Machuca

Machuca

Machuca é considerado um dos mais importantes filmes chilenos e também de maior impacto do cinema sul-americano. A representação histórica da parte obscura dos anos 70 na região da América do Sul é feita de modo impressionante pela direção de Andrés Wood, em 2004. Ambientado em 1973, o começo e o desenvolver do filme procedem ao pré-golpe de Pinochet até a instauração do golpe militar.

O filme ocorre pelos olhos de duas crianças, que têm suas vidas interligadas graças a uma bolsa para estudantes em condições de vulnerabilidade cedidas por padres no Colégio Saint Patrick’s. Cientes da extrema desigualdade social chilena da década de 70, em que as diferentes classes dificilmente coexistiam, os sacerdotes concedem algumas vagas para estudos no mais prestigiado colégio de Santiago. Essa é uma pequena forma que o padre McEnroe, influenciado pela política de Salvador Allende, encontra para encurtar as distâncias assimétricas daquela época e de contorcer a realidade daquelas crianças.

Pedro Machuca é então contemplado com uma vaga, e em meio a resistência daquela nova conjuntura sócio-educacional pelos outros estudantes, Machuca entrelaça uma amizade com Gonzalo. A amizade ocorre em um contexto intenso do pré-golpe militar e de fortes contradições de vivência. Por serem apenas crianças, a singularidade da visão dos acontecimentos tanto políticos como sociais é o que dinamiza o desenvolver do filme e o concebe com certa engenhosidade. Como apresentado pelo The New York Times:

As crianças vêem mais que entendem e entendem mais do que sabem. Sua forma intensa e limitada de perceber o mundo, às vezes sentimentalmente interpretada como inocência moral, é uma das razões pelas quais são frequentemente colocadas no centro dos filmes sobre guerra, revolução e outras formas de convulsão social e desastre político (NYTIMES, 2005)

Nesse segmento, entenderemos a conjuntura conflituosa que destituiu um dos mais cruéis e sangrentos regimes militares do mundo. Na década de 60, o Chile sofria com devastação e fome, em consequência disso, havia muitas manifestações políticas por melhores condições de vida, primordialmente pelos partidos de esquerda que se inspiravam nas experiências de Fidel Castro e da União Soviética. Desse modo, Salvador Allende, em 1970, foi o primeiro presidente de partido político marxista a ser eleito de forma democrática em um país ocidental. Tal fato originou diversas complicações com os Estados Unidos, que, por ordem de Richard Nixon (1969 – 1974), ocorreu um bloqueio de exportações no Chile (BEZERRA, 2020). Este fato é retratado em Machuca, onde a burguesia conseguia produtos importados por meio do mercado paralelo e de cotas estatais, mas o outro lado da cidade não tinha acesso a esses produtos.

A escassez de produtos primários e a insatisfação da ala conservadora do país pelas políticas socialistas implantadas por Allende promoveu ondas de manifestações, nas quais a sombra de um golpe militar começava a sondar a região. É nesse contexto que as principais cenas de Machuca se desenvolvem. Superando as diferenças socioeconômicas e culturais, Pedro e Gonzalo desenvolvem uma forte amizade no Colégio Saint Patrick’s, e, em um dia no qual a mãe de Gonzalo se atrasa, Pedro oferece carona a Gonzalo, que acaba conhecendo Silvana, sua vizinha. Nesse encontro, Gonzalo participa de uma manifestação em prol do governo de Allende, vendendo pequenos produtos para arrecadar dinheiro à família de seus novos amigos.

Entretanto, a perspectiva adulta e o contexto político acaba encravando as relações entre Gonzalo, Pedro e Silvana. Quando a troca de vivências acontece, a realidade pelos adultos é implicada a eles, em uma cena forte na qual Gonzalo visita a vila de Pedro Machuca, o pai deste fala:

-Quem é esse?

-Um amigo

-Um amigo… Você tem cada amigo. Sabe onde o seu amigo vai estar daqui a cinco anos? Começando a faculdade. E você? Você estará limpando os banheiros. Em 10 anos seu amigo estará trabalhando na empresa do papai dele. E você? Vai ainda estar limpando banheiros. Em 15 anos, o seu amigo será o dono da empresa do papai. E você? Adivinha? Ainda estará limpando os banheiros.

