PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: AS CAUSAS E AS CONSEQUÊNCIAS PARA O SISTEMA INTERNACIONAL
Uma multidão na Times Square segura exemplares de jornais com a manchete sobre a assinatura do Armistício para encerrar a Primeira Guerra Mundial, em Nova York, EUA, em 11 de novembro de 1918. Foto: Arquivo Nacional EUA.
“Paz armada”
Até 1890, a estabilidade da Europa fora garantida pelo sistema de alianças forjado por Otto von Bismarck (1815-1898), chanceler da Alemanha e responsável pela política externa do império. O principal objetivo de Bismarck era assegurar a unificação alemã e impedir que a França, humilhada após a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), tentasse iniciar uma guerra revanchista contra a Alemanha. Dessa maneira, Bismarck construiu alianças com a Áustria-Hungria, a Rússia e a Itália, assinando tratados de defesa mútua para dissuadir a França de buscar vingança contra os alemães. Além disso, o chanceler tentou convencer, por meio da diplomacia, que a Alemanha, após a unificação, era uma “potência satisfeita”; ou seja, não tinha mais interesse em conquistar novos territórios, pois a unificação dos povos germânicos encerrara a política belicista do novo império. Para isso, os alemães engajaram-se numa política de mediação, a fim de provar às outras potências europeias sua nova postura pacífica, como na Conferência de Berlim (1884-1885), na qual Bismarck, temendo a contaminação do sistema de Estados europeu pelo conflito na África, mediou a determinação dos critérios para a partilha do continente entre as nações colonizadoras (Burns, 2001).
A estabilidade sustentada pela Alemanha desmoronou pelas mãos do mesmo país que a construíra. Um novo imperador alemão, Guilherme II (1859-1941), assumiu o trono em 1888 e alterou completamente a política externa do II Reich. O imperador adotou uma postura agressiva, conhecida como “Weltpolitik”, que visava tornar a Alemanha reconhecida como a maior potência mundial. Para se impor diante das outras nações europeias, Guilherme II foi influenciado pelos “navalistas”, um grupo que defendia o investimento na marinha para que a Alemanha se tornasse hegemônica. Em resposta ao aumento da frota naval alemã, a Inglaterra também expandiu sua já poderosa marinha (Kissinger, 2007).
Apesar da estratégia de Bismarck de aproximação com os governos europeus em seu intento de isolar os franceses, as relações com a Rússia se deterioraram ainda durante o período de trabalho do chanceler. O Congresso de Berlim (1878) impediu que a Rússia mantivesse suas conquistas após a Guerra Russo-Turca (1877-1878) e estabeleceu novas fronteiras para os territórios libertados do Império Otomano. A preferência alemã pela Áustria, que também tinha interesses nos Bálcãs, prejudicou as relações teuto-russas (Saraiva, 2007).
A corrida armamentista, a Weltpolitik e a diplomacia secreta dos tratados de defesa mútua entre as nações europeias foram fatores importantes para o processo que resultou na 1ª Guerra Mundial.

Otto von Bismarck. Foto: Everett Historical/Shutterstock.com
Disputas imperialistas
Outra causa da 1ª Guerra Mundial foram as disputas imperialistas na África, no Oriente Médio e nos Bálcãs. A nova postura agressiva da Alemanha mirava a conquista tardia de territórios africanos. Para Bismarck, não valia a pena o Império Alemão perseguir novas posses na África, uma vez que, para ele, isso não traria lucros para a nação. Além disso, o ex-chanceler acreditava que as aventuras coloniais da França desviariam as energias de suas pretensões belicistas contra a Alemanha. No entanto, Guilherme II seguiu por um caminho diferente e tentou assegurar alguns territórios africanos, como o Marrocos, controlado pela França. O imperador se arriscou no norte da África e buscou confronto com os franceses, na tentativa de reduzir sua influência na região e garantir um pedaço de terra. O resultado foi a consolidação do protetorado francês sobre o Marrocos e a eliminação da ameaça alemã. A consequência mais desastrosa, porém, foi a aproximação da Inglaterra e da França, consolidada na Entente Cordiale, em 1904, em que ambas buscaram superar sua rivalidade histórica para contrabalancear o afrontamento alemão (Kissinger, 2007).
