Sudão do Sul e a Crise Humanitária

Sudão do Sul e a Crise Humanitária

O continente africano, assim como em muitas regiões do globo, lida com questões problemáticas que envolvem especialmente a estrutura social dos países. Os conflitos intraestatais é algo recorrente diante da grande diversidade cultural, religiosa e social, o que acaba ocasionando choques entre grupos distintos. Dessa forma, percebemos que muitos Estados africanos quando se tornaram independentes, assim como o Sudão do Sul, não puderam desfrutar da autonomia, do possível crescimento organizado, do cuidado com a população, e de fato da unificação do país. 

Assim como a maior parte da África, as fronteiras do Sudão foram definidas artificialmente pelas potências ocidentais durante o processo de implantação do colonialismo. Desde a independência do Sudão em relação ao Reino Unido em 1956, o país vive em profundas crises políticas, que confluíram para uma série de guerras civis. Para a solução de um conflito armado que se arrastava por 12 anos – e também pela grande pressão internacional – foram estabelecidos acordos em 2005 na cidade de Nairóbi, Quênia, onde se decidiu pelo referendo de 2011, que culminou na separação. 

A diferença entre os dois territórios é latente tanto nos aspectos físicos quanto nas composições étnicas. O norte é majoritariamente composto por regiões desérticas (salvo o vale por onde passa o Rio Nilo), com escassez de água e recursos naturais, enquanto o sul possui uma maior quantidade de vegetação e pântanos. Além disso, a região sul (atual Sudão do Sul) é basicamente composta por povos cristãos e animistas, que não aceitavam a dominação política e legislativa dos povos do norte, de maioria islâmica. 

Assim, o Sudão do Sul é o mais novo país do mundo, visto que sua independência do Sudão ocorreu no início de julho de 2011, após um referendo que aprovou a separação com quase 99% dos votos a favor. Após a independência, o Sudão foi o primeiro país a reconhecer a soberania do país recém-formado. O Sudão do Sul completa então nove anos de existência (PAIVA,2015). Sua população é bastante diversificada, linguística e etnicamente, sendo que as etnias mais numerosas são os  Nuer, os Shiluk e os Dinka, sendo a última a etnia mais numerosa do país e da qual o presidente Kiir faz parte (BBC, 2015). No entanto, um choque conflitante entre grupos religiosos vem ocorrendo em um mesmo território, ocasionou a guerra civil na qual o país se afunda hoje (PAIVA, 2015).  

Atrocidades como o assassinato de crianças, castrações, estupros e degolas são alguns exemplos do que ocorre na região. A ONU ainda acusou militares do exército sul-sudanês de estuprar e queimar vivas mulheres e meninas que estavam em suas casas no mesmo estado. O início dessa situação começou quando o Sudão do Sul conquistou sua independência em relação ao Sudão em 2011 via referendo, que estava previsto em um acordo de paz de 2005 que encerrou décadas de guerra civil (Guglinski, 2016) 

Desde 2013, o Sudão do Sul mergulha em um conflito armado que teria provocado quase 400 mil mortes. A crise levou 2,3 milhões de cidadãos a buscar refúgio em outros países. As diferenças étnicas e religiosas do que então era apenas um país foram o principal ponto de conflito entre os dois lados. A população do sul (hoje o Sudão do Sul), formada por diversos grupos étnicos de maioria cristã ou animista, se sentia discriminada pelo governo centralizado em Cartum (no Sudão), de maioria muçulmana, e que tentava impor a lei islâmica na região. Observa-se que os dinka (cristãos) representam 15% da população, enquanto os nuer (muçulmanos) representam apenas 10%. (SANTOS, 2017).  

Com combates entre duas facções do exército, dividido pela rivalidade entre o presidente Salva Kiir e seu ex-vice Riek Machar. O confronto teve início quando Kiir destituiu Machar, acusando-o de tramar um golpe de Estado. Os dois políticos pertenciam ao mesmo partido – o Exército de Libertação do Povo Sudanês (BADMUS, 2008).  

O vazio de poder ocasionado com a guerra civil incentivou o surgimento de milícias e uma grande crise política, econômica e humanitária no país. Inúmeras pessoas se encontram deslocadas internamente e milhares de civis refugiados deixam o país em direção a países vizinhos.  

No final de dezembro de 2013, o Conselho de Segurança da ONU autorizou um rápido envio de cerca de 6.000 forças de segurança, além de 7.600 soldados da paz já no país, para ajudar nos esforços de construção da nação. Em maio de 2014, o Conselho de Segurança votou um raro movimento para mudar o mandato da missão de construção da nação para proteção civil, autorizando as tropas da ONU a usar a força. Desde a priorização da proteção, a Missão da ONU na República do Sudão do Sul enfrentou desafios extremos devido à deterioração da situação de segurança e ao seu relacionamento complexo com o governo da República do Sudão do Sul. A ONU autorizou o envio de mais quatro mil soldados da paz como parte de uma força de proteção regional em 2016, embora sua chegada tenha sido adiada até agosto de 2017 (CFR,2020). 

Com toda essa situação presente no país, o representante especial do secretário-geral do Sudão do Sul e chefe da Unmiss (Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul), David Shearer comenta: 

“Esta luta deve parar. Estamos pedindo às comunidades envolvidas e seus líderes que ponham fim à violência e se unam em reconciliação e paz para o bem de seu povo” (HODAL, 2019). 

É interessante notar que o fator econômico também é importante para entender o caos no país africano. Em 2012 o governo decidiu parar de extrair petróleo após um desentendimento com o Sudão, que era quem provinha infraestrutura para comercializar o produto. A inflação do país alcançou 800% ao ano, visto que o petróleo correspondia a 98% da receita pública, deixando a maior parte do país vivendo em uma economia de subsistência (AFP, 2018). 

