As consequências do New START

As consequências do New START

Muito já se ouviu falar das constantes tensões geopolíticas entre Rússia e Estados Unidos (EUA) desde meados da 2ª Guerra Mundial (1939-1945), e principalmente durante a Guerra Fria (1946-1991). Os dois países se estranham não só diretamente, mas financiam guerras e disputas em outros cantos do mundo, cada um apoiando um lado. Tais disputas, as quais visam o aumento da influência e do status quo (manutenção do poder ou manutenção da posição na dinâmica do poder) dentro do Sistema Internacional, causam essa rivalidade infindável

Dito isso, a questão que será abordada nesse texto reflete exatamente a ansiedade dessas duas nações “opostas”. Durante a Guerra Fria, com o mundo polarizado entre as duas maiores potências da época, União da Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e EUA não só competiam em todas as áreas possíveis, seja nas Olimpíadas, na ciência, nas músicas, nas tecnologias inovadoras, mas também no desenvolvimento armamentista. Com intuito de proteger os territórios de suas influências e alcançar novas áreas para dispersar suas ideologias, as duas superpotências partiram para um crescimento militar de grandes precedentes (FREITAS, 2021).

De forma gradativa, EUA e URSS foram incrementando seus respectivos arsenais. Para isso, foram realizados investimentos na ordem de bilhões de dólares, nos quais os recursos  foram  utilizados para o desenvolvimento de modernos equipamentos militares e também nucleares.  Além disso, houve um aumento significativo das tropas militares (FREITAS, 2021).

Ambos os exércitos possuíam centenas de soldados, armas convencionais, armas mortais, sobretudo mísseis de todos os tipos, inclusive nucleares, direcionados para o inimigo, localizados em longas distâncias com objetivo de atingir o alvo. Os dois países tentavam medir força, buscavam produzir cada vez mais armamentos de destruição em massa, como forma de ameaçar o inimigo. O processo da corrida armamentista resultou também na propagação da tecnologia aeroespacial e o aumento da rivalidade entre as ideologias de mercado: a capitalista e a socialista (FREITAS, 2021).

A partir disso, com o fim da Guerra Fria e com a vitória dos EUA, o mundo entrou em um processo de “paz”, no qual não havia mais a tensão e preocupação do planeta se extinguir por motivos de guerra. Com isso, ainda que a Rússia tivesse perdido nesse jogo de influência do Sistema Internacional, ainda era um dos países com a maior quantidade de ogivas nucleares do mundo. Tal fato preocupava não somente os EUA, como também outros países que temiam a volta das tensões por motivos nucleares, caso houvesse algum desentendimento entre as duas nações. 

Por isso, em 2010, um tratado foi criado. Chamado de New Start (Novo Começo) é um acordo entre os Estados Unidos da América e a Federação Russa sobre Medidas para a Redução e Limitação de Armas Ofensivas Estratégicas. O acordo aumenta a segurança nacional dos EUA ao colocar limites verificáveis ​​em todas as armas nucleares de alcance intercontinental implantadas pela Rússia. Vale ressaltar que o novo tratado entrou em vigor em 5 de fevereiro de 2011 e os dois países acordaram em estendê-lo até 4 de fevereiro de 2026. Segundo ele, os Estados Unidos e a Rússia tiveram sete anos para cumprir os limites centrais do tratado sobre armas estratégicas ofensivas (em 5 de fevereiro de 2018) e são obrigados a manter esses limites enquanto o tratado permanecer em vigor (U.S DEPARTMENT OF STATE, 2021).

O New Start, assinado pelo presidente Barack Obama e o presidente russo Dmitri Medvedev, tem amplo apoio, pois todos compreendem que os perigos nucleares não desapareceram com o fim da União Soviética e é necessário responsabilidade por parte dos outros países que podem receber a consequência da falta de cuidado e atenção com relação a esse assunto delicado. Ficar atento a outros arsenais nucleares é importante (CLINTON, 2010).

O acordo limita os arsenais de ambos a 1.550 ogivas nucleares para cada país (30% a menos do que o fixado em 2002) e a 800 lançadores e bombardeiros pesados. Os arsenais, no entanto, ainda são suficientes para destruir a Terra várias vezes. “Em tempos de tensões, ter limites verificáveis sobre as armas nucleares da Rússia com alcance intercontinental é de vital importância”, afirmou o Departamento de Estado no comunicado. “Uma competição nuclear sem limites nos colocaria em perigo” (G1, 2021).

Atualmente, os países estão sob o governo de Joe Biden e Vladmir Putin, porém, Putin e o ex-presidente americano Donald Trump se desentederam  sobre o assunto em fevereiro de 2017. Em uma ligação telefônica de 60 minutos entre os presidentes, Putin questionou a extensão do tratado e foi atacado por Trump, que afirmou que o acordo favorecia a Rússia e havia sido “um dos vários negócios ruins feitos pela administração de Obama”. Caso o New Start não seja renovado ou substituído, essa seria a primeira vez desde 1972 que as duas maiores potências nucleares do mundo não teriam um acordo de controle de armas atômicas em vigor. A última conversa entre Estados Unidos e Rússia sobre o assunto aconteceu no início do mês de outubro de 2020, na capital finlandesa Helsinque. Depois desse encontro, a agência de notícias Reuters afirmou que o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, não vê perspectivas de estender o tratado, mas pretende continuar com as negociações (LIGERO, 2020).

