POLÔNIA NA 2ª GUERRA MUNDIAL: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA

POLÔNIA NA 2ª GUERRA MUNDIAL: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA

A Polônia é um país localizado no Leste Europeu e tem como principais vizinhos fronteiriços a Alemanha, Ucrânia e Bielorussia, totalizando aproximadamente 38 milhões de pessoas em sua população. Além disso, também é membro da União Europeia desde 2004 e se caracteriza como um Estado pós comunista devido a sua trajetória com a da União Soviética durante a Guerra Fria, momento em que a Ordem Mundial era dividida por uma imaginária “Cortina de Ferro”, separando as nações capitalistas e comunistas. Desde 1989 com a derrubada do governo comunista, o país instaurou uma democracia em formato de república parlamentar, que conta com um chefe de governo, o primeiro-ministro e um chefe de Estado, o Presidente. 

                                                                                                           Imagem 1 – Localização do país. 

Imagem 1 – Localização do país.
               Fonte: Infoescola [1]
Mas o país nem sempre teve essas características e sua presença na Segunda Guerra Mundial foi crucial e, até mesmo, o “pontapé” do início do conflito. Assim, é necessário voltar no tempo e relembrar a importância e trajetória da Polônia nesse evento mundial.

Em meados de 1939 a conjuntura da política internacional era desenhada pela ascensão de Adolf Hitler na Alemanha e pelo sentimento de revolta e vingança dos alemães com os outros países europeus, principalmente em relação à Polônia devido ao Tratado de Versalhes, firmado no fim da Primeira Guerra. O Tratado foi uma forma de oficializar a divisão de territórios, sanções e princípios que deveriam ser seguidos por todos os países no cenário pós Primeira Guerra. Uma das insatisfações dos alemães dizia respeito a perda do “corredor polones” que o tratado formalizou, sendo esta uma região que separava o território alemão em duas regiões e permitia acesso da Polônia ao Mar Báltico, situação que nunca foi vista como legítima pelo governo do Terceiro Reich (SNYDER, 2012).

  Imagem 2 – Corredor polonês.

                  Fonte: Ensinar história. [2]
Ainda em 1939, surgiu o Pacto germano-soviético​ ou Pacto Ribbentrop-Molotov, um acordo assinado em 23 de agosto pelos representantes da Alemanha e URSS (União das Repúblicas Socialistas Sov­­­­­­­­­­­­­­­iéticas) com o intuito de firmar um pacto de não agressão entre os dois países, caso a Alemanha viesse a declarar guerra aos outros países europeus como a Inglaterra e França. Outro fato importante e de certa forma “omisso” no pacto, foi o combinado de que, caso a Polônia fosse conquistada pela Alemanha, o território seria dividido com a URSS (COGGIOLA, 2015). Ao mesmo tempo, a Polônia suspeitando que poderia receber uma invasão, firmou um acordo com França e Inglaterra para, em caso de uma invasão alemã, as duas potências interveriam para proteger o país polaca.

Vale ressaltar que a Polônia era importante do ponto de vista geopolítico porque detinha a maior população de judeus da Europa, fator crucial para a perseguição do nazismo alemão. Além de estar posicionada estrategicamente no “Lebensraum” ou “espaço vital” em português, conceito criada por Friedrich Ratzel, importante geógrafo e etnólogo alemão responsável por uma das teorias que justificavam o expansionismo alemão pela europa, tendo como base a justificativa de que, para uma civilização se fortalecer, aumentar seus recursos e garantir soberania, era necessária a expansão territorial para assim se desenvolver e ser capaz de perdurar por longos anos sua sociedade “ariana”. Ou seja, a expansão territorial de uma nação como forma de sobrevivência e soberania (COGGIOLA, 2015).

 Em outras palavras, a expansão alemã no vizinho polonês era vista como um objetivo a ser atingido pelo governo de Hitler para exterminar a população judia, recuperar a região do corredor polonês e anexar mais um território. Não obstante, a Polônia foi o país que presenciou grandes campos de concentração históricos como Auschwitz, Chelmno, Belzec, Majdanek, Sobibor e Treblinka. No decorrer desse processo, em 1º de setembro de 1939, Hitler colocou em prática suas ambições e optou por invadir o país polaco. Nesse exato momento foi dada a largada para a Segunda Guerra, tendo os aliados França, Inglaterra, EUA e, posteriormente, URSS de um lado e o eixo formado por Alemanha, Itália e Japão, do outro. 

O argumento alemão para a invasão foi baseado em um suposto ataque polonês contra os vizinhos, chamado de Operação Himmler, entretanto, o mesmo na verdade foi encenado por tropas alemãs como forma de justificar o primeiro ataque. Depois do ocorrido, tendo em vista o acordo firmado com a Polônia, França e Inglaterra entraram em cena. 

A França e a Grã-Bretanha tinham compromissos de ajuda aos poloneses. Os dois países enviaram um ultimato à Alemanha exigindo a imediata paralisação da invasão. Hitler não se deu ao trabalho de responder. Diante disso, a França e a Grã-Bretanha não tiveram outra saída senão declarar guerra à Alemanha, em 3 de setembro (TOTA, 2013, p.364).

