BOLHAS DIGITAIS E A VIDA SOCIAL NO SÉCULO XXI
Entre aplicativos e aplicativos, você já parou para conferir qual sua média de tempo de tela? E em quantos minutos ou horas do seu dia são depositados em vídeos curtos do Instagram, fios do X (antigo Twitter), maratona de filmes/séries em plataformas de streaming, reviews de youtubers, receitas ou nas mais recentes notícias do mundo dos famosos? Independente da forma escolhida por cada um, a vida na atualidade não consegue ser desvencilhada dos smartphones, tablets, influencers, propagandas de bets e músicas virais, consolidando-se como integrante das bolhas digitais.
Imagem: Relatório elaborado pela Electronics Hub sobre a média de tela de 45 países em 2023. O Brasil ficou em segundo lugar na avaliação, com uma média de 9h e 32 minutos (Créditos de imagem: Electronics Hub, 2024).
Redes e mídias: a malha da sociedade
Para Ferreira (2011), a ideia de “rede social” surge ainda no século XX, como um pensamento de que as interações dos seres humanos uns com os outros possuem capacidade de condicionar o próprio comportamento humano. Essa visão de que estamos todos interligados por fios de conexão, remete aos tecidos que formam as peças de roupa e fortalecem unidades, dando um novo significado e comportamento ao que era antes, uno.
Na visão do autor, as redes sociais são estruturas compostas por diversos fatores tais como indivíduos, organizações, associações, empresas, familiares, desconhecidos e etc, que interagem entre si em movimentos constantes que, apesar de a princípio não apresentarem pontos em comum, são as trilhas pelas quais perpassam crenças, ideologias, poder, prestígio e miséria, englobando todas as pessoas envolvidas em fluxos de informação constante e ininterrupta.
Na perspectiva de Moura et al (2024), o advento da World Wide Web na década de 1990, foi o principal pontapé para o que hoje conhecemos como as mídias sociais, embarcando o mundo todo em uma onda de plataformas onlines que permitissem a criação de sites e fóruns de discussão meramente com o intuito de promover a integração de usuários uns com os outros. MySpace, MSN e o Facebook nos seus anos universitários, exerceram um forte papel na formação de internautas conectados e dispostos a criarem amigos virtuais e comunidades sobre assuntos em comum, como também proporcionava o Orkut, no momento.
O mundo cada vez mais integrado
Com o lançamento do LinkedIn em 2003, o mundo profissional ganha seu espaço e os colegas de trabalho passam a inteirar dos feitos uns dos outros. Três anos depois, o que ficou conhecido como microblogging, toma forma com o pássaro mais famoso depois da pomba branca da esperança de Noé, nascendo assim o Twitter (atualmente X), responsável por viabilizar postagens pessoais em até 140 caracteres (TecMundo, 2012).
Imagem: Infográfico gerado pela pesquisa da Data Reportal sobre o uso de mídias sociais em fevereiro de 2025. Segundo a plataforma, contabiliza-se que uma pessoa comum passa 14% do seu tempo acordado em redes sociais
(Créditos de imagem: DataReportal, 2025).
Atualmente, estar “na rede” é a norma comum, com cerca de 84% da população brasileira estando presente e fazendo o uso diário das redes sociais, com o WhatsApp ocupando o primeiro lugar do ranking, com mais de 142 milhões de usuários, seguido do Instagram e do Facebook Messenger, com 120 milhões de usuários e 117 milhões de usuários, respectivamente (Época Negócios, 2024).
De acordo o Relatório da DataReportal de 2023, se somadas as horas passadas em redes sociais, a humanidade contabiliza cerca de 12 bilhões de horas, o equivalente a 1.4 milhões de anos da existência humana no planeta. Dentre as plataformas mais utilizadas, as redes do grupo Meta ganham destaque, com o WhatsApp, Facebook, Instagram e Messenger, localizadas entre as 10 redes com as maiores audiências, todas no entanto, seguem atrás do gigante da Alphabet, o YouTube. Constam também no ranking o Tiktok, LinkedIn, Snapchat, Pinterest, X (antigo Twitter) e o Reddit (DataReportal, 2023).
