ESPECIAL COPA DO MUNDO: CAMARÕES, O 3º CONFRONTO

ESPECIAL COPA DO MUNDO: CAMARÕES, O 3º CONFRONTO
Bandeira de Camarões. Imagem: Jorono. Reprodução: Pixabay

Camarões ganhou notoriedade mundial no futebol na Copa do Mundo da Itália, em 1990. Uma seleção que era vista antes daquele mundial como uma mera coadjuvante acabou surpreendendo até os mais pessimistas. Desbancou a então campeã Argentina, e outras seleções mais conhecidas, como Romênia e Colômbia, e chegou às quartas de final, quando foi derrotada na prorrogação pela Inglaterra em um jogo eletrizante, um dos melhores naquela competição, terminando em 7º lugar, na frente do Brasil, e foi aplaudida de pé no estádio mesmo com a eliminação.      

Antes disso, os “Leões Indomáveis” haviam participado da Copa da Espanha em 1982, e saíram invictos na primeira fase do torneio, com três empates em três partidas. Detalhe: arrancou pontos de adversários de peso. Um foi a Itália, que depois de uma campanha decepcionante na fase de grupos acabou com o título daquela edição, e a Polônia, que chegou à semifinal. Os camaroneses se tornaram uma força no futebol africano e a classificação para as Copas do Mundo se tornaram rotina. Eles disputaram o campeonato em 1994, 1998, 2002, 2010, 2014 e 2022.

Contra o Brasil, foram dois confrontos. O primeiro foi em 1994, nos Estados Unidos, quando a seleção canarinho venceu com um largo 3 a 0. O segundo foi em 2014, em Brasília, ano em que o país sediou a Copa do Mundo. Outra goleada brasileira por 4 a 1. Ao todo, foram cinco partidas disputadas entre as duas seleções, com quatro vitórias brasileiras e uma camaronesa com as seleções principais. Em jogos olímpicos, os leões eliminaram o Brasil em 2000, nas quartas de final, e conquistaram a medalha de ouro naquele ano, em Sidney (Austrália).

No Catar, Camarões será o terceiro e último adversário do Brasil na primeira fase, em partida nesta sexta, 2 de dezembro. Tantas disputas no futebol despertaram a atenção do Dois Níveis a pesquisar mais sobre o país africano. O que eles têm além do futebol? Será que estes encantos se estendem a outros aspectos? É o que este artigo do Especial Copa do Mundo do Dois Níveis irá mostrar, abordando conflitos, problemas, política, cultura, religião, história e outras curiosidades. Aproveitem o conteúdo e boa leitura!

A ÁFRICA EM MINIATURA

A República dos Camarões é conhecida por sua diversidade étnica e de biodiversidade, entre outros aspectos, o que é uma característica semelhante que pode ser observada em todo o continente. Para se ter uma ideia, apesar de o francês e o inglês serem os idiomas oficiais, há mais de 230 etnias e 250 dialetos. Esta analogia faz com que Camarões seja conhecida como “África em Miniatura” pelas suas riquezas culturais (POM, 2018).

Camarões fica na África Central, fazendo fronteira com os seguintes países: Nigéria a oeste; Chade a nordeste; República Centro-Africana a leste; e Guiné Equatorial, Gabão e República do Congo, ao sul. Sua extensão territorial é de 475.650 km² (um pouco maior que os estados de São paulo e Paraná juntos) A população estimada é de aproximadamente 24 milhões de habitantes (NATIONS ONLINE, 2022). A moeda local é o Franco CFA (Comunidade Financeira da África). A capital do país é Yaoundé e os idiomas oficiais são o francês e o inglês (EMBAIXADA DE CAMARÕES).

Mapa de Camarões e países fronteiriços. Imagem: Britannica.com

O país tem uma das mais altas taxas de escolaridade da África, atingindo 77% da população adulta (INDEXMUNDI, 2018). Na parte política, o regime de governo é o presidencialista e o chefe de governo é Paul Biya (desde 1982). O país conquistou sua independência em 1960 e desde então teve apenas dois presidentes. Antes de Biya, o país foi governado por Ahmadou Babatoura Ahidjo de 1960 a 1982 (REPUBLIC OF CAMEROON, 2022). Em relação ao desenvolvimento humano, o país está na 153ª colocação no ranking de IDH (COUNTRY ECONOMY, 2019).

