Lemon Tree

Lemon Tree

Lemon Tree é um filme que retrata como uma plantação de limão se transformou em uma questão política. O filme é baseado em “fatos reais” e reflete, tornando-se uma parábola, uma parte do complexo conflito fronteiriço entre Israel e Palestina. Para entender o desenvolver desta parábola é necessária a compreensão lacônica desse conflito internacional:

Conforme a AICE (American-Israeli Cooperative Enterprise), o sionismo é um movimento e uma ideologia, com origem no final do século XIX, que aspira a autodeterminação do povo judeu e a criação de um estado judaico na Palestina, a antiga pátria dos judeus (em hebraico: Eretz Yisraʾel, “a Terra de Israel”). De acordo com o movimento, os judeus constituíam uma nação, em razão de não serem apenas um grupo religioso, mas um grupo étnico que merecia o próprio estado. Diante disso, inúmeros judeus foram motivados a migrar para a Palestina pelo sonho secular do retorno a Sião e pelo medo da perseguição e intolerância.

A complexidade do conflito entre Israel e Palestina é associada, principalmente, por sua longa duração, que se estende em mais de um século. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, o Império Otomano foi desmantelado. Em sequência foi aprovado pela Liga das Nações, em 1922, a decisão de tornar a Grã-Bretanha a potência administrativa da região conhecida como Palestina. De acordo com a ONU, o controle da região pelos britânicos deveria ser temporário, com duração até o momento em que a Liga reconhecesse a Palestina como uma nação independente. Entretanto, essa finalidade nunca foi alcançada. (ABC10, 2021)

“O Judaísmo surgiu no Oriente Médio, o Islã surgiu no Oriente Médio e o Cristianismo no Oriente Médio” Eles compartilharam o mesmo lugar por centenas de anos sob o Império Otomano e não houve guerra. O que mudou no final do século 19 e no início do século 20? Temos uma nação judaica. Temos o colonialismo britânico. Isso meio que mudou a dinâmica da região. Sob o domínio britânico, houve migração de judeus para a Palestina. O domínio britânico permitiu que os judeus entrassem, migrassem para a Palestina, se estabelecessem na Palestina e comprassem terras na Palestina, apesar de toda a resistência e oposição dos árabes. Estavam aumentando as tensões e hostilidades entre a comunidade judaica e a comunidade árabe na região. Muitos palestinos perderam suas casas e perderam seus empregos por causa da emigração judaica. A Grã-Bretanha tentou satisfazer os dois lados, o que era realmente impossível porque essas duas comunidades tinham ideias e visões diferentes para este território. (ATAMAZ(ABC10), 2021)

O território em questão era habitado majoritariamente por árabes e uma minoria judia. Como a Grã-bretanha deu o alvará para a criação de um estado judeu na Palestina, as tensões entre os dois povos aumentaram gravemente. Assim, os árabes reivindicaram a terra e se opuseram à mudança. Enquanto isso, houve um aumento gradual de migrações judaicas para a região da palestina, primordialmente entre as décadas de 1920 e 1940, muitos fugindo da perseguição nazista. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a ONU votou para que a Palestina fosse dividida entre os judeus e árabes, com Jerusalém como uma cidade internacional. Novamente, houve desentendimentos e o plano não foi implementado. (BBC, 2021)

Devido à saída do governo britânico do território em questão, em 1948 os líderes judeus declararam a criação do Estado de Israel. Com resistência palestina, uma guerra eclodiu e tropas de árabes vizinhos invadiram a região. No ano seguinte, após um cessar-fogo, Israel controlava a maior parte do território. A Jordânia ocupou as áreas conhecidas como Cisjordânia; o Egito, a região de Gaza; Jerusalém foi dividida entre as forças israelenses no Ocidente e as forças da Jordânia no Oriente. Um acordo de paz nunca foi estabelecido, em vista disso, mais conflitos e combates surgiram nas décadas posteriores.

