OS ÓRFÃOS DA UNIÃO SOVIÉTICA: A IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA DOS PAÍSES DA ÁSIA CENTRAL

OS ÓRFÃOS DA UNIÃO SOVIÉTICA: A IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA DOS PAÍSES DA ÁSIA CENTRAL

A Ásia Central corresponde à região localizada especificamente no centro do continente asiático (figura 1). Composta por cinco países, Uzbequistão, Cazaquistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tajiquistão, que surgiram em 1991 mediante a queda da antiga União Soviética, é uma região marcada por momentos de instabilidades e regimes autoritários. De acordo com Vieira (2020), a Ásia Central pode ser vista como um importante centro do pensamento islâmico desde o princípio de sua implantação. Foi exatamente isso que definiu a identidade de sua população. Vale ressaltar que o islamismo foi proibido durante o regime soviético.

Figura 1- Mapa da Ásia Central 

Fonte: Wikivoyage

Para Vieira (2020), com o declínio Soviético, os movimentos políticos de caráter islâmicos emergiram novamente, todos afastados da via democrática. Um exemplo disso é o Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU), movimento político ligado à Al-Qaeda, criado no final de 1990.

A PROBLEMÁTICA DO TERRORISMO

De forma ampla se pode dizer que, dentre as ex-Repúblicas da URSS, os países da Ásia Central foram os que mais apresentaram certo nível de estabilidade após o colapso do bloco, em 1991. Porém, com a desocupação soviética, um novo problema emergiu na região, a emergência de grupos terrorista motivados pelo extremismo islâmico. Já foi citado aqui que as Repúblicas centro-asiáticas, antes da ocupação da URSS, apresentavam características islâmicas e que o movimento foi sufocado pelo Regime Comunista. Diante disso, quando os países se tornaram independentes, os ideais islâmicos ressurgiram, agora, em contexto de radicalismo.

De acordo com Abazov (2008), a fim de solucionar os desafios em torno das crescentes tensões nas Republicas Centro- Asiáticas, os governos desses países determinaram a proibição de qualquer organização política que se baseasse em ideologias religiosas ou étnicas. Os resultados dessa política foram desastrosos e tiveram efeitos contrários ao planejado. Acabou por incentivar mais jovens a aderirem aos grupos extremistas como forma de se contrapor ao governo. A estrutura política da Ásia Central remete ao Regime Soviético, sendo a explicação para a atual perseguição às ideologias islâmicas. Segundo, Simão (2010):

[…]a definição de prioridades de segurança traduziu-se numa política externa de equilíbrio entre os diferentes actores na região. Traduziu-se também em difíceis relações regionais, marcadas principalmente por receios de que a instabilidade no Tajiquistão e no Afeganistão se espalhasse por toda a Ásia Central. Isto significou que os movimentos religiosos islâmicos passaram a ser vistos como uma ameaça aos poderes políticos instituídos e, especialmente no Usbequistão, fossem violentamente reprimidos. Por sua vez, tal manifestou-se num contexto de decrescentes liberdades políticas, civis e religiosas, justificadas por receios muitas vezes infundados, face aos movimentos islâmicos. (SIMAO, Licínia. 2010, p. 63)

Diante disso, nota-se que os governos totalitários da Ásia Central se organizaram em torno do suposto perigo islâmico que poderia ameaçar a estabilidade das Repúblicas. O interesse  das potências que hoje atuam na região também se baseia na luta contra o avanço de possíveis grupos terroristas, e, por isso, atuam juntamente com os governos locais destes países, no combate ao Jihadismo[1]. Para Simão (2010, p. 63)), “o impulso das instituições ocidentais para criar democracias liberais no espaço de influência da União Soviética, visível principalmente nos países bálticos e na Europa de Leste, foi mais moderado nos países da Ásia Central e do Cáucaso do Sul.” Dado o pressuposto, a preocupação da comunidade internacional não é com repressão civil e falhas democráticas, mas com a possibilidade de insurgência de conflitos generalizados que dificultem as trocas comerciais.

