A MÚSICA NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE LATINA
Clipe La Mudanza. Bad Bunny. Fonte: Youtube.
INTRODUÇÃO
A América Latina, marcada por um histórico de colonização e desigualdades, encontra na música uma poderosa forma de expressão e resistência. Este texto explora como a música latino-americana atua na construção e afirmação da identidade regional, abordando desde a definição do termo “latino” até o papel de movimentos musicais como a Nueva Canción e artistas contemporâneos como Bad Bunny nesse contexto.
IDENTIDADE LATINO-AMERICANA E A MÚSICA
Em um continente marcado por processos de colonização e desigualdades, a música latino-americana frequentemente se ergue como uma voz de resistência e afirmação cultural, fortalecendo laços identitários e expressando a alma de seus povos. A identidade é “compreendida como um conjunto de elementos dinâmicos e múltiplos, moldada pelas relações de poder” (Kleiman, 1998, apud Pereira, 2019, p.1).
O termo latino tem por referência pessoas que têm origens culturais, históricas e linguísticas na América Latina, região a qual integra países que têm idiomas derivados do latim, dentre elas o espanhol, o português e o francês. Por esse motivo, segundo a Agência Brasileira de Tradução [s.d.], é considerado que a identidade latina seja uma combinação de diversas heranças culturais, práticas e tradições, compartilhadas pela região.
Em seu artigo, Pereira (2019), afirma que o termo identidade latino-americana tem sua origem por Michel Chevalier no século XIX, em oposição à dominação da Inglaterra e Estadunidense (panlatinismo), além disso, a autora afirma que Francisco Bilbao é um dos primeiros a usar o termo defendendo o anticolonialismo e anti-imperialismo. Além disso, Pereira (2019, p.4), afirma: “As identidades latino-americanas são construídas a partir da mestiçagem e das hibridizações que se iniciaram com o processo de colonização, a mescla do que havia antes da chegada dos colonizadores e de tudo que era trazido por eles.”

Ao analisar a identidade latino-americana é imprescindível identificar o que é ser latino. Para a Agência Brasileira de Tradução, o termo “latino” refere-se a indivíduos com vínculos étnico-culturais originários da América Latina ou da Europa latina, além disso, afirma que em contextos específicos, pode ser aplicado aos filipinos, que possuem características semelhantes, especialmente, devido ao passado colonial sob o domínio da Espanha e, posteriormente, dos Estados Unidos.
O uso do termo abrange o espectro cultural e histórico que estende além das fronteiras geográficas tradicionais. Além disso, nos Estados Unidos, latino é associado a pessoas de ascendência latino-americana, uso esse que pode ser controverso, pois pode ser associado a xenofobia. A Agência Brasileira de Tradução [s.d.], aponta ainda que ser latino vai além da ancestralidade, envolve uma conexão profunda com as tradições, a língua e a vivência cultural.
Nesse contexto, a música tem um papel importante, sendo “a forma que reflete fielmente a cultura de cada povo e é capaz de representar suas crenças, seus valores, suas ideologias, seus anseios, etc.” (Pereira, 2019, p.2). Segundo Coutinho (2021 apud Cruz, Santos e Filho, 2024); Caldas (2010 apud Cruz, Santos e Filho, 2024), a música tem o poder de conectar pessoas e transmitir mensagens sobre questões políticas e sociais, refletindo identidades culturais e seus valores. Além disso, os autores afirmam que “A música de protesto latino-americana representa um elo entre os intelectuais e a tradição popular. A fim de transmitir uma perspectiva de mundo crítica, os compositores de protesto recorriam a uma linguagem tradicional para se conectar com o povo” (Coutinho, 2021 apud Cruz, Santos e Filho 2024).
Cruz, Santos e Filho (2024), ainda abordam sobre duas categorias principais de música popular latino-americana: Identidade (“marcas do colonialismo” e “Autoimagem”) e Manifestações (“Inconformidade” e “Utopia”). Para os autores (2024), “Marcas do Colonialismo” refere-se a consciência da disparidade histórica e da exploração dos recursos naturais, a subcategoria “Autoimagem” reflete a percepção identitária do povo latino-americano, influenciada pela histórica exploração, mas também destacando a força e a resistência. A subcategoria “Inconformidade”, explora os sentimentos de revolta e resistência expressos nas letras e “Utopia”, expõe os desejos de união, liberdade e superação dos desafios sociais.
