INVESTIMENTO ESTRANGEIRO NO FUTEBOL: O CLUBE-EMPRESA

INVESTIMENTO ESTRANGEIRO NO FUTEBOL: O CLUBE-EMPRESA

Foto: Izabelle França / Vavel Brasil

Nos últimos anos, o esporte como um todo vem alcançando cifras impressionantes na realização de seus eventos. O sucesso de organizações como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, transmissões esportivas e negociações milionárias, são alguns dos exemplos que atestam a capacidade financeira de uma paixão que move milhões de pessoas. O futebol não é diferente. Na verdade, por ser o esporte mais popular e mais praticado do mundo, é obviamente aquele que também contempla maior capacidade de investimento, seja pela venda de produtos oficiais, ações de marketing e publicidade, arrecadação monetária, organização de competições, dentre outros. 

Nota-se, então, que as possibilidades são infinitas dentro da lógica capitalista que rege a organização social contemporânea. Sendo assim, os investidores não demoraram a perceber que as próprias agremiações esportivas são fontes de receitas e também de possíveis lucros. Essa percepção empurrou o mundo do futebol para uma tendência na qual grandes empresários ou grupos de investimentos compram boa parte das ações de um clube e o transformam naquilo chamado de “clube-empresa”. 

O CLUBE SOCIAL

Antes de entrar na questão do investimento estrangeiro por si só, é importante ressaltar as diferenças da nova modalidade organizativa dos clubes com um modelo mais antigo – o clube social. A maioria dos clubes no Brasil adotam a política de clube social, ou seja, possuem uma organização que diferencia os torcedores dos associados, dos conselheiros e dos responsáveis pelo clube. Nesse tipo de situação, o que comanda a estrutura do clube é a organização política. Sendo assim, o presidente de um clube social precisa, para se manter no cargo, criar e fortalecer relações políticas com um ambiente diferente daquele dentro das quatro linhas. Afinal, seus eleitores são os associados, não os torcedores, e estes se organizam em grupos mais ou menos influentes a cada ciclo eleitoral. Por isso, nem sempre os interesses dos bastidores – ou até oficiais – são pensados pelo bem da instituição, e sim controlados pela máquina política.
O Barcelona é um grande exemplo de organização através do clube social, com uma estrutura centenária que representa, mais do que um clube (clique aqui para saber mais sobre o Barcelona na Catalunha), uma ideologia nacional. Mesmo assim, esse fator não impediu que escândalos de corrupção fossem ligados ao modelo presidencial, principalmente através da figura do presidente Josep Bartomeu. O time culé não foi o único a ser acusado de corrupção, existindo outras situações pelo mundo todo, como por exemplo, o Cruzeiro no futebol brasileiro. Essas influências negativas colocaram a estrutura social sob críticas e ajudou a pavimentar o caminho para a participação privada, muitas vezes estrangeira, na organização dos clubes, sob o pressuposto de maior profissionalismo.

Presidente do Barcelona e sucessor de Bartomeu, Joan Laporta, em entrevista coletiva. Foto: REUTERS/Nacho Doce (Disponível em IstoÉ)

O CLUBE-EMPRESA

O modelo que permite participação da iniciativa privada é o clube-empresa, que é colocado em prática por instituições já vistas na coluna RI em Campo. O PSG, na prática vinculado ao Catar; o City, ligado aos Emirados Árabes Unidos; e mais recentemente o Newcastle, pertencente à Arábia Saudita, são exemplos de clubes que são usados por Estados como parte de uma ferramenta de política externa. No entanto, existem movimentos que não estão vinculados a países e sim a empresários ou grupos que objetivam lucrar com o futebol, especificamente ao comandar um clube com características do setor privado.
No Brasil, após um projeto de lei sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro em 2021, a possibilidade da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) passou a ser legal. A SAF é basicamente a transição de um modelo social para um privado e consiste numa tentativa de estruturar times mal geridos e endividados em empresas estruturadas e respeitadas que facilitem a entrada de investidores através da profissionalização da gestão. No Brasil, logo após o sancionamento da lei, o Cruzeiro – um grande marco de péssima gestão no país – aprovou uma mudança de estrutura para a SAF e vendeu 90% de suas ações por R$400 milhões (além da responsabilidade de abatimento da dívida milionária) ao ex-jogador de futebol Ronaldo Fenômeno. O comunicado da XP Investimentos, que conduziu o processo de negociação, expõe os objetivos da aquisição.

“A transação vislumbra o reequilíbrio financeiro e operacional do departamento de futebol do clube, com um plano de crescimento sustentável de médio e longo prazo.”

XP Investimentos

Por mais que o Fenômeno afirme que a tentativa de reorganizar o clube é uma retribuição ao que o Cruzeiro fez para o próprio enquanto atleta, é impossível ignorar que Ronaldo precisará ter ganhos com essa aquisição. Ninguém, enquanto participante da lógica capitalista, investe sem esperar um retorno. É nessa expectativa de retorno que o Botafogo foi comprado para a Eagle Holding, do empresário americano John Textor, o qual já é dono do clube inglês Crystal Palace. Apesar de também passar por sérios problemas de gestão, o Botafogo, assim como o Cruzeiro, foi entendido como uma possibilidade de mercado que possibilitará um retorno financeiro ao investidor. É por essa razão que as movimentações financeiras, com objetivo lógico de lucro, podem ser entendidas como parte constituinte e fundamental do sistema de clube-empresa.

John Textor, investidor americano, no estádio do Botafogo. Foto: Vitor Silva/Botafogo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, percebe-se como modelo organizacional de clube-empresa vem crescendo nos últimos tempos, com moldes bem definidos na Europa e agora iniciando seu percurso em solo brasileiro. Porém, os resultados ainda são incertos. É necessário observar as novas trajetórias com cuidado para chegar a novas conclusões, mas fato é que o dinheiro da iniciativa privada – se bem gerido e profissionalizado como prometido – pode simbolizar nova vida aos clubes brasileiros que sangraram com décadas de mau profissionalismo e corrupção. 

Esse tipo de organização pretende captar investimento externo para impulsionar a estrutura interna. É nessa intenção que entra a relação com a comunidade internacional. Tal como visto pelo sucesso de empreitadas na Europa e na América do Norte, é possível que, se bem sucedidas também no Brasil, cada vez mais investidores estrangeiros injetem capital no mercado brasileiro, funcionando como uma espécie de atuação multinacional. Mesmo que o objetivo final dos investidores seja o enriquecimento e ganho próprio, talvez a utilização das instituições para esse fim seja benéfico às agremiações e aos seus torcedores. A ver os futuros desdobramentos.

Mateus Rodrigues Ramos

Natural de Catalão (GO) e graduando em Relações Internacionais pela UFG. Sou interessado por Conflitos Internacionais, temas históricos, diversidade cultural e estudo de idiomas. Apaixonado por futebol, games e cultura pop em geral, estou sempre disposto a questionar e aprender.

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