ESPECIAL DE DEZEMBRO: O DIA QUE O FUTEBOL PAROU UMA GUERRA NA VÉSPERA DE NATAL

ESPECIAL DE DEZEMBRO: O DIA QUE O FUTEBOL PAROU UMA GUERRA NA VÉSPERA DE NATAL

Foto: UOL/Reprodução

“O esporte tem o poder de mudar o mundo. Tem o poder de inspirar, tem o poder de unir as pessoas de um jeito que poucas coisas conseguem”

Nelson Mandela

O ano era 1914. A Primeira Guerra Mundial havia começado e um rastro de destruição, mortes e ferimentos se iniciava pela Europa e pelas trincheiras que marcaram o conflito mundial. O embate em escalas globais colocou as forças da Entente, formada por Rússia, Grã-Bretanha, França e EUA, contra as investidas da Aliança, constituída pela Alemanha, Áustria-Hungria, Império Otomano e Itália. Os resultados da guerra foram traumáticos, com um saldo de mortos estimado em mais de 10 milhões e o esfacelamento de impérios europeus. O uso de armamentos pesados, armas químicas e a destruição em massa marcaram a guerra como um exemplo sintético da capacidade e brutalidade da raça humana.

No entanto, durante o mês de dezembro, um armistício informal ocorreu na véspera de Natal, configurando a chamada Trégua de Natal no front ocidental. Como citado, as trincheiras foram características marcantes da Grande Guerra e com a emergência do final do ano, a chamada “terra de ninguém” – o espaço entre linhas inocupado pelos combatentes –  foi se tornando cada vez mais deserto, visto que as tropas recuaram nas trincheiras devido a intensificação do inverno. Com isso, um fenômeno raríssimo foi constatado: soldados em lados opostos começaram a caminhar, desarmados, pela “terra de ninguém”, personificando o célebre espírito de Natal ao oferecerem em paz, comidas, bebidas, charutos e cumprimentos natalinos, além da presença inesperada do futebol.

A(S) PARTIDA(S) DE FUTEBOL

Reza a lenda que, durante o cessar-fogo na cidade de Saint-Yves, na Bélgica, laços foram surpreendentemente formados e, de maneira inusitada, se sucedeu uma partida de futebol entre as tropas, fator que se tornou uma marca da capacidade do esporte como ferramenta de união entre as pessoas, mesmo durante um evento da magnitude da Primeira Guerra. Ainda no armistício não-oficial — ou seja, não orquestrado pelo alto comando dos Exércitos — a suposta partida amistosa em terras belgas entre as forças inglesas e alemãs terminou com um placar favorável aos britânicos: 3-2.

Além do pensamento coletivo e da mística criada na Trégua de Natal, há poucas evidências históricas quanto a existência de um jogo devidamente organizado, com a marcação de um resultado final. O que evidentemente se sabe é que existiram partidas de futebol nos fronts da “guerra para acabar com todas as guerras” e simbolizaram um momento de confraternização e união proporcionado pelo esporte até hoje muito popular no mundo todo. Se existiu ou não uma partida regrada e demarcada, pouco importa. O que se vale ressaltar é o simbolismo dos momentos vivenciados pelas tropas na véspera de natal.

Por mais romântica e idealista que seja, a Trégua de Natal encontrou no esporte — além de outros símbolos — uma maneira de demonstrar que os indivíduos não deveriam ter sido desumanizados em um processo que os jogou uns contra os outros. No fim, a essência daqueles soldados que tinham instruções claras para apagarem seus inimigos foi vislumbrada nos momentos de celebração àqueles que permaneceram vivos e à vida em si. A Trégua de Natal e o futebol permanecem no imaginário popular como a representação do sentimento antibélico e pacifista ao redor do mundo.

Foto: IstoÉDinheiro/Reprodução

O ESPORTE COMO FERRAMENTA DE UNIÃO

Visto, portanto, que a Trégua de Natal ficou marcada pelo seu simbolismo, espelha-se a característica do esporte como ferramenta de união e percebe-se que o exemplo desse momento específico não é posto em prática a todo momento. No mundo todo e principalmente no Brasil, o futebol se tornou motivo para brigas e confusões generalizadas, infelizmente constatando mortes e ferimentos decorrentes dessas ações. Por essa razão, se torna urgente ressignificar como algumas pessoas enxergam o jogo e colocam em prática a paixão pelo esporte, por seu clube e por sua torcida. O esporte é, por essência e origem, competitivo, mas também é confraternizador e divertido. Assim sendo, possui a capacidade singular de nivelar pessoas totalmente diferentes em uma única paixão. 