Com a presença constante da vida nas redes, exposição diária sobre o que fazemos, quando e onde estamos, são claros a exposição e os postos de vulnerabilidade nos quais são submetidas as realidades do século XXI. Estando todos antenados é impossível fugir dos cookies,extremamente necessários, dos sites e dos algoritmos que leem sua vida e ditam suas opções de escolha em cada palavra e conteúdo que aparece misteriosamente em sua tela, nos meros 5 segundos depois de recarregar.
O objetivo de ser manter a par, preencher o tempo vago, encontrar qual o mais recente desejo de consumo e ser influenciado por desconhecidos que são parecidos conosco, alimentam as redes sociais e, ao mesmo tempo que formam laços e comunidades, seccionam o relacionamento humano mais e mais, ocasionando nas conhecidas “bolhas digitais”.
Presos das bolhas digitais: o amor é como o pássaro do Twitter
Lançada em 2017, a canção “Chained To The Rhythm” da artista norte-americana Katy Perry, apresenta a realidade alternativa de Oblivia, um parque temático para fins de distração que proporciona momentos de alegria em cores pastéis e atrações padronizadas aos seus visitantes que, com o passar do tempo no parque, tornam-se cada vez mais imersos no mundo de faz de conta e permitem-se serem controlados pelo ritmo.
Na letra, que conta com a presença de Skip Marley – neto da lenda do reggae Bob Marley -, a cantora questiona o comodismo que as bolhas trazem para a vida, funcionando como uma espécie de blindagem aos problemas do mundo, às deformidades da sociedade e às inseguranças internas, para que todos, em suas estações definidas pelo algoritmo, sejam alheios e adentrem na máquina guiada pelo conteúdo.
Imagem: Cena do videoclipe de “Chained To The Rhythm” em que a atração do parque Oblivia dita como a maior viagem do mundo é uma roda de hamster, em que as pessoas não passam de peças de uma máquina.
(Créditos de imagem: Capitol Records/ Reprodução BBC, 2017).
Não está se sentido solitário
Preso aí nessa utopia?
Onde nada nunca será o suficiente
Amortecidos sem perceber
– “Chained To The Rhythm”, Katy Perry (Feat. SKip Marley)
(Tradução da plataforma Vagalume)
No artigo de 2024 “O impacto das bolhas digitais no comportamento humano” de Juliana SIlva Pereira Taha e Marcos Roberto Garcia da PUC-PR, o efeito das bolhas no comportamento humano é analisado sob as lentes da psicologia. Isso, tendo em vista os impactos causados pela constante exposição ao overconsumption – o consumismo extremo de produtos e bens muitas vezes não necessários à vida cotidiana – conteúdos curtos e rápidos e trends em constante mudanças, nunca proporcionando consistência ou longevidade na felicidade.
Os autores então, abordam a visão de Pellizzari e Barreto (2019) sobre as “Bolhas Digitais”, apontando que são estruturas de reclusão digital em que as informações aparentes aos indivíduos são acessadas por eles, ainda que os próprios não tenham realizado a seleção de tais materiais, já que o processo de aparição destes conteúdos é feito pelos filtros bolha.
Esses algoritmos são empregados nas redes sociais e mecanismos de busca no geral que absorvem o que é consumido pelos usuários e retornam no formato de novos conteúdos nichados para o gosto almejado. Ainda para os autores, essas bolhas ganham teor narcísico, em que o que aparece é voltado para a pessoa, como se as plataformas, ferramentas de busca e até mesmo a vida no geral, girassem em torno da satisfação e do prazer de tal pessoa – o que não foge inteiramente da realidade.
