AS CONSEQUÊNCIAS DO CONFLITO ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA NO ESPORTE

AS CONSEQUÊNCIAS DO CONFLITO ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA NO ESPORTE

Vladimir Putin e Infantino, presidente da FIFA, junto ao troféu da Copa do Mundo da Rússia em 2018. (Foto: Shaun Botterill/Getty Images)

A investida da Rússia sobre a Ucrânia completou 1 mês e suas consequências no mundo como um todo estão cada vez maiores. O esporte não escapou de ser afetado pelas características do conflito russo-ucraniano e diversas facetas desse âmbito foram influenciadas pelos acontecimentos do Leste Europeu. Essas consequências podem ser divididas em dois principais eixos: as retaliações contra a Rússia e os modos que os resultados dessas questões globais afetam um contexto esportivo geral.

Sem entrar no mérito dos motivos e causas do conflito, a RI em Campo do mês de março vai expor como as ações do presidente russo Vladimir Putin, mais do que nunca, demonstram o entrelaçamento do futebol e do esporte com a política e o campo internacional.

AS RETALIAÇÕES CONTRA A RÚSSIA

Desde o início da investida russa contra a soberania ucraniana, o Ocidente, simbolizando o resto do mundo, se utilizou de sanções econômicas e culturais para frear, de algum modo, as ações da Rússia. Como uma movimentação das tropas da Organização do Tratado Norte (OTAN) possivelmente significaria um escalamento extremo da violência e envolveria o resto do globo em um conflito generalizado, as retaliações fora do campo militar simbolizam ações que podem afetar os anseios russos sem gerar um conflito mundial. Por isso, não somente os interesses russos foram afetados, mas também outros setores da sociedade. O esporte é um dos grandes exemplos dessa situação. A maioria das instituições esportivas repudiaram a invasão e impuseram diversas sanções que vão desde o cancelamento de eventos em solo russo até exclusão de atletas russos e bielorrussos – Belarus incluída por apoiar a guerra de Putin – de torneios e campeonatos. 

Especificamente no futebol, a Rússia disputaria uma das vagas na Copa do Mundo através da repescagem. No entanto, com a pressão pública internacional, a exclusão do país da competição foi confirmada. Além disso, as retaliações da FIFA e da UEFA à Federação Russa de Futebol não permitem que o país dispute nenhuma competição gerida por alguma das duas entidades em qualquer modalidade. Patrocínios com empresas estatais privadas e estatais russas foram rompidos por clubes e instituições, como o Schalke 04 e a UEFA, que rescindiram o contrato com Gazprom, estatal energética da Rússia. 

Os russos também estão sendo afetados em outros esportes, como os olímpicos. O Comitê Olímpico Internacional (COI) retirou a Ordem Olímpica de Putin e estabeleceu algumas recomendações para que eventos que estavam programados para ocorrer em território russo mudassem de sede, além de proibir o hino e a bandeira do país durante as competições, semelhante ao que acontecia nas Olímpiadas de 2020 pelas acusações de doping. O COI se utilizou dessas punições pelo motivo da Rússia quebrar a pressupostos da Carta Olímpica e a Trégua Olímpica, a qual determina que ocorra um cessar-fogo antes do início de um evento com o espírito olímpico, no caso os Jogos Paraolímpicos de Inverno.

A retirada de eventos da Rússia foi seguida por instituições de outros esportes. A UEFA retirou o local da final da Liga dos Campeões de São Petersburgo, e estabeleceu o Stade de France como novo palco da decisão. No automobilismo, a Federação Internacional do Automóvel (FIA) cancelou, ineditamente, o contrato de disputa do GP da Rússia de 2022. A Federação Internacional de Vôlei anunciou que a Rússia também não sediará o Mundial de Vôlei Masculino, como estava previsto. Ainda, foi postulado a exclusão de seleções, times, árbitros russos e bielorrussos de todas as competições internacionais e continentais de quadra, areia e neve. No tênis, o atual número 2 do mundo no ranking da ATP, Daniil Medvedev, não pode ter sua classificação relacionada à bandeira russa e compete independentemente, ainda com a exclusão da Rússia e de Belarus da Copa Davis e BJK Cup. A Federação Internacional de Judô (FIJ) removeu o presidente Putin – faixa preta e 8º Dan – do cargo de presidente honorário, proibiu nacionalismos russos e cancelou o Grand Slam de Kazan, um dos principais eventos do calendário do judô. Por fim, a World Athletics suspendeu atletas dos dois países, foco das sanções, que não podem participar de corridas profissionais de atletismo.

As decisões políticas que visam enfraquecer Putin domesticamente e alçar ainda mais pressão pela retirada das tropas também são passíveis de críticas. É possível levantar a questão: se o que a Rússia faz com a Ucrânia é considerado execrável (corretamente), por que a Copa do Mundo pode ser realizada no Catar, um país diversas vezes ligado à agressões aos Direitos Humanos? Nota-se, portanto, como as inclinações políticas, alinhadas aos interesses das instituições e das pessoas que as representam, mudam o viés de análise das questões no sistema internacional.

Vladimir Putin teve sua Ordem Olímpica cassada. (Foto: Andrej Isakovic | AFP)

O (OUTRO) MODO QUE O CONFLITO AFETOU O ESPORTE

As sanções econômicas contra a Rússia também não passaram despercebidas pelo mundo esportivo. Por exemplo, o dono do Chelsea é o magnata russo Roman Abramovich, considerado o 124º homem mais rico do mundo pelo último ranking da Forbes. Além de ser dono do clube inglês, Abramovich é ligado ao governo Putin pela acusação do governo britânico de favorecimentos em negociações com o governo russo e contratos para a organização da Copa da Rússia, também contendo participações nas gigantes do aço Evraz e Norilsk Nickel. Com a deflagração da investida russa e as pressões decorrentes desta, o aristocrata havia colocado o Chelsea à venda, mas o Parlamento Britânico congelou os bens de Roman e de outros seis bilionários russos. 