Um dos pontos que afirma as informações destacadas acima, é o movimento Nueva Canción latino-americana. Segundo Amana Dias (2023), o movimento surgiu a fim de “resgatar a esperança e reconectar as pessoas com suas tradições”. O movimento surgiu na década de 60 e 70, foi influenciado pela Revolução Cubana e nasceu com o intuito de ser contraponto às movimentações ditatoriais e imperialistas que ocorriam durante aquele período por toda América Latina, sendo assim “o canto político era usado como arma contra a repressão” (Dias, 2023).
A onda da música de protesto se estabeleceu de forma alternativa à importação das músicas estadunidense e europeia, de modo que houve a junção do viés político baseado na denúncia e na luta contra as injustiças sociais. Algumas representações da Nueva Canción, no México: Amparo Ochoa, Argentina: Mercedes Sosa, Chila: Violeta Parra e Cuba: Silvio Rodriguez. Dessa forma, é possível perceber que “o movimento da “nueva canción” revolucionou a maneira de interpretar e compor canções, voltando-se para as massas populares e servindo como ferramenta de disputa político-social.” (Constante, 2018).

PORTO RICO E BAD BUNNY COMO RESISTÊNCIA LATINO AMERICANA
Porto Rico é a maior ilha do Caribe, ilha essa que até meados de 1898 foi ocupada pela Espanha e nesse mesmo ano foi ocupada pelo exército norte-americano em consequência da guerra hispano-americana. Segundo, Thomas Machado (2025), “A ocupação de Porto Rico e a construção do Canal do Panamá eram os principais objetivos dos EUA no continente, em uma época em que as guerras eram travadas no mar. Em 1902, o Tratado de Paris que vendeu as Filipinas, então colônia espanhola, aos americanos também deu o status de república (não independente) a Porto Rico.”.
Assim como em outras localidades da América Latina, o modus operandi do governo estadunidense foi aplicado, por meio de instauração de governos militares, uso de espionagem e de repressão policial. Atualmente, a ilha possui o status de Estado Livre Associado aos Estados Unidos.
Nesse contexto de identidade latino-americana e o impacto da musicalidade na construção dela. Benito Antonio Martinez Ocasio, Bad Bunny, nasceu na cidade de San Juan, capital de Porto Rico, em 10 de Março de 1994. Se tornou um dos principais nomes da música latina em 2018, quando lançou seu album “X100PRE”. Mas foi com o álbum “Un Verano Sin Tin”, que o artista se consolidou no cenário musical tendo como pano de fundo os problemas sociais e políticos da ilha na qual nasceu.
Bad Bunny tem se destacado como uma voz importante na resistência latino-americana, utilizando sua música e plataforma para abordar questões sociais, políticas e culturais relevantes para Porto Rico e a diáspora latina em geral. Em 2022, houve o lançamento de Un Verano Sin Ti (2022), álbum no qual o cantor apresenta não só nas suas canções, mas em clipes musicais, como por exemplo a música “El Apagon”.
No clipe de “El Apagon”, o cantor expressa temas importantes políticos e sociais, como a privatização da empresa de energia da capital de Porto Rico, além disso a especulação imobiliária e a imposição da diáspora porto-riquenha. No entanto, o cantor não parou por aí, em janeiro de 2025, foi lançado o albúm “Debí Tirar Más Fotos”, o álbum contém 17 faixas e que tem como foco a valorização da identidade cultural porto-riquenha e coloca sua música no patamar de resistência ao colonialismo e ao imperialismo norte-americano.
O projeto foi lançado com um curta-metragem no qual aborda as questões da ilha de modo nostálgico por meio da atuação do ator Jacobo Morales, e seu amigo, o sapo Concho. Em um passeio cotidiano a uma cafeteria, o senhor percebe as mudanças culturais ocorridas no arquipélago como a substituição do espanhol pelo inglês, o uso do dólar e o consumo de músicas norte-americanas. Todos os exemplos remetem ao personagem uma sensação de saudosismo que reclinam para o nome do álbum, deveria ter tirado mais fotos, para recordar de como era antes.