No Oriente Médio e também nos Bálcãs, as disputas imperialistas giravam em torno do Império Turco-Otomano, que se estendia desde o Egito até o Leste Europeu. A região era alvo de atritos entre Inglaterra, França, Áustria e Rússia, todas tentando assegurar sua influência por meio de protetorados ou outros níveis de controle imperialista. Nos anos 1820, os otomanos perderam a Grécia, que foi apoiada pelos ingleses. Em 1878, a Bósnia, então sob domínio turco, foi ocupada pelos austríacos. Em 1881, o território otomano da Tunísia passou para o controle francês. Em 1882, o sultão perdeu sua influência sobre o Egito, que passou a ser protetorado inglês. Perdendo territórios em várias partes de seu império, os otomanos se aproximaram dos alemães, que investiram dinheiro em troca da expansão ferroviária até o Golfo Pérsico (ferrovia Berlim-Bagdá). Essa aproximação garantiria a entrada dos turco-otomanos ao lado dos aliados na 1ª Guerra Mundial (Burns, 2001).
Nacionalismos exarcebados
Outra causa vital para a guerra total no sistema de Estados europeus foi o choque entre o paneslavismo e as aspirações de autodeterminação das diferentes minorias étnicas nos Bálcãs. A Rússia e a Áustria-Hungria entraram em atrito pelos domínios do Leste Europeu, em especial as nações que haviam se separado do Império Turco-Otomano após a Guerra Russo-Turca (1877-1878), da qual emergiram as unidades políticas da Sérvia, Montenegro, Romênia, Bulgária e Bósnia. Os russos tinham interesse estratégico nos Bálcãs e reivindicavam o controle da região sob o argumento do paneslavismo. Em outras palavras, as identidades eslavas do sul (poloneses, tchecos, sérvios e outros) possuíam conexão com os eslavos russos e, dessa forma, a unificação desses povos sob a liderança do Império Russo era considerada legítima. Com isso, a pretensão máxima da Rússia era formar a Grande Sérvia, a futura Iugoslávia. No entanto, o avanço russo colidia com os objetivos austríacos, que almejavam anexar a Bósnia para formar uma monarquia tríplice (Áustria-Hungria-Bósnia) (Burns, 2001).
Em 18 de julho de 1914, Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, foi assassinado por um estudante bósnio nacionalista em Sarajevo, capital da Bósnia, durante uma parada militar. O atentado foi planejado por uma organização terrorista sérvia, a Mão Negra. Com o incidente, a Áustria encontrou um motivo para avançar militarmente contra a Sérvia, mas dependia do apoio alemão, tendo em vista a amizade dos sérvios com os russos (Saraiva, 2007).
A guerra
Em 28 de julho de 1914, a Áustria declarou guerra à Sérvia, cumprindo o ultimato austríaco após o assassinato de Ferdinando, que incluía uma série de exigências inaceitáveis para os sérvios, pois representavam uma limitação da soberania da Sérvia. O que se seguiu foi a ativação dos mecanismos de escalada, transformando a guerra local em uma guerra continental. A Rússia declarou guerra à Áustria para defender a Sérvia, o que resultou na declaração de guerra pela Alemanha contra os russos e os franceses, estes aliados da Rússia. Até então, a Inglaterra estava relutante em entrar no conflito; no entanto, a invasão alemã à Bélgica, autodeclarada neutra, deu justificativa aos ingleses para se juntarem aos franceses e russos. Desde 1907, dois blocos de alianças estavam formados na Europa: a Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia) e a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália). A bipolaridade refletiu-se no quadro dos beligerantes da guerra, com a exceção da Itália, que trocou de lado após ser convencida pela diplomacia inglesa, que prometeu aos italianos territórios austríacos há muito desejados. O Império Otomano juntou-se aos aliados da Tríplice Aliança devido às pretensões imperialistas da Entente sobre os turcos, e os alemães conseguiram seu apoio por meio de acordos que incluíam a construção da ferrovia entre Berlim e Bagdá (Saraiva, 2007).
A Alemanha, até então, lutava em duas frentes: contra a Rússia no leste e contra a França no oeste. No entanto, a Revolução Russa de outubro de 1917 colocou os comunistas de Lenin no poder, estes insatisfeitos com a permanência russa no conflito, o que resultou em um acordo de paz entre a Alemanha e a Rússia. A partir daí, os alemães poderiam focar na frente ocidental para vencer a França (Kissinger, 2007).
Os esforços concentrados da Alemanha contra os franceses não deram certo por duas principais razões: a entrada dos Estados Unidos e a Revolução Spartakista. Os EUA defendiam sua política de isolamento e buscavam se distanciar dos conflitos incessantes na Europa. Essa postura, porém, foi reavaliada quando os bancos estadunidenses pressionaram o governo para que entrasse na guerra e ajudasse ingleses e franceses. Os Estados Unidos eram importantes credores da Grã-Bretanha e da França, e, numa eventual derrota, esses países poderiam dar um calote. Outro evento que determinou o apoio estadunidense à Entente foi a destruição indiscriminada de embarcações civis dos EUA pelos submarinos alemães, que suspeitavam do envio de ajuda externa aos seus inimigos. Assim, em 1918, os Estados Unidos declararam guerra aos aliados (Burns, 2001).
