TERRAS RARAS: UM RECURSO ESTRATÉGICO
Imagem destacada: Escavadeiras em área de mineração. Fonte: UNSPLASH, 2018.
INTRODUÇÃO
Em meio à disputa comercial entre China e Estados Unidos, a discussão em torno dos metais de terras raras tem ganhado força. Isso porque, tais elementos químicos são estratégicos para diferentes segmentos da indústria de alta tecnologia, incluindo baterias, veículos elétricos e equipamentos militares de última geração. Diante disso, o domínio quase total da China sobre as reservas e o processamento de terras raras representa uma ameaça aos EUA, que são fortemente dependentes desse recurso. Nesse contexto, a imposição de elevadas tarifas comerciais por Washington à Pequim, tornou as terras raras o grande trunfo do país asiático, que aplicou restrições às exportações do mineral.
Entretanto, a questão não se limita à rivalidade entre as duas potências. O Brasil, que detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, passou também a integrar esse debate após ser atingido pelas tarifas norte-americanas, podendo utilizar o tema como instrumento de negociação com Washington. Assim sendo, o presente artigo busca analisar as nuances de uma disputa geopolítica complexa, que envolve não apenas a concorrência entre China e Estados Unidos, mas também o papel estratégico do Brasil.
TERRAS RARAS
As terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos com propriedades químicas muito semelhantes, que inclui escândio, ítrio e 15 lantanídeos (Nogueira, Neto, ano). Apesar do que o nome sugere, não são terras e tampouco raras. Na verdade, podem ser encontradas em toda a superfície terrestre, porém estão concentradas em poucos países, sobretudo na China, que detém a maior reserva, com 44 milhões de toneladas (AMCHAM, 2025). A suposta “raridade” dessas substâncias reside na dificuldade de extração e processamento, tendo em vista que encontram-se misturados a outros minérios na natureza.
Atualmente, as terras raras são utilizadas em diferentes segmentos, indo desde fabricação de smartphones, televisores, turbinas eólicas e carros híbridos, até aplicações estratégias pela indústria bélica. Esses elementos podem formar ímãs fortes, utilizados em mísseis guiados, caças, aeronaves, tanques e lazer (Lima, 2012; Ministério de Minas e Energia, 2023). De acordo com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, um caça F-35, considerado a principal aeronave da Força Aérea americana, contém cerca de 400 kg de materiais de terras raras, enquanto alguns submarinos podem requerer mais de 4 mil quilos desses elementos (New York Times, 2025).
Imagem 1. Quantidade e elementos de terras raras usados em plataformas de defesa dos EUA.
DISPUTA EUA X CHINA
A produção mundial de minérios de terras raras chega a aproximadamente 212 mil toneladas, sendo que a China responde por 70% desse total (AMCHAM, 2025). Vale destacar que a cadeia produtiva envolve três etapas fundamentais: mineração, beneficiamento e refino (Portal Solar, 2025). Devido a semelhança química entre os elementos de terras raras, a separação torna-se complexa e custosa. Por essa razão, conforme destaca a diretora do Programa de Segurança de Minerais Críticos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, Gracelin Baskaran, até o início de 2025, toda a produção de terras raras da Califórnia era enviada à China para a etapa de refino (CNN, 2025).
Existe uma tentativa, por parte da Europa e sobretudo dos Estados Unidos, de reduzir a dependência em relação ao fornecimento de minérios chineses. Isso representa um desafio particularmente para os EUA, cuja defesa depende fortemente do mercado mineral do país asiático. A estimativa é que aproximadamente 78% do armamento do Pentágono seja fabricado com elementos minerais vindos da China, como antimônio, gálio, germânio, tungstênio ou telúrio, que integram a categoria de minerais críticos, dos quais também detém liderança e importantes para setores estratégicos da economia mundial (Defense One, 2025; FecomercioSP, 2025).
Diante das altas tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos chineses em abril de 2025, o país asiático tem utilizado as terras raras como uma carta na manga. A China restringiu as exportações de sete metais pesados de terras raras e imãs especiais. Não se trata de um bloqueio total, porém, as empresas do setor precisam cumprir uma série de exigências para enviarem os materiais a outros países. Essa estratégia não é novidade, Pequim adotou medidas semelhantes contra o Japão em 2010, suspendendo por sete semanas o envio de terras raras, o que levou o país a diversificar seus fornecedores, passando a importar da Austrália. (Estadão, 2025; Defense One, 2025).
Em um mercado tão volátil, essa decisão impacta diretamente os Estados Unidos. Em sua rede social, Trump afirmou que a China violou uma trégua comercial estabelecida um mês antes, em Genebra. A montadora Ford suspendeu a produção de SUVs em Chicago devido à dificuldade de obter terras raras de fontes confiáveis (BBC, 2025). Mesmo que pequenas fábricas de transformação de terras raras em imãs comecem a operar com plena capacidade na Carolina do Sul e no Texas até o final do ano, ainda sim é muito difícil produzir esse material, pois além de caro e complexo, causa danos ao meio ambiente e apresenta baixo retorno econômico (The New York Times, 2025).
“Hoje, os EUA não têm condições de tornar-se autossuficientes na produção de metais raros, no curto prazo. Então, uma medida como essa pelo governo chinês, se estendida, certamente traria impactos relevantes”.
