ARTEMIS, A CIDADE DA LUA, E O CAPITALISMO

ARTEMIS, A CIDADE DA LUA, E O CAPITALISMO

Não queria gastar mais tempo dentro da mente de uma economista. Era um lugar escuro e perturbador.

Artemis, Andy Weir.

O livro Artemis, escrito por Andy Weir, apresenta uma premissa básica sobre o capitalismo. A história se passa em uma cidade na Lua, homônima ao título da obra, local em que grandes desigualdades sociais ocorrem. Se o morador não for alguém rico ou um empresário, o trabalho é sufocante.

Com base nisso, a ficção científica retrata a história de Jazz Bashara. A mulher é uma contrabandista que recebe uma proposta única: cometer o “crime perfeito” e conseguir todas as “grades” (créditos) que necessita. Entretanto, Jazz acaba se envolvendo em conspirações para a tomada de poder da cidade, encontrando-se presa entre rixas de políticos e empresários sedentos.

Durante os ocorridos da obra, a qual possui uma narrativa especial marcada pelo sarcasmo de Weir e pelos apaixonantes cenários da Lua, muitas críticas e observações são tecidas pelo autor. Com um olhar político mais atento, vamos analisar algumas delas aqui.

Quem manda no espaço?

Um tema popular nos últimos anos – e recorrente durante a Guerra Fria – é o do controle espacial. Até onde o universo seria explorado, quem o exploraria, quem o dominaria? Além disso, quais seriam as implicações de uma morada fora da Terra – especificamente na Lua? Em Artemis, todas essas questões são tratadas de forma explícita.

Para evitar spoilers, um resumo: Fidelis Ngigu, administradora de Artemis e antiga ministra de Finanças do Quênia, “criou toda a indústria espacial do país a partir do zero”. Aqui começa a ficção científica unindo-se à economia.

O Quênia tinha um – e apenas um – recurso para oferecer às empresas espaciais: o equador. Naves lançadas do equador podiam aproveitar totalmente a rotação da Terra para economizar combustível. Ngugi então percebeu que o país podia oferecer mais uma coisa: política. As nações ocidentais afogavam as empresas espaciais comerciais em burocracia […].
Só Deus sabe como ela convenceu cinquenta corporações de 34 países a jogar bilhões de dólares para criar a CEQ [Corporação Espacial do Quênia], mas convenceu. E garantiu que o Quênia aprovasse isenções de impostos e leis especiais só para a nova megacorporação.
Você pode estar se perguntando: “Por que isso?”. Não é injusto favorecer uma única empresa com leis especiais? Diga isso à East India Tea Company. Isso é economia global, e não um jardim de infância.
E imagine só, quando a CEQ precisou escolher alguém para administrar Artemis, escolheu… Fidelis Ngugi! É assim que as coisas são feitas. Ela tirou dinheiro de lugar nenhum, criou uma indústria gigantesca em seu país que anteriormente era de Terceiro Mundo e acabou ganhando o emprego de governante da Lua. Governava Artemis havia mais de vinte anos.

Artemis, Andy Weir.

Okay, mas quem constrói o espaço?

Passando para o tema de prática: no livro, Ngugi conseguiu criar uma corporação para investir no nascimento da cidade lunar. Mas quem iria fazer a parte difícil? A resposta é simples: imigrantes. A própria protagonista é árabe – ponto positivo na obra: representatividade racial. Assim, a construção de Artemis demandou a mão de obra barata que estava disponível. Isto é, massas de estrangeiros se direcionaram à cidade em busca de melhores condições de vida (o que não encontraram, sejamos honestos) e foram explorados durante a construção da metrópole da Lua.

A partir dessa diversidade de povos, é visto na narrativa que várias religiões e raças se misturam na cidade. Entretanto, a maioria dos moradores da Lua são de origem árabe e carregam consigo a própria cultura. Por exemplo, o pai de Jazz, Ammar Bashara, que a levou a Artemis quando ainda era uma criança, é muçulmano e, num momento da narrativa, construiu um apoio em sua parede para que o seu Salá (“tapete de oração”) estivesse voltado à Meca.

