O CÍRCULO VICIOSO DA POBREZA E A GLOBALIZAÇÃO ASSIMÉTRICA NO CASO AFRICANO
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INTRODUÇÃO
É compreensível que há uma série de fatores que corroboram para a condição de subdesenvolvimento que acomete os países do Continente Africano, que são correlatas à herança colonial e à Divisão Internacional do Trabalho, advinda de padrões de interação assimétricos pertinentes ao processo da globalização, o qual é o cerne para a compreensão desta questão.
A exemplo, em termos comparativos, o Produto Interno Bruto de todos esses 54 países, em 2025 (3,2 trilhões de dólares) foi menor que o da Índia (3,9 trilhões de dólares) e do estado norte americano da Califórnia (4,2 trilhões).
A origem desta condição de subdesenvolvimento é intrínseca ao Colonialismo, o qual teve início no século XV, mas atingiu seu auge no século XIX, durante a Revolução Industrial. No período, a atividade industrial exigia grandes quantidades de matérias primas, o que explica a intensificação da exploração das colônias europeias no continente.
O COLONIALISMO E A GLOBALIZAÇÃO ASSIMÉTRICA
O Colonialismo extraiu, retirou e destinou as riquezas naturais do continente africano para a Europa. Isso retardou e restringiu as possibilidades de desenvolvimento estrutural e da organização política e econômica da África. Cabe salientar, que a maior parte destes países só conquistou a independência na segunda metade do século XX. Embora haja alto grau de diversidade entre o nível de desenvolvimento dos países do continente, muitas das estruturas mencionadas neste artigo são válidas para grande parte deles, em especial na África Subsaariana.
O passado colonial foi responsável por efeitos adversos advindos da divisão geográfica injusta do território africano entre os colonizadores. A Conferência de Berlim (1884-1885), que “dividiu” a posse do território africano entre os europeus, sequer considerou as divisões culturais e sociais dos povos locais já estabelecidas há séculos.
Isso fez com que povos distintos e rivais fossem agrupados à força, ao passo que aliados históricos foram separados. O resultado desse processo são países, desenhados no mapa durante o século seguinte, com baixa coesão étnica e com graves instabilidades internas, o que resulta em consecutivas guerras-civis, as quais os tornam ainda mais fragilizados.
Outrossim, o comércio de escravos africanos no Atlântico também prejudicou a economia africana, uma vez que impediu a formação de grupos étnicos maiores, além de ter enfraquecido e evitado o desenvolvimento de estruturas políticas.
Do mesmo modo, a causa da fome no continente está igualmente relacionada à ocupação do território e à extrema dependência econômica externa, herdadas do período colonial. A África é uma grande produtora e exportadora de produtos agrícolas, entretanto não consegue alimentar satisfatoriamente sua própria população. Isso porque sua cadeia produtiva está voltada para a monocultura de exportação.
Não obstante, variáveis sistêmicas contemporâneas são responsáveis pela manutenção do subdesenvolvimento africano, sendo a Globalização Assimétrica a variável-chave da debilidade das economias africanas. O cientista político Anthony McGrew utiliza-se deste conceito para problematizar o fato de que os padrões de interações entre Estados em um mundo globalizado são desiguais.
Ele argumenta que a globalização apresenta uma clara distinção geográfica de inclusão e exclusão, resultando em ganhadores e perdedores do processo da globalização.
É o que o geógrafo brasileiro Milton Santos também aponta em sua obra, indicando a perversidade do processo de globalização consubstanciado na realidade prática de exclusão social, desemprego estrutural, fome e descarte de grandes massas populacionais.
Em suma, os países africanos se especializaram na oferta mundial de matérias primas e recursos minerais de baixo valor agregado face à herança colonial. Enquanto isso, as grandes economias globais especializaram-se na produção e oferta de bens manufaturados e tecnológicos com alto valor agregado. Isso pressiona o balanço de pagamentos dos países africanos, aprofundando sua condição de subdesenvolvimento, ao passo que esvai suas reservas financeiras.
O CÍRCULO VICIOSO DA POBREZA
Com base nisso, o subdesenvolvimento africano pode ser explicado, ao menos em parte, a partir do Círculo Vicioso da Estagnação, conceito formulado pelo economista Ragnar Nurkse, o qual entendia
o capital como uma condição necessária, mas não exclusivamente suficiente para o desenvolvimento. Este também seria condicionado por particularidades humanas, atitudes sociais e políticas, assim como pela trajetória histórica dos países.
No caso africano, observamos que a acumulação insuficiente de capital, advinda dos fatos já citados, gera um lento crescimento econômico e não eleva a produtividade dos fatores.
Esses, por sua vez, provocam baixos níveis de renda e de poupança, reduzindo a produção e o consumo do mercado interno, em virtude do alto custo médio para produzir nacionalmente e da baixa taxa de lucro. Com isso, a propensão marginal a investir nestes países é extremamente baixa, o que acaba por encerrar o círculo vicioso destas economias.
Destarte, justamente pela condição de subdesenvolvimento, o investimento interno e externo na África é reduzido, uma vez que são consideradas baixas ou nulas as taxas de retorno. Isto acaba perpetuando a condição de subdesenvolvimento destes países, a qual tem sua base na herança colonial, mas que é intensificada pela Divisão Internacional do Trabalho decorrente da Globalização Assimétrica.
Conclui-se que grande parte dos países da África dificilmente conseguirão romper sozinhos esse padrão, uma vez que não detêm recursos financeiros para injetar no desenvolvimento de sua indústria e infraestrutura, nem poder político para liderar uma mudança sistêmica a nível global. Para tanto, necessitarão aporte financeiro e apoio político de parceiros globais, cabendo a eles escolher cautelosamente seus aliados levando em consideração suas reais intenções sobre o território africano.
REFERÊNCIAS
BRANCO, Manuel. Desenvolvimento, subdesenvolvimento e democracia em África. 2009.
MCGREW, Anthony. “Globalization and global politics.” in “The globalization of World Politics”. 5. Ed. Oxford: Oxford University Press, 2011. 14-23.
NURKSE, Ragnar. Some international aspects of the problem of economic development. The American economic review, v. 42, n. 2, p. 571-583, 1952.
RODNEY, Walter. Como a Europa subdesenvolveu a África. Lisboa: Seara Nova, 1975.
TOMA, André. Por que a África não é desenvolvida economicamente?. Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-a-africa-nao-e-desenvolvidaeconomicamente/.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 16. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. 174 p.
