OTAN EM CRISE EXISTENCIAL: CENÁRIO ATUAL E PERSPECTIVAS

OTAN EM CRISE EXISTENCIAL: CENÁRIO ATUAL E PERSPECTIVAS

A atual situação conturbada da política internacional impõe desafios à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que enfrenta uma espécie de crise existencial, originada de vários fatores. Antes de adentrar no cerne desta problemática, cumpre-se conceituar a Organização e fornecer um panorama geral de suas características e seus objetivos.

O que é a OTAN?

Em suma, é uma organização originada a partir de um acordo internacional firmado em 1949, entre países da Europa e da América do Norte, originalmente com 12 membros, mas que alcança 32 países em 2026 – quase 1/5 do sistema ONU. Foi criada para obstaculizar o avanço soviético e do comunismo para o Ocidente, no contexto da Guerra Fria, com a liderança dos Estados Unidos da América (EUA). O tratado fixou um importante mecanismo de Segurança Coletiva, disposto no art. 5°:

“As partes concordam que um ataque armado contra uma ou mais delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque contra todas elas e, consequentemente, concordam que, se ocorrer tal ataque armado, cada uma delas, no exercício do direito de legítima defesa individual ou coletiva reconhecida pelo Artigo 51 da Carta das Nações Unidas, ajudará a parte ou as partes atacadas, tomando imediatamente, individualmente e em conjunto com as outras partes, as medidas que julgar necessárias, inclusive o uso de força armada, para restaurar e manter a segurança da região do Atlântico Norte”.

(OTAN, 1949, tradução livre)

Como o próprio site da Organização dispõe, é “uma aliança política e militar com o propósito de garantir a liberdade e a segurança de seus membros” (OTAN, 2026). Representa, portanto, um mecanismo de defesa e de concertação política, que teve seu papel destacado na contraposição aos soviéticos. Com a desintegração do bloco socialista, precisou se reinventar, pois foi discutida, inclusive, sua razão de existir. Expandiu sua atuação em direção ao leste europeu, inclusive cooptando antigos rivais. Esse momento foi analisado com maestria pelo Gustavo Milhomem, em texto publicado aqui no Dois Níveis em 28 de outubro de 2020, o qual recomendo fortemente a leitura. Inclusive, o texto do Gustavo já problematizou, seis anos atrás, a capacidade de ação da OTAN no século XXI, dialogando, com o tema desta análise.

Desde o fim da Guerra Fria, e por um tempo fora dos holofotes, a OTAN se manteve como uma organização relativamente estável, sem sofrer grandes pressões externas ou internas, a despeito da resposta aos ataques de 11/09/2001 e eventuais provocações russas. As principais tensões internas apareceram no contexto das críticas de Donald Trump, em seu primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos, quando, apesar de demonstrar respeito à organização, mostrou insatisfação com o baixo gasto militar dos demais membros, cobrando, especialmente das potências europeias, para que elevassem seus investimentos em defesa, cumprindo com acordos selados no seio da OTAN – especialmente o compromisso de gasto de 2% do PIB de cada país em defesa, conhecido como Compromisso de Cardiff de 2014. (THE NEW YORK TIMES, 2017).

Guerra na Ucrânia e seus desdobramentos para a OTAN

O ano de 2022 representou um novo marco para a geopolítica euro-atlântica, quando a Rússia invadiu a Ucrânia no mês de fevereiro, dando início à guerra. Embora a Ucrânia não seja parte do tratado, ela se mostrou inclinada à organização em alguns momentos recentes, e é vizinha de membros da OTAN. O ataque russo chamou os europeus à defesa ucraniana, e, por consequência, os Estados Unidos, mediante auxílio financeiro e suporte bélico.

No mês seguinte à invasão russa, a OTAN lançou seu “Conceito Estratégico 2022” (OTAN, 2022), um dos documentos mais importantes da organização, e que é atualizado a cada década, informando os guias da ação política e militar da Organização. O texto definiu a Rússia como a “ameaça mais significativa e direta à paz e segurança da Aliança” (OTAN, 2022, p. 4, tradução livre), tratou a China como um desafio relevante e passou a enfatizar ameaças híbridas, cibernéticas, tecnológicas e climáticas (OTAN, 2022, tradução livre). Mais de 30 anos após o fim da Guerra Fria, a Rússia voltou a ser destacada como a grande inimiga.

Num primeiro momento, ensaiou-se uma coesão da OTAN, que, inclusive, expandiu seu número de membros. Após décadas de neutralidade, a Finlândia (março de 2023) e a Suécia (abril de 2024), países bastante próximos geograficamente aos russos, ingressaram na Organização e, consequentemente, aderiram ao mecanismo de segurança coletiva, que serve como elemento forte de dissuasão de eventual interesse russo em ataque na região nórdica.

