CRISE AMBIENTAL PARA GAZA, COTURNOS ECOLÓGICOS PARA ISRAEL

CRISE AMBIENTAL PARA GAZA, COTURNOS ECOLÓGICOS PARA ISRAEL

À luz da intensificação do processo de colonização da Palestina por Israel, relatórios do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHCA, sigla em inglês) publicados em 2019 levaram a público a situação socioambiental e sanitária da Faixa de Gaza. O território de Gaza possui 365 quilômetros quadrados, habitado por cerca de 2,1 milhões de palestinos, dos quais 80% são refugiados por conta dos embates violentos ocasionados pela ocupação forçada nos anos de 1948 e 1967 (OCHCA, 2002).

A Faixa de Gaza possui a quinta maior densidade populacional do mundo, com cinco palestinos para cada quilômetro quadrado. A escassez de políticas públicas que colaboram para o mínimo desenvolvimento populacional e ambiental da localidade levam a região a um processo iminente de destruição e colapso (Berger e Levine, 2019). 

Este texto visa apresentar uma reflexão crítica acerca dos dados encontrados em trabalhos acadêmicos e documentos do extraídos do portal do Escritório das Nações Unidas Para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), buscando evidenciar a pertinência do conceito de “ecocídio” (Damien, 2016) como um dos elementos de um sistemático processo de inviabilização da vida em Gaza.

GAZA É O SINÔNIMO DE “CATÁSTROFE”

Com a ocupação forçada dos colonos israelenses na região da Palestina desde 1947 — em especial, com o fim do Mandato Britânico da Palestina em 1948 —, o isolamento da população em uma pequena zona costeira cercada por muros e checkpoints parece ser uma das poucas alternativas de vida para aqueles que foram expulsos de seus lares originais (Pappé, 2007). A Faixa de Gaza é um pequeno enclave situado às margens do Mediterrâneo no qual reside parte da população palestina sob isolamento e com acesso limitado ao mar. A precariedade da região se dá pela assistência escassa e pelos constantes bombardeios e ações violentas por parte do Estado de Israel e suas forças militares conhecidas pelas táticas de repressão (Pappé, 2022). 

O mesmo relatório da OCHCA concluiu que no ano de 2020, a Faixa de Gaza se tornaria inabitável, em especial, devido a 97% da água consumida não ser potável, os constantes cortes de energia elétrica e a ausência de tratamento de água e esgoto devido aos danos ocasionados pelos bombardeios israelenses. Gaza é um grande aterro a céu aberto, com pessoas que têm a mobilidade limitada pelas “regras de segurança” estabelecidas por Israel (OCHCA, 2018). Mesmo em casos de doença, a possibilidade de saída para aqueles que vivem em Gaza é extremamente burocrática e nem sempre é aceita (OCHCA, 2018).

Além de tais fatores, um boletim da OCHCA de 2019 destaca as problemáticas da pesca limitada devido às restrições de acesso ao mar. Deste modo, os pescadores só podem pescar a alguns metros de distância da praia, em uma área infectada pelos dejetos que vão direto para a água devido à ausência de saneamento básico.

CONTRADIÇÕES E O GREENWASHING ISRAELENSE

Enquanto Gaza padece com essa situação, Israel dissemina a sua propaganda ecológica, como as dietas veganas dos soldados e o couro vegano de seus coturnos (Misleh, 2020). O greenwashing é uma das muitas táticas de propaganda utilizadas amplamente por empresas do setor privado, mas também por agentes estatais, como no caso de Israel. Trata-se de uma falsa propaganda ecológica que visa mascarar atitudes destrutivas ou negligentes no que diz respeito ao meio ambiente.

No caso de Estados, o greenwashing pode ser utilizado para construir uma imagem positiva a ser projetada internacionalmente de que o país em questão valoriza pautas ambientais e se preocupa com a sustentabilidade, mesmo não sendo o caso. Em 2023, o Estado israelense foi considerado um líder mundial em inovações climáticas em agricultura, água, alimentos e lixo, enquanto continua condicionando Gaza a uma situação ambiental caótica e com poucas chances de reversão (Martins, 2023).

