GUERRA IRÃ-IRAQUE: ORIGENS DO CONFLITO

GUERRA IRÃ-IRAQUE: ORIGENS DO CONFLITO

Após a escalada de tensão entre os líderes políticos Saddam Hussein e Ruhollah Khomeini, maiores autoridades no Iraque e Irã respectivamente, eclodiu o maior conflito militar desde a Segunda Grande Guerra. A quantidade estimada de afetados inclui mais de um milhão de mortos, cerca de um milhão de refugiados e milhares de prisioneiros de guerra.

Ao danificar o poder social de grupos e de classes oprimidas, a Guerra gerou um profundo impacto no equilíbrio das forças sociais em ambos países.  Além disso, trabalhou em benefício apenas dos regimes dominantes. Os custos sociais e econômicos são uma das maiores sequelas do conflito entre Irã e Iraque. Estes aspectos foram, inclusive, sentidos por muitos anos, mesmo após o fim do conflito. Outros pontos a se destacar são: a incidência de  efeitos internos e as consequências externas, como a mudança na balança de poder na região do Golfo Pérsico.

Origens do conflito 

A origem da Guerra Irã-Iraque remete a duas questões principais: a disputa territorial pela fronteira de Shatt al-Arab e questões políticas e religiosas, envolvendo a Revolução Iraniana (1979).

The Wall Street Journal, 2009.

O aspecto territorial relaciona-se à disputa pela região de Shatt Al-Arab, composta por uma pequena seção da confluência dos rios Tigre e Eufrates iraquianos, que também são unidos pelo rio Karun que flui do Irã. Esta zona da fronteira Irã-Iraque é de grande importância econômica e estratégica para ambos os países. Isso porque os dois principais terminais de petróleo e portos de carga do Irã, Abadan e Khorramshahr, estão situados nesta hidrovia. Além disso, esse curso de água constitui a única saída marítima do Iraque para o Golfo Pérsico e o Mar da Arábia (SWEARINGEN, 1988). 

O tratado mais recente sobre o controle da região foi assinado em 1975 após várias sessões de negociação entre os dois países [1]. Nesse momento, o governo iraquiano precisou ceder o domínio sobre o Shatt Al-Arab para que, em troca, as autoridades iranianas deixassem de apoiar a revolta curda que ameaçava desmembrar o Irã e impedir o acesso à principal região produtora de petróleo do país. Diante disso, percebe-se que a assinatura do tratado foi uma humilhação aos iraquianos. Desse modo, com o objetivo de contornar a situação, Saddam Hussein prometeu reconquistar o controle sobre o canal assim que alcançou o cargo de presidência em 1979 (SWEARINGEN, 1988).

Fonte: Pixabay, 2021.

Origem político-religiosa

Já a origem política e religiosa do conflito teve influência da Revolução Islâmica Iraniana de 1979, cujo o resultado foi a derrubada do Xá Mohammad Reza Pahlevi e, em sequência, o surgimento de um governo conservador islâmico dirigido pelo líder religioso xiita Ruhollah Khomeini. Esse movimento revolucionário serviu para que o Irã substituísse seu regime monárquico autocrático por uma república teocrática islâmica (DEVLIN, 1985).

Não havia suspeitas por parte do governo de Israel que a sua relação com o Estado iraniano iria mudar quando a dinastia Pahlevi foi levada ao desmoronamento. Entretanto, o novo regime em Teerã [2] pregava uma ideologia contrastante daquela defendida por Hussein. Dessa maneira, enquanto a administração iraquiana era caracterizada pela defesa de um nacionalismo árabe baathista [3], o aiatolá Khomeini demonstra apoio aos ideais do pan-islamismo [4] (KARSH, 2002). 

Fonte: Middle East Monitor, 2019.

Khomeini passou, então, a ser o maior representante de uma doutrina religiosa militante que rejeita não apenas a ordem política vigente no Oriente Médio, mas também o sistema internacional contemporâneo, uma vez que ambos perpetuariam uma ordem injusta, imposta aos muçulmanos “oprimidos” pelas grandes potências “opressivas”. Seu maior objetivo era  instituir uma ordem mundial islâmica em que os Estados-nação seriam transformados pela entidade mais ampla, chamada umma (ou a comunidade muçulmana universal) (KARSH, 2002).

