O TEMOR DAS MULHERES NO AFEGANISTÃO

O TEMOR DAS MULHERES NO AFEGANISTÃO

Foto: EPA-Jalil Rezayee

Em julho deste ano, a OTAN e as forças americanas se retiraram do Afeganistão. Por conseguinte, o Talibã avançou de forma rápida e tomou o poder das principais cidades afegãs. Em consequência desse avanço do grupo, muitas mulheres afegãs se afligem com o seu futuro sob o domínio fundamentalista islâmico do regime Talibã. Isso porque é possível que haja um declínio nos direitos humanos e liberdades civis, principalmente para meninas e mulheres (VERENICZ, 2021).

Depois que o Talibã assumiu o controle das províncias de Takhar e Badakhshan, foi expedida uma disposição para que fosse concedida uma lista de meninas com mais de 15 anos e viúvas com menos de 45 para se casarem com guerrilheiros talibãs. Essa lista deveria ser entregue pelos líderes religiosos locais, mas não há informações se essa ordem foi efetuada (VERENICZ, 2021).

Caso esses casamentos forçados aconteçam, as meninas e mulheres serão encaminhadas para o Waziristão, Paquistão, para receberem educação e serem doutrinadas ao islã autêntico. Este ordenamento provocou temor entre as mulheres e suas famílias, uma vez que no regime do talibã de 1996 a 2001:

as mulheres foram submetidas a persistentes violações dos direitos humanos, tiveram seu emprego e educação negados, foram forçadas a usar a burca e proibidas de sair de casa sem um “guardião” masculino (…) As mulheres costumavam ser açoitadas publicamente ou executadas durante o governo do talibã no Afeganistão (VERENICZ, 2021, online).

Apesar disso, Zabihullah Mujahid, porta-voz talibã, afirmou em uma entrevista coletiva, segundo informações da Associated Press, que “os direitos das mulheres serão respeitados, desde que esses direitos estejam de acordo com a Lei Islâmica” (PODER360, 2021, online).

Isso significa impor a ‘sharia’, a lei islâmica, “que inclui apedrejamento por adultério, amputação de membros por roubo e proibição de meninas com mais de 12 anos de ir à escola” (VERENICZ, 2021, online). A professora Francirosy Barbosa, antropóloga da USP, declara: “o que a gente tem é uma leitura liberalista e extremista da sharia. É uma leitura distorcida e violenta (…) o governo talibã não respeita a sharia. Se ele seguisse a sharia, em primeiro lugar ele respeitaria as mulheres” (VERENICZ, 2021, online). A professora complementa:

Os direitos que o islã dá às mulheres desde o século 7 são o direito ao divórcio, o direito à herança, o direito à busca do conhecimento, direito de escolher o marido, direito de viver em sociedade como qualquer outra pessoa, entre outros (VERENICZ, 2021, online)

Nessa conjuntura, o medo entre as mulheres afegãs só aumenta. Assim como a preocupação de ativistas, como a Malala que twittou:

We watch in complete shock as Taliban takes control of Afghanistan. I am deeply worried about women, minorities and human rights advocates. Global, regional and local powers must call for na immediate ceasefire, provide urgent humanitarian aid and protect refugees and civilians. (Nós assistimos em completo choque enquanto o Talibã assume o controle do Afeganistão. Eu estou profundamente preocupada com mulheres, minorias e defensores dos direitos humanos. Os poderes globais, regionais e locais devem pedir um cessar-fogo imediato, fornecer ajuda humanitária urgente e proteger refugiados e civis).

Ademais, Aisha Khurram, ex-embaixadora da Juventude da ONU, twittou sobre a situação na Universidade de Cabul na manhã de domingo, dia 15/08:

Some teachers said goodbyes to their female students as everyone was evacuated from Kabul University this morning… and we might not see our graduation like thousands of students around the country. Taliban are placed all over the city, just waiting for the right time. (Alguns professores se despediram de suas alunas quando todos foram evacuados da Universidade de Cabul esta manhã… e talvez não tenhamos nossa formatura como milhares de alunos em todo o país. Os talibãs estão espalhados por toda a cidade, apenas esperando o momento certo).

Algumas das mudanças já observadas com a chegada do talibã foi a ausência de apresentadoras mulheres nas transmissões dos canais de televisão do Afeganistão (BBC NEWS MUNDO, 2021). Outrossim, uma foto divulgada por lotfullah Najafizada, no Twitter, mostra imagens de mulheres maquiadas e sem véu sendo retiradas ou cobertas de tinta nas ruas do Afeganistão.

Foto: lotfullah Najafizada/Twitter

Uma afegã de 22 anos, Aisha Ahmad, estudante de ciência da computação na Universidade de Cabul, machucou-se quando arriscava entrar em um avião para fugir do país no Aeroporto Internacional Hamid Karzai. Ela desabafou: “A multidão foi empurrada pela polícia, crianças e mulheres estavam no chão, machuquei minhas mãos, pés e joelhos”. Como não conseguiu embarcar, a jovem pediu, pelas redes sociais, para algum país lhe outorgar asilo para poder terminar os estudos, pois Aisha não acredita mais que isso seja possível. Aisha ainda diz: “Perdi as esperanças e acho que não será um caminho fácil (…) Sinto como se estivesse em um túnel… Não consigo ver nenhuma luz brilhante e não sei qual é o comprimento do túnel” (BBC NEWS MUNDO, 2021, online).

Diante de toda essa situação, muitas mulheres no Afeganistão estão com medo e falta de esperança. Uma mulher sem identificação desabafou sobre o pânico que as mulheres afegãs sentem sob um novo regime Talibã:

Eu tinha muitos planos para o meu futuro, mas agora não posso trabalhar nem ir para a universidade (…) não sei como será nosso futuro. Isso me fez perder a esperança. Estou procurando uma maneira de sair do Afeganistão porque não há esperança para as mulheres.” (BBC NEWS MUNDO, 2021, online)

Portanto, não há como dimensionar ainda como vai ser a vida das mulheres afegãs com o Talibã tomando o poder no Afeganistão. Entretanto, diante do histórico do regime e de algumas ações que já estão sendo tomadas pelo talibã, infelizmente não há esperança de que os direitos das mulheres sejam respeitados ou resguardados. As mulheres afegãs conquistaram vários direitos nos 20 anos sem o regime Talibã. É um grande retrocesso e uma grande tristeza vê-las perderem seus direitos, conquistas e progresso.

REFERÊNCIAS:

BBC NEWS MUNDO. O que já começa a mudar para mulheres com Talebã no poder no Afeganistão. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58242204. Acesso em: 18 ago. 2021.

PODER360. Talibã: direitos das mulheres serão respeitados, se seguirem a lei islâmica. direitos das mulheres serão respeitados, se seguirem a Lei Islâmica. 2021. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/taliba-direitos-das-mulheres-serao-respeitados-se-seguirem-a-lei-islamica/. Acesso em: 18 ago. 2021.

VERENICZ, Marina. Casamentos forçados, prisão e tortura: a ameaça do Taleban às mulheres no Afeganistão. 2021. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/casamentos-forcados-prisao-e-tortura-a-ameaca-do-taliba-as-mulheres-no-afeganistao/. Acesso em: 18 ago. 2021.

Autor

Thaynara dos Santos

Formada em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília. Apaixonada pela área de Direitos Humanos das mulheres.

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