UMA TAILÂNDIA COMO VOCÊ NUNCA VIU ANTES

UMA TAILÂNDIA COMO VOCÊ NUNCA VIU ANTES

A Tailândia é um país localizado no Sudeste Asiático que tem como vizinhos o Camboja, Vietnã e Laos, além disso é conhecida mundialmente por suas praias desertas, águas cristalinas, templos budistas monumentais e a capital Bangkok, responsável por uma vida noturna agitada que atrai milhares de turistas todos os anos. Entretanto, o país também carrega uma imagem “lado b”, digamos assim, tornando-se muito chamativa para os interessados no turismo sexual e na exploração de mulheres do país, muitas vezes intitulada “a capital da prostituição”, situação que é considerada ilegal e prejudicial para a população feminina. Entretanto, quais são as raízes desse problema? O que fez com que a Tailândia chegasse a esse ponto?

Para entendermos esse assunto a fundo, precisamos voltar à história tailandesa. 

A Tailândia em meados do século 14 vivia sob uma cultura em que existiam as figuras das “concubinas”, mulheres que tinham uma união com um homem já casado, era sustentada por ele e vista como uma escrava sexual, muitas vezes como objeto de troca de mercadorias. Já no século 17, devido ao fluxo de navegadores e exploradores europeus na região, era muito comum que os homens tailandeses oferecessem as mulheres tailandesas em troca de produtos. Muito tempo depois em 1932, foi posta o fim da escravidão no país e consequentemente o fim do sistema de concubidas, o que acabou por atingir milhares de mulheres que foram postas na rua e que a partir daquele momento não tinham escolaridade, trabalho remunerado e ninguém para dar suporte. Se antes elas eram escravizadas e impostas a fazerem isso, com o fim da escravidão muitas viram como única alternativa continuar se prostituindo, agora em troca de dinheiro para sobreviver (NUTTAVUTHISIT). 

Ainda, em um contexto de Segunda Guerra Mundial a Tailândia foi ocupada pelo Japão, fato que proporcionou o fluxo de milhares de soldados que contribuíram para o aliciamento de mulheres na prostiuição, somando-se ainda com a Guerra do Vietnã, momento em que diversos militares dos Estados Unidos apenas atravessavam a fronteira entre os dois países e interagiam com as mulheres tailandesas como forma de “recreação”. Ademais, na década de 1970 os viajantes masculinos totalizavam 70% dos turistas que se dirigiam ao país em busca do turismo sexual (SILVA, 2007). 

Segundo Petra e Wongchaissuwan (1993), em 1974 uma pesquisa do Departamento da Polícia Nacional revelou que haviam mais de 400 mil mulheres se prostituindo na Tailândia e entre 1974 e 1975 o Departamento de Bem Estar Social estimou que a maioria eram meninas entre 16 e 21 anos. Ainda, com suas raízes pautadas na objetificação da mulher, carência de políticas públicas e pobreza da população, muitas famílias que viviam no âmbito rural enxergavam a venda de suas filhas para cafetões como forma de evitar a falência, não à toa, em 1990 o número de turistas cresceu para 4,5 milhões e os lucros totalizaram 4,5 bilhões de dólares, representando 10% do Produto Interno Bruto (PIB) da Tailândia naquela época. 

O “sucesso” das indústrias sexuais é baseado em uma relação especial de interesses compartilhados por uma complexa rede de chefes militares, policiais, promotores de empresas turísticas, padrinhos e cafetões de prostitutas. Em Bangkok, mais de 800 salas de massagem, 400 casas noturnas e 55 bares gays são propriedades de políticos, empresários, generais e chefes da polícia tailandesa (PETRA; WONGCHAISUWAN, 1993, p. 89, TRADUÇÃO MINHA).

A maior parte do público que se dirige a esse tipo de turismo são homens     europeus de alto poder aquisitivo, muitas vezes apelidados de “reis neocolonialistas por um dia”, que utilizam de sua riqueza para explorar a relativa pobreza e vulnerabilidade dessas pessoas, além de fomentarem na Europa campanhas promocionais como o “Thailand Express Sex Tour” se referindo a Bangkok como um grande bordel.

É preciso reconhecer que os fatores de apoio que contribuem para essa imagem negativa decorrem da aplicação da lei corrupta que permite que os serviços sexuais comerciais prosperem no país, embora seja tecnicamente ilegal na Tailândia vender serviços sexuais (NUTTAVUTHISIT, 2007). 

E como isso influencia a Tailândia no presente?

Para além do mercado lucrativo, o país sofre consequências na saúde pública devido a proliferação da AIDS. No ano de 1993, 3 mil recém nascidos infectados foram localizados, somando-se a 40% das meninas que se prostituíam e eram soropositivas, portadoras do HIV (PETRA; WONGCHAISUWAN,1993). 