IMPORTÂNCIA GEOESTRATÉGICA

Os interesses de outros países na Ásia Central se dão por dois motivos principais: localização geográfica e potencial econômico.  Para Duarte (2016), a área é importante na conjuntura econômica atual devido sua posição estratégica, que conecta o Ocidente e o Oriente, motivo esse, que coloca a região como um espaço de competição entre as grandes potências. Além disso, constituiu o elo crucial entre grandes economias como China, União Européia, Índia, Japão e Rússia.  

Quanto a sua importância econômica, a Ásia Central chama atenção pela existência de importantes reservas de petróleo e gás natural em três Estados, especificamente: Cazaquistão, Turcomenistão e Uzbequistão (DUARTE, 2016). Destaca-se aqui o Turcomenistão, uma vez que o país possui a quarta maior reserva de gás natural do mundo. Para Siebauer (2019, p.26), “por conta da abundância dos diversos recursos espalhados pela região, várias nações, bem como empresas, buscaram estabelecer relações comerciais para com todos os países da Ásia Central.”

Diante disso, atualmente, a região é vista por muitos atores internacionais como um local de oportunidades, porém repleto de desafios, dentre eles: barrar a influência do jihadismo e dos regimes totalitários. Para Duarte (2016, p. 90), “os regimes políticos estabelecidos nas Repúblicas centro-asiáticas são, todos eles, autoritários, ainda que os níveis de autoritarismo variem de acordo com o país em questão.” O Turcomenistão, por exemplo, detentor de grandes reservas de gás natural, é conhecido por ser um país extremamente autoritário e um dos mais repressores do mundo. (ABDURASULOV, 2014)[2]

ÁREA PIVÔ

A ideia do Pivô geográfico foi uma teoria proposta pelo geógrafo britânico John Halford Mackinder (1861-1947). A proposta geral desta teoria era pontuar o princípio de que ter controle sobre determinadas áreas terrestres seria superior ao poder naval. Para o autor, quem controlasse essa região, também denominada de heartland (Figura 2), poderia suprir suas demandas por recursos naturais dada a riqueza geológica do local. Além disso, a própria geografia acidentada do local já seria uma arma contra possíveis invasores. [3]

Figura 2-  Regiões que compreendiam o “Heartland” de Halford Mackinder (1904) e as Repúblicas da Ásia Central hoje

Fonte: <https://www.ca-c.org/journal/2005/journal_eng/cac-04/02.megeng.shtml>

Para Mackinder, conquistar essa região era a chave para se conquistar a hegemonia global. Logo, o poder marítimo viria como uma consequência do poder terrestre. Vale ressaltar que o autor escreveu durante uma época em que as disputas pelo controle dos oceanos estavam a todo vapor e diversas regiões estavam buscando conquistar o acesso ao mediterrâneo, importante rota comercial. De acordo com Mello (1999, p. 40), o argumento do geógrafo britânico se centrava na ideia de que era mais propício ao poder terrestre “construir uma esquadra e lançar-se ao oceano a partir de sua plataforma continental, que para o poder marítimo organizar um exercício e lançar-se à terra a partir de sua base insular.”. Logicamente, ao se analisar alguns casos, essa ideia pode cair por terra. Entretanto, ainda é viável para analisar a influência estratégica da Ásia Central.

Atualmente, diversas potências buscam exercer certa influência no local, como os EUA e União Europeia. No entanto, como destaca Dos Santos (2018):

Hoje, os governos dos cinco países são mais alinhados a Moscou, Pequim, Nova Deli e Istambul. Tanto Moscou, quanto Pequim enxergam na região uma zona de escoamento comercial entre Oriente e Ocidente. Para tal, a China tem investido uma quantia significante de seu orçamento para a construção de ferrovias e rodovias. Em termo de recurso, a China visando o seu mercado interno, investe na construção de vários gasodutos pela região, levando a produção diretamente para o seu território e atendendo a sua própria demanda. (DOS SANTOS, 2018, p. 15)

