ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS: MUITO ALÉM DOS NÚMEROS

ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS: MUITO ALÉM DOS NÚMEROS

A associação entre as relações internacionais e a economia é sempre elementar, à primeira vista. Qual o principal motivo que explica a aparente ansiedade com o “risco Chinês”? Simples: de acordo com dados do Banco Mundial (BANCO MUNDIAL, 2021), o crescimento vertiginoso do PIB da China explica a inquietação, especialmente nos Estados Unidos. Um olhar mais atento, porém, levanta outra pergunta: pelos dados de USTR (2021), qual o sentido em temer o crescimento daquele que é um dos seus maiores parceiros comerciais?

Para perguntas como essa, a melhor resposta é a preferida dos economistas: depende. A diferença entre o esperado e o observado nunca é fácil de se explicar, especialmente quando falamos de política externa. Como o comércio internacional influencia as decisões militares na China? O que um golpe militar na Guiné tem a ver com a bolsa de valores no Brasil? Entre várias explicações, it’s the economy, stupid¹.

Afinal, o que é a Economia Política Internacional?

Nos termos de Oatley (2019), é “a disputa política entre os vencedores e os perdedores do comércio global”. Ou seja, se trata da relação entre política e economia, no nível internacional. É o que permite, a quem estuda política internacional, entendê-la pela ótica econômica, e ao que estuda economia internacional, entendê-la pela face política.

Embora o termo em si tenha sido criado em meados da década de 1960, o estudo dessa relação é bem mais antigo, com registros que vão de Platão às análises medievais entre governança e produtividade. Com tanto histórico, e se tratando de um tema de alto interesse político, é evidente que seu desenvolvimento acompanhou as mudanças paradigmáticas da economia global: no início da Idade Moderna, a boa política econômica era tida como aquela que abarrotava as reservas de ouro, enquanto no século XIX era aquela que derrubava todas as barreiras comerciais, pela moeda ou pelo canhão (MARLIN-BENNETT; JOHNSON, 2017).

À medida que as relações econômicas e políticas se tornaram mais complexas e numerosas, também se multiplicaram as análises do que é o real e o que seria o ideal. Isto é, a revolução industrial abriu caminho para o liberalismo clássico, com suas vantagens comparativas e crescimento da prosperidade pela ótica do comércio, mas criou espaço também para a interpretação marxista-leninista, que via no imperialismo a última etapa lógica de um sistema internacional capitalista. A crise de 1929 e a reorganização das instituições internacionais no pós Segunda Guerra levaram a ainda mais interpretações, com as relações de poder sendo revistas em termos como “norte e sul globais”, ou, mais recentemente, pós coloniais e feministas. O que seria boa política econômica passou por momentos de nacionalismo econômico e de ressurgimento das ideias liberais (MARLIN-BENNETT; JOHNSON, 2017).

Sendo tantas as possíveis ramificações, é comum a subdivisão do campo em quatro diferentes áreas, dependentes umas das outras, mas suficientemente distintas para facilitar seu entendimento — são elas o sistema de comércio internacional, o sistema monetário internacional, desenvolvimento econômico e empresas multinacionais (OATLEY, 2019). Cada um deles tem graus distintos de institucionalização internacional e diferentes níveis de relevância para um ou outro acontecimento, e contribuem para que esse campo seja tão diverso, passando por interpretações de diferentes níveis de tecnicidade.

Em resumo, a Economia Política Internacional pode ser muitas coisas — desde uma ferramenta técnica para a tomada de decisões, em ambientes internos ou externos, uma forma de diagnóstico da economia global, ou mesmo um prognóstico do que pode vir a seguir.

E por que a Economia Política Internacional é importante?

A economia brasileira, a título de exemplo, é impossível de ser bem entendida se desconsiderarmos as instituições políticas brasileiras. Um comunicado do Banco Central é tão indissociável das métricas objetivas, ao estilo de inflação e desemprego, como das métricas subjetivas, tais quais o impacto político e a sinalização ao público, e esse entendimento é natural quando estudamos eventos atuais ou históricos de qualquer país individualmente, mas muitas vezes não parece assim quando lidamos com eventos que cruzam fronteiras.

Na esfera externa, é comum que se vejam os eventos como binários: ou são decisões políticas, ou econômicas — o trabalho da OMC seria, assim, fruto de um trabalho técnico impessoal, ou um jogo de cartas marcadas, onde só o que importa é a política. Como fazemos com análises nacionais, é preciso incluir em qualquer análise das relações internacionais as suas dimensões econômicas e políticas. Uma nunca está completa sem a outra, e a economia política internacional é justamente a maneira de conciliar o que poderia ser uma decisão sem sentido, se entendida somente por um ou outro ângulo. Aquele trabalho da OMC depende da boa compreensão das métricas (a economia) e do processo decisório (a política).

O que esperar dessa coluna?

Um executivo nos Estados Unidos toma uma decisão técnica que impacta o nível de emprego no México, que reage com uma política comercial que afeta os exportadores no Brasil. Podemos ver esse evento pelo lado da política econômica, da política eleitoral ou da estratégia internacional, de um, dois ou três países. Dentro da economia política internacional (EPI, daqui em diante), as possibilidades são quase infinitas.

Como o exemplo anterior, as próximas publicações serão amplas em escopo, mas interessantes o suficiente para fazer com que a rigidez dos números se abrande, e flexibilidade dos textos se avigore. Até mais!

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¹”It’s the economy, stupid” é uma frase que se popularizou em 1992, quando foi criada pela campanha bem sucedida de de Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos (POLITICAL DICTIONARY, 2021)

REFERÊNCIAS

BANCO MUNDIAL. World Development Indicators Database. GDP (constant 2010 US$). Disponível em: <http://www.worldbank.org/data/>. Acesso em: 30 set. 2021

USTR. COUNTRIES & Regions. Disponível em: <https://ustr.gov/countries-regions>. Acesso em: 30 set. 2021.

Political Dictionary: It’s the economy, stupid, 2021. Disponível em: https://politicaldictionary.com/words/its-the-economy-stupid/. Acesso em: 30 set. 2021.

OATLEY, Thomas. International Political Economy. 6. ed. Nova Iorque: Routledge, 2019.

MARLIN-BENNETT, Renée; JOHNSON, David K. International Political Economy: Overview and Conceptualization. International Studies, 22 dez. 2017. Disponível em: <https://oxfordre.com/internationalstudies/view/10.1093/acrefore/9780190846626.001.0001/acrefore-9780190846626-e-239#acrefore-9780190846626-e-239-div1-1>. Acesso em: 30 set. 2021.

Vinicius Santos Marques

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