Machuca é um filme que realmente machuca. Principalmente quando as relações mudam drasticamente após a implementação do regime militar. Bem no começo do filme, a câmera passa diante um muro pichado que dizia “No a La Guerra Civil” — aqui, as relações das crianças são amistosas, mesmo com os entraves das assimetrias sociais. No desenvolver da história, o “No” do muro desaparece, ficando “a La Guerra Civil”, e outra fase da amizade entre os estudantes acontece, principalmente quando os pais conservadores em uma reunião do colégio contestam a unificação entre seus filhos e os filhos dos moradores da periferia. Não obstante, Silvana, em uma das manifestações pela queda do governo socialista de Allende, entra em confronto direto com a mãe de Gonzalo. Ao final do filme, o muro é pintado completamente de cinza, representando a efetivação do golpe militar.

O Comandante Supremo das Forças Armadas, Augusto Pinochet, assumiu o poder em 1973. Os padres, com suas políticas sociais consideradas de propriedade comunista, são depostos de seus cargos e o Colégio Saint Patrick’s recebe novas direções, agora militares. Muitas pessoas foram torturadas e mortas pelo regime, o que foi mostrado de forma poderosa por Machuca. No encerramento do filme, as periferias são fortemente repreendidas pelo regime, alegando estas de serem apoiadores do antigo governo comunista. Gonzalo, sentido com o afastamento de Silvana e Pedro Machuca retorna de bicicleta para onde morava. Quando chega ao local, Gonzalo se depara com a forte violência contra seus amigos e familiares: pessoas estavam sendo espancadas e fuziladas. Gonzalo é detido, mas ele fala imediatamente: “não sou daqui”. O guarda não acredita e tenta levá-lo junto. Gonzalo mais uma vez afirma: “eu não sou daqui, sou do outro lado da cidade”. O homem quase o agride até que o personagem grita mais uma vez: “olhe para mim, olhe para mim e verás que não sou daqui”. O guarda, por fim, o observa atentamente e a câmera fixa nas suas roupas e em seu tênis importado. Assim, Gonzalo consegue ir embora, enquanto seus amigos enfrentam a dura repreensão militar.

O diretor de Machuca, Andrés Wood, viveu tudo aquilo que ele dirigiu, principalmente a integração social promovida pelo seu colégio, Saint George College, que ocorreu como representado pelo filme, antes do golpe militar. E, por fim, deixo uma breve análise do New York Times sobre esse filme que se tornou de extrema importância para o cinema latino:

A amizade entre Gonzalo e Pedro mostra como são arbitrários e como o carinho e a decência podem superar essas diferenças. Entretanto, as circunstâncias históricas excluem o falso conforto ou o otimismo redentor. Mas as cenas de soldados assumindo a escola de Gonzalo e subjugando o bairro de Pedro mostram a realidade por trás dos eufemismos. Embora as simpatias políticas de Wood sejam claramente com as vítimas do golpe, ele nunca sugere que os eventos de setembro de 1973 foram simples ou que podem ser facilmente compreendidos. Mesmo assim, “Machuca” tem uma clareza dura e pesada. Seu objetivo não é acertar contas ou reabrir velhas feridas, mas sim explorar, após um longo período de repressão, a possibilidade de luto. A condição juvenil que evoca com mais força não é a inocência, mas a impotência — a descoberta de que você é impotente para proteger do mal as pessoas de quem gosta, e também impotente para se proteger contra a vergonha de seu próprio fracasso. (NYTIMES, 2005)

NEW YORK TIMES. History Through the Eyes of a Frightened Child. Disponível em:https://www.nytimes.com/2005/01/19/movies/history-through-the-eyes-of-a-frightened-child.html. Acesso em: 20 set. 2021.

FOURCADE, A. P. La Obra del Gobierno de la Unidad Popular. Disponível em: . Acesso em: 3 mar. 2021.

Autor

  • Estudante de Relações Internacionais pela UFG. Apaixonada por Direitos Humanos, Segurança internacional e Política Externa. Mescla todas suas paixões com produções cinematográficas. Futura ativista dos Direitos dos Animais.

Ana Clara Bueno

Estudante de Relações Internacionais pela UFG. Apaixonada por Direitos Humanos, Segurança internacional e Política Externa. Mescla todas suas paixões com produções cinematográficas. Futura ativista dos Direitos dos Animais.

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