Outro ponto a ser ressaltado é que a Ásia central foi extremamente importante no contexto de implantação da primeira rota da seda. Novamente, a região é alvo dos investimentos chineses para que o projeto denominado Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative –BRI), ou nova rota da seda, seja colocado em prática. A estratégia chinesa é criar conexão entre China e diversas outras regiões da Europa, Ásia e África por meio de malhas ferroviárias formando, assim, uma grande rede para escoação de produtos chineses. Segundo Nurgozhayeva (2020):

O crescente envolvimento econômico com a China permite que Pequim pressione os governos da Ásia Central para se aliarem aos planos e políticas da China. […] Para os governos da Ásia Central, incluindo Cazaquistão, Pequim e seu modelo, é um ponto de referência robusto que ajuda a proteger a legitimidade do regime. O modelo chinês de economia de mercado impulsionada pelo Estado, com sociedade civil fraca, rígido controle do Estado e hegemonia política de um único partido no poder, parece atraente para a legitimidade da elite política doméstica, mas não para o público. (NURGOZHAYEVA, 2020, p. 260-261, tradução nossa)

Atualmente, os projetos chineses na Ásia Central são mais notáveis no Cazaquistão. De acordo com Nurgozhayeva (2020), a China já investiu mais de US$ 17 bilhões no país em diversas obras de infraestrutura. Além disso, foram selados acordos entre os países com projeção de realização até 2022. No Uzbequistão, o governo Chinês elaborou obras de caráter faraônicos, dentre elas, a construção do Túnel Kamchiq, o maior da Ásia Central, construído sob 7 falhas geológicas e que custou, aproximadamente, 1,9 bilhões de dólares. Há, ainda, propostas para a construção de gasodutos e oleodutos por todo o território.

Diante desse cenário, é notório que os teores econômico e comercial têm sido usados como estratégia da China para se consolidar na Ásia Central, mas não só da China. A Rússia, desde a independência das Repúblicas centro-asiáticas, busca, por meio de acordos comerciais, manter sua influência sobre a região e, de certa forma, manter a estabilidade do local. A manutenção de uma política de boa vizinha é uma estratégia para garantir o acesso russo aos recursos do país. É importante frisar aqui que os países da Ásia Central possuem enormes reservas de urânio, recurso útil para fins bélicos e geração de energia.[4] Segundo Dos Santos (2018, p.17), “para que consigam manter essa influência e que o jogo ocorra conforme os seus planos, China e Rússia depreendem bilhões em acordos, empréstimos e suportes a projetos na Ásia Central, bem como apoio militar, já que os países possuem historicamente tensões étnicas.”

Os diversos jogos estratégicos entre potências e os investimentos diretos nos países da Ásia Central têm colaborado para o desenvolvimento de uma estabilidade econômica na região. Entretanto, quando se trata da estabilidade política, se pode dizer que a Ásia Central está próxima a um colapso. O autoritarismo e os elevados índices de corrupção elevam as tensões entre os governos e as populações, fator esse que pode ser determinante para eclosão de futuros conflitos civis, inclusive para o ressurgimento de grupos jihadistas. (MAKARENKO, 2009)

NOTAS

[1] “Jihadismo’ é um termo desajeitado e controverso.  Refere-se à corrente periférica do pensamento extremista islâmico, cujos adeptos exigem o uso da violência para expulsar a influência não islâmica de terras tradicionalmente muçulmanas a fim de estabelecer o verdadeiro governo islâmico de acordo com a Sharia, ou a lei de Deus.” (BRACHMAN, Jarret M. Global jihadism: Theory and practice. 2008, p. 4, grifos do autor, tradução nossa).