Segundo dados da UNDAIDS, o programa da ONU que tem como objetivo criar soluções e ajudar nações no combate à AIDS, entre os 70 milhões de habitantes que vivem na Tailândia, estima-se que 470 mil pessoas viviam com HIV e 14 mil morreram de doenças relacionadas à AIDS em 2019. Já em 2018, cerca da metade das novas infecções ocorreram entre pessoas de 15 a 24 anos e o número estimado de profissonais do sexo infectadas totalizava 145 mil ao redor do país. 

Outro estudo promovido pela UNICEF (Fundo de Emergência Internacional da ONU para a Infância) em 2015, revelou que apenas 31% dessas jovens em Bangkok e 50% em Chiang Mai (sexta maior cidade do país) receberam qualquer informação ou serviço relacionado ao HIV nos últimos 12 meses, em comparação com 80% de as outras populações-chave pesquisadas. 

A fim de driblar a “Lei de Prevenção e Supressão da Prostituição de 1996” da Tailândia que configura bórdeis e fins como ato ilegal, os proprietários desses ambientes e casas noturnas utilizam de anúncios ambíguos e serviços que ofertam convivências fora dos recintos comuns. Assim, passam despercebidos pelas autoridades locais, além de executarem esquemas de suborno e corrupção para não serem apreendidos. 

Atualmente a Tailândia conta com algumas Organizações Não Governamentais (ONG’S) direcionadas a dar suporte para as profissionais do sexo, como a “EMPOWER” criada em 1984 que tem como objetivo promover saúde e direitos humanos para essas pessoas através da educação sexual, exames médicos, distribuição de preservativos entre outros (EMPOWER, 2020). E a APNSW ativa desde 1994, uma associação regional de profisisonais do sexo com sede na Tailândia que visa proteger e assegurar os direitos humanos dessas pessoas na Ásia em geral, através de projetos em países como Nepal, Mianmar, Camboja e outros (APNSW, 2020).

Diante do exposto, é perceptível a complexidade desse tema e as dificuldades de superá-lo. De um lado existe uma construção histórica que oprime as mulheres e não as permite sonhar com um futuro diferente, além de um mercado bilionário interessado em manter o status quo e dificultar a emancipação dessas meninas vulneráveis. E do outro, a própria sociedade civil que usufrui desse turismo e contribui para a rotatividade do dinheiro e solidificação do turismo sexual na região.

Referências 

APNSW. Programs & Activities. 2020. Disponível em: https://www.apnsw.info. Acesso em: 26 nov. 2020.

PETRA, James F.; WONGCHAISUWAN, Tienchai. Tailandia: libre mercado , sida y prostitución infantil. Africa América Latina, cuadernos. n. 11, p. 87-94, 1993. Disponível em:  http://publicaciones.sodepaz.org/images/uploads/documents/revista011/08_tailandia.pdf. Acesso em: 26 nov. 2020. 

SILVA, Tatiana Amaral. Turismo sexual, prostituição e gênero: uma discussão teórica. Ilhéus, 2007. Disponível em: http://www.uesc.br/seminariomulher/anais/PDF/Mesas/TATIANA%20AMARAL%20SILVA.pdf. Acesso em: 26 nov. 2020. 

NSWP. Empower Foundation. 2020. Disponível em: https://www.nswp.org/members/asia-and-the-pacific/empower-foundation . Acesso em: 26 nov. 2020.

NUTTAVUTHISIT, K. Branding Thailand: Correcting the negative image of sex tourism. Place Branding and Public Diplomacy, 21–30, 2007. Disponível em:  https://doi.org/10.1057/palgrave.pb.6000045. Acesso em: 26 nov. 2020. 

UNAIDS. AIDS Data 2019. Disponível em: https://www.unaids.org/sites/default/files/media_asset/2019-UNAIDS-data_en.pdf. Acesso em: 26 nov. de 2020. 

UNICEF 2015.  Análise situacional de jovens sob alto risco de exposição ao HIV na Tailândia. Disponível em: https://www.unicef.org/infobycountry/files/report__adolescents_under_the_radar_final.pdf. Acesso em: 26 nov. 2020. 

Juliana Brito

Baiana e estudante de Relações Internacionais na PUC Minas em Belo Horizonte. Tem interesse em Segurança Internacional, Direitos Humanos e debates Pós-coloniais.

Um comentário em “UMA TAILÂNDIA COMO VOCÊ NUNCA VIU ANTES

  1. Nossa, muito interessante o artigo! Tenho muito interesse em assuntos relacionados ao sudeste asiático e não tinha conhecimento sobre isso. Muito bom mesmo.

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