Essa paixão foi vista algumas vezes pela História e lembrá-las faz-se importante para demonstrar que o esporte é mais do que aparenta ser. Em 1995, Nelson Mandela uniu uma África do Sul dividida pelas consequências do Apartheid ao, inteligentemente, levar a Copa do Mundo de Rugby para o país e se aproximar da seleção nacional, majoritariamente formada por brancos. Em 1969, o Santos de Pelé foi o responsável por um cessar-fogo na Nigéria. Didier Drogba, depois de uma campanha inédita classificatória para a Copa do Mundo, se pronunciou de forma intensa por um fim da guerra civil no país e realizou ações que atenuaram os conflitos posteriormente. Além de diversas outras manifestações, percebe-se como o futebol e o esporte como um todo possuem características marcantes de transformação. E por isso, precisam sempre estar atrelados a posicionamentos e ações práticas — de espectadores e profissionais — pela união dos povos e pelo fim da violência, para assim, honrar exemplos do passado e a essência unificadora do esporte.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Assim sendo, observados casos como a Trégua de Natal e outros que marcaram o esporte como ferramenta de união e confraternização, a Coluna RI em Campo do mês de dezembro aproveita a proximidade do Natal – em mais um ano marcado por acontecimentos difíceis decorrentes da pandemia da COVID19 – para lembrar aos leitores o que realmente importa: laços e fatores, como o esporte, que nos unam e não nos separem. Por isso, para finalizar, deixo a música “Pices of Peace”, de Paul McCartney para sintetizar a mensagem do texto de dezembro. Continuem se cuidando e tenham boas festividades! Nos vemos em 2022.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRADESCO. Momento histórico: em 1995, Mandela usa a Copa do Mundo de Rúgbi para unir a África do Sul. GloboEsporte, Rio de Janeiro, 18 nov. 2018. Disponível em: https://ge.globo.com/programas/esporte-espetacular/ep/rugbi/todos-por-um/noticia/momento-historico-em-1995-mandela-usa-a-copa-do-mundo-de-rugbi-para-unir-a-africa-do-sul.ghtml. Acesso em: 2 dez. 2021.

FRIAS, Rui. O futebol na trégua de Natal. Diário de Notícias, [s. l.], 11 nov. 2018. Disponível em: https://www.dn.pt/1864/o-futebol-na-tregua-de-natal-10161516.html. Acesso em: 5 dez. 2021.

HISTÓRIA(S) DO ESPORTE. O Futebol na Trégua de Natal de 1914. História(s) do Esporte, [s. l.], 24 dez. 2018. Disponível em: https://historiadoesporte.wordpress.com/2018/12/24/o-futebol-na-tregua-de-natal-de-1914/. Acesso em: 3 dez. 2021.

REIS, Rafael. Soldados pararam a 1ª Guerra para jogar futebol no Natal: verdade ou lenda?. UOL, [s. l.], 24 dez. 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rafael-reis/2020/12/24/soldados-pararam-1-guerra-para-jogar-futebol-no-natal-verdade-ou-lenda.htm. Acesso em: 4 dez. 2021.

ROSA, Thiago. Como o jogador Drogba parou uma guerra na Costa do Marfim. Nexo, [s. l.], 5 abr. 2019. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/externo/2019/04/05/Como-o-jogador-Drogba-parou-uma-guerra-na-Costa-do-Marfim. Acesso em: 3 dez. 2021.

VALENTE, Rafael. Há 50 anos, Santos de Pelé parou guerra na África; mas pode não ter sido bem assim. ESPN, [s. l.], 29 abr. 2020. Disponível em: https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/5231263/ha-50-anos-santos-de-pele-parou-guerra-na-africa-mas-pode-nao-ter-sido-bem-assim. Acesso em: 20 dez. 2021.

WORLD HISTORY. The Christmas truce – 1914. World History, [s. l.], 3 out. 2012. Disponível em: https://www.worldhistory.biz/photos-and-videos-world-war-i/4398-1.html. Acesso em: 5 dez. 2021.

Mateus Rodrigues Ramos

Natural de Catalão (GO) e graduando em Relações Internacionais pela UFG. Sou interessado por Conflitos Internacionais, temas históricos, diversidade cultural e estudo de idiomas. Apaixonado por futebol, games e cultura pop em geral, estou sempre disposto a questionar e aprender.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.