BOKO HARAM E A UTILIZAÇÃO DE MULHERES NIGERIANAS COMO INSTRUMENTO DE GUERRA

BOKO HARAM E A UTILIZAÇÃO DE MULHERES NIGERIANAS COMO INSTRUMENTO DE GUERRA

Foto: Philip Ojisua/AFP/Getty Images, 2014.

Introdução

O terrorismo encontra-se em um estágio de grande expansão pelo continente africano, no qual diferentes grupos radicais por meio de concepções religiosas tentam alterar os diversos contextos de extrema instabilidade política, econômica e social que fazem parte do escopo de uma grande maioria dos países da África. O Boko Haram é um desses diversos grupos, e desde seu surgimento em 2002, na Nigéria, o grupo vem intensificando sua presença no continente africano e ganhando grande relevância no cenário internacional após o sequestro de 276 garotas da Escola de Chibok em 2014. Comparado a outros grupos terroristas, o Boko Haram tem utilizado um maior contingente de mulheres de forma coercitiva, principalmente meninas adolescentes, para a realização de suas ações, seja como mulheres bombas, esposas, ou até mesmo espiãs. Assim sendo, o presente artigo visa explorar a utilização de mulheres nigerianas como instrumento de guerra pelo grupo, procurando enfatizar o contexto político, econômico e social na qual tais mulheres estão inseridas, assim como a falta de presença do Estado Nigeriano em realizar investidas contra o grupo e a falta de proteção das mesmas.

O Boko Haram e a ocidentalização

A organização tem seu bojo na tentativa de afastar os costumes e concepções advindas do ocidente do mundo, buscando manter suas raízes culturais, pautando-se em preceitos-base da crença islâmica. No entanto, a narrativa foge de uma fundamentação lógica a partir do momento em que o que é apresentado passa a atender aos interesses do “homem” e o que é passado pela religião é deturpado. Naturalmente, tais modificações passam a sustentar a ascendência de um novo segmento que oprime, mata e coage. O Boko Haram tem sua atuação pautada nessa linha de raciocínio, evitando todo e qualquer resquício ocidental em seus territórios, principalmente no que tange à educação. Para o grupo, todo o processo de aprendizado deve ser inteiramente embasado na cultura e nos dizeres de suas crenças . Dessa maneira, milhares de indivíduos, principalmente mulheres, têm seu direito ao conhecimento pleno retirado. 

Estrutura patriarcal da região norte da Nigéria

A sociedade nigeriana é constituída por uma grande estrutura patriarcal. Desse modo, na região norte, na qual existe uma grande maioria da população muçulmana, o contexto restritivo para as mulheres é ainda mais acentuado (OSASONA, 2022). Tendo em vista a grande expansão do grupo terrorista por essa região, ao menos 12 dos 36 estados da Nigéria aplicam a Sharia, comumente conhecida como lei islâmica (AFP, 2019).  A figura 1 busca ilustrar esse fato. 

Dessa forma, o contexto na qual as mulheres nigerianas estão inseridas na região norte é marcado por uma grande dependência religiosa. Assim sendo, uma grande consequência desse cenário é que a maior parte delas  ficam limitadas ao espaço doméstico (OSASONA, 2022). Em decorrência de tal contexto, a região norte é constituída por uma alta taxa de analfabetismo e considerando a grande atuação do Boko Haram na região, muitos familiares dão preferência que meninas se dediquem a atividades domésticas do que aos estudos, tornando esse grupo ainda mais vulnerável ao grupo terrorista, especialmente levando em conta os problemas socioeconômicos que assolam a região (EMEKA J OKOYE, 2021; OSASONA, 2022)

Figura 1: Estados da Nigéria na qual a Sharia é executada

Fonte: World Watch Monitor, 2021.

Problemas socioeconômicos da região norte e como isso reflete na educação das mulheres

A Nigéria é considerada uma das principais capitais mundiais com elevadas taxas de desigualdade social e quando leva-se em consideração a região norte, esses problemas são ainda mais enfáticos, o que facilita a constante expansão do Boko Haram (OSASONA, 2022).  Tal área possui uma ampla extensão rural e sofre com grandes questões socioeconômicas. Dessa maneira, a região possui uma estrutura precária nas suas diferentes esferas, seja na área da saúde, educação ou emprego, o que afeta em larga escala oportunidades para as mulheres. 

A vista desse contexto, cerca de 71% da população da região norte vive abaixo da linha da pobreza (OSASONA, 2022). Além disso, os serviços de saúde oferecidos na região por parte do Estado nigeriano são extremamente insatisfatórios (OSASONA, 2022). Para o agravamento da situação, a região norte conta uma elevada taxa de analfabetismo que impacta diretamente em oportunidades de emprego, especialmente para os mais jovens, além de afastar possíveis investimentos empresariais que poderiam mitigar gradualmente os problemas socioeconômicos da região (OSASONA, 2022).  

Assim sendo, um fator de grande relevância é que em decorrência de todo esse cenário socioeconômico, muitas mulheres ficam suscetíveis a serem recrutadas pelo Boko Haram, pois muitas preferem arriscar participar das ações do grupo em busca de melhores condições de vida em decorrência da ausência do aparato estatal na garantia de seus direitos fundamentais. (EMEKA J OKOYE, 2021)

Falta da presença do Estado na resolução da questão

A atuação do governo nigeriano em combater o expansionismo do Boko Haram tem se mostrado insatisfatória, principalmente em ações que tenham por intuito salvaguardas as mulheres, um dos alvos principais do grupo terrorista. Além disso, as constantes práticas de má governança e corrupção por parte do governo dificultam a resolução da questão (PALADINI, 2014).  

