Entrevista com o Embaixador da Itália no Brasil, V. Ex.ª Francesco Azzarello

Entrevista com o Embaixador da Itália no Brasil, V. Ex.ª Francesco Azzarello

O Dois Níveis tem a honra de apresentar ao público uma entrevista exclusiva com a Sua Excelência senhor Embaixador da República Parlamentarista da Itália no Brasil, Francesco Azzarello. O Embaixador possui formação universitária em Economia, pela Universidade LUISS de Roma (1981) e assumiu seu posto de Embaixador em Brasília com credenciamento secundário para o Suriname em janeiro de 2020.

Iniciou na carreira diplomática desde março em 1986 como responsável de Controle de Armamentos na Direção-Geral para Assuntos Políticos. Desde então, dentre outras atribuições, atuou como Primeiro Secretário Comercial na Embaixada da Itália em Teerã (1988), Cônsul em Adelaide, Austrália (1991 – 1995), Vice-chefe de Missão na Embaixada da Itália em Tirana (1997 – 2000), Diretor Geral para a Cooperação Econômica e Financeira Multilateral, Dívida Externa e Crédito à Exportação (Ministério das Relações Exteriores), também ocupando o cargo de Chefe da Delegação Italiana no Clube de Paris (2000 – 2003), Chefe da Secretaria Particular do Subsecretário de Estado para Europa, União Europeia, Chifre da África e Italianos no mundo (2008 – 2011), Embaixador da Itália no Reino dos Países Baixos (2012 – 2016).

Além de outros cargos, ele é também representante permanente da Itália nas Nações Unidas (ONU) e na Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAC).

O Dois Níveis agradece pela disponibilidade do embaixador pela entrevista concedida e à senhora Luisa Fantini, da Assessoria de Imprensa e Comunicação da Embaixada, que realizou a intermediação do contato.

Dois Níveis: A Itália serviu de exemplo ao mundo por ter, em Brasília, a primeira embaixada a adotar o Sistema Lixo Zero para a gestão de seus resíduos sólidos, iniciativa que faz parte do projeto Embaixada Verde +20. Buscando soluções que construam um futuro mais sustentável, o quanto esta atitude da embaixada italiana reflete na política nacional de preservação do meio-ambiente?

Embaixador Azzarello: A Itália é um país que desenvolveu uma profunda sensibilidade para as questões ambientais, uma sensibilidade que surge de razões históricas, geográficas e culturais. Com um patrimônio de flora e fauna entre os mais importantes do mundo pela variedade e raridade das espécies, um território rico em sítios históricos e naturalistas e uma sociedade que conseguiu se desenvolver rapidamente no segundo pós-guerra graças à forte industrialização, há décadas, a Itália busca lidar melhor com o frágil equilíbrio entre o crescimento econômico e a proteção ambiental. Isto levou nosso país a desenvolver rapidamente uma forte consciência sobre o assunto.

Gostaria de lembrar que recentemente na Itália o Ministério do Meio Ambiente foi profundamente renovado para adaptar sua estrutura administrativa aos desafios ambientais do futuro, chamando-se agora Ministério da Transição Ecológica. Transição ecológica significa, antes de mais nada, coordenação de competências em crescimento verde, desenvolvimento econômico circular e sustentável, para potencializar as ações para salvaguardar o meio ambiente e combater a poluição ao lado dos desafios mais recentes de promover comportamentos e sistemas de produção menos poluentes e mais respeitosos do meio ambiente. No Plano Nacional de Recuperação e Resiliência, o chamado “Recovery Plan”, o governo Draghi reconheceu um papel fundamental na “revolução verde”, alocando grande parte dos recursos para financiar projetos em setores como a agricultura sustentável, economia circular, energias renováveis, mobilidade sustentável e eficiência energética. Atualmente na Itália debate-se a possibilidade de incluir o desenvolvimento sustentável na Constituição, para que o meio ambiente seja garantido como um “direito fundamental”.

Por isso creio que o objetivo alcançado pela nossa Embaixada é uma confirmação desta tendência nacional e se enquadra bem nas prioridades do nosso Governo, tendo em vista os dois momentos fundamentais da PRE-COP26 que se realizará na Itália e da subsequente COP26 onde a Itália é um parceiro do Reino Unido.


Dois Níveis: A parceria econômica Brasil-Itália abrange diversos setores, em especial o de energias renováveis. Nos últimos meses foram realizados diversos eventos com empresas do setor. Qual a contribuição que as empresas italianas podem dar para o desenvolvimento brasileiro em matrizes energéticas no tocante à inovação, conhecimento técnico e novas tecnologias?

Embaixador Azzarello: No campo das energias renováveis, o Brasil apresenta resultados de absoluta excelência há anos. Apenas um número é suficiente para confirmá-lo: em 2019 as energias renováveis ​​atenderam a 46,1% da demanda energética (+ 0,6 pontos percentuais em relação a 2018), confirmando o país como um dos países com menor intensidade de carbono. Basta dizer que a média dos países da OCDE é de 10,8% enquanto a média mundial é de 14,2%.

