TIKTOK E GEOPOLÍTICA: A GUERRA FRIA DIGITAL ENTRE CHINA E O OCIDENTE

TIKTOK E GEOPOLÍTICA: A GUERRA FRIA DIGITAL ENTRE CHINA E O OCIDENTE
Imagem de antonbe por Pixabay

INTRODUÇÃO

A emergência do TikTok como uma das redes sociais mais utilizadas no mundo desencadeou debates não apenas sobre inovação e entretenimento, mas também sobre segurança nacional e política internacional. Desenvolvido pela empresa chinesa ByteDance, o aplicativo tornou-se um símbolo de uma nova ordem digital multipolar, onde a hegemonia do Vale do Silício é contestada por gigantes tecnológicos do Oriente.

A análise do TikTok como fenômeno geopolítico se insere em uma conjuntura em que a tecnologia passou a ser instrumento direto de influência entre Estados, afetando a segurança nacional, diplomacia e até eleições. Este artigo propõe-se a compreender como a presença do TikTok em países democráticos têm levantado preocupações relativas à soberania digital1, manipulação de informação e segurança de dados.

A INFLUÊNCIA GLOBAL DO TIKTOK

Como destaca Stokel-Walker (2022), o TikTok é a primeira plataforma chinesa a alcançar sucesso verdadeiramente global. A sua estrutura baseada em algoritmos de recomendação por content graph, que privilegia o comportamento do usuário, não suas conexões sociais, permite que conteúdos se tornem virais mesmo vindos de contas anônimas. Essa lógica rompe com o modelo tradicional de plataformas como o Facebook e o Instagram.

O impacto do TikTok na cultura global é notável. A plataforma influenciou diretamente a indústria musical, modificando o modo como as músicas se tornam populares, a exemplo de “Old Town Road” de Lil Nas X que ficou por seis semanas no topo da parada da Billboard Hot 100. Ao mesmo tempo, ela se transformou em um espaço onde ativismos políticos, discursos ideológicos e campanhas eleitorais ganham visibilidade. Segundo a Modern Diplomacy (2024), o TikTok tem um papel cada vez mais relevante na formação da opinião pública, especialmente entre os jovens.

De acordo com Stokel-Walker (2022), a visão política do aplicativo se deu de forma intrínseca, já que no período do o assassinato de George Floyd e as manifestações Black Lives Matter, uma jovem de 16 anos chamada Charlie D’Amelio que se tornou famosa por seus videos coreografados passou uma mensagem sobre o papel dela de influenciadora de informar sobre as desigualdades raciais do mundo. Em 16 horas, o vídeo teve 21 milhões de visualizações, nesse sentido, “agora não era apenas o que D’Amelio fazia moldaria a próxima tendência no aplicativo; sua fala ditaria o tipo e o tom das conversas nos dias e semanas seguintes” (Stokel-Walker, 2022, p.197).

TikTok em Iphone. 2023. Alpha Photo.

SOBERANIA DIGITAL E A REAÇÃO OCIDENTAL

A popularidade do TikTok em países como os Estados Unidos, Reino Unido e Índia levou autoridades a questionarem a segurança dos dados coletados pelo aplicativo. A Kudelski Security (2024) argumenta que a principal questão reside na soberania digital: os dados de cidadãos devem estar protegidos por leis locais e não acessíveis por governos estrangeiros.

A Índia foi o primeiro grande país a banir o TikTok. A discussão começou após duas mulheres, com jeans apertados e bonés de beisebol, dançando em frente a um templo, tal ato gerou uma revolta contra o TikTok em Tamil Nadu, estado indiano, no início de 2019 quando vários políticos se posicionaram querendo proibir o uso do aplicativo alegando que a exposição de tais comportamentos era uma forma de degradação cultural. Em 2020, o Estado indiano proibiu 59 aplicativos chineses, dentre eles estava o TikTok e a decisão apontava que os aplicativos eram prejudiciais à soberania, integridade, defesa, à segurança do Estado e à ordem pública (Stokel-Walker, 2022). Esse caso evidenciou como decisões políticas podem moldar ecossistemas digitais inteiros.

Em agosto de 2020, o então presidente dos Estados Unidos Donald Trump, determinou por meio de uma ordem executiva uma data de execução para o TikTok para dali a 45 dias, a menos que a empresa fosse vendida para um parceiro americano. Dali em diante, os líderes do TikTok e seus advogados foram “empurrando com a barriga” a decisão com a intenção de que ao final do mandato e caso Trump perdesse as eleições, a situação desapareceria. Nesse imbróglio, durante a segunda metade de 2020, o candidato à presidência Joe Biden, decidiu não fazer campanha política devido a pandemia do Coronavírus, enquanto Trump estava tentando desviar a atenção dos seus fracassos políticos e encontrou um adversário: o TikTok. 