Em adição, o aiatolá iraniano incitou movimentos de revolta entre as já conflitantes populações sunita e xiita da região. No início da década de 1980, já existia um potencial insurgente do xiismo dentro do regime iraquiano. Porém, a retórica agressiva e as práticas emanadas do Irã revolucionário claramente exacerbaram essa situação potencialmente explosiva (WORKMAN, 1991). 

No Iraque, aproximadamente 60% dos cidadãos eram xiitas e ressentiam-se profundamente da discriminação de longa data exercida contra eles pela minoria religiosa sunita, que embora tivesse menos de um terço de seu tamanho, possuia o maior poderio político no país. Assim, o regime revolucionário em Teerã teve esperanças de que essa comunidade xiita imitasse o exemplo iraniano e se levantasse contra seus “opressores” sunitas (KARSH, 2002). 

Em 1980, o regime revolucionário passou a convocar publicamente a população iraquiana a se levantar e derrubar a administração baathista da qual o governo de  Hussein fazia parte e que estava em vigor no Iraque desde 1968. Alguns meses depois, Teerã intensificou sua campanha, na qual retomou o apoio aos curdos iraquianos, forneceu ajuda aos movimentos clandestinos xiitas no Iraque e iniciou ataques terroristas contra autoridades iraquianas proeminentes (KARSH, 2002). O consequente ciclo de violência atingiu seu auge durante o mês de abril, quando foi realizado um atentado fracassado contra o vice do primeiro-ministro iraquiano, Tariq Aziz, enquanto fazia um discurso público em Bagdá (SIGLER, 1986).

Fonte: Al Jazeera, 2014.

O início do conflito

A aproximação da República Islâmica do Irã junto à população xiita do Iraque foi compreendida pelo governo iraquiano como uma intervenção estrangeira em assuntos internos do país. Deste modo, as relações entre os dois Estados começaram a se deteriorar. De acordo com o governo do Iraque, o conflito teria se iniciado em 4 de setembro de 1980, quando as forças iranianas bombardearam cidades e vilas iraquianas ao longo da região intermediária da fronteira dos dois países (SWEARINGEN, 1988).

 Entretanto, segundo o Irã e a maioria dos autores, o Iraque foi o agressor: a guerra teria começado em 22 de setembro de 1980, quando as forças iraquianas lançaram uma invasão em grande escala em direção ao Irã. Devido a sua contraposição a um regime anti-ocidente, Saddam Hussein recebeu apoio da maioria das potências mundiais, como Estados Unidos, a URSS, o Japão e a maioria dos países europeus, que também eram contra o extremismo islâmico impulsionado pelo aiatolá iraniano (SWEARINGEN, 1988). 

Aspectos Gerais do Conflito

A guerra entre estas duas nações durou por mais de sete longos e sangrentos anos, os quais causaram grandes perdas humanas em ambos os lados. Um dos capítulos mais sombrios da guerra foi o uso de armas químicas pelo Iraque contra o Irã e a decisão do Irã de empregar esse mesmo tipo de dispositivo em resposta (ALI, 2001). 

Como o Iraque não possuía o material necessário para produção desse tipo de armamento, seu governo decidiu importar os produtos. A matéria prima necessária para produção das armas químicas foi fornecida, especialmente, pelos Estados Unidos e pela Alemanha. O início da utilização desse armamento ocorreu a partir de 1981, e foi empregado contra soldados iranianos e contra a população curda dissidente (ALI, 2001). O movimento separatista da população curda se reacendeu durante o conflito Irã-Iraque, mas foi duramente reprimido por meio da brutal campanha punitiva envolvendo o uso extensivo de armas químicas em 1987 e 1988 (KARSH, 2002).

Além disso, um trágico momento do conflito ocorreu quando a guerra se deslocou para o ambiente marítimo. Entre os anos de 1984 e 1988, mais de uma centena de navios foram afundados nas águas do Golfo Pérsico pelos dois países. À medida que navios eram atacados, o conflito se internacionalizava. Os Estados Unidos participaram de maneira mais direta no conflito durante essa fase, posicionando mais de 20 navios de guerra e 15.000 homens no golfo, fomentando ataques diretos a instalações iranianas (OLIC; CANEPA, 2003). 