– Como pai, eu improvisei. Você sabe disso. Não tinha como aprender. Não existia manual. E escolhi uma vida dura para nós. Uma vida de imigrantes numa cidade de fronteira.

Artemis, Andy Weir.

E o funcionamento dessa cidade?

Durante a narrativa, Andy Weir dá muitas explicações teóricas e mecânicas sobre o funcionamento da cidade. Como o oxigênio é armazenado, como Artemis é protegida do vácuo espacial, qual é a alimentação dos moradores da Lua, etc. Todavia, quero tratar especificamente do tema de comércio.

Como você pode imaginar, muitas coisas não podem ser produzidas na Lua por motivos de infraestrutura, disponibilidade de materiais ou condições físicas para a confecção. Logo, é trazido da Terra é o que não é feito na Lua. Durante a viagem, o “preço” dos produtos é calculado com base em gramas, cuja “moeda” (não é bem uma moeda, mas um crédito) é chamada de grade.

– Bom… por que o dinheiro artemisense é chamado de grade? […]
– É uma abreviação de “gramas desembarcadas”. Uma grade paga 1 grama de carga mandada da Terra para Artemis, cortesia da CEQ.
– Tecnicamente não é uma moeda – disse Trond junto ao aparador. – Não somos um país; não podemos ter uma moeda. As grades são créditos de serviço pré-pago da CEQ. Você paga em dólares, euros, ienes, qualquer coisa. Em troca, tem um crédito de massa para ser transportada até Artemis. Você não precisa usá-lo todo de uma vez, por isso eles mantêm um rastreamento do seu saldo. […]
– Acabou sendo uma unidade útil para o comércio. Assim a CEQ funciona como um banco. A gente nunca poderia se dar bem com uma coisa assim na Terra, mas não estamos na Terra, certo?

Artemis, Andy Weir.

Entendi tudo isso… agora, onde entra o capitalismo?

Com o decorrer da história, como dito antes, Jazz se envolve em muitos conflitos pelo poder da cidade. Dentre essas situações, há um momento de debate sobre o funcionamento do capitalismo e sua forma de sobrevivência por intermédio de crises, de choques. No história contemporânea, pode-se exemplificar as crises de 1929, 1973 e 2008.

– Tudo faz parte do ciclo de vida de uma economia. Primeiro é o capitalismo sem lei, até que ele começa a impedir o crescimento. Em seguida vêm a regulamentação, as leis e os impostos. Depois disso: benefícios públicos e sociais. Depois, finalmente, o excesso de gastos e o colapso.
– Espere aí… Colapso?
– É, colapso. Uma economia é um organismo vivo. Nasce cheia de vitalidade e morre quando fica rígido e gasto. Então, pela necessidade, as pessoas se dividem em grupos econômicos menores e o ciclo recomeça, porém com mais economias. Economias bebês, como Artemis é agora.

Artemis, Andy Weir.

Conclusão

Artemis foi um dos primeiros livros de ficção científica que li fora do eixo Star Wars (sim, sou fã da saga). Recordo-me que quando peguei o livro para ler, fui atraída pela capa – que é linda, não me julguem – e pelo protagonismo feminino. Eu me surpreendi com a narração de Weir, dei umas boas risadas com seu sarcasmo e gostei bastante de analisar a economia capitalista num cenário lunar fictício.

Em suma, o livro pode ser lido rapidamente, uma vez que a escrita é direta e simples, além da história ser curta. Também, propõe debates interessantes ao leitor de uma forma prática e rápida. E, para aqueles que não querem sair do nicho da ficção – eu me incluo nessa categoria –, é uma boa alternativa para mergulhar em obras com temáticas mais profundas das que estamos acostumados sem perder o apreço pelo entretenimento.

Autor

Talita Soares

Internacionalista em formação, leitora voraz e escritora nas horas vagas.

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