Mapa das estratégias, divisões e recursos do Sudão e Sudão do Sul
Mapa das estratégias, divisões e recursos do Sudão e Sudão do Sul / Foto: UOL 

A violência impediu agricultores de plantar e colher culturas, causando escassez de alimentos em todo o país. Em julho de 2014, o Conselho de Segurança da ONU declarou a crise alimentar do Sudão do Sul como a ‘pior do mundo’. A fome foi declarada no Sudão do Sul durante os primeiros meses de 2017, com quase cinco milhões de pessoas em risco de insegurança alimentar. O país novamente enfrentou escassez crítica de alimentos no início de 2018, com agências de ajuda humanitária alertando que mais de sete milhões de pessoas podem estar em risco de grave insegurança alimentar durante os meses de verão (CFR, 2020). 

Além disso, muitas comunidades vivem em regiões isoladas, onde o acesso da ajuda humanitária é difícil ou impossível por terra, o que agrava a situação de insegurança alimentar. Em 2017, das 12 milhões de pessoas que vivem no Sudão do Sul, três milhões sofriam de insegurança alimentar severa (Cruz Vermelha, 2017).  

Em virtude da herança colonial e dos conflitos armados que se perpetuaram na região desde o término da colonização inglesa, a população do Sudão do Sul, apesar de celebrar a independência recente do país, vem passando por grandes dificuldades econômicas e sociais. Mais de 70% da população é analfabeta, número que se eleva entre as mulheres. As taxas de mortalidade infantil também são altas e o número de mães que morrem durante os partos é alto. Estima-se que aproximadamente 45% da população não possua acesso a nenhuma fonte de água potável (PENA,2020).  

A população sofre com a falta de hospitais – que na maioria dos casos oferecem péssimas condições estruturais e de higiene – e com o baixo número de profissionais da saúde. Para agravar a situação, a guerra e os constantes bombardeios – principalmente nas regiões de fronteira – intensificam o número de mortos e refugiados, além de fazer com que o governo do sul invista quase 50% das riquezas do país em armas, em detrimento de investimentos em educação e saúde (PENA, 2020). 

Um acordo de paz de compartilhamento de poder, assinado em setembro de 2018, contribuiu muito para o fim da violência política do Sudão do Sul, que matou centenas de milhares de vidas e resultou em uma das piores crises humanitárias do mundo. Mas a violência entre comunidades continua, com invasões de gado, saques de propriedades e confrontos e ataques de vingança, resultando em morte e ferimentos, de acordo com a missão da ONU. Os ataques contra trabalhadores humanitários também aumentaram nos últimos meses, incluindo emboscadas, sequestros e restrições ao acesso humanitário, de acordo com o relatório mais recente do Conselho de Segurança da ONU (THEGUARDIAN, 2018). 

Referências 

AFP, 2018. Sudão: Protestos eclodem pelo país. Disponível em:  

 https://www.dw.com/pt-002/sud%C3%A3o-protestos-eclodem-pelo-pa%C3%ADs/a-46851574. Acesso em: 23 junho 2020. 

ACNUR. “Oito anos após independência, Sudão do Sul ‘viu mais guerra do que paz’, diz ACNUR.” Disponível em:https://nacoesunidas.org/oito-anos-apos-independencia-sudao-do-sul-viu-mais-guerra-do-que-paz-diz-acnur/. Acesso em: 20 junho 2020. 

BADMUS, Isiaka Alani. “Nosso Darfur, Darfur deles”: a política desviante do Sudão e a nascente “limpeza étnica” em uma emergente anarquia Africana. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-85292008000200003&script=sci_arttext. Acesso em: 23 junho 2020. 

BBC, 2015. SOUTH SUDAN PROFILE: Timeline. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-africa-14019202&gt; Acesso em: 23 junho 2020. 

Comitê Internacional da Cruz Vermelha. “Refugiados no Sudão do Sul”. Cruz Vermelha. Disponível em: https://www.icrc.org/pt/refugiados-do-sudao-do-sul. Acesso 20 junho 2020. 

Council on Foreign Relations. “Civil War on South Sudan”. Disponível em: https://www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/civil-war-south-sudan. Acesso em: 20 junho 2020. 

GUGLINKSKI, Vitor. Sudão do Sul deixa soldado estuprar mulheres como salário, diz ONU. Disponível em: https://vitorgug.jusbrasil.com.br/artigos/313340822/sudao-do-sul-deixa-soldado-estuprar-mulheres-como-salario-diz-onu. Acesso em: 23 junho 2020. 

HODAL, Kate. “UN peacekeepers intervene after violent clashes in South Sudan.” Disponível em: https://www.theguardian.com/global-development/2019/dec/06/un-peacekeepers-intervene-after-violent-clashes-in-south-sudan. Acesso em: 20 junho 2020. 

PAIVA, Fabiana Kent. Sudão do Sul: independência, guerra civil e busca por estabilidade. Disponível em: 

 https://pucminasconjuntura.wordpress.com/2015/12/02/sudao-do-sul-independencia-guerra-civil-e-busca-por-estabilidade/. Acesso em: 23 junho 2020. 

PENA, Rodolfo Alves. “Independência do Sudão do Sul.” Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/independencia-sudao-sul.htm. Acesso em: 20 junho 2020. 

SANTOS,  Luan Mesan Grossmann Mendes. Sucessão de Estados: Sudão do Sul. Disponível em: https://luanmesan.jusbrasil.com.br/artigos/521121627/sucessao-de-estados-sudao-do-sul. Acesso em: 23 junho 2020. 

Djamilly Rodrigues

Graduanda em Relações Internacionais e Diretora de Conteúdo do Dois Níveis.

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