Ao longo da letra, composição e coreografia dos dançarinos controlados no videoclipe, que conta com mais de 760 milhões de visualizações desde seu lançamento há 8 anos, [se fazem presentes a robotização da vida e a alienação das pessoas, em outras palavras, a distração em prol da impressão de “fazer parte” ao meio. Na letra, “Aumente o som, e deixe no repeat/ Cambaleando como um zumbi bêbado/ Sim, achamos que estamos livres”, o algo(ritmo) controla não apenas as vestes ou indica a dieta, mas também a melhor etiqueta, amizades e modo de andar, contanto que empurremos as falhas para debaixo do tapete.
Em “carmen” do cantor e compositor belga Stromae, as redes sociais são guias para o amor supérfluo e para a desgraça pessoal, mas que vale a pena em troca dos seguidores e hashtags. A música integra o álbum Racine Carrée e mergulha no mundo das redes sociais, com o videoclipe ilustrado por Sylvain Chomet e Neil Boyle, acompanhando a vida de Paul, personagem que tem sua vida transformada ao criar uma conta no Twitter (atualmente X). A música faz uso da melodia de Habanera, da ópera “Carmen” de George Bizet, parafraseando seu verso inicial que aponta o amor como um pássaro rebelde que não se pode domar, na visão de que o amor, nos tempos modernos, não passa de um vício passageiro que resulta em solidão.
A história apresentada torna-se cada vez mais comum nos dias atuais, com o personagem de Paul adentrando nas redes sociais ainda jovem, dedicando-se a aumentar seus seguidores em detrimento da vida fora das telas, tornando-se falho no amor e na realidade, apesar dos avisos de cautela de sua própria rede familiar. No final do videoclipe e com o clímax da música em seu término, o jovem é carregado pelo pássaro e é despejado em um aterro que indica sua completa rendição ao poder das redes, com o pássaro indomável seguindo para o próximo usuário.
Um dia você compra, um dia você ama
Um dia você descarta, mas um dia você paga
Um dia você vai ver, nós nos amaremos
Mas antes vamos todos morrer, como ratos
– Carmen, STROMAE (Tradução da plataforma Vagalume)
Imagem: Captura de tela do videoclipe de “carmen”, música que aborda a vida nas redes e como tal modalidade, quando não feita de forma saudável, pode acarretar na destruição do “eu”.
(Créditos de imagem: Captura de tela do vídeoclipe disponível no YouTube, 2025).
Considerações finais
Consumidos pelas redes e sem capacidade de discernir o valor do virtual ao real, a narrativa de “carmen” e “Chained To The Rhythm”se interlacam no ponto de que a vida, em algum momento deixa-se dominar pela rede e que, até mesmo quando se acredita possuir um leve traço de autonomia, as notícias, tendências, músicas, paletas e guerras noticiadas são parte da narrativa aprovada para o cenário, prendendo os usuários na passarela do entretenimento contínuo. As bolhas assim, possuem um campo mais amplo do que apenas as telas do dia a dia, englobando o que compreendemos por felicidade e amor, mantendo a rotina de um ciclo vicioso entre sempre desejar e nunca estar completo por possuir.
No artigo “O futuro não é mais como era antigamente: a era das Big Techs”, da coluna Futuro em Foco do Dois Níveis, discute-se a perspectiva da atual conjuntura em que os impérios tecnológicos ocupam cada vez mais espaço e poder no cotidiano. Com a expansão da presença das Big Techs em espaços governamentais, e o fortalecimento do “capitalismo da vigilância”, em que companhias possuem acesso à vida cotidiana de seus consumidores impulsionando a economia de acordo com suas ofertas no mercado, é fato de que, apesar do potencial de crescimento e estímulo à melhora da qualidade que a tecnologia pode proporcionar, há também o perigo de um contínuo uso de plataformas sem a devida criticidade. A competição passa de ser por qual empresa venderá mais smartphones no ano e torna ao viés de qual centro de dados saberá mais sobre as vidas que em um futuro não tão distante, serão guiadas pelas correntes do, em evolução, algoritmo.
Imagem de destaque
PIXABAY. 1 imagem de Buffik por Pixabay. 1280 x 716 pixels. Disponível em:https://pixabay.com/pt/photos/business-technology-cidade-linha-5475661/
Referências Bibliográficas
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