Mas se os membros se uniram na defesa da Ucrânia e, consequentemente, da Europa, não estaria a OTAN fortalecida, inclusive com a expansão da membresia? Onde está a crise? Novamente, as discussões iniciaram-se na questão orçamentária, e com o retorno de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos.

Enquanto alijado da Casa Branca, em 2023, durante o governo Joe Biden, Trump voltou a criticar o fato dos estadunidenses “pagarem a conta” da defesa de outros países, referindo-se aos gastos com a OTAN, e reclamou dos aliados europeus que não fazem os mesmos esforços pela aliança, durante evento de sua campanha eleitoral. No mesmo contexto, e relacionado a uma hipotética situação de ataque russo a um membro da Organização, o então candidato afirmou:

“You didn’t pay, you’re delinquent. No, I would not protect you. In fact, I would encourage them to do whatever the hell they want.”1

Donald J. Trump, 2024

A agressividade de Trump fazia menção implícita ao compromisso vigente entre os países da Organização, de atingir ao menos 2% de gastos militares em relação ao PIB, firmado em 2014. Isso não estava sendo cumprido por grande parte dos membros. Em 2023, por exemplo, apenas 11 dos então 31 membros alcançariam, pelas estimativas da Organização, a referida meta:

Fonte: Relatório Anual da OTAN, 2023.
Gráfico elaborado pela equipe do Dois Níveis, a partir dos dados constantes no Relatório.

Trump foi eleito, voltou ao poder norte-americano em 2025, e, apesar de manter o auxílio à Ucrânia, manteve a retórica agressiva junto aos membros da OTAN. O receio dos aliados quanto à eventual queda da ajuda dos Estados Unidos levou à assinatura, na Cúpula de Haia, em junho de 2025, de um compromisso dos países em expandirem os gastos militares para chegar, até 2035, em 5% do PIB nacional. (OTAN, 2025). Apenas a Espanha se contrapôs, sendo duramente criticada pela administração Trump (COTOVIO, 2025. 

Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, discursando na Cúpula de Haia, em junho de 2025
Fonte: OTAN

A pressão surtiu efeito. O Relatório Anual da Aliança referente a 2025 mostrou que, pela primeira vez na história, todos os países cumpriram a meta de gastar 2% do PIB com defesa – inclusive a reticente Espanha. Entretanto, a tensão interna existiu, e a confiança entre os membros estava abalada, tanto pelas divergências orçamentárias quanto pelas orientações políticas distintas entre os líderes dos países membros, sem esquecer das falas de Trump referentes à anexação do Canadá e da Groenlândia (que pertence à Dinamarca), ambos países que fazem parte da organização.

Crise de identidade e a invasão dos EUA ao Irã: OTAN em xeque

Concomitantemente à guerra entre Rússia e Ucrânia, os Estados Unidos, junto a seu aliado Israel, promoveu ataques ao Irã, em fevereiro de 2026, com o objetivo declarado de desmantelar o programa nuclear iraniano. O ataque foi visto por muitos países como um desrespeito às normas de Direito Internacional, e a Espanha, que é membro da OTAN, criticou abertamente a iniciativa norte-americana (ABREU, 2026). Outros países da Organização prezaram pela cautela, sem se envolver diretamente no conflito, mas também buscando não desgastar a relação com os EUA.

O choque no seio da OTAN ocorreu entre março e abril, quando alguns países europeus – como a França e a Espanha – se recusaram a permitir o uso de suas bases militares por mecanismos norte-americanos envolvidos na guerra, o que foi visto por Donald Trump como ingratidão. Ele argumentou que os EUA financiaram a defesa da Europa por anos e, na hora de receber algo em troca, não houve a contrapartida esperada. Chamou os europeus de “covardes” e considerou a aliança um “tigre de papel” na ausência dos EUA, afirmando considerar seriamente a saída da organização (REUTERS, 2026).

No dia 8 de abril, pelo perfil oficial da Casa Branca na plataforma “X”, provocou, e inclusive ameaçou aliados fazendo referência à questão da Groenlândia:

“NATO wasn’t there when we needed them, and they won’t be there if we need them again. Remember Geenland, that big, poorly run, piece of ice!!!”2.

(TRUMP, 2026)

Verifica-se, pelo exposto, uma crise de confiança na OTAN, marcada por discordâncias entre os membros, justamente no momento em que a Organização volta a ser chamada à ação, E em mais de uma frente de tensão global. Isso pode ruir o mecanismo, caso as divergências não sejam devidamente sanadas, ou, de outra parte, levar à exclusão de membros – o que seria inédito, e sequer está previsto no tratado constitutivo da organização. O tratado prevê apenas, no seu art. 13, que qualquer membro pode optar por sair voluntariamente, enviando uma “notificação de denúncia” aos EUA (estado depositário), iniciando um processo de retirada. Mas e se os próprios EUA quiserem sair, o que acontece? É uma pergunta que, até o momento, não tem resposta.

