otieno, as lutadoras da liberdade Lilian Ngoyi, Albertina Sisulu, Margaret Ekpo e Funmilayo Anikulapo-Kuti entre muitas outras que lutaram não só contra o colonialismo, mas também o patriarcado (SALAMI, 2017, online).

Foi durante a década da ONU para as mulheres, nos anos de 1975 e 1985, que o feminismo africano contemporâneo  se firmou. Desde esse momento, o movimento no continente se desenvolve na ideologia, na legislação, no âmbito cultural e na política. Envolve-se em questões de prevenção de violência, redução da pobreza e direitos reprodutivos. O feminismo africano, também, defronta questões de mitos patriarcais e estereótipos racistas (SALAMI, 2017).

O feminismo na África hoje está na vanguarda — através da criação de ações por meio do conhecimento, da criatividade e do ativismo — para transformar as circunstâncias que afetam as mulheres africanas de forma negativa. Algumas das ativistas, artistas e políticas que estão nessa luta são: Chimamanda Ngozi Adichie, Joyce Banda, Leymah Gbowee e Simphiwe Dana. Bem como duas organizações feministas: o African Feminist Forum e o African Gender Institute.

Outrossim, o movimento feminista na África defende a mudança das sociedades africanas em três níveis, segundo Mama (apud TELO, 2017, p. 03): “1) da subjetividade; 2) das nossas vidas e relacionamentos pessoais e; 3) da economia política”. Para o feminismo africano, a luta pelos direitos das mulheres aborda a injustiça de gênero no nível micro e macro da política — assim como a pesquisa e o ativismo andam juntos. Desse modo, as feministas da África evidenciam a indispensabilidade de uma modificação positiva da sociedade, onde as mulheres não sejam discriminadas, mas tratadas como pessoas que possuem pleno direito em todo os âmbitos da vida (TELO, 2017).

As feministas africanas, no decorrer de um longo tempo, foram consideradas inautênticas e desleais por se definirem como feministas e lutar pelo que o movimento prega. Isso porque a ação era tida como uma afronta aos princípios e valores africanos. Por isso:

Ao longo dos tempos, diversas africanas têm se empenhado no processo de análise, pesquisa e ativismo em prol das mulheres, refletindo a partir das suas próprias realidades, e desenvolvendo um sentido crítico, particularmente sobre aspectos culturais, religiosos e políticos que impactam diretamente sobretudo em suas vidas (TELO, 2017, p. 03).

Além disso, conforme Florita Telo (2017, p. 03):

Molara Ogundipe Leslie (1987) salienta a necessidade das feministas africanas assim se auto definirem, pois a mulher africana precisa estar consciente não só do fato de que ela é uma mulher, mas também que ela é uma pessoa africana e de terceiro mundo.

Ou seja, a mulher africana necessita reconhecer e ter ciência do contexto em que sua consciência feminista foi formada. Ela deve apontar as imprecisões da sua cultura, mas “não parecer estar apoiando à ocidentalização em detrimento de seus próprios costumes africanos” (TELO, 2017, p. 03).

Diante dessa perspectiva, foi adotada, em novembro de 2006, a Carta dos Princípios Femininas para as Feministas Africanas, na Capital do Gana – Accra. A Carta teve o objetivo de ponderar sobre o crescimento e fortalecimento do movimento feminista no continente africano, refletindo a respeito de uma base coletiva (TELO, 2017).

Além disso, a Carta também surgiu em consequência dos ataques que o movimento feminista no continente sofria. Críticas procedentes de dentro e de fora do continente. Foi nesta conjunção que se desenvolveu o Fórum Feminista Africano, o qual viabiliza e auxilia a promoção de outros fóruns nos demais países do continente. Como resultado dessa iniciativa, Angola, Gana, Nigéria e Uganda já realizaram fóruns feministas nacionais (TELO, 2017).

Para Florita Telo (2017, p. 10):

As epistemologias produzidas a partir do Sul, nomeadamente, por mulheres africanas, representam, em meu entender, não uma alternativa ao pensamento tido como hegemônico, mas se afirmam como diferentes propostas de análise dos conhecimentos, outras visões de mundo que ainda são estereotipadas, quando não subalternizadas, pelo mundo acadêmico de forma geral.

Por conseguinte, as teorias feministas africanas incluem, em sua teleologia, a necessidade de grupos periféricos e rurais, as mulheres com necessidades especiais, a situação das mulheres no espaço urbano e as diversidades sexuais. Ou seja, o movimento busca ter uma visão multi e interdisciplinar. Portanto, o movimento de mulheres/feminista da África demonstra:

[…] as suas preocupações em olhar para as particularidades africanas presentes e passadas, e extrair propostas para um futuro que abarque a ampla diversidade de gêneros, sexuais, de classe e localização geográfica (TELO, 2017, p. 11).

Por fim, algumas pesquisadoras africanas sobre esse tema, indicadas pela autora Florita Cuhanga António Telo, são: Chikwenye Ogunyemi (1984), Ifi Amadiume (1987); Molara Ogundipe-Leslie (1985), Catherine Acholonu (1995), Oyeronke Oyewumi (1997).

REFERÊNCIAS:

TELO, Florita Cuhanga António. O Pensamento Feminista Africano e a Carta Dos Princípios Feministas Para As Feministas Africanas. 2017. Disponível em: http://www.en.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/1498445384_ARQUIVO_ArtigoCompleto_Florita.pdf. Acesso em: 10 jul. 2021.

SALAMI, Minna. Uma breve história do feminismo africano. 2017. Disponível em: https://www.ondjangofeminista.com/txt-con/2017/4/10/uma-breve-histria-do-feminismo-africano. Acesso em: 10 jul. 2021.

Autor

Thaynara dos Santos

Formada em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília. Apaixonada pela área de Direitos Humanos das mulheres.

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