HISTÓRIA E INDEPENDÊNCIA

Camarões sempre teve uma diversidade étnica. Historiadores apontam que por volta de  8.000 A.C um grupo étnico denominado Baka migrou para a região e existe até os dias de hoje. Por volta de 200 A.C havia indícios de ocupação da população de uma etnia chamada Banta. Já em 1500 A.C, pesquisas apontavam a existência do Reino Mandara, que povoava as montanhas. Nesta época, migrantes do povo Hamitic e os árabes se instalaram na região Norte do país, sendo seguidos por inúmeros outros grupos que chegaram posteriormente (BAMA, 2014).   

Estudos arqueológicos mostram que, ainda por volta dos anos 1.500 A.C., o país habitado pelos pigmeus e em seguida pelos bantos (grupos de povos negros que viviam na região que hoje estão localizados países da África Central. Ainda há descendentes distantes destes povos que vivem nas densas áreas de florestas camaronesas situadas no sudeste e leste do país tentando preservar as antigas tradições culturais (LONGLEY, 2020). 

Os primeiros europeus a desbravarem aquele território foram os portugueses, por volta de 1472, interessados em estabelecer comércio de produtos como os crustáceos e o tráfico de escravos na região e em países vizinhos. Mas a ocupação de alguns territórios africanos não atingiu o litoral camaronês, devido ao difícil acesso ao interior da região e a presença da malária cuja cura não havia sido descoberta. Entre 1770 e 1800, um povo muçulmano, os Fulani, oriundos do oeste Sahel, ocuparam o norte dos Camarões, introduzindo o islamismo e expulsando os povos não islâmicos (VISENTINI, 2010, p.7).

Em 1884, Camarões passou a ser colonizado pelos alemães, que tornaram o país uma espécie de protetorado, explorado economicamente, principalmente em setores como agricultura e comércio em que o objetivo focal era gerar cada vez mais lucros para a metrópole. Tal cenário permaneceu até a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha teve de renunciar à colônia, que passou a ser dividida entre França e Inglaterra (VISENTINI, 2010, p. 7).

Alhaji Ahmadu Ahidjo. Foto: Reprodução/Cameroon-Info.Net

A maior parte ficou com os franceses, e uma parte menor sob o domínio inglês. Esta influência dos dois países se traduziu em níveis diferentes de desenvolvimento, com a parte francesa do território sendo mais desenvolvida em relação à área de responsabilidade dos ingleses. E foi justamente a parte sob a alçada da França que se tornou independente primeiro no processo de emancipação de Camarões, em 1960. A incorporação da parte administrada pelos ingleses aconteceu um ano depois, em 1961 (SILVA, BOZZO, PANTANO E SANTOS, 2019, p.2).

Cabe ressaltar que, nos tempos de colonização, Camarões não teve uma situação distinta de outros países africanos (ex: Angola, Gabão e Congo) ocupados por colonizadores que logo viram nos negros uma oportunidade única de utilizá-los para o tráfico de escravos, alguns deles encaminhados para o outro lado do Oceano Atlântico para países como o Brasil. Ainda neste contexto, os negros também ofereceram resistência às ambições coloniais e ao tratamento cruel dado pelos colonizadores que pensavam única e exclusivamente no lucro (WILSON, 2013).

DOIS PRESIDENTES E DOMÍNIO FRANCÓFONO

Desde a independência, Camarões teve apenas dois governantes. Alhaji Ahmadu Ahidjo se tornou o primeiro presidente do país, em 1960, sendo reeleito para mais cinco mandatos consecutivos e durante sua gestão o país passou a ter apenas um partido político, a União Nacional de Camarões (UNC), dissolvendo as outras legendas existentes. Na época, Camarões dava sinais, depois de um processo eleitoral um pouco turbulento naquele ano, de que poderia se tornar um relativamente próspero (BRITANNICA, 2022).

Ahidjo abdicou do cargo em 1982, supostamente por motivos de saúde, sendo substituído por Paul Byia, que até os dias atuais exerce o comando do país. Ele é um dos líderes mais longevos da África, sendo que os longos períodos no poder dos chefes de Estado são historicamente uma característica notada em vários países do continente, tanto que Byia está no poder há 40 anos e articulou inclusive para aumentar de cinco para sete anos o mandato presidencial, em meio a diversas alegações de fraudes eleitorais. Mais um exemplo de um governo autocrata (BBC, 2022).