Logo em sua primeira faixa, Nuevayoul, Bad Bunny faz uma referência utilizando um sample do grupo El gran combo de Puerto Rico, da sua famosa música Un Verano en Nueva York hino da diáspora porto-riquenha composta por Andy Montañez e o grupo anteriormente citado, apontando sua intenção de trazer histórica, cultura e identidade para o que seria o resto do álbum. Outras músicas emblemáticas do álbum são: VOY A LLeVARTE PA PR, TURiSTA, LO QUE LE PASÓ A HAWAII e LA MuDANZA, todas as músicas fazem referências musicais tradicionais porto-riquenha trazendo tanta história, cultura, linguagem e amor pelo seu próprio lugar tornando Bad Bunny um símbolo de resistência e música de protesto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do apresentado, é possível notar, o quanto a música tem uma influência esplêndida na cultura e na identidade latino-americana. Assim como o texto, Bad Bunny, passa por sua cultura, seu idioma, sua terra e pela tradição porto-riquenha para mostrar para o mundo o potencial de Porto Rico, mas também de toda uma América Latina que de tempos em tempos tem que se reerguer em resistência e com toda sua potência.
Assim, finaliza Lopes (2025), “seu [Bad Bunny] maior sucesso está no fato de que esse sincero canto de amor por sua terra tornou-se um símbolo de resistência que transcende fronteiras. […] Debí Tirar Más Fotos é um lembrete de que só é possível lutar pela nossa independência e pelo nosso povo se abraçarmos a nossa cultura popular. E que essas lutas, embora cheias de dor, não podem ser derrotadas se celebrarmos a história daqueles cuja história é negada.”
REFERÊNCIAS
AGBT. O que é latino e quais os países que são?. [s.d.]. Disponível em: https://www.agbt.com.br/blog/o-que-e-latino-e-quais-os-paises-que-sao/. Acesso em: 18 de abril de 2025.
BAD BUNNY. Álbum Debí Tirar Más Fotos. 2025.
BAD BUNNY. El Apagón. Álbum Un Verano Sin Ti. 2022.
BBC News Brasil. Como Porto Rico virou território dos EUA. 4 de set. de 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=d-1Nyy4EBxA & ab_channel=BBCNewsBrasil. Acesso em: 19 de abril de 2025.
CONSTANTE, Bruno Erbe. A canção como ferramenta de luta política e social: os diferentes casos na América Latina. Temporalidades – Revista de História, v. 11, n. 1, p. 109-123, 2018.
CRUZ, Rhaissa da Rosa Machado; SANTOS, Agda Rodrigues; FILHO, Miguel Pacífico. A identidade da América Latina nas músicas populares. Revista Foco, v. 17, n. 7, e5519, p. 01-26, 2024.
DIAS, Amana. Esperança e liberdade: o movimento da Nueva Canción Latinoamericana. 05 de Março de 2023. Disponível em: https://www.cifraclub.com.br/blog/nueva-cancion/. Acesso em: 18 de abril de 2025.
LOPES, Gabriel Vera. Rapper Bad Bunny leva ao mundo a luta por independência de Porto Rico. Brasil de Fato, 22 fev. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/02/22/rapper-bad-bunny-leva-ao-mundo-a-luta-por-independencia-de-porto-rico/. Acesso em: 18 de abril de 2025.
MACHADO, Thomas. O álbum-manifesto de Bad Bunny contra o apagão cultural em Porto Rico. UFSM, 16 mar. 2025. Disponível em: https://ufsm.br/r-411-7881. Acesso em: 18 de abril de 2025.
PEREIRA, Adriana Teixeira. A identidade latino-americana no movimento “Nueva Canción Latinoamericana” de 1960. In: Anais do II Encontro de Estudos da Linguagem (ENELIN), 2018, Juazeiro do Norte. Anais… Juazeiro do Norte: IFCE, 2018. p. 166-177.
IMAGENS
BUNNY, Bad. La Mudanza (Video Oficial) | Debí Tirar Más Fotos. Youtube, 10 de mar. de 2025.
NIEMEYER, Oscar. Mão. São Paulo. 1988. Disponível em: https://www.oscarniemeyer.org.br/escultura/m%C3%A3o-no-memorial-da-am%C3%A9rica-latina. Acesso: 19 de Abril de 2025.
BAD BUNNY. Álbum Debí Tirar Más Fotos. 2025.