Assim, o conflito só apresentou perspectivas de solução durante o segundo semestre de 1988, quando a Organização das Nações Unidas patrocinou um acordo de cessar-fogo, haja vista a impossibilidade de uma vitória militar para qualquer um dos lados. Dessa forma, o aiatolá Khomeini  aceitou o cessar-fogo em 20 de julho de 1988 (OLIC; CANEPA, 2003).

Conclusão

Em virtude da sua duração e da escala de envolvimento de outras nações, a guerra Irã-Iraque é descrita como a primeira Grande Guerra do Terceiro Mundo. Em suma, entende-se pelos aspectos mencionados que as origens da guerra Irã-Iraque foram essencialmente geopolíticas e político-religiosas. Embora as duas causas que levaram ao conflito continuem latentes até hoje, Irã e Iraque não voltaram a se enfrentar. 

A Resolução 598 criada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas preocupou-se em dar um cessar o conflito direto, mas não foi suficiente para dar uma resolução adequada às suas origens. Desse modo, este foi um conflito sem vencedores, na medida que o Iraque fracassou em retomar a região de Shatt al-Arab e o Irã falhou em derrubar o governo de Saddam Hussein e seu partido baathista, assim como também não conduziu a divisão sectária dos curdos no Iraque.

Notas

[1] O tratado é conhecido como Acordo de Argel de 1975.

[2] Teerã é a capital e maior cidade do Irã.

[3] O Baathismo é uma ideologia política árabe baseada nos ideais do Partido Baath. É uma forma experimental de adaptar o panorama social árabe e os códigos do islamismo, ao socialismo.

[4] O movimento pan-islâmico defende o pensamento de que as nações de maioria islâmica devem ter relações mais próximas.

Referências bibliográficas

ALI, Javed. Chemical weapons and the Iran‐Iraq war: A case study in noncompliance. The Nonproliferation Review, v. 8, n. 1, 2001, p. 43–58. 

DEVLIN, John. Iraqi Military Policy: From Assertiveness to Defense. In: NAFF, Thomas. Gulf Security and the Iran-Iraq War. Washington: The National Defense University Press, 1985. cap. 6, p. 122-156.

KARSH, Efraim. The Iran-Iraq War: 1980-1988. Oxford: Osprey Publishing, 2002.

OLIC, Nelson Bacic; CANEPA, Beatriz. Oriente Médio e a Questão Palestina. 2 ed. São Paulo: Moderna, 2003.

SIGLER, John H. The Iran-Iraq Conflict: The Tragedy of Limited Conventional War. International Journal: Canada’s Journal of Global Policy Analysis, v. 41 , n. 2, 1986, p. 424–456.

SWEARINGEN, Will D. Geopolitical Origins of the Iran-Iraq War. Geographical Review, v. 78, n. 4, 1988, p. 405-416.

WORKMAN, Thom. The Social Origins of the Iran-Iraq War. 1991. Dissertação (Doutorado em Ciência Política) – Universidade de York, Ontario, 1991. Disponível em: https://yorkspace.library.yorku.ca/xmlui/bitstream/handle/10315/1367/YCI0039.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 11 set. 2021.

Imagens 

CHON, Gina. Iran’s Renewed Border Dispute With Iraq Threatens to Hinder U.S. Efforts. The Wall Street Journal, 28 mar. 2009. Disponível em: https://www.wsj.com/articles/SB123819885211962021. Acesso em: 12 mar. 2021.

FALK, Richard. Ayatollah Khomeini: A rare encounter with a true revolutionary. Al Jazeera, 3 fev. 2014. Disponível em: https://www.aljazeera.com/opinions/2014/2/3/ayatollah-khomeini-a-rare-encounter-with-a-true-revolutionary. Acesso em: 14 fev. 2021.

FETOURI, Mustafa. An Arab perspective on Iran’s Islamic Revolution at 40. Middle East Monitor, 14 fev. 2019. Disponível em: https://www.middleeastmonitor.com/20190214-an-arab-perspective-on-irans-islamic-revolution-at-40/. Acesso em: 15 set. 2021.

Autor

  • Estudante de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Possui interesse nas áreas de Direito Internacional Público e Política Internacional.

Isadora Ferreira Marinho

Estudante de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Possui interesse nas áreas de Direito Internacional Público e Política Internacional.

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