Paul Byia, presidente de Camarões há 40 anos. Foto: PRC.CA

O fato é que os dois únicos presidentes da República dos Camarões são francófonos, o que torna ainda mais notório o tratamento diferenciado direcionadoos falantes da língua francesa.  Neste contexto, Getúlio Alves de Almeida Neto avalia que este cenário começa a despertar um sentimento de revolta por parte da comunidade anglófona no país, que reivindicava mais voz e direitos no sistema político camaronês (OBSERVATÓRIO DOS CONFLITOS CONTEMPORÂNEOS, 2021, p.12).

“Tanto Ahidjo quanto Biya são camaroneses francófonos e, nesse sentido, a história camaronesa pós-independência é constituída por apenas dois presidentes, o que contribuiu para a centralização do poder político nas mãos da população falante de francês. À vista disso, a região anglófona, antigo Camarões do Sul, tornou-se palco do nascimento de um movimento que reivindicava maior autonomia frente ao governo de Yaoundé, capital camaronesa. O movimento passou a ganhar mais força política a partir de 1990, quando houve a volta do sistema multipartidário no país. Ao longo dessa década, começaram a surgir focos de tensão.” (OBSERVATÓRIO DOS CONFLITOS CONTEMPORÂNEOS, 2021, p.12).

CRISE EM CAMARÕES: FRANCÓFONOS E ANGLÓFONOS

Um ambiente cada vez mais tenso, principalmente por conta do predomínio dos francófonos (que representam 80% da população) e do suposto descaso em relação aos anglófonos, acabou por eclodir um conflito separatista em 2016, chamado de “Crise Anglófona”, movimento reivindicado pela população inglesa por não aceitar medidas tomadas como a oficialização do francês como único idioma no país e aquela que seria a gota d’água para a crise, que foi a  indicação de juízes francófonos para atuar em regiões anglófonas, sem falar em outras ações que beneficiaram os franceses em detrimento dos ingleses (LAGE, 2022).

 Neste contexto, um grupo chamado Forças de Defesa da Ambazônia (formado pelos camaroneses ingleses) defendia a independência da região anglófona e entrou em confronto com as forças do governo. O conflito provocou quase duas mil mortes, além de levar mais de 530 mil pessoas a se deslocarem internamente no país e 35 mil a se refugiarem em países vizinhos, sem falar na prisão de 100 anglófonos e o corte da internet por três meses para impedir qualquer comunicação. O conflito, no entanto, não foi suficiente para impedir a eleição Paul Byia para mais um mandato, em 2018, mas também não apaziguou os ânimos, já que as duas partes ainda vivem sob ameaça do retorno aos conflitos por conta de episódios e ainda tensionam as relações, mesmo após terem iniciado os diálogos em 2020 (OLIVEIRA; CARDOSO, 2020).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo após 62 anos de independência de Camarões, o sentimento entre muitos camaroneses ainda é de colonização, pois muitos avaliam que o país ainda não se libertou da influência francesa, não apenas pelo fato de a maior parte do país ser de predominância francesa, mas pelo desejo do atual governo de isolar os anglófonos em decisões tomadas por Byia. Muitos ainda consideram que não existem razões para celebrar em termos de autonomia e descolonização, pois na prática o país ainda está preso nas raízes colonizadoras. E o sentimento de revolta da população de origem britânica ainda renderá novos capítulos.

Aboubakar, craque da seleção de Camarões em ação na Copa. Foto: Fifa.com

Estes conflitos quase influenciaram inclusive o universo esportivo, pois Camarões quase perdeu o direito de sediar a Copa Africana de Nações no início deste ano. Mas o torneio aconteceu e o país ficou na terceira colocação. E agora, com a Copa do Mundo, talvez surja uma razão para se deixar de lado as diferenças e todos se unirem para torcer pelos atletas que representam o país, independente da origem francesa ou inglesa. Camarões aposta suas fichas contra o Brasil pela classificação para as oitavas de final, já que a vitória é o único resultado que interessa, pois os camaroneses somam um ponto até agora, resultado do empate contra a Sérvia.