O exército polonês não foi capaz de conter a Wehrmacht (forças armadas da Alemanha Nazista de 1935 até 1945) por muito tempo e acabou sendo derrotado, além de que, o apoio britânico e francês nunca chegou a acontecer de fato em solo polaca para conter ou expulsar os nazistas. Por outro lado, o Pacto germano-soviéticofoi posto em prática e no dia 17 de setembro a União Soviética tomou posse de uma parte leste da Polônia em uma operação que ficou conhecida como Massacre de Katyn.

Cerca de cem mil militares poloneses foram evacuados para a Romênia e países bálticos, muitos deles lutaram mais tarde contra os alemães em outras frentes da guerra. O oficialato polonês foi, na sua quase totalidade, massacrado pelas tropas russas na floresta de Katyn, um massacre covarde e infame que a URSS, e até a Rússia do presente, negou-se oficialmente a admitir (BEEVOR, 2015, p.36).

O massacre foi um evento marcado pela prisão e deportação de oficiais polacas para campos de concentração e trabalho forçado em diferentes partes da União Soviética, a estimativa aponta cerca de 15 mil oficiais, em sua maioria políticos, cientistas, advogados e professores universitários que foram deportados pela NKVD (Narodniy komissariat vnutrennikh diel ou Comissariado do povo para assuntos internos, em português), a polícia secreta soviética. O número total de execuções de poloneses nesse episódio chegou a 21.892, fato que só foi reconhecido em 2010 pela Rússia como crime de sua autoria. Do outro lado, a ocupação nazista colocava suas estratégias em prática e começou de imediato a “limpeza étnica” da Polônia pretendendo assim “germanizar” a população (SZYMCZAK,1984). 

O famoso gueto de Varsóvia, local com quatro quilômetros quadrados que abrigava cerca de 400 mil pessoas na capital polonesa foi invadido e queimado, mesmo após um grande episódio de resistência dos movimentos comunistas, sionistas e socialistas judeus, 56 mil pessoas morreram no confronto que entrou para a história judaica como a primeira resistência civil contra a crueldade fascista (TOTA, 2013). A Polônia foi o país mais impactado pelo holocausto, tendo 91% de sua população judia extinta, como mostra o gráfico abaixo.

 Imagem 3 – Gráfico. 

                           Fonte: Raul Hilberg, 1961. [3]
  O campo de concentração de Auschwitz talvez seja o mais famoso e emblemático dessa época, localizado na cidade de Oswiecim em um cruzamento ferroviário de interesse estratégico dos nazistas, as linhas de trem de Praga e Viena que cruzavam com as de Berlim e Varsóvia. Responsável por executar em torno de 1.3 a 3 milhões de pessoas incluindo judeus, ciganos, prisioneiros opositores, deficientes, crianças entre outros, o campo foi inspiração para grandes filmes como “A vida é Bela” e “A Lista de Schindler”. 

A esperança de dias melhores para a população polaca só chegou em 1945 quando o exército da União Soviética conseguiu expulsar os alemães e a Segunda Guerra chegou de fato ao fim com os desdobramentos em outras partes da Europa. Entretanto, enquanto uma parte considerável do mundo se reergueu da luta, a Polônia lidava com o regime comunista comandado por Stalin, contexto em que até o ministro das Relações Exteriores da Polônia Vladislav Bartoszewski, antes prisioneiro político de Hitler, se tornou prisioneiro de Stalin (COGGIOLA,2015). Assim, para muitos poloneses, a liberdade, independência e soberania só chegou para o país no cenário pós Guerra Fria em meados de 1989. 

Diante do percurso histórico acima, é notório que a Polônia foi um país chave para a Segunda Grande Guerra, desde o seu início até o seu desfecho e principalmente para a herança judaica que tanto vivenciou de perto as marcas do holocausto. Por fim, o país vive atualmente uma democracia e é considerado crime com pena de até três anos o ato de negacionismo sobre o holocausto, situação que tem a intenção de manter as marcas históricas acesas e evitar que chegue no esquecimento da humanidade. 

NOTAS: 

[1] Disponível em: <https://www.infoescola.com/europa/polonia/

[2]Disponível em: <https://ensinarhistoriajoelza.com.br/linha-do-tempo/inicio-da-segunda-guerra-mundial-2/

[3] Raul Hilberg. The Destruction of the European Jews. Nova York, Yale University Press, 1961. 

REFERÊNCIAS:

BEEVOR, Antony. A Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Record, 2015.  Disponível em: <https://docero.com.br/doc/x85ns0x>. Acesso em: 2 fev. 2021.

COGGIOLA, Osvaldo. A Segunda Guerra Mundial: Causas, Estrutura, Consequências. São Paulo, 2015. Disponível em: <https://bityli.com/UecW7> Acesso em: 1 fev. 2021.

SNYDER, Timothy. Terras de sangue: A Europa entre Hitler e Stalin. Rio de Janeiro: Record, 2012. Acesso em: 1 fev. 2021.

TOTA, Pedro. Segunda Guerra Mundial. In: MAGNOLI, Demétrio (org.). História das guerras. São Paulo: Contexto, 2013. Acesso em: 2 fev. 2021. 

SZYMCZAK, Robert. A Matter of Honor: Polonia and the Congressional Investigation of the Katyn Forest Massacre. Polish American Studies, 1984. Disponível em: <www.jstor.org/stable/20148144.> Acesso em: 2 fev. 2021.

Juliana Brito

Baiana e estudante de Relações Internacionais na PUC Minas em Belo Horizonte. Tem interesse em Segurança Internacional, Direitos Humanos e debates Pós-coloniais.

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