Mapa demonstra o “afogamento” do Estado da Palestina por Israel. Fonte: Democracia & Política

O filme Lemon Tree se torna uma parábola da conjuntura de conflagração entre Israel e Palestina, primordialmente pela adversidade de que um lado (Israel) tem um Estado, o outro, não. A história é sobre uma viúva, Salma, que herdou de seu falecido pai um pomar de limoeiro que possui um valor inestimável em sua vida. Com mais de 50 anos de existência, o pomar é seu único meio de subsistência e está localizado entre a fronteira de Israel e Cisjordânia. A vida de Salma muda drasticamente quando seu vizinho israelense nada mais é que o Ministro de Defesa de Israel.

A vida de cada lado é uma vida com contextos diferentes. Salma é uma mulher solitária, de origem humilde, que trabalhou a vida inteira em seu pomar para sustentar seus filhos e a si mesma. Seus filhos estão nos Estados Unidos, trabalhando no setor terciário e mandando a mãe cerca de 100$ por mês, quase não sobrando muito para sobreviverem no continente americano. Do outro lado da cerca, vivem, em uma conjuntura financeira e cultural diferente, o Ministro de Defesa e sua esposa, Mira Navon, e, na qual a própria similaridade demonstra as desigualdades sociais, os filhos do casal também moram nos Estados Unidos, porém desfrutam de um intercâmbio acadêmico sem empecilhos trabalhistas para sua subsistência.

O limoeiro de Salma é considerado pela equipe da central de inteligência e de segurança do Ministro de Defesa um local propício a ataques terroristas, uma vez que estes poderiam se esconder entre as árvores e configurarem ataques e lançamento de bombas ao outro lado da cerca. Dessa forma, é decidido por Israel Navon, o então ministro, que o limoeiro será derrubado. Salma, como forma de resistência processa Navon, mesmo sabendo que suas chances são mínimas — Israel possui um aparato de um estado organizacional e juridicamente impõe sua vontade sobre seus interesses. É a partir desse momento que um simples pomar se torna uma questão de política internacional, tendo visibilidade em vários países, muitos dos quais apoiavam Salma.

Mira, a esposa do Ministro de Defesa, aos poucos se envolve e se compadece com a luta de sua vizinha em conservar seu limoeiro.  Aos poucos, Mira percebe que não se tratava apenas de um pomar, mas sim de uma história de vida, aquelas árvores faziam parte da criação e da provisão de Salma. A sua derrubada, seria mais uma expugnação de Israel sobre um território palestino. Essa pequena disputa narrada no filme reflete, assim, a maior delas, a da fronteira de Israel e da Palestina. As diferenças culturais, as questões históricas e não resolvidas, as antigas perdas pelos inúmeros conflitos bélicos, a barreira linguística representam toda uma hostilidade da coexistência de povos dividindo áreas lado a lado. E salientando que a paz nesta região é de um futuro distante.

Por fim, diante a decisão da Suprema Corte de Israel. A personagem Salma diz:

Vossa proposta desonra a mim, a meu falecido pai e a meu falecido marido.  Minhas árvores são reais, a minha vida é real. Vocês já estão construindo um muro ao nosso redor, não é o suficiente?    

REFERÊNCIAS

ABC10. The complex history of the Israel-Palestine conflict. Disponível em: https://www.abc10.com/article/news/community/race-and-culture/need-to-know-the-israel-and-palestine-conflict/103-79ca68a9-31c4-4adb-9b74-99e26b16cebf. Acesso em: 15 ago. 2021.

BBC. Israel-Gaza violence: The conflict explained. Disponível em: https://www.bbc.com/news/newsbeat-44124396. Acesso em: 15 ago. 2021.

Ana Clara Bueno

Estudante de Relações Internacionais pela UFG. Apaixonada por Direitos Humanos, Segurança internacional e Política Externa. Mescla todas suas paixões com produções cinematográficas. Futura ativista dos Direitos dos Animais.

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