MAN. CITY X PSG: A SEMI DA CHAMPIONS QUE POLARIZOU A GEOPOLÍTICA DO ORIENTE MÉDIO

MAN. CITY X PSG: A SEMI DA CHAMPIONS QUE POLARIZOU A GEOPOLÍTICA DO ORIENTE MÉDIO

Foto: Infoesporte/ge.globo

Você nunca pode separar o esporte da política. Os dois são tão interligados e misturados que você nunca pode separar um do outro” – Hani Sabra.

Em maio, se enfrentaram pela Champions League, competição internacional de futebol mais forte do planeta, os times Manchester City e Paris Saint-Germain. Em primeiro momento, a análise que muitos fizeram foi a técnica: duas das melhores equipes da atualidade se enfrentando a um passo da grande final do principal torneio do mundo. Esse pequeno enredo já fez com que os olhos do mundo do futebol voltassem para o embate. No entanto, analisando mais profundamente o evento, encontra-se tanto no City quanto no PSG características que ao mesmo tempo os aproximam e os afastam.

O Manchester e o Paris foram comprados por empresas do Oriente Médio e possuem espécie de “donos”, os quais injetam dinheiro nos clubes para contratações de jogadores, revitalizações de estádios, Centros de Treinamentos e basicamente buscam a formação de uma hegemonia esportiva e financeira. De fato, as equipes se tornaram muito mais competitivas depois da injeção de dinheiro: o City conquistou cinco das suas sete taças da Liga Inglesa após sua venda, enquanto o PSG empilhou sete de seus nove troféus do Campeonato Francês depois de ser vinculado ao Oriente.  Mesmo sendo hegemônicos, principalmente de maneira local e nacional, faltam a estes times a sonhada Champions League. A maior competição do mundo é um sonho de ambos os clubes, assim como de seus donos, e o confronto pela semifinal da Champions contrapôs – no “The Oil Derby”, como foi nomeado pelos torcedores ingleses, ou “O Clássico do Petróleo”, em português – dois projetos de sportswashing e envolveu doses de rivalidades advindas da geopolítica mundial.

CONTEXTO GEOPOLÍTICO

“O Clássico do Petróleo” foi nomeado assim pela noção de que o dinheiro utilizado nos dois clubes é proveniente da vasta disponibilidade de combustíveis fósseis no Oriente Médio, principalmente o petróleo e o gás natural. No entanto, o City e o PSG representaram – com a passagem do time de Manchester para a final que acontecerá no dia próximo dia 29 – mais do que esse fator quando se enfrentaram: não é surpresa, então, constatar que o confronto foi duro, com expulsões, discussões e desentendimentos, afinal, os dois times eram, dentro de campo, a rivalidade latente de dois países em tensão.

Cronologicamente, foi em 2008 quando o Manchester City foi adquirido pelo Abu Dhabi United Group, este pertencente a Mansour bin Zayed Al Nahyan. Aqui começam as relações com os países dos grupos donos dos times: Mansour é membro da família real dos Emirados Árabes Unidos, sendo filho do ex-presidente e meio-irmão do emir de Abu Dhabi, atual presidente dos EAU.

Do outro lado, em 2011, o PSG foi adquirido por um fundo de investimento catari, o QSI – Qatar Sports Investments, ligado ao QIA – Qatar Investment Authority, o qual, por sua vez, é um órgão do governo especializado investimentos diversificados na economia e projeção internacional. O QSI foi criado pelo emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani, discreto nos bastidores, mas o verdadeiro homem-forte do PSG. Ele foi, por exemplo, o responsável pela articulação do dinheiro para a maior transferência da história, os 222 milhões de euros na compra do brasileiro Neymar, até então jogador do Barcelona. Mas na prática, o responsável por gerenciar o projeto do PSG é Nasser Al-Khelaifi, CEO do QSI e amigo pessoal do emir catari.

Portanto, nota-se como o City e o Paris representam dois países do Oriente Médio, respectivamente os EAU e o Catar. Mais do que isso, estão muito ligados às famílias reais que comandam esses Estados. O Catar e os Emirados Árabes são duas ditaduras monárquico-absolutistas, preponderando no poder por vários anos, e, consequentemente, enfrentando várias críticas quanto à pouquíssima participação popular na forma de governo e trato aos direitos humanos. As duas monarquias estiveram em rota de colisão oficial desde 2017, quando a Crise do Golfo Pérsico eclodiu e vários países cortaram relações com o Catar, inclusive os EAU.

O Catar foi acusado de apoiar grupos terroristas, como a Irmandade Muçulmana, atrito já reincidente, além da estreita relação com o Irã xiita, este que a Arábia Saudita considera um grande inimigo, mas com o qual o Catar possui boas relações, inclusive interesses econômicos, como o compartilhamento de uma grande bacia de gás natural. Até mesmo a atuação internacional do país e a poderosa rede de televisão do governo do Catar, Al Jazeera, foram vistas como umas das peças do jogo de xadrez do Golfo que geraram desconfiança e antipatia pelos governos da região.