Mesmo diante de toda as discussões e exposições o TikTok continua vivo nos Estados Unidos, embora Donald Trump tenha “sujado” sua imagem perante os estadunidenses:metade por achar um risco a segurança nacional e a outra metade por achar que o TikTok pode compartilhar seus dados pessoais com o governo Chinês. Embora o TikTok alegue que os dados de usuários americanos são armazenados nos EUA e em Singapura, persistem suspeitas de que o governo chinês poderia forçar a entrega dessas informações por meio de sua legislação nacional.

A União Europeia também está investigando práticas do TikTok sob a lente do Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR), enfatizando a preocupação crescente com a regulamentação de plataformas estrangeiras. Stokel-Walker (2022, p. 229) afirma em seu livro: 

“ Da mesma forma, a campanha de Donald Trump contra o TikTok poderia ser explicada como a de um presidente norte-americano que buscava demonizar um inimigo para aumentar suas chances de reeleição depois do fracasso de seu plano de revitalização econômica, e não por haver evidências de algum perigo relativo aos dados. Indiscutivelmente, o TikTok se tornou o bode expiatório em uma batalha de superpotências para definir o futuro de nosso mundo nas próximas décadas.” .

“Uma foto em close-up de uma mulher usando o aplicativo TikTok em seu smartphone enquanto relaxa ao ar livre em um parque.”(tradução livre). Fonte: Canva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O TikTok é mais do que uma rede social: é uma plataforma no centro de uma disputa global por hegemonia tecnológica. Sua presença em mercados ocidentais coloca em xeque paradigmas de governança digital e levanta questões essenciais sobre o futuro da internet aberta e democrática.

A resposta dos países ocidentais tende à regulamentação, nacionalização de dados e contenção da influência estrangeira. Contudo, essas medidas enfrentam dilemas: proteger a soberania sem cair na censura; garantir segurança sem fechar as portas à inovação.

Neste cenário, o TikTok tornou-se um símbolo de uma nova Guerra Fria digital, onde algoritmos substituem exércitos e servidores substituem tanques. Com isso, compreender sua trajetória e impactos é essencial para qualquer análise séria sobre tecnologia, política e relações internacionais neste século.

REFERÊNCIAS

KUDELSKI SECURITY. The TikTok Ban: A New Era of Tech Geopolitics. 2024. Disponível em: https://kudelskisecurity.com/modern-ciso-blog/the-tiktok-ban-a-new-era-of-tech-geopolitics/. Acesso em: 8 maio 2025.

COMETTI, Marcelo Tadeu. Soberania Digital: Desafios e Implicações Jurídicas. 27 jan. 2025. Legale Educacional. Disponível em: https://legale.com.br/blog/soberania-digital-desafios-e-implicacoes-juridicas/. Acesso em: 16 maio 2025.

MODERN DIPLOMACY. The Power of Social Media to Influence Political Views and Geopolitical Issues: TikTok, X and Instagram. 2024. Disponível em: https://moderndiplomacy.eu/2024/09/19/the-power-of-social-media-to-influence-political-views-and-geopolitical-issues-tiktok-x-and-instagram/. Acesso em: 8 maio 2025.

STOKEL-WALKER, Chris. TikTok Boom: Um Aplicativo Viciante e a Corrida Chinesa Pelo Domínio das Redes Sociais. São Paulo: Editora Alta Books, 2022.

IMAGENS

ALPHA PHOTO. TikTok em Iphone. 2023. Disponível em: https://flic.kr/p/2oerkec. Acesso em: 10 maio 2025.

ANTONBE. TikTok Aplicativo. 2020. Disponível em: https://pixabay.com/pt/photos/tiktok-aplicativo-iphone-telefone-5064078/. Acesso em: 10 maio 2025.

BONGKARNGRAPHIC. A close-up of a woman using the TikTok app on her smartphone while relaxing outdoors in park. 2024. Disponível em: https://www.canva.com/photos/MAGQ_un1C_U/. Acesso em: 10 maio 2025.

  1.  “A soberania digital refere-se ao controle governamental sobre os aspectos digitais dentro de um território nacional. Este conceito envolve a capacidade de um Estado regulamentar a internet e as informações que fluem em suas fronteiras, assegurando que tais atividades estejam em conformidade com suas leis e regulamentos locais. Em um cenário de rápida digitalização, a soberania digital tornou-se crítica para a proteção dos interesses nacionais, a segurança cibernética e a privacidade dos cidadãos.” (Cometti, 2025) ↩︎

Victória Catarina Nascimento

Um comentário em “TIKTOK E GEOPOLÍTICA: A GUERRA FRIA DIGITAL ENTRE CHINA E O OCIDENTE

  1. Boa noite, tudo certo? O texto apresenta comentários de revisão que não foram retirados antes de ir ao ar. Apenas avisando para as próximas publicações! Ótimo tema inclusive 🙂

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