BRASIL X ARGENTINA: RIVALIDADE E COOPERAÇÃO

BRASIL X ARGENTINA: RIVALIDADE E COOPERAÇÃO

A rivalidade entre Brasil e Argentina no que talvez seja o esporte mais famoso do mundo: o futebol, não é apenas comentada como frequentemente incentivada pelos veículos de imprensa esportiva. Uma partida de futebol oficial ou amistosa entre ambos os países é apelidada de “Superclássico das Américas” e sempre recebe cobertura midiática e audiência expressivas. O que o público geral talvez não saiba, ou tenha pouco conhecimento sobre, é que a rivalidade política entre os dois maiores países da América do Sul originou-se bem antes da popularização mundial do futebol.

Em uma matéria realizada pela BBC Brasil no ano de 2016, a correspondente do jornal em Buenos Aires, Marcia Carmo, comentou sobre como a animosidade entre as torcidas do Brasil e da Argentina foi  transferida do futebol para vários outros esportes no decorrer das  Olimpíadas do Rio de Janeiro. A repórter ainda destacou que os atletas dos dois países pediram pelo fim da rivalidade, porém não obtiveram resultado.  Ao ponderar sobre a origem dessa relação um tanto conflituosa entre as duas potências sul-americanas, Carmo entrevistou historiadores, cientistas políticos e até jornalistas esportivos de ambos os países para que opinassem sobre a questão.

Neste artigo, focaremos em discorrer sobre as relações de rivalidade política e diplomática ao longo da história tanto do Brasil quanto da Argentina sem entrar no mérito se tais relações acabaram por criar o clima de antagonismo esportivo entre as duas nações.

O surgimento de Brasil e Argentina enquanto nações

Leonardo Granato (2012) argumenta que uma das razões fundamentais pelas quais o Brasil e a Argentina mantiveram uma relação de rivalidade constante durante os séculos XIX e XX é o próprio surgimento da identidade nacional de ambas as nações. Enquanto a Argentina obteve sua independência através da formação de uma república, o Brasil manteve a estrutura monárquica deixada por Portugal, mesmo após a conclusão do processo de independência diplomático em 1822. Em razão disso, o Brasil independente era visto como continuidade do Reino de Portugal e de suas ambições territoriais para a região da Bacia do Rio da Prata[1], fazendo com que os vizinhos hispânicos sentissem que a integridade territorial de suas recém-formadas repúblicas estava ameaçada pelo gigante luso.

Érica Winand (2015) adiciona que o Brasil pautou a construção da sua identidade nacional justamente na diferenciação em relação ao restante de seus vizinhos, aumentando ainda mais o distanciamento de identificação entre si mesmo e os países da região. Não obstante, a elite governante imperial de fato tinha um projeto hegemônico para a região do Prata, seguindo uma crença quase mítica da destinação de domínio regional do gigante continental.  Por outro lado, a Confederação Argentina, enquanto maior país hispânico no quesito territorial e de influência política, também tinha uma elite governante que acreditava em lendas de destino de poder e controle territorial para a Bacia do Prata, nas quais a Grande Argentina herdaria todo o território que compreendia o Vice-Reinado do Prata.

Sendo assim, a própria formação inicial das identidades nacionais de Brasil e Argentina no século XIX criou uma relação de conflito e instabilidade diplomática entre as duas grandes nações sul-americanas. Vale ressaltar, que tal fator foi o responsável pelo embate militar pela Cisplatina, então província do Império do Brasil e atual Uruguai.    

Guerra contra o Império do Brasil, Guerra do Paraguai e relações de desconfiança

Apesar de Brasil e Argentina terem sido os primeiros países a reconhecerem um ao outro como nações independentes. As relações diplomáticas entre eles, conforme descrito no website do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (2021), foram, em um primeiro momento, caracterizadas por uma instabilidade estrutural com predomínio de rivalidade, tanto que as discordâncias territoriais sobre a Bacia do Prata causaram uma disputa militar pela Banda Oriental[2] que ficou marcada na historiografia brasileira como “Guerra da Cisplatina” e na argentina como “Guerra contra o Império do Brasil” (CANDEAS, 2005).

Ao final do confronto, apesar da Argentina ter saído militarmente vitoriosa, o país sofreu perdas diplomáticas e políticas juntamente com o Brasil, já que o conflito acarretou no surgimento do Uruguai como nação independente no território disputado. Assim, nenhum dos países possuiria controle sobre a navegação no Rio do Prata, contrariando os objetivos iniciais de ambos (CANDEAS, 2005). Diante disso, a continuação das disputas pelo controle da Bacia Platina acarretaram em um novo conflito armado: a Guerra do Paraguai, marcada por uma aliança provisória entre Brasil, Argentina e Uruguai. Apesar da cooperação temporária, no final da guerra, consolidou-se um estado nacional centralizado em Buenos Aires que manteria relações pouco próximas com o Brasil até a Proclamação da República em 1889 (GANATO, 2012).

Instabilidade regional e busca por cooperação

Após 1889 e o tratado de limites territoriais de 1898 começa o período que Alessandro Candeas (2005) define as relações bilaterais entre Brasil e Argentina como marcadas por instabilidades regionais e por pequenos momentos de cooperação. Foi justamente neste espaço de tempo que tivemos a primeira visita de um presidente argentino ao Brasil com Julio Roca, em 1899, e, no ano seguinte, 1900, a primeira visita de um presidente brasileiro à Argentina com Campos Sales (MRE, 2021).