A Faixa de Gaza, por muitas vezes, sofre incontáveis bloqueios de itens básicos para sobrevivência, como medicamentos, itens de saúde e alimentos de qualidade (Anthem, 2023). Com as recentes tensões envolvendo os bombardeios mais recentes, mais um bloqueio foi imposto ao território  que se encontra no ápice da crise humanitária (Martins, 2023). Os cidadãos palestinos enfrentam as poucas possibilidades de deixar o território que segue sendo frequentemente bombardeado pelas forças militares do Estado de Israel. Enquanto isso, aviões com destino a Europa e aos Estados Unidos saem do aeroporto de Tel Aviv com israelenses capazes de financiar viagens a longas distâncias.

O ECOCÍDIO COMO FORMA DE GENOCÍDIO

Além disso, a destruição de corpos d’água através do envenenamento ou a inviabilização da utilização da água para consumo da população palestina em situação de refúgio é apenas uma das muitas táticas de genocídio do Estado de Israel, de acordo com Pappé (2007). Kowalska (2023) classifica o ecocídio como atividade humana ilegal que causa incontáveis danos graves ao meio ambiente. Esses danos podem ser causados tanto por empresas quanto por improbidade e excesso de poder por parte daqueles que detém autoridade sobre determinada porção ou território.

A atividade criminosa contra a natureza altera as estruturas biológicas e provoca mudanças no delicado e sutil tecido da natureza. A privação intencional dos meios de subsistência das pessoas resultante da devastação do ambiente natural pode tornar-se uma das violações mais graves e multidimensionais dos direitos humanos em um futuro próximo.

Kowalska, 2023

O termo passou a ser utilizado, em especial, após a Guerra do Vietnã (1955-1975), na qual as ações de pulverização do agente laranja — um herbicida e desfolhante químico — foram utilizadas em território vietnamita (Criado, 2019). Seu principal componente é a dioxina TCDD, uma substância química altamente tóxica para o organismo de seres humanos, e a arma ocasiona graves danos à natureza e à população até hoje.

Relatórios das Academias Nacionais de Ciências dos EUA (NAS) publicados em 1994 apontam que aproximadamente 20% das selvas do país e 10 milhões de hectares de arrozais foram pulverizados pelo menos uma vez com doses 20 vezes maiores que as recomendadas (Criado, 2019). A utilização desta e de outras armas químicas foi proibida pelas Convenções de Genebra (1925), em especial, a Convenção sobre Armas Químicas.

Recentemente, o Estado de Israel utilizou munições e fósforo branco na Faixa de Gaza sob a justificativa de “combater o terrorismo do Hamas” (Reuters, 2023). Tal atitude foi denunciada pela Human Rights Watch em nota, que pontuou a grave situação na qual os palestinos se encontravam devido aos ferimentos e aos danos a longo prazo ocasionados pelas munições (Human Rights Watch, 2023). O fósforo branco é uma forma alotrópica do fósforo, muito venenosa e altamente inflamável, que causa danos graves e letais de acordo com relatórios publicados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

A utilização de munições de fósforo branco em áreas de concentração de civis é estritamente condenada pelo protocolo III da Convenção de Genebra sobre armas convencionais (1980). Mesmo não sendo considerada uma arma química, especialistas afirmam a possibilidade de incluir a substância nesta categoria devido à possibilidade de sua utilização contra civis, além dos danos ambientais causados devido à alta inflamabilidade (Ceppa, 2011).

HÁ ESPERANÇA?

A Nakba (catástrofe em árabe) moderna — com novas táticas de genocídio em apagamento conforme a evolução da tecnologia militar israelense — enfrentada pelo povo palestino por incontáveis vezes tem chegado ao seu ápice com a destruição de seus espaços de vida e suas próprias vidas em prol de um projeto colonialista que busca, por meio de um genocídio, apagar vidas humanas e a história de todo um povo (Misleh, 2017).

Deste modo, urge a necessidade de questionar a forma na qual o mundo lida com a crise em Gaza e o tratamento para com palestinos como animais a caminho do abate. É preciso humanizar as vidas palestinas e questionar os limites da preservação dos interesses nacionais israelenses e seus métodos desumanos de apagamento e silenciamento (Misleh, 2017).