A Itália é um importante parceiro do Brasil no setor de energia, considerando o papel de liderança que nossas empresas desempenham neste mercado. Em primeiro lugar, a ENEL, o maior investidor privado em eletricidade, a primeira geradora de energia eólica e solar, bem como a primeira distribuidora de eletricidade. Mas há também outros grandes players que atuam no mesmo campo: Terna, Saipem, Asja e CESI, para citar os principais.

A Itália financia o “Clean Energy Transitions Programme” da Agência Internacional de Energia, do qual o Brasil é beneficiário.

Olhando para o futuro, poderemos definir outras formas de colaboração, cada vez mais bem estruturadas.

Dois Níveis: A Itália é referência de desenvolvimento industrial com base regional. Em apoio ao desenvolvimento da agricultura e indústria, especialmente nas províncias do sul, o governo italiano implementou obras ligadas a serviços básicos (transportes, energia e comunicações) e programas de infraestrutura econômica. De que forma o modelo italiano pode servir de orientação para iniciativas similares no Brasil?

Embaixador Azzarello: O papel da emigração italiana é certamente parte integrante da economia brasileira e vive na identidade das regiões do país que escreveram sua história com a contribuição decisiva de nossos compatriotas. As dimensões continentais do Brasil e sua riqueza em matérias-primas fazem com que os dois países tenham diferenças marcantes, mas também complementaridades que podemos explorar ainda mais, em benefício de ambos.

Grandes empresas italianas acreditam e investem fortemente no Brasil e continuam a ter um forte interesse em projetos de infraestrutura no país.

Ao lado dessas realidades mais conhecidas, está também o lado riquíssimo das Pequenas e Médias Empresas (PMEs), a verdadeira espinha dorsal do sistema econômico italiano, que pode se desenvolver ainda mais no Brasil, ajudando a liberar um potencial que, em vários aspectos, ainda tem muito potencial de desenvolvimento. A digitalização do mercado representa uma grande oportunidade neste sentido: de acordo com os dados de que dispomos, o Brasil teria atingido 87 milhões de consumidores digitais em 2019, 19% a mais do que em 2018. A pesquisa que analisou os fluxos das PMEs brasileiras indica que em 2020, o número de vendas online quase dobrou de 275 milhões de reais (2018), para mais de 450 milhões (2019), com um aumento de 79,5%.

Acredito que esses números são apenas o início de um processo que, com a ajuda da pandemia, mas também das mudanças estruturais do mercado, só se fortalecerá nos próximos anos. Esperamos que esse impulso seja acompanhado de uma abertura crescente do mercado brasileiro.

Dois Níveis: A cooperação cultural Itália-Brasil sempre foi muito frutífera, nãocessando nem mesmo durante o período de isolamento social causado pela pandemia de COVID-19 em todo o mundo. Em 2020 – sob o slogan “La Cultura Non Si Ferma” (em português: A Cultura Não Para) – foram realizadas diversas atividades virtuais com o objetivo de manter o intercâmbio cultural entre Brasil e Itália. Ainda possuímos raízes em comum como a arquiteta Ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, nascida na Itália em 1914 e residente no Brasil entre 1947 e 1992 – ano de sua morte – que contribuiu enormemente com o desenvolvimento cultural do país, tendo projetado o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Diante desse cenário tão fraterno, como o senhor analisa os laços culturais ítalo-brasileiros?

Embaixador Azzarello: O setor cultural sempre foi um dos pilares da cooperação ítalo-brasileira e é preciso continuar investindo nele, pois aqui há uma demanda muito forte. E esta está em constante crescimento, não só pela presença no país de cerca de 32 milhões de descendentes de italianos, mas também pelo interesse de usuários não italianos e não descendentes, que decidem aprender italiano por motivos de estudo, trabalho ou simplesmente por paixão. Cientes da importância da promoção cultural no Brasil, adotamos desde o ano passado uma estratégia reforçada de promoção cultural online, que incluiu a remodelação virtual de iniciativas já planejadas e a produção de materiais multimídia voltados especificamente para os usuários locais.

Apesar da pandemia, nosso programa para 2021 continua muito rico, pois “La cultura non si ferma”. Entre as várias iniciativas programadas, destaco o encontro virtual com o historiador Alessandro Barbero, por ocasião das comemorações do 700º aniversário da morte de Dante Alighieri. O Prof. Barbero, ilustre acadêmico, encontrará estudantes brasileiros em um webinar interativo no qual alguns jovens de escolas e universidades brasileiras poderão fazer perguntas, em italiano, sobre o contexto político e social em que Dante viveu. O encontro será transmitido no dia 12 de junho, às 10h30, pelo Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro.

