A GUERRA DE BIAFRA E SEU LEGADO CONTEMPORÂNEO NA NIGÉRIA

A GUERRA DE BIAFRA E SEU LEGADO CONTEMPORÂNEO NA NIGÉRIA

Foto: David Holt, 2017.

Introdução

Em 1960, a Nigéria adquiriu a sua almejada independência do Reino Unido. Contudo, a herança colonial inglesa deixou inúmeras marcas no território nigeriano, principalmente em relação à grande diversidade étnica existente no país. Os efeitos da descolonização, somados com as tensões entre diferentes grupos étnicos, fizeram com que uma recém independente Nigéria mergulhasse em uma série de crises políticas, econômicas e sociais durante a primeira metade da década de 60, culminando na eclosão de uma Guerra Civil no país, que teve início em 1967 após a declaração de independência de uma grande porção da região sudeste do país, que ficou conhecida como o Estado de Biafra. O conflito perdurou até 1970, quando as tropas nigerianas retomaram o controle do estado separatista, conhecido até hoje como uma das maiores catástrofes humanitárias do século XX (GANSLER, 2020). Tendo isso em vista, as consequências da Guerra de Biafra ainda exercem uma grande influência no meio político e na sociedade civil nigeriana do século XXI, especialmente levando em conta a intensificação de apelos de uma uma parcela específica da população pelo retorno do extinto estado separatista.

A Guerra Civil (1967-1970)

Estima-se que existam mais de 250 grupos étnicos na Nigéria (GANSLER, 2020). Os antecedentes para o início do conflito na década de 1960 se deram por meio do acirramento dos embates entre dois grandes grupos étnicos: os Hauçá-Fulá, que dominam a região norte da Nigéria e os Ibos, que habitam a região Leste, Sul e Sudeste do país. Os Hauçá-Fulá são conhecidos por serem adeptos do islamismo, enquanto os Ibos praticam o Cristianismo. As grandes diferenças culturais entre ambos os grupos étnicos, assim como a disputa pelo poder e acesso a recursos naturais foram os fatores catalisadores para que as tensões entre eles  se agravassem (GANSLER, 2020).

Em 1966, os Ibos ascenderam ao poder através de um golpe de estado, no qual assassinaram líderes políticos da região norte (MATTHAEI, TEIXEIRA, 2016). Nesse mesmo ano, os Hauçá-Fulá realizaram um contra-ataque por meio de um outro golpe estatal, destituindo os Ibos do poder (MATTHAEI, TEIXEIRA, 2016). Depois da permanência dos Hauçá-Fulá no controle do estado nigeriano, deu-se início  uma onda de massacres contra os ibos, fazendo com que mais de 50.000 pessoas pertencentes a esse grupo étinico perdessem suas vidas (MATTHAEI, TEIXEIRA, 2016). Assim sendo, diante desse cenário de extrema violência, os ibos declaram sua independência do Estado da Nigéria, fundando a República de Biafra em 30 de maio de 1967, sob o comando do militar e político Chukwuemeka Ojukwu (MATTHAEI, TEIXEIRA, 2016).

Depois da declaração de independência do Biafra em 1967, o exército nigeriano iniciou suas investidas contra o estado separista, culminando em um conflito que vai se prolongar até 1970. Além disso, outro grande interesse do estado nigeriano na região de Biafra, eram as grandes reservas petrolíferas que existiam na região. Em virtude disso, em maio 1968, as tropas nigerianas conseguiram dominar a cidade de Port Harcourt, fazendo com que os biafrenses perdessem seu acesso ao mar e logo, a suprimentos extremamente vitais para a sobrevivência da população (GANSLER, 2020). 

Após esse movimento de vitória por parte do estado da Nigéria, uma catástrofe humanitária sem precedentes tomou conta do estado de Biafra. Assim sendo, não demorou muito para que o estado independente fosse reconhecido por suas mortes, miséria e principalmente pela fome (GANSLER, 2020). A grande estratégia do governo nigeriano foi de aniquilar os separatistas por meio da fome. Sendo assim,  as chocantes imagens de crianças e idosos desnutridos logo mobilizaram toda a comunidade internacional para enviarem ajuda humanitária para os biafrenses (GANSLER, 2020). As ONG ‘s , como por exemplo a Cruz Vermelha, tiveram um papel fundamental em enviar suprimentos essenciais por meio do modal aéreo, especialmente alimentos, assim como ajuda médica para a população de Biafra. Esse movimento de solidariedade da comunidade internacional foi essencial para a sobrevivência do estado separatista até o ano de 1970.

Figura 1: Crianças biafrenses em um acampamento de refugiados perto da cidade de Aba, em 1968

Fonte: AFP, The Guardian, 2020.

O Legado do conflito

As tropas nigerianas fecharam o cerco contra os separatistas em 15 de janeiro de 1970, dando fim à sangrenta Guerra Civil. Estima-se que o número de mortos no conflito tenha sido entre 500 mil a 3 milhões de pessoas (GANSLER, 2020). Apesar do término do confronto, as causas da eclosão da Guerra de Biafra permanecem abertas até os dias atuais no país. Assim , os apelos pelo ressurgimento do estado separatista vem ganhando mais adesão, mesmo o assunto sendo considerado um grande tabu na Nigéria. A fundação do Movimento dos Povos Indígenas de Biafra (IPOB), em 2012, pelo ativista político Nnamdi Kenu, por exemplo, tem agravado as hostilidades com o atual mandatário mulçumano do país, Muhammadu Buhari, um ex-militar proveniente da região norte. Ressalta-se que o IPOB é um grupo separatista nacionalista da Nigéria, que tem como objetivo principal restaurar a República de Biafra. 