بالدم نكتب لفلسطين Eu escrevo com o sangue para a Palestina

Ghassan Kanafani (1936-1972)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AL JAZEERA. Major international airlines suspend flights to Israel amid war on Gaza. Al Jazeera, 10 out. 2023. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2023/10/10/major-international-airlines-suspend-flights-to-israel-amid-war-on-gaza. Acesso em: 16 out. 2023.

ANTHEM, Paul. WFP provides critical food lifeline to people in Gaza and West Bank. World Food Programme, 11 out. 2023. Disponível em: https://www.wfp.org/stories/wfp-provides-critical-food-lifeline-people-gaza-and-west-bank. Acesso em: 16 out. 2023.

SHORT, Damien. Redefining genocide: settler colonialism, social death and ecocide. 1ª ed. Londres: Zed Books, 2016.

PAPPÉ, Ilan. The Ethnic Cleansing of Palestine. 2ª ed. Londres: ONEWorld Publications, 2007.

PAPPÉ, Illan. Dez Mitos sobre Israel. 1. ed. Rio de Janeiro: Tabla, 2022. 

MISLEH, Soraya. Al Nakba – Um Estudo Sobre a Catástrofe Palestina. 1 ed. São Paulo: Sundermann, 2017.

BERGER, Miriam; LEVINE, Heidi. Plástico na Faixa de Gaza: bênção e maldição ao mesmo tempo. National Geographic, Brasil, 22 ago. 2019. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2019/08/plastico-na-faixa-de-gaza-bencao-e-maldicao-ao-mesmo-tempo. Acesso em: 16 out. 2023.

OCHA – UNITED NATIONS OFFICE FOR THE COORDINATION OF THE HUMANITARIAN AFFAIRS. Occupied Palestinian Territory. 2002. Disponível em: https://www.ochaopt.org/. Acesso em: 16 out. 2023.

OCHA – UNITED NATIONS OFFICE FOR THE COORDINATION OF THE HUMANITARIAN AFFAIRS. Humanitarian Bulletin, Jan. 2016 . Disponível em: https://www.ochaopt.org/content/movement-restrictions-west-bank-roads-tightened . Acesso em: 16 out. 2023.

OCHA – UNITED NATIONS OFFICE FOR THE COORDINATION OF THE HUMANITARIAN AFFAIRS. The Monthly Humanitarian Bulletin, Set. 2018 . Disponível em: https://www.ochaopt.org/content/monthly-humanitarian-bulletin-september-2018. Acesso em: 16 out. 2023.

OCHA – UNITED NATIONS OFFICE FOR THE COORDINATION OF THE HUMANITARIAN AFFAIRS. The Monthly Humanitarian Bulletin, Out. 2019 . Disponível em: https://www.ochaopt.org/content/monthly-humanitarian-bulletin-october-2019 Acesso em: 16 out. 2023.

HUMAN RIGHTS WATCH. Israel: White Phosphorus Used in Gaza, Lebanon. Human Rights Watch, 12 out. 2023. Disponível em: https://www.hrw.org/news/2023/10/12/israel-white-phosphorus-used-gaza-lebanon. Acesso em: 16 out. 2023.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). A Carta da ONU. 1945. Disponível em: https://nacoesunidas.org/carta/. Acesso em: 16 out. 2023.

CRIADO, Miguel Ángel. 50 anos depois, agente laranja continua contaminando o solo do Vietnã. El País, 16 mar. 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/16/ciencia/1552710887_506061.html. Acesso em: 16 out. 2023.

CEPPA, Franck, et al. White phosphorus: an “autorized” chemical weapon?. Medécine et armées. vol. 39. p. 239-243, 2011.

KOWALSKA, Samanta. Ecocídio: uma ameaça ao tecido biológico e à segurança ecológica. Veredas do Direito [Recurso Eletrônico]: Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, Belo Horizonte, v. 20, 2023. Disponível em: https://dspace.almg.gov.br/handle/11037/49344. Acesso em: 16 out. 2023.

REUTERS, Da. Human Rights Watch diz que Israel usou fósforo branco em Gaza e no Líbano; país nega. CNN, 12 out. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/human-rights-watch-diz-que-israel-usou-fosforo-branco-em-gaza-e-no-libano/. Acesso em: 16 out. 2023.

Giovanna Gomes Cardoso de Lima

Graduanda em Relações Internacionais pela UFPB, apreciadora da história e da literatura dos países asiáticos.

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