Em vista disso, a persistência das condições socioeconômicas adversas na região norte da Nigéria, juntamente com a falta de segurança para as poucas meninas que conseguem ter acesso a educação na região norte, evidenciam uma grande falha do estado na proteção de suas mulheres (OSASONA, 2022)

Desse modo, em sua retórica, o Estado Nigeriano insiste em falar que, em decorrência da instabilidade econômica do país, não possui os recursos necessários para garantir proteção às meninas nas escolas da região norte  (OSASONA, 2022). Assim sendo, as consequências da ausência estatal resultam nas meninas da região  se tornarem alvos cada vez mais fáceis do grupo terrorista, uma vez que não possuem proteção no ambiente escolar, assim como muitos familiares preferem manter suas filhas no ambiente doméstico, em virtude da estrutura patriarcal e pela própria segurança das meninas em que o Estado nigeriano falha em promover (OSASONA, 2022). Ademais, a ausência de ações por parte do governo em realizar melhorias no contexto socioeconômico da região norte acarretam na em um cenário de mais vulnerabilidade para as mulheres e fomentam o fortalecimento do Boko Haram (OSASONA, 2022)

Portanto, as soluções insatisfatórias do Estado nigeriano, somadas com práticas de má governança estatal no combate ao grupo terrorista, além da falta da garantia de segurança às mulheres tem se mostrado um fator de extrema importância no crescimento do Boko Haram no país (PALADINI, 2014).

As vantagens do uso coercitivo de mulheres pelo Boko Haram

Ao considerar o contexto global, já é possível visualizar, diariamente, as disparidades e injustiças enfrentadas por mulheres. Entretanto, a problemática se firma ainda mais quando o próprio corpo social em que encontram-se inseridas sofre com graves instabilidades políticas, econômicas e ideológicas. Dessa forma, torna-se ainda mais desafiador desenvolver novas perspectivas ou enxergar um cenário pacífico, estável. Nesse sentido surgem os grupos terroristas, usufruindo da vulnerabilidade do meio em prol da escalada de concepções ultra radicais. 

No caso do Boko Haram, a utilização de mulheres como instrumento tático de guerra mostra-se muito vantajosa, visto que estas se “infiltram” facilmente em grandes multidões  — um exemplo são as feiras — devido ao fato de que não passam por revistas frequentes. Em outras palavras, estas passam “despercebidas” aos olhos de oficiais que poderiam impedir investidas do grupo. Outra forma  majoritariamente usada pelo Boko Haram consiste no preparo de ataques suicidas, protagonizados por mulheres — as quais por muitas vezes foram sequestradas ou levadas à força. Bombas são envoltas em seus corpos e, em seguida, as supramencionadas se inserem em locais de expressiva circulação. Momentos depois são executadas pelos explosivos, em prol da organização. Por fim, ressalta-se o contexto onde mulheres assumem o posto de esposas, ou estabelecem uma relação com algum membro do grupo terrorista. Tal questão ocasiona a formação de famílias; incontáveis e frequentes abusos; assim como a morte de muitas que ali se encontram. 

Conclusão

Portanto, é possível reiterar que a utilização das mulheres nigerianas como instrumento tático de  guerra pelo Boko Haram tem raízes no conturbado contexto político, econômico e social na qual as mesmas estão inseridas, especialmente as mulheres da região norte . Tendo isso em vista, fatores como a estrutura patriarcal consolidada no país, na qual a imagem das mulheres não é associada a violência, o grande impacto do islamismo radical na região norte do país, somado com a  grande conjuntura socioeconômica adversa do norte, fomentam a ascensão do grupo terrorista. Além disso, a ausência do aparato estatal em solucionar tais problemáticas colocam as mulheres nigerianas em um contexto de vulnerabilidade ainda maior, tornando-as mais suscetíveis a serem alvos do Boko Haram.

Referências

AFP. Veja o que é a sharia e onde é aplicada. Estado de Minas. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/04/03/interna_internacional,1043533/veja-o-que-e-a-sharia-e-onde-e-aplicada.shtml>. Acesso em: 16 set .2022. 

EMEKA J OKOYE. Explaining Extremism: Boko Haram and the Feminization of Terror. 2021. Disponível em: <http://rgdoi.net/10.13140/RG.2.2.25845.91363/1>. Acesso em: 16 set. 2022.

OSASONA, Tosin. Victims or vanguards of terror: Use of girls as suicide bombers by Boko Haram. Cogent Social Sciences, v. 8, n. 1, p. 1-12, 2022.

PALADINI, Rafaela Tamer. A Nigéria e o Boko Haram. Série Conflitos Internacionais, v. 1, n. 5, p. 5, 2014.

Pedro Henrique Santos Chaves

Graduando em Relações Internacionais pela UFG. Sou fascinado por cinema e literatura de suspense, fantasia e ficção científica. Tenho grande interesse em questões voltadas para o Continente Africano e América Latina, como Guerras Civis, Ditaduras Militares, Intervenções Humanitárias e Terrorismo.

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