Além disso, a Alemanha sofria com graves problemas internos. Grande era a oposição doméstica contra a guerra alemã, sustentada, sobretudo, pelos marxistas radicais. A Revolução Spartakista eclodiu no império, e os comunistas fundaram a República da Baviera. Temendo ter o mesmo destino dos czares após a Revolução de Outubro, o kaiser Guilherme II abdicou e fugiu. Em contrapartida, o partido dos marxistas moderados, o SPD, agora no poder, fez um acordo com a Entente para que, em troca da paz e de outras exigências que desejassem, ajudassem a reprimir os revolucionários (Saraiva, 2007).
A Entente aceitou a proposta alemã e formalizou a paz na Conferência de Paris de 1918, por meio do Tratado de Versalhes, que formalmente culpou a Alemanha pela guerra e decidiu inviabilizar a economia alemã para que nunca mais pudesse ameaçar a estabilidade da Europa (Saraiva, 2007).
Consequências
O principal resultado da 1ª Guerra foi o reordenamento do sistema europeu sustentado pela crença idealista. No pós-guerra, o surgimento da Liga das Nações foi o símbolo da mentalidade das grandes potências da época. A proposta para a nova organização foi liderada pelos Estados Unidos, por meio de seu presidente, Woodrow Wilson, que afirmou a necessidade de se criar uma Sociedade das Nações com o propósito de garantir a independência política e territorial dos pequenos e grandes Estados. A mentalidade britânica para a manutenção da paz seguia, de modo geral, a mesma linha. A Grã-Bretanha descartava o militarismo supranacional e um organismo coercitivo. Em vez disso, os ingleses defendiam uma sociedade voluntária, baseada no princípio da boa-fé e da boa vontade dos Estados-membros (Seitenfus, 2016).
A proposta britânica, apoiada pelos EUA, foi adotada. Dessa forma, criou-se uma organização internacional enfraquecida, sem poder de coerção por meio da força militar ou de sanções. Além disso, tanto a União Soviética quanto a Alemanha permaneceram de fora da Liga. A URSS, transformada após a revolução de Lenin, era temida pelos ocidentais pela possibilidade de contaminação do resto da Europa por sua ideologia revolucionária. Assim, a Europa Ocidental optou por isolar os soviéticos numa tentativa de também isolar o comunismo. Os Estados Unidos, contudo, também não participaram do novo organismo. Wilson enfrentou forte resistência no Senado, que, guiado pela perspectiva isolacionista de política exterior, vetou a entrada do país na Liga das Nações (Seitenfus, 2016).
A nova Sociedade das Nações nasceu esvaziada e incapaz de impor seus princípios idealistas sobre o sistema internacional, revelando-se, assim, um fracasso em impedir uma nova guerra global. A Grã-Bretanha foi a primeira a perceber o erro de Versalhes. Isoladas, a Alemanha e a União Soviética logo se entenderam. A primeira, ressentida com o tratado imposto, que proibia seu próprio crescimento, mais tarde recorreria ao totalitarismo para se reerguer diante das outras potências. A segunda, almejando expandir as fronteiras do comunismo, viu na Alemanha uma possível aliada para uma guerra conjunta contra as nações cujos territórios se localizavam entre os dois países. O Tratado de Rapallo (1922) formalizou o entendimento russo-alemão.

Reunião da Liga das Nações em Genebra, Suíça, em 1921. Foto: Library of Congress, Washington, D.C.
Conclusão
Apesar dos esforços britânicos, obstados pelo ressentimento anti-alemão da França, para tentar reconstruir a economia alemã e incluir a Alemanha e a URSS na Liga das Nações, já era tarde demais para evitar um novo confronto global com a Alemanha de Hitler. A Sociedade das Nações, após a 2ª Guerra Mundial, daria lugar às Nações Unidas, que, com a experiência passada, corrigiria os erros de sua antecessora. A nova organização foi composta por todas as grandes potências, e, dessa maneira, não seria esvaziada como a anterior. Além disso, o Conselho de Segurança ficaria encarregado de aplicar sanções acordadas por todos os seus membros permanentes, e também haveria a mobilização de exércitos nacionais para comporem os capacetes azuis, a força militar humanitária da ONU.
Referências
BURNS, Edwards McNall. História da Civilização Ocidental: do homem das cavernas às naves espaciais – v. 2. 40. ed. São Paulo: Globo, 2001.
SARAIVA, José Flávio Sombra. História das Relações Internacionais Contemporâneas. 2ª ed. São Paulo: Saraiva, 2007.
SEITENFUS, Ricardo. Manual das Organizações Internacionais. 6ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2016.
KISSINGER, Henry. Diplomacia. 3ª ed. Lisboa: Gradiva, 2007.
