FIRST THEY KILLED MY FATHER

FIRST THEY KILLED MY FATHER

Hoje apresentaremos um filme sobre Camboja. Uma antiga Camboja. Primeiro Eles Mataram meu Pai (First They Killed My Father) é um filme baseado na autobiografia de Loung Ung e dirigido por Angelina Jolie. Este período sombrio, sangrento e que causou um dos piores genocídios da história é relatado pelos olhos de uma criança de cinco anos. Como o próprio filme retrata, Camboja era uma nação neutra desde a Conferência de Genebra de 1954, com os Estados Unidos respeitando sua neutralidade até a Guerra Civil de 1967. A eclosão do conflito foi um seguimento da guerra do Vietnã, país fronteiriço, que teve como resultado o emprego de destrutivas campanhas de bombardeio pelos EUA.

O movimento comunista do Camboja teve origem no Partido Revolucionário do Povo Khmer, formado em 1951 sob o apoio do Viet Minh no Vietnã. Os líderes marxistas do partido, em grande parte formados por franceses, acabaram renomeando-o como Partido Comunista do Kampuchea. No final da década de 1950, seus membros estavam envolvidos em atividades contra o governo do príncipe Norodom Sihanouk, entretanto, por longos anos tiveram pouco progresso contra Sihanouk através de suas bases em florestas remotas e áreas montanhosas, em parte por causa da popularidade de Sihanouk entre os camponeses que os comunistas. Foi entre o final da década de 1960 que o Khmer Vermelho surgiu como o braço armado do Partido Comunista do Kampuchea (Britannica, 2020).

Com a eclosão da Guerra Civil, em 1970, Lon Nol (líder do Khmer Vermelho) instaurou um golpe de Estado, destituindo o então príncipe Norodom Sihanouk, com a assistência norte-americana, uma vez que Sihanouk tinha afinidade com o Vietnã do Norte e era contra os militares americanos e, portanto, com o Vietnã do Sul. Com isso, em 1975, o Khmer Vermelho invadiu a capital do país, Phnom Penh, e começou a governar Camboja, finalizando a guerra civil. É a partir desse ponto histórico que Primeiro Eles Mataram meu Pai configura a vida de Loung Ung.Como pontuado por Seitz (2017):

O filme começa com um prólogo aludindo a como o bombardeio americano no Camboja durante os anos finais da guerra ajudou a criar um vácuo de poder que pessoas cruéis correram para preencher. Isso é relatado por meio de documentários e clipes de notícias de bombardeiros incinerando florestas, tropas americanas compreensivelmente expressando pouco interesse ou animosidade em relação ao Camboja, o então presidente Richard Nixon insistindo que não há guerra americana lá e o então secretário de Estado Henry Kissinger prometendo cruelmente um “solução final” na região. (Rogerebert, 2017).

A vida de Loung Ung até os seus cinco anos era de extrema estabilidade, principalmente financeira, uma vez que seu pai trabalhava para o governo até então vigente. Entretanto, sua vida muda de forma radical quando o Khmer vermelho, liderado por Pol Pot, invade Phnom Penh. Pot isolou Camboja da comunidade internacional e instalou diversas leis e medidas drásticas a seus cidadãos, como o reassentamento de milhares de habitantes da zonas urbanas para as comunidades agrícolas, abolindo a propriedade privada e matando quaisquer pessoas que fossem contra suas normas.

A adaptação de Loung Ung e sua família a essa nova realidade não é fácil. Muitas vezes, a menina de apenas cinco anos pergunta a seus pais porque precisam conviver com os “pobres” e passar por todas aquelas necessidades. Uma das cenas mais fortes, é quando avassalada pela fome, Loung sonha sobre um grande banquete de comida, onde come desesperadamente tudo que vê pela frente. Ao acordar do sonho, acaba roubando arroz do pouco suprimento de sua família. Seu irmão percebe, porém seu pai entende e a perdoa. Infelizmente, seu pai acaba sendo morto e, logo após, a garota acaba se tornando órfã.

