ELZA SOARES

ELZA SOARES

Foto: Daryan Dornelles

Elza Soares foi uma mulher forte, perseverante, empoderada e extremamente talentosa, mas também foi muito julgada durante a sua carreira devido a um relacionamento amoroso. Infelizmente ela sofreu algo ainda comum e normalizado no Brasil: uma artista talentosa, vítima de violência doméstica, julgada pelo adultério cometido por um homem famoso, além de ser criticada como alguém que só queria fama estando com ele. Elza definitivamente não precisou dele para ter fama, dona de uma voz única e de músicas inesquecíveis, ela deixou um grande legado.

Elza nasceu em 20 de janeiro de 1930, no subúrbio do Rio de Janeiro. Sua mãe, Rosaria Maria da Conceição, era lavadeira e seu pai, Avelino Gomes, era operário. Ela teve uma infância difícil e foi obrigada por seu pai a se casar com 12 anos. Aos 13 anos já era mãe, porém seu primeiro filho faleceu em decorrência de uma doença. Com apenas 15 anos, Elza perdeu o seu segundo filho e ficou viúva aos 21. E, aos 27 anos, ela era mãe de uma menina e de quatro meninos (FUKS, 2022).

Quando o primeiro filho da Elza adoeceu, ela precisou de muito dinheiro e, como sonhava em ser cantora, participou do programa de calouros, na Rádio Tupi, de Ary Barroso. O apresentador desmereceu suas roupas e perguntou para ela: “de que planeta você veio?” e ela respondeu: “do planeta Fome”. Elza não se importou com as provocações e simplesmente cantou, sendo ovacionada e Ary até comentou: “senhoras e senhores, nasce uma estrela”. Assim nasceu a cantora Elza Soares, com sua voz rouca característica se tornando marca registrada (SCHATZ, 2017).

Elza foi convidada a se apresentar representando o Brasil na Copa do Mundo de 1962, no Chile, ocasião em que conheceu Louis Armstrong, que comentou: “Ela tem um saxofone na garganta” (SCHATZ, 2017). Também foi quando conheceu o jogador da seleção Garrincha, na época casado. Por essa razão, Elza foi julgada de ter “roubado” o marido da ex-esposa do jogador, foi perseguida e acusada de estar com o jogador apenas para ter fama (FUKS, 2022).

Garrincha se separou, casou-se com Elza e mantiveram uma relação por 17 anos, chegando a ter um filho, que veio a falecer em 1986. Após se aposentar como jogador de futebol, Garrincha tornou-se alcoólatra e começou a agredir fisicamente a cantora, que nunca chegou a denunciar o caso (FUKS, 2022). Ela também perdeu a mãe em um acidente de carro, o qual era conduzido por Garrincha bêbado (SCHATZ, 2017).

A cantora foi bastante julgada por nunca ter denunciado as agressões físicas de seu marido Garrincha. Levando em consideração que a Lei Maria da Penha foi promulgada apenas 2006 e o fato de ele ser um jogador famoso, não considero que ela teria recebido apoio caso tivesse denunciado. Se, mesmo com a existência da lei, hoje muitas mulheres não recebem apoio quando sofrem violência doméstica, que dirá quando essa lei ainda nem existia. Além disso, ela já era considerada culpada por um adultério cometido por ele, nesse caso é importante enfatizar que a culpa nunca deve ser direcionada para a vítima.

Elza era uma cantora muito talentosa e utilizou das suas experiências vividas para compor. De sua relação com Garrincha nasceu a música Maria da Vila Matilde, a qual tem a frase: “[vo]cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim” (FUKS, 2022). Nessa música ela não só fala das agressões físicas que sofreu, como também faz um alerta para que as mulheres que estão na mesma situação denunciem (SCHATZ, 2017).

Maria da Vila Matilde é uma música de 2015, lançada quase 10 anos depois da existência da Lei Maria da Penha. É uma música forte e empoderada, por meio da qual Elza percebe a importância de ajudar outras mulheres a saírem desse ciclo de violência.

Em 1999, Elza foi eleita a cantora brasileira do milênio em Londres, pela rádio BBC. Concorreu ao Grammy em 2002 com o álbum Do Cóccix até o Pescoço (SCHATZ, 2017)

Em 2014, Elza fez uma cirurgia em que teve que colocar oito pinos em sua coluna, reduzindo a velocidade de seus movimentos, todavia permaneceu fazendo shows e turnês. Em 2016, a cantora lançou o álbum A Mulher do Fim do Mundo, o qual foi eleito como  um dos melhores do ano pelo jornal New York Times (SCHATZ, 2017). A grande estrela Elza Soares faleceu no dia 20 de janeiro de 2022, no Rio de Janeiro (FUKS, 2022).

As músicas de Elza falam sobre temas que ela conversava com fluência, como negritude, feminismo, amor, transexualidade, homofobia e política. Sobre o título do disco A Mulher do Fim do Mundo ela fala: “Eu acho que a mulher do fim do mundo é aquela que busca, é aquela que grita, que reivindica, que sempre fica de pé. No fim, eu sou essa mulher.” (em entrevista para Huffpost) (SCHATZ, 2017).

A trajetória de vida da cantora Elza Soares é sinônimo de luta, força e resiliência. Ela sofreu vários tipos de violência na vida, começando por um casamento infantil (por ter se casado aos 12 anos), a dor de perder os filhos para a fome, o julgamento de uma sociedade machista e a violência doméstica. Ela era uma mulher muito talentosa, com uma voz vibrante e irreverente. Passou uma vida sendo criticada pela relação com Garrincha e sendo bem sincera, Elza Soares é quem merecia ter um estádio com o seu nome. Obrigada pela existência e pela arte que nos deixou. Finalizo essa coluna com um trecho da música Mulher do Fim do Mundo:

“A pele preta e a minha voz

Na avenida deixei lá

A minha fala, minha opinião

A minha casa, minha solidão

(…)

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida

Na avenida dura até o fim

Mulher do fim do mundo

Eu sou e vou até o fim cantar”.


REFERÊNCIAS:
FUKS, Rebeca. Biografia de Elza Soares. 2022. Disponível em: https://www.ebiografia.com/elza_soares/. Acesso em: 10 abr. 2022.
SCHATZ, Kate. Mulheres Incríveis: artistas e atletas, piratas e punks, militantes e outras revolucionárias que moldaram a história do mundo. Bauru: Astral Cultural, 2017.

Thaynara dos Santos

Formada em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília. Apaixonada pela área de Direitos Humanos das mulheres.

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