Também gostaria de lembrar que este ano a Itália detém a presidência do cluster EUNIC de Brasília. EUNIC é uma plataforma global que reúne os 27 estados membros da União Europeia em mais de 90 países. A Eunic Brasília é responsável por um conjunto de iniciativas de promoção cultural que há 17 anos integram a “Semana da Europa”, que terá início no dia 12 de maio com um seminário, inteiramente online e gratuito, dedicado a temas como cidades sustentáveis, recuperação verde, bioeconomia e novos modelos de vida e consumo no domínio do design e da arquitetura. A Presidência italiana da EUNIC tem como objetivo contribuir para a consolidação da diplomacia cultural e estreitar ainda mais os profundos laços de amizade entre o Brasil e a Europa.

Continuamos muito ativos para atender à crescente demanda pela língua italiana, oferecendo – graças aos dois Institutos Italianos de Cultura de São Paulo e do Rio de Janeiro – ferramentas capazes de atender a essa demanda: da remodelação das salas de aula de italiano em cursos virtuais, à organização de seminários sobre literatura, cinema ou teatro em italiano, até a alocação de contribuições que o governo italiano coloca à disposição das universidades e institutos escolásticos para a valorização do ensino do italiano. Tudo isso para atender a uma demanda crescente, mesmo naquelas áreas que tradicionalmente não são afetadas pelos fenômenos de emigração da Itália, tais como os estados do Amazonas ou do Pará. Um fato emblemático da força de nosso vínculo cultural.


Dois Níveis: Em 21 de Fevereiro, o Brasil celebrou o Dia do Imigrante Italiano, instituído em 2008 para homenagear o maior movimento migratório internacional da história do país. Parafraseando o senador Gerson Camata  – autor do projeto de lei – a data serve para “prestar a devida homenagem ao imigrante italiano, que, vindo de terras tão distantes, aqui se instalou e se fez gente nossa”, contribuindo de forma importante para a constituição da cultura e do patrimônio histórico de diversas regiões do país, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. Tendo em vista a importância do povo italiano na constituição de nossa história, qual sua perspectiva sobre a relevância da migração do povo italiano ao redor do mundo?

Embaixador Azzarello: Houve dois períodos durante os quais a Itália viveu uma forte emigração. A primeira, conhecida como a “Grande Emigração”, teve início em 1861 após a unificação da Itália e terminou na década de 1920. O núcleo histórico da emigração para o Brasil remonta a essa data. O segundo período ocorreu entre o final da Segunda Guerra Mundial e a década de 1970, direcionando-se principalmente aos países europeus. As estimativas são aproximadas, mas parece provável que neste intervalo de tempo de mais de um século, cerca de 20 milhões de pessoas deixaram a Itália, o equivalente a um terço da atual população italiana.

Existem cerca de 32 milhões de italianos no Brasil. Estou muito impressionado e orgulhoso de que em todos os setores da vida brasileira, político-parlamentar, administração estatal, econômico-industrial e comercial, artística, cultural e científico-tecnológica, a origem italiana seja verdadeiramente extraordinária.

Por isso, aproveito a oportunidade para dirigir meus sinceros agradecimentos ao Brasil pelas enormes oportunidades que ofereceu aos emigrantes italianos. Um agradecimento que estendo aos seus descendentes, que, demonstrando seu valor, corresponderam à confiança recebida por este grande país.

Dois Níveis: O que o senhor crê que pode ser feito com o objetivo de estreitar ainda mais as relações bilaterais entre o Brasil e Itália? O que o senhor vislumbra no futuro das relações Brasil-Itália?

Embaixador Azzarello: Acredito que seja muito importante, quando a pandemia permitir, retomar o tema do desenvolvimento da mobilidade acadêmica entre a Itália e o Brasil. Poucos sabem que na época do programa “Ciência sem Fronteiras”, a Itália havia se tornado um dos principais destinos escolhidos pelos estudantes brasileiros para seus estágios no exterior. De 2013 a 2015, cerca de 4.000 estudantes brasileiros foram para a Itália. No Brasil, há uma grande e qualificada presença de pesquisadores e professores italianos atuantes no sistema acadêmico brasileiro. Os mais de 800 acordos bilaterais firmados nos últimos anos por universidades e instituições de pesquisa italianas e brasileiras consolidaram a mobilidade acadêmica bidirecional. Muitas das ações que a Itália e o Brasil podem realizar para fortalecer sua cooperação passam pela mobilidade internacional de estudantes, bolsistas e pesquisadores.

Autor

  • Graduanda de História da Arte apaixonada por relações sistêmicas, comunicação e relações governamentais. Integrante do site Dois Níveis nos times de Comunicação, Entrevistas e Podcast.

Debora Bregalda

Graduanda de História da Arte apaixonada por relações sistêmicas, comunicação e relações governamentais. Integrante do site Dois Níveis nos times de Comunicação, Entrevistas e Podcast.

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