Essa condição de monopólio sobre a extração e refino de elementos de terras raras pela China não é fruto do acaso. É o resultado de décadas de investimentos e políticas voltadas para o setor. Como afirmou Deng Xiaoping (1904-1997), líder responsável pelas reformas econômicas do país: “O Oriente Médio tem petróleo e a China tem terras raras.” Durante o século 20, a China expandiu seu poder de mineração e processamento desses minerais, muitas vezes à custa de condições trabalhistas e sustentáveis contestáveis, superando a concorrência e dominando a cadeia de suprimento (BBC, 2025). Consequentemente, fábricas no estado de Indiana, nos Estados Unidos, que transformaram metais de terras raras, migraram para a China, impulsionadas pelo aumento da demanda por seu uso em uma vasta gama de aplicações, carros, semicondutores a jatos de combate e robôs (The New York Times, 2025).
No início de julho, a China aprovou licenças temporárias para a exportação de terras raras e imãs para os Estados Unidos, reduzindo gargalos críticos na cadeia de produção. A medida foi tomada após ligação entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, na qual a questão foi um dos pontos e acertada novas conversas, o que ocorreu no final do mês. Trump declarou ter fechado um acordo comercial com a China sobre exportação de terras raras, reafirmando os termos previamente estabelecidos em Genebra. O anúncio veio após ambos os países terem sido acusados de descumprir o que havia sido pactuado, incluindo a redução das tarifas impostas pela guerra tarifária do governo Trump (Valor Econômico, 2025).
Recentemente, um antigo debate geopolítico envolvendo as terras raras voltou a ganhar força na arena internacional. Dessa vez, o foco do governo americano está voltado para o Brasil.
BRASIL
A atenção dos Estados Unidos em relação ao Brasil no que tange aos elementos de terras raras justifica-se pelo fato de o país deter a terceira maior reserva mundial desses minerais estratégicos, estimada em aproximadamente 21 milhões de toneladas, distribuídas entre os estados de Minas Gerais, Amazonas, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Roraima, conforme dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (2024). Entretanto, apesar desse expressivo potencial, a produção nacional ainda é muito limitada, tendo sido de 80 toneladas em 2022 (Governo Federal, 2023).
O Brasil possui significativa vantagem nas reservas de argilas iônicas, uma das principais fontes naturais que concentra a maioria dos 17 elementos. Essa característica é estratégica, pois permite a obtenção dos elementos por meio de processo de refino relativamente mais simples e ambientalmente menos agressivos, diferentemente de outras fontes que encontram-se mais perto de materiais radioativos. Atualmente, o país mantém parceria com empresas chinesas que fazem a extração dos metais de terras raras, já que não possui uma cadeia plenamente desenvolvida para o processamento desses minerais. Paralelamente, observa-se o crescente de outros países em explorar esse potencial, buscando obter licenças de pesquisa e exploração em áreas minerais em diversos estados brasileiros, atraindo grupos e mineradoras de países como Canadá, Austrália e EUA (Estadão, 2025).
Considerando as tensões entre Brasil e Estados Unidos decorrentes da imposição, por parte americana, de tarifas de 50% sobre as exportações brasileiras a partir de 1º de agosto, as terras raras passaram a ocupar posição central nas discussões bilaterais. Em defesa da soberania mineral do país, o presidente Lula Inácio Lula da silva, afirmou a necessidade de proteger os recursos do país e pediu respeito. Isso ocorreu após manifestação de interesse do encarregado da Embaixada americana no Brasil , Gabriel Escobar, pelos minerais críticos e estratégicos brasileiros em reunião solicitada pelo diplomata com o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entidade privada que representa as empresas do setor mineral (BBC, 2025).
“Temos todo o nosso petróleo para proteger. Temos todo o nosso ouro para proteger. Temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger. E aqui ninguém põe a mão. Este país é do povo brasileiro”, disse o presidente, em referência ao governo americano (GLOBO, 2025).
Mais recentemente, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o país pode propor a inclusão da exploração de minerais críticos e terras raras no pacote de negociações com os Estados Unidos. Essa iniciativa configura uma clara tentativa de mitigar as tarifas unilaterais. A equipe econômica brasileira planeja um plano de contingência para enfrentar os efeitos dessas medidas, embora ainda sem data definida para seu lançamento. (G1, 2025; CNN, 2025). O ministro destacou ainda que o Brasil precisa buscar formas de “agregar valor” aos minérios, a fim de abandonar o padrão de exportação de commodities com baixo valor agregado. Tal perspectiva pode ser relevante, tendo em vista que mesmo diante do potencial na exploração dessas matérias-primas, a ausência de industrialização limita significativamente os benefícios econômicos para o desenvolvimento nacional (Vermelho, 2025).
CONCLUSÃO
A disputa geopolítica entre China e Estados Unidos em torno das terras raras revela a importância estratégica desses minerais para a tecnologia e a defesa global. Por essa razão, o domínio quase absoluto da China na produção e refino desses elementos confere a Pequim uma posição de poder que influencia diretamente a segurança e a economia dos EUA. Consequentemente, as tensões comerciais e as medidas de restrição adotadas por ambos os países evidenciam a vulnerabilidade americana diante da dependência de um recurso central para diferentes segmentos de sua indústria.
Nesse contexto, o Brasil surge como um ator importante devido a sua grande reserva de terras raras. Apesar desse expressivo potencial, a baixa limitação de produção não permite que se utilize esses elementos como instrumento efetivo de barganha na guerra tarifária iniciada por Trump, diferentemente do que fez a China. Para que o Brasil aproveite essa posição estratégica, é fundamental desenvolver e fortalecer sua cadeia produtiva, afim de transformar seu potencial geológico em vantagem geopolítica real.