Figura 2: Mapa da Nigéria durante a década de 1960, contendo o extinto estado de Biafra

Fonte: Quora, 2022

O principal legado do conflito é a permanência de um sentimento de grande divisão entre os diferentes grupos étnicos do país (GANSLER, 2020). No campo da política nigeriana, os efeitos da Guerra Civil são ainda mais visíveis, principalmente na distribuição de cargos, continuando a perpetuar um grande sentimento de injustiça entre diferentes grupos étnicos, especialmente os Ibos. Desse modo,  existe um certo consenso de que o presidente Buhari favorece demasiadamente os interesses da região norte (GANSLER, 2020). Além disso, muitos Ibos se ressentem pelo fato de que desde o término do conflito, não houve nenhum presidente eleito de seu grupo étnico para a gestão do país (GANSLER, 2020). 

Em 2017, no primeiro mandato de Muhammadu Buhari, o governo declarou o IPOB como uma organização terrorista (GANSLER, 2020). Desde então, Buhari vem tomando uma série de ações autoritárias para suprimir qualquer menção a Biafra. Desde que foi considerada uma organização terrorista, o Líder do IPOB, Nnamdi Kenu, foi preso no Quênia em  2021, e foi entregue para as autoridades nigerianas em junho do mesmo ano, sendo acusado de práticas de terrorismo e traição (AFP, 2021). A prisão de Kenu causou grande revolta em seus apoiadores, suscitando uma onda de protestos nas principais cidades do sudeste do país (AFP, 2021). Como resposta aos protestos, a administração de Buhari está intensificando medidas de repressão contra grupos separatistas, incluindo a perseguição política de seus líderes, fator que fomenta ainda mais os apelos de independência dos variados grupos étnicos, principalmente os Ibos (AFP, 2021). 

Uma medida autoritária do governo que ganhou grande repercussão foi o banimento da plataforma do Twitter do país em junho de 2021, após uma postagem de Buhari ameaçando movimentos separatistas (FOLHA DE S. PAULO, 2022). Na postagem, o presidente fazia menção a Guerra Civil. Na época, a justificativa do presidente foi que a plataforma promovia a desestabilização do país (KRIPPAHL, NYINGI, 2021). O fim da suspensão da plataforma foi anunciado em janeiro de 2022.  

Conclusão

Portanto, é possível perceber o grande impacto que a Guerra de Biafra deixou no legado do país. As tensões entre diferentes grupos étnicos persistem, somadas com a grande luta pelo poder no campo político. Essas adversidades vem aumentando com as práticas repressivas de Buhari, promovendo em grande escala a insatisfação da grande diversidade de grupos étnicos, assim como seus anseios de independência da Nigéria. 

Referências

AFP. Nigéria: Cidades “mortas” em protesto contra detenção de líder separatista. DW. Disponível em: < https://www.dw.com/pt-002/nig%C3%A9ria-cidades-mortas-em-protesto-contra-deten%C3%A7%C3%A3o-de-l%C3%ADder-separatista/a-58812596>. Acesso em: 19 mai. 2022.

GANSLER, Katrin. 50 anos depois, como a Guerra do Biafra ainda influencia a política nigeriana. DW. Disponível em: < https://www.dw.com/pt-002/50-anos-depois-como-a-guerra-do-biafra-ainda-influencia-a-pol%C3%ADtica-nigeriana/a-52008323>. Acesso em: 19 mai. 2022.

KRIPPAHL, Cristina.; NYINGI, Jane. Após suspender Twitter, Nigéria nega sufocar liberdade de expressão. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-002/ap%C3%B3s-suspender-twitter-nig%C3%A9ria-nega-sufocar-a-liberdade-de-express%C3%A3o/a-57855516>. Acesso em: 19 mai. 2022.

MATTHAEI, Katrin.; TEIXEIRA Cristiane Vieira. 50 anos do contra-golpe que desencadeou Guerra do Biafra. DW. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-002/50-anos-do-contra-golpe-que-desencadeou-guerra-do-biafra/a-19437114>. Acesso em: 19 mai. 2022.

NIGÉRIA anuncia fim de banimento, e Twitter poderá voltar a ser acessado no país. Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 jan. 2022. Mundo. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/01/nigeria-anuncia-fim-de-banimento-e-twitter-podera-voltar-a-ser-acessado-no-pais.shtml>. Acesso em: 19  mai. 2022. 

Pedro Henrique Santos Chaves

Graduando em Relações Internacionais pela UFG. Sou fascinado por cinema e literatura de suspense, fantasia e ficção científica. Tenho grande interesse em questões voltadas para o Continente Africano e América Latina, como Guerras Civis, Ditaduras Militares, Intervenções Humanitárias e Terrorismo.

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