Ao analisar a situação da OTAN na virada para o século XXI, a professora-pesquisadora de Relações Internacionais Helene Sjursen discutiu a questão da identidade da organização e problematizou o porvir, afirmando:

O futuro da OTAN depende não apenas dos custos de sua manutenção, mas também do grau em que o elemento de confiança mútua é preservado. Uma base comum de valores não se estabelece de uma vez por todas; ela deve não apenas ser cuidadosamente construída, mas também continuamente reproduzida e reconstruída.

(SJURSEN, 2004, p. 15, tradução livre)

O excerto da professora toca justamente na crise enfrentada neste momento pela Organização: a falta de confiança entre os membros. Embora os gastos militares dos países, após muita pressão, tenham chegado à meta estipulada há 12 anos atrás no seio da OTAN, as ameaças e tensões internas estão levando a Aliança para um dos momentos mais críticos de seus 77 anos de história, colocando em dúvida, inclusive, sua própria existência.

Conclusão

A OTAN vive um grande desafio existencial, evidenciado na baixa convergência política entre os líderes de importantes países membros, que discordam de ações militares e provocam-se mutuamente – como a Espanha e os Estados Unidos. Ainda, o cenário altamente conflituoso desta década de 2020 impõe ameaças externas que exigem esforços constantes da Organização, para que se mantenha forte e razoavelmente coesa, pois, a despeito das contradições internas, o inimigo externo está claramente identificado: a Rússia. E outro está no horizonte, à espreita: a China. Somando-se a essas ameaças de poder, ainda existem as diversas questões atinentes ao Oriente Médio, que parecem longe de uma solução.

O avanço no cumprimento das metas de investimento em defesa tem um caráter dicotômico. De um lado, pode ser que os países estejam reconhecendo cada vez mais a importância da OTAN para sua segurança coletiva, cumprindo, pois, seus acordos, para ter a garantia de suporte. Por outro, o fato pode demonstrar que, diante das ameaças de desfalecimento da Organização, as nações, individualmente, estão se armando para garantir sua própria segurança, o que é o objetivo primordial dos Estados, segundo preza a teoria realista das Relações Internacionais. Ao não conseguir confiar plenamente na Organização, o investimento em defesa nacional parece o caminho mais adequado para a garantia de sobrevivência, e observa-se uma escalada de gastos militares ao redor do globo.

A resolução dos conflitos na Ucrânia e no Irã será definitiva para os rumos da OTAN e o restabelecimento – ou não – de sua coesão interna. Mudanças políticas nos países membros, que geram reorientações de política externa – especialmente nos EUA, que chefiam a Organização – podem alterar drasticamente o cenário da Aliança. A questão é sensível, mas, se há pouco tempo era inimaginável um mundo sem a OTAN, a possibilidade bateu à porta. Resta aguardar os próximos capítulos dessa conturbada novela.

Bibliografia

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ABREU, Leonardo. Espanha fecha espaço aéreo para aviões dos EUA envolvidos na guerra com Irã. CNN Brasil, 30 mar. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/espanha-fecha-espaco-aereo-para-avioes-dos-eua-envolvidos-na-guerra-com-ira/. Acesso em: 29 abr. 2026.

COTOVIO, Vasco. Espanha reitera que não participará do aumento de gastos com defesa da Otan. CNN Brasil, São Paulo, 25 jun. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/espanha-reitera-que-nao-participara-do-aumento-de-gastos-com-defesa-da-otan/. Acesso em: 02 maio 2026. 

FITZGERALD, James. Trump says he would “encourage” Russia to attack Nato allies who do not pay their bills. BBC News, 11 fev. 2024. Disponível em:https://www.bbc.com/news/world-us-canada-68266447. Acesso em: 30 abr. 2026.

GALÃO, Fábio. Após pressão de Trump, países da Otan atingem meta de gastos em defesa pela primeira vez. Gazeta do Povo, 27 mar. 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/relatorio-paises-otan-atingem-meta-gastos-defesa/. Acesso em: 29 abr. 2026.

MILHOMEM, Gustavo. A OTAN está pronta para o século XXI? Dois Níveis, 28 out. 2020. Disponível em: https://www.doisniveis.com/europa/europa-ocidental/a-otan-esta-pronta-para-o-seculo-xxi/. Acesso em: 02 maio 2026.

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  1. “Vocês não pagaram, estão inadimplentes. Não, eu não protegeria vocês. Na verdade, eu os incentivaria a fazer o que diabos quisessem.” Tradução livre. ↩︎
  2. “A OTAN não estava lá quando precisávamos deles, e não estará lá se precisarmos deles novamente. Lembrem-se da Groenlândia, aquele grande pedaço de gelo mal administrado!!!” Tradução livre. ↩︎

Vitor Augusto Burin

Formado em Relações Internacionais na Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC).

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