[2] Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141229_turkmenistao_f>

[3] “As características geográficas são a chave da teoria de Mackinder, uma vez que o autor comenta que o território que ele primeiramente delimitou como Heartland possuía vastas planícies que permitiriam o desenvolvimento e exploração, possibilitando até mesmo, segundo o autor, criação de uma rede ferroviária que atenderia toda a necessidade logística daquela região. Outra característica chave é o caráter extremamente terrestre da teoria de Mackinder, uma vez que ela é inalcançável por meios marítimos, promovendo uma proteção diante das potências marítimas que poderiam ameaçar o controle do Heartland.” (SIEBAUER, Jonathan. Rússia e Ásia Central: uma análise pelo viés da teoria do heartland. 2019, p. 14)

[4] SIEBAUER, Jonathan et al. Rússia e Ásia Central: uma análise sob a perspectiva da teoria Heartland. 2019. Disponível em:<https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/209701/Jonathan%20Siebauer.pdf?sequence=1>

BIBLIOGRAFIA

ABAZOV, Rafis. The Palgrave concise historical atlas of Central Asia. USA, Palgrave Macmillan, 2008.

ABDURASULOV, Abdujalil. Turcomenistão: a vida num dos países mais repressores do mundo. BBC, Turcomenistão, 29 dezembro 2014. Disponível em:<https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141229_turkmenistao_fd> Acesso em: 1 dez. 2020

BRACHMAN, Jarret M. Global jihadism: Theory and practice. Routledge, 2008.

CA&C PRESS AB. Mackinder’s “heartland”: a help or hindrance in understanding central asia’s international relations?. Disponível em:<https://www.cac.org/journal/2005/journal_eng/cac-04/02.megeng.shtml> Acesso em:  30 nov.  2020.

DOS SANTOS, Jonathan Christian Dias. Ásia Central: a importância geoestratégica de uma região desconhecida. História, Natureza e Espaço-Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa NIESBF, v. 7, n. 1, 2018.

DUARTE, Paulo. Ásia Central: a geopolítica do centro do mundo. Revista de Geopolítica, v. 5, n. 2, p. 79-96, 2016. Disponível em: <http://revistageopolitica.com.br/index.php/revistageopolitica/article/viewFile/111/110> Acesso em:  30 nov.  2020.

MAKARENKO, Tamara. Ásia Central: onde o poder, a política e a economia colidem. Revista da NATO. Disponível em: <https://www.nato.int/docu/review/2009/Asia/central_asian_geopolitics/PT/index.htm> Acesso em:  30 nov.  2020.

MELLO, Leonel Itaussu Almeida. Quem tem medo da geopolítica? São Paulo. EDUSP. 1999, 298p.

NURGOZHAYEVA, Roza. Rule-Making, Rule-Taking or Rule-Rejecting under the Belt and Road Initiative: A Central Asian Perspective, The Chinese Journal of Comparative Law, Volume 8, Issue 1, June 2020, Pages 250–278. Disponível em: <https://academic.oup.com/cjcl/article/8/1/250/5841728> Acesso em: 30 nov. 2020

SIEBAUER, Jonathan. Rússia e Ásia Central: uma análise pelo viés da teoria do heartland. 2019. Monografia – Departamento de Ciências Econômicas e Relações Internacionais – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019.

SIMAO, Licínia. Da democracia na Ásia Central. Relações Internacionais, Lisboa , n. 26, p.61-66,  jun.  2010 .   Disponível em:<http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1645-91992010000200006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 1 dez.  2020.

THE DIPLOMAT. How is china’s Belt and Road changing Central Asia? Disponível em: <https://thediplomat.com/2020/07/how-is-chinas-belt-and-road-changing-central-asia/> Acesso em:  30 nov.  2020.

VIEIRA, Victor Carneiro Corrêa. Panturquismo em Xinjiang e na Ásia Central: entre o separatismo e a integração. Lua Nova, São Paulo, n. 109, p. 269-301, Abr/2020.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010264452020000100269&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:  30 nov.  2020.

Autor

  • Estudante do 7ºperíodo de Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás e pesquisadora no programa de iniciação científica sobre milícias brasileiras, crime organizado transnacional e assemblages globais da segurança.

Anna Clara Oliveira

Estudante do 7ºperíodo de Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás e pesquisadora no programa de iniciação científica sobre milícias brasileiras, crime organizado transnacional e assemblages globais da segurança.

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