Houve um “princípio de acordo” com a Rússia e que os Estados Unidos estão dispostos a estender o New Start desde que ambas as partes aceitem congelar o seu arsenal nuclear. Ainda segundo o representante norte-americano, tanto os Estados Unidos quanto o governo russo gostariam de incluir a China no acordo. A nação asiática, porém, tem se recusado a participar das negociações, alegando ter menos armas nucleares do que os outros dois países (LIGERO, 2020).

Em seu perfil oficial no Twitter, o Embaixador da China para Assuntos de Desarmamento, Li Song, afirmou: 

“Existem apenas duas potências nucleares no mundo. Não três”. A publicação foi respondida pelo Diretor da Associação de Controle de Armas dos Estados Unidos, Daryl Kimball, que argumentou: “Sim, os EUA e a Rússia possuem os dois maiores arsenais nucleares, mas 300 armas nucleares são mais do que qualquer um precisa e uma arma nuclear pode destruir uma cidade” (LIGERO, 2020).

Na ocasião em que o New Startfoi assinado, o ex-presidente Barack Obama afirmou que, juntos, Estados Unidos e Rússia possuem cerca de 90% do poder nuclear mundial. A dissolução do acordo pode levar a uma corrida armamentista semelhante à da Guerra Fria, período em que os EUA e a antiga União Soviética começaram a competir pelo desenvolvimento de bombas nucleares (LIGERO, 2020).

Não obstante, com a nova presidência americana, o democrata Joe Biden foi o responsável pela assinatura do tratado que estende o prazo de validade do New Start. O anúncio foi feito pelo chefe da diplomacia americana, Antony Blinken, em um comunicado: “Biden prometeu manter o povo americano a salvo das ameaças nucleares, restaurando a liderança dos Estados Unidos na questão do controle de armas e não proliferação” (G1, 2021). O recém-empossado governo do democrata Joe Biden tem anunciado todos os dias, novas medidas para se distanciar de seu antecessor, o republicano Donald Trump que tentava — sem sucesso — condicionar a extensão do acordo à imposição de novas medidas por parte da Rússia (G1, 2021).

O Ministério das Relações Exteriores russo comemorou a extensão do acordo, afirmando que ele garante a “preservação” de um mecanismo fundamental para “manter a estabilidade estratégica”. O acordo é um dos poucos compromissos entre Moscou e Washington, cujos laços se deterioraram drasticamente nos últimos anos devido a desacordos em várias questões internacionais e acusações mútuas (G1,2021).

Foto de março de 2011 mostra o então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, cumprimentando o então primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, em Moscou — Foto: Alexander Natruskin/Reuters (G1, 2021)

Em 2018, o governo americano abandonou um tratado de 1987 que proibia mísseis nucleares de alcance intermediário. Na prática, o tratado era uma garantia de que os Estados Unidos não ameaçassem a Rússia com armas nas bases europeias da Otan. O país, na época sob comando de Donald Trump, alegou que um novo míssil nuclear do Kremlin, o Burevestnik, apesar de não ser tecnicamente de médio alcance, podia percorrer as mesmas distâncias da categoria. 

Além de carregar uma ogiva nuclear, o Burevestnik é movido por um reator nuclear, ou seja, é capaz de voar por tempo indeterminado, visto que pode ficar no ar durante anos, sobrevoando todo o planeta, até iniciar sua trajetória final e atacar o alvo. Apesar de ainda estar em fase de testes, ele não é vetado pelo New Start (VEJA, 2021).

Por outro lado, o acordo prorrogado não impede a expansão da Otan, cujos 30 membros podem construir bases cada vez mais perto das fronteiras russas – armadas de mísseis de médio alcance. Moscou está em vantagem tecnológica, e Washington tem mais poder geopolítico. A prorrogação do New Start não aborda a problemática – talvez pior,  a esconda (VEJA, 2021).

Referências

CLINTON, Hillary. A importância do Novo Start. Disponível em: https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,a-importancia-do-novo-start-imp-,640549. Acesso em: 25 fev. 2021

FREITAS, Eduardo. Corrida Armamentista. 2021. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/corrida-armamentista.htm. Acesso em: 25 fev 2021.

G1. Parlamento russo aprova extensão de acordo nuclear com os EUA. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/01/27/parlamento-russo-aprova-extensao-de-acordo-nuclear-com-os-eua.ghtml. Acesso em: 25 fev. 2021

G1. Após Rússia, EUA validam extensão do tratado de desarmamento nuclear. 2021. Disponível em:

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/02/03/apos-russia-eua-validam-extensao-do-tratado-de-desarmamento-nuclear.ghtml. Acesso em: 25 fev. 2021

LIGERO, Bárbara. Estados Unidos e Rússia negociam renovação de acordo nuclear. 2020. Disponível em: https://jovempan.com.br/noticias/mundo/estados-unidos-e-russia-negociam-renovacao-de-acordo-nuclear.html. Acesso em: 25 fev. 2021

U.S DEPARTMENT OF STATE. New START Treaty. Disponível em: https://www.state.gov/new-start/. Acesso em: 23 fev. 2021

VEJA. Putin assina extensão de tratado de desarmamento nuclear com EUA. Disponível em:

https://veja.abril.com.br/mundo/putin-assina-extensao-de-tratado-de-desarmamento-nuclear-com-eua/. Acesso em: 01 março 2021

Djamilly Rodrigues

Graduanda em Relações Internacionais e Diretora de Conteúdo do Dois Níveis.

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