Ao se tornar órfã, o filme retrata um novo ciclo na vida de Loung: o seu treinamento como soldado do Khmer Vermelho. Crianças são treinadas, portando armas maiores que elas próprias e passando por cenas que nem em seus piores pesadelos passariam. Sem muitos spoilers, o filme termina retratando esse período da vida de Loung Ung, que, sem imaginar, vivenciou o genocídio que mataria um quarto da população de seu país. Proporcionalmente, foi o genocídio que mais matou em todo o mundo.

First They Killed My Father, é um dos filmes mais bem desenvolvidos e aclamados, segundo a crítica, por Angelina Jolie. Além disso, o filme é extremamente representativo e simbólico para a diretora, seu filho adotivo, Maddox Jolie-Pitt, é originário de Camboja e com apenas 17 anos co-produziu o filme com sua mãe. Retrata, assim, de forma indulgente uma história que é pouco exposta e até mesmo esquecida não só pela cinematografia internacional, como pelas Relações Internacionais. Como pontuado por The Guardian:

Jolie enquadra a ação em um contexto político que coloca a culpa não apenas em Pol Pot, mas em Richard Nixon e Henry Kissinger e suas campanhas não oficiais de bombardeio contra um país neutro. No Camboja, o governo dos Estados Unidos realmente encontrou uma maneira de provar sua teoria do “dominó”: a violência grotesca causou dor, angústia, raiva e popularidade do Khmer Vermelho em uma cadeia de consequências, fatores que se derrubaram uns contra os outros como dominós. No entanto, a verdadeira ferocidade do filme é reservada para os ideólogos do terror. A estonteante quietude visual, com a qual Loung originalmente registrou a absoluta estranheza de sua nova vida maoísta no país, não está mais em evidência. Existe apenas sofrimento e dor. As cenas finais do filme, mostrando as próprias figuras como adultos, gestos de cura, encerramento e perdão. Entretanto, é muito difícil esquecer o horror do que aconteceu antes. Primordialmente, daquilo que aconteceu com uma crianças, as memórias destas são de uma recordação contínua. (The Guardian, 2017)

Em 1979, o comando comunista do Khmer Vermelho foi derrubado, deixando cicatrizes duradouras e milhões de mortos. Muitos ex-membros do partido continuam no poder, incluindo o primeiro-ministro Hun Sen, desde 1985, tendo o cargo mais antigo do mundo. Ou seja, a democracia do Camboja nunca se tornou completamente livre e aberta. As Câmaras Extraordinárias nos Tribunais do Camboja (ECCC) reconheceram o genocídio cambojanjo em novembro de 2018, conendando vários líderes políticos envolvidos, entretanto recentemente cessou os julgamentos. Primordialmente, devido ao ritmo dos processos, aos anos de avanço dos suspeitos criminosos, dois dos quais morreram enquanto enfrentavam o julgamento, o outro foi considerado incapaz de ser julgado (Pol Pot faleceu em  1998, sem nunca ter sido julgado). Isso, somado às persistentes acusações de interferência política do governo cambojano, azedou as atitudes em relação ao tribunal.(CNN, 2015)

REFERÊNCIAS

BRITANNICA. Khmer Rouge. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Pol-Pot. Acesso em: 1 nov. 2021.

ROGEREBERT. First they killed my father. Disponível em: https://www.rogerebert.com/reviews/first-they-killed-my-father-2017. Acesso em: 1 nov. 2021.

THE GUARDIAN. First They Killed My Father review – Angelina Jolie’s triumph spotlights casualties of war. Disponível em: https://www.theguardian.com/film/2017/sep/12/first-they-killed-my-father-review-angelina-jolies-triumph-spotlights-casualties-of-war. Acesso em: 1 nov. 2021

CNN. Scars of the Khmer Rouge: How Cambodia is healing from a genocide.  Diposnível em: https://edition.cnn.com/2015/04/16/asia/cambodia-khmer-rouge-anniversary/index.html

Ana Clara Bueno

Estudante de Relações Internacionais pela UFG. Apaixonada por Direitos Humanos, Segurança internacional e Política Externa. Mescla todas suas paixões com produções cinematográficas. Futura ativista dos Direitos dos Animais.

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