Vale lembrar que os dois países têm boas relações. O Brasil foi uma das nações que reconheceu, desde o início, a independência de Camarões. E há vários acordos de cooperação em diversos campos. No comércio, o Brasil já exportou em 2022 o equivalente a mais de US$ 83 milhões, com destaque para açúcares e produtos de confeitaria, bebidas, líquidos alcoólicos e vinagres. Em relação às importações, a cifra é de pouco mais de US$ 1 milhão (a borracha é o principal item). O desejo é que este relacionamento em outros campos cresça ainda mais nos próximos anos, mas no futebol a esperança é que os camaroneses continuem como nossos fregueses!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAMA, Songhikenjou. Pre-colonial Cameroon. Disponível em <https://sites.psu.edu/afr110/2014/09/24/pre-colonial-cameroon/>. Acesso em 01/12/2022

BBC. Camarões: Perfil do país conhecido como ‘África em miniatura’. Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63557173>. Acesso em 21/11/2022

BRITANNICA.COM. Biography of Ahmadou Ahidjo. Disponível em <https://www.britannica.com/biography/Ahmadou-Ahidjo>. Acesso em 25/11/2022

DEUTSCHE WELLE. Camarões: 60 anos de independência e nada a comemorar. Disponível em <https://www.dw.com/pt-002/camar%C3%B5es-60-anos-de-independ%C3%AAncia-e-nada-a-comemorar/a-51845558>. Acesso em 24/11/2022

EMBAIXADA DE CAMARÕES. Cultura. Disponível em <  http://www.embcameroun.org.br/index.php?page=cultura>. Acesso em 20/11/2022

INDEXMUNDI.COM. Dados históricos. Disponível em < https://www.indexmundi.com/g/g.aspx?v=39&c=cm&l=pt>. Acesso em 22/11/2022

LAGE, Maria Clara. Observatório dos Conflitos Internacionais. Camarões: conflito separatista assola país. Disponível em <https://sites.ufpe.br/oci/2022/03/07/camaroes-conflito-separatista-assola-pais/> Acesso em 27/11/2022

LONGLEY, Robert. Brief history of Cameroon. Disponível em <https://www.thoughtco.com/brief-history-of-cameroon-43616>. Acesso em 24/11/2022

NATIONS ONLINE. One World. Disponível em <https://www.nationsonline.org/oneworld/cameroon.htm>. Acesso em 23/11/2022

NETO, Getúlio Alves de Almeida. Dossiê de Conflitos Contemporâneos. As divisões linguísticas no conflito em Camarões: o movimento separatista da República da Ambazônia. Disponível em <https://gedes-unesp.org/observatoriodeconflitos/>. Acesso em 24/11/2022

OLIVEIRA, Guilherme Ziebell de; CARDOSO, Nilton César Fernandes. A crise anglófona na República dos Camarões e a inação dos mecanismos africanos de resolução de conflitos. Disponível em <https://www.redalyc.org/journal/927/92768049003/html/>. Acesso em 22/11/2022

PONTIFÍCIAS OBRAS MISSIONÁRIAS. A África em miniatura: a riqueza cultural dos Camarões. Disponível em <https://www.pom.org.br/a-africa-em-miniatura-a-riqueza-cultural-dos-camaroes/>. Acesso em 23/11/2022

PRESIDENCY OF CAMEROON. Republic of Cameroon. Disponível em <https://www.prc.cm/en/>. Acesso em 22/11/2022

SILVA, Juliana Pereira da; BOZZO; Maria Carolina Cisotto; PANTANO, Maria Julia; SANTOS, Rafaella Fiel Nascimento. O conflito separatista no Camarões: Anglófonos e Francófonos. Observatório dos Conflitos Internacionais. Disponível em <https://www.marilia.unesp.br/#oci>. Acesso em 23/11/2022

VISENTINI, Paulo Fagundes. O livro na rua. Série diplomática ao alcance de todos. Thesaurus Editora. 2010

WILSON, Roberto Correa. Camarões, encruzilhada de ambições coloniais. Disponível em <https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/africa/50204/camaroes-encruzilhada-de-ambicoes-coloniais>. Acesso em 01/12/2022

IMAGENS

BRITANNICA.COM. Disponível em <https://www.britannica.com/place/Cameroon>. Acesso em 28/11/2022

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FIFA.COM. Disponível em <https://www.fifa.com/fifaplus/pt/articles/vincent-aboubakar-camaroes-servia-copa-do-mundo-2022>. Acesso em 30/11/2022

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PRESIDENCY OF REPUBLIC OF CAMEROON. Disponível em <https://www.prc.cm/en/news/5613-head-of-state-s-new-year-message-to-the-nation-31-december-2022>. Acesso em 29/11/2022

Pablo de Deus Ulisses

Jornalista e estudante do 5° semestre de Relações Internacionais na Estácio de Sá.

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