As relações diplomáticas não existiram de 2017 a janeiro de 2021, quando reatadas e foram um importante passo para a realização da Copa do Mundo no Catar em 2022, cuja existência estava em xeque pelas relações instáveis da região. No entanto, a rivalidade EAU x Catar é ainda muito forte, visto que o principal acordo de reconciliação foi com a Arábia Saudita e as tensões entre os governos dos Emirados e catari podem voltar a qualquer momento. Em 2019, durante um jogo entre as seleções nacionais dos dois Estados, sapatos foram atirados em campo pela torcida dos Emirados Árabes na direção dos jogadores adversários, um grave insulto na cultura árabe, visto que os sapatos são considerados impuros. Esse ato foi impulsionado pela proibição de indivíduos com nacionalidade catari entrarem em solo dos EAU. Nota-se, portanto, como o futebol, tanto em City x PSG, quanto em outras questões, pode influenciar e ser influenciado por geopolíticas.

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PRÁTICA DO SPORTSWASHING E CONSIDERAÇÕES FINAIS

City e PSG são casos claros da prática do que organizações de direitos humanos e especialistas denominaram de sportswashing. O termo junta duas palavras do inglês: sports (esportes) e wash (lavar), ou seja, é o uso do esporte como forma de apagar e esconder ações que governos não querem que sejam conhecidas pelo resto do mundo. Na verdade, ainda há um fator a mais: os investimentos nos times de futebol visam trazer apoio aos países e suavização de imagem de acusações de violações dos direitos humanos, prisões políticas, torturas e ligações com grupos terroristas.

Os homens-fortes do Oriente Médio veem nos clubes e em outros projetos esportivos uma possibilidade enorme de expansão, projeção internacional e principalmente aceitação pública, não se tratando apenas de dinheiro e oportunidades comerciais. O sportswashing é falado também no fato do Catar ter sido escolhido como sede da Copa de 22, em um alinhamento com a FIFA em meio a uma tensão enorme na região. Da mesma maneira, houve a realização da Copa de 2018 na Rússia, país acusado de perseguir e prender adversários políticos, atacar a liberdade de expressão e os direitos humanos; no GP de Fórmula 1 de Abu Dhabi, nos EAU, onde o governo é acusado de perseguir, torturar e julgar arbitrariamente seus críticos; assim como durante a Olimpíada da China, em 2008, na qual o governo chinês, além de ser acusado de questões similares dos Emirados e Rússia, é apontado como criador de campos de detenção para a minoria islâmica uigur.

Dessa forma, percebe-se como o caráter do sportswashing vem crescendo nos últimos anos e sendo utilizado por governos acusados de práticas condenadas numa tentativa de tornar sua imagem mundial bem menos agressiva. Essa prática tende a continuar em evidência, com mais clubes sendo comprados por empresas ligadas a governos nacionais e sedes de grandes eventos politicamente escolhidas a dedo, embora as ONGs de Direitos Humanos seguem alertando constantemente sobre o assunto.

Dessa forma, constata-se a importância de enxergar o futebol como mais do que um jogo de 11 contra 11. Como já tratado nesta coluna, o esporte é campo de expressão do ambiente que o permeia, sendo possível ser apaixonado por um clube, torcer e amar o jogo com a criticidade que o estudo mais a fundo possibilita. Afinal, futebol e política caminham juntos, e como a coluna irá sempre enfatizar: é impossível separá-los.

Imagem de 3D Animation Production Company por Pixabay

REFERÊNCIAS

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G1. Crise no Golfo Pérsico: entenda por que 6 países cortaram relações com o Catar e quais são as possíveis consequências. G1: Mundo, São Paulo, 5 jun. 2017. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/por-que-a-crise-no-golfo-persico-e-importante-para-o-mundo.ghtml. Acesso em: 22 maio 2021.

HOFMAN, Gustavo. Como PSG e Manchester City se tornaram peças no tabuleiro da geopolítica do Oriente Médio. ESPN, [s. l.], 28 abr. 2021. Disponível em: http://www.espn.com.br/blogs/gustavohofman/786714_como-psg-e-manchester-city-se-tornaram-pecas-no-tabuleiro-da-geopolitica-do-oriente-medio. Acesso em: 21 maio 2021.

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IANDOLI, Rafael. “Sportswashing”: o que a compra do Newcastle ensina sobre essa palavra que ganha cada vez mais espaço no futebol. GloboEsporte, São Paulo, 13 maio 2020. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/sportswashing-o-que-a-compra-do-newcastle-ensina-sobre-essa-palavra-que-ganha-cada-vez-mais-espaco-no-futebol.ghtml. Acesso em: 22 maio 2021.

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MARQUES, João Henrique. HOMEM DA GRANA DO PSG ATUA NOS BASTIDORES E JAMAIS VIU NEYMAR. UOL: 3º Tempo, Paris, 2 abr. 2018. Disponível em: https://terceirotempo.uol.com.br/noticias/homem-da-grana-do-psg-atua-nos-bastidores-e-jamais-viu-neymar. Acesso em: 22 maio 2021.

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O GLOBO. Dono do Manchester City acusado de violar os Direitos Humanos. O Globo, [s. l.], [s.d]. Disponível em: https://oglobo.globo.com/esportes/dono-do-manchester-city-acusado-de-violar-os-direitos-humanos-9294592. Acesso em: 22 maio 2021.

Mateus Rodrigues Ramos

Natural de Catalão (GO) e graduando em Relações Internacionais pela UFG. Sou interessado por Conflitos Internacionais, temas históricos, diversidade cultural e estudo de idiomas. Apaixonado por futebol, games e cultura pop em geral, estou sempre disposto a questionar e aprender.

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