Como consequência, as receitas dos Blues estão sendo intensamente afetadas e até vendas de ingressos e negociações de jogadores estão impossibilitadas de serem realizadas. No entanto, o clube pode receber por negociações já concretizadas, mesmo que o dinheiro seja congelado no momento em que entrar na conta bancária da equipe inglesa. O estádio Stamford Bridge, casa do Chelsea, deve permanecer vazio por boa parte da temporada, já que o clube se encontra proibido de vender qualquer mercadoria oficial, como ingressos,  camisetas e artigos esportivos. Para piorar ainda mais a situação, a principal patrocinadora dos Blues suspendeu o contrato de patrocínio. Como se pode ver, a situação é árdua para o atual campeão da Liga dos Campeões e do Mundial de Clubes. Com todos esses problemas, renovações de contratos que estavam engatilhadas necessitaram ser paralisadas. Como o time não pode vender nenhum de seus jogadores para aliviar a folha de pagamento, já existem relatos de atrasos salariais.

A situação do Chelsea é grave e deve afetar múltiplos lados, como funcionários, equipes de limpeza, roupeiros, comissão técnica, jogadores e outros. Os Blues sofrem com sanções que foram impostas ao seu dono, ligado a Moscou, mas existem aqueles que se encontram no olho do furacão: o futebol ucraniano. No início da invasão, os brasileiros que atuavam profissionalmente na Ucrânia postaram um pedido de socorro pela intercessão do governo brasileiro na saída do país que está sendo invadido pela Rússia. Parte dos atletas voltaram ao Brasil, alguns definitivamente, mas outros ainda estão em processos complicados de fuga do caos deixado pela investida russa.

Roman Abramovich, dono do Chelsea e acusado de deter ligações com Putin. (Foto: BEN STANSALL / AFP)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, nota-se como a decisão de invasão tomada por Vladimir Putin, influenciada por vários contextos políticos, afetou diversos lados da vida social. A sociedade como um todo reagiu à violação da soberania ucraniana e isso também alçou consequências à outras facetas do convívio mútuo. É possível depreender que o conflito russo-ucraniano prejudica muitos indivíduos no campo econômico e cultural, mas, acima de tudo, mata e fere inocentes todos os dias em que a guerra se mantém. A Coluna RI em Campo se junta às milhares de manifestações pelo fim do conflito que tanto tem custado ao mundo como um todo e acredita que apenas um esforço conjunto – sem preconceitos e inclinações políticas enviesadas e mascaradas de repressão à guerra – possa simbolizar uma chance de recomeço e paz.

REFERÊNCIAS

BRAGA, Marcelo. Jogadores brasileiros que atuam na Ucrânia desembarcam no Brasil após fuga da guerra: “Alívio”. GloboEsporte, [s. l.], 1 mar. 2022. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2022/03/01/jogadores-brasileiros-que-atuam-na-ucrania-comecam-a-chegar-ao-brasil-apos-fuga-da-guerra.ghtml. Acesso em: 27 mar. 2022.


G1. Quem é Roman Abramovich, bilionário russo dono do Chelsea. G1, [s. l.], 28 mar. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/ucrania-russia/noticia/2022/03/28/quem-e-roman-abramovich-bilionario-russo-dono-do-chelsea.ghtml. Acesso em: 28 mar. 2022.


JUNIOR, Valter. Do futebol à Fórmula-1: as sanções esportivas sofridas pela Rússia. GZH , [s. l.], 2 mar. 2022. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/esportes/noticia/2022/03/do-futebol-a-formula-1-as-sancoes-esportivas-sofridas-pela-russia-cl09m5k09002m0165t9pmrm8f.html#:~:text=A%20san%C3%A7%C3%A3o%20imposta%20pela%20Fifa,in%C3%ADcio%20em%20julho%2C%20na%20Inglaterra. Acesso em: 28 mar. 2022.


PODER360. Sanções à Rússia atingem finanças, cultura e esportes. Poder360, [s. l.], 5 mar. 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/europa-em-guerra/leia-infograficos-principais-sancoes-russia/. Acesso em: 27 mar. 2022.


REUTERS. Reino Unido bloqueia bens de Abramovich, dono do Chelsea; venda do time e de ingressos ficam suspensos. G1, [s. l.], 10 mar. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/ucrania-russia/noticia/2022/03/10/reino-unido-bloqueia-bens-de-abramovich-dono-do-chelsea.ghtml. Acesso em: 28 mar. 2022.


SEIXAS, Josué. Guerra na Ucrânia: 22 dos 30 jogadores brasileiros da 1ª divisão já saíram. UOL, [s. l.], 28 fev. 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2022/02/28/guerra-na-ucrania-22-dos-30-jogadores-da-1-divisao-ja-deixaram-o-pais.htm. Acesso em: 26 mar. 2022.

Mateus Rodrigues Ramos

Natural de Catalão (GO) e graduando em Relações Internacionais pela UFG. Sou interessado por Conflitos Internacionais, temas históricos, diversidade cultural e estudo de idiomas. Apaixonado por futebol, games e cultura pop em geral, estou sempre disposto a questionar e aprender.

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