O posicionamento oposto dos dois países  em relação à condução das relações bilaterais com os Estados Unidos (EUA) foi o principal impedimento da consolidação de uma maior integração econômica brasileira e argentina. Uma vez que, a Argentina rejeitava quaisquer influências norte-americanas e o Brasil agia quase como porta-voz dos interesses estadunidenses na América do Sul. Outro fator determinante para minar o processo de integração entre os dois países foi a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Durante o conflito, o Brasil de Getúlio Vargas (1930-1945) adotou o alinhamento ao grupo dos Aliados composto pelos EUA, Reino Unido e União Soviética, enquanto a Argentina, governada por um grupo militar, adotou uma neutralidade relativa inclinada ao Eixo de Berlim composto pela Alemanha Nazista, Itália Fascista e Japão Imperial (CANDEAS, 2005).

Tal afastamento diplomático persistiu com tentativas falhas de maior aproximação e cooperação até o ano de 1961 quando, por iniciativa de Jânio Quadros (1961) no Brasil e de Arturo Frondizi (1958-1962) na Argentina, houve a assinatura do Convênio de Amizade e Consulta em Uruguaiana (MRE, 2021). Contudo, com o início das ditaduras militares brasileira e argentina ainda na década de 1960, as discordâncias diplomáticas retornaram brevemente. Porém, esta tensão só perdura até 1979, ano em que ambos governos militares chegam a entendimentos importantes sobre os maiores pontos de divergências, dentre eles, a Usina Elétrica de Itaipu e o uso de energia nuclear (CANDEAS, 2005).

A Busca da Estabilidade Estrutural pela Cooperação e os dias atuais no Cone Sul

O fortalecimento dos laços bilaterais de Brasil e Argentina através de entendimentos funcionais começou com o General João Figueiredo (1979-1985) do lado brasileiro e com o Tenente-General Roberto Viola (1981) do lado argentino, em 1979. A partir daí, a cooperação entre eles se expandiu para várias questões de política externa caras a ambos como, por exemplo, a “neutralidade imperfeita” brasileira, pendente a Argentina, na Guerra das Malvinas de 1982 (CAMPOS, 2008).

A relação amistosa agora se estenderia também para os governos de redemocratização e seria deliberadamente aprofundada através de iniciativas brasileiras e argentinas para várias áreas de atuação da política externa e, apesar de alguns estremecimentos econômicos com o real e o peso argentino no final dos anos 1990 e início dos 2000, a parceria bilateral dos dois países, em busca de crescimento mútuo no Cone Sul, continuou forte em todas as áreas, principalmente na área comercial com a criação do MERCOSUL em 1991 (CAMPOS, 2008).

Atualmente, a parceria bilateral entre ambos os países continua forte em um ponto em que o Brasil precisa torcer pela estabilidade e fortalecimento econômicos da Argentina e vice-versa. Segundo dados do site Diário do Comércio (2021)[3], as trocas comerciais voltaram a crescer exponencialmente entre as duas nações sul-americanas e que tal feito está relacionado tanto com a excelente condução da diplomacia brasileira, quanto a da diplomacia argentina. 

Ao analisar o histórico de relações políticas, econômicas e diplomáticas entre Brasil e Argentina, desde a fundação de ambos enquanto Estado-nação até o corrente ano de 2021, podemos chegar a conclusão que o período de rivalidade e animosidade política ficou para trás dos anos 1980, dando lugar a iniciativas de cooperação e integração em várias áreas das relações internacionais e hoje, felizmente, só persiste no âmbito esportivo do futebol.  

Referências Bibliográficas

CANDEAS, Alessandro Warley. Relações Brasil-Argentina: uma análise dos avanços e recuos. Revista Brasileira de Política Internacional, v. 48, n. 1, jun. 2005.

CAMPOS, Diego Araújo. Rivalidade tornou-se cooperação: o amadurecimento das relações Brasil-Argentina. Meridiano 47, n. 101, pp. 35 a 36. dez. 2008.

CARMO, Maria. De onde vem a rivalidade entre brasileiros e argentinos?. BBC, 2016. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-37065570>. Acesso em: 28 nov 2021.

COIMBRA, Márcio. Brasil e Argentina: uma parceria estratégica. Diário do Comércio, 2021. Disponível em: <https://diariodocomercio.com.br/opiniao/brasil-e-argentina-uma-parceria-estrategica/>. Acesso em: 28 nov 2021.

GRANATO, Leonardo. As Relações Bilaterais Argentino-brasileiras no Quadro da Integração Regional: de um Quadro de Rivalidade ao Despertar de uma Efetiva Cooperação. Revista Cadernos de Estudos Sociais e Políticos, v. 1, n. 2, ago-dez. 2012.

MATIAS, Átila. Bacia Platina. Brasil Escola, 2021. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/geografia/bacia-platina.htm>. Acesso em: 28 nov 2021.

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. República da Argentina. Governo Federal, 2021. Disponível em: <https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/relacoes-bilaterais/todos-os-paises/republica-argentina>. Acesso e,: 28 nov 2021.

WINAND, Érica C. A. A Rivalidade como Sentimento Profundo: Origem, Evolução Histórica e Reflexos Contemporâneos do Padrão de Rivalidade entre Brasil e Argentina. História e Cultura, Franca, v. 4, n. 1, p. 68-95, mar. 2015.


[1] Região geográfica na América do Sul que compreende porções territoriais significativas de Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Também chamada de Bacia Platina.

[2] O território da província Cisplatina, hoje Uruguai.

[3] https://diariodocomercio.com.br/opiniao/brasil-e-argentina-uma-parceria-estrategica/ 

Letícia Martins Lima

Internacionalista em formação pela Universidade Federal de Goiás, gosta da área geral de Relações Internacionais, mas tem interesse mais específico nas áreas de Política Internacional e Diplomacia.

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