MUDANÇA CLIMÁTICA E ECONOMIA: COOPERAÇÃO vs COMPETIÇÃO

MUDANÇA CLIMÁTICA E ECONOMIA: COOPERAÇÃO vs COMPETIÇÃO

Os que acompanham a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021 (COP 26), percebem de forma quase palpável o desentendimento, as táticas protelatórias e o empurra-empurra geral de responsabilidades entre os participantes (NAÇÕES UNIDAS, 2021). Inclusive, qualquer um preocupado com o futuro da humanidade neste mundo tem todo o direito de considerar tais táticas como absurdas.

Outro observador, indignado porém pensativo, pode se perguntar: Como é possível que a essa altura do campeonato essas táticas ainda sejam utilizadas? Afinal, a seriedade do problema climático já é reconhecida pela maioria da população, como indica a pesquisa “People’s Climate Voice” da PNDU (2021).

Mais eventos climáticos extremos, secas, ondas extremas de calor e derretimento de geleiras criam cenários financeiros, demográficos e geopolíticos que sugerem uma ação firme e consensual por parte dos tomadores de decisão de todo o mundo, especialmente por aqueles que se apavorariam com uma mudança no status quo. Quando isso não se observa, é preciso buscar uma resposta em outras interpretações, e aqui a microeconomia poderá nos ajudar.

Prevenir ou remediar

[…] os efeitos morosos e resultados incertos das políticas de mitigação fazem de convencer o público a investir em regulações agressivas de emissões e suportar seus custos uma tarefa política difícil¹. (RUHL, 2012).

Para começar a entender essa dimensão do problema, precisamos ter em mente dois conceitos essenciais da microeconomia, que serão interpretados aqui como duas estratégias distintas de combate à mudança climática: a mitigação e a adaptação. A primeira é o prevenir, ou seja, agir antes da transição climática, e a segunda o remediar, se adaptar a ela.

A primeira estratégia, a mitigação, se trata de cortar emissões de gases de efeito estufa (GEE), reduzir a destruição do meio ambiente e definir metas de neutralidade de carbono no presente momento. Uma vez que existem indústrias inteiras baseadas em atividades poluentes e/ou emissoras de GEE, essa estratégia pressupõe um custo no presente, em termos financeiros, de emprego e de atividade, em troca de um benefício futuro. Na economia, chamamos esse problema de escolha intertemporal.

Em resumo, a escolha intertemporal é o estudo que avalia as decisões que envolvem efeitos dispersos no tempo: pode-se decidir entre gastar hoje, e pagar amanhã com juros, ou poupar hoje, e receber os juros amanhã (VARIAN, 2016). No âmbito financeiro, a variável que resume essa escolha é a taxa de juros, e, no nosso caso, é a razão entre o custo das políticas de mitigação sobre a economia no presente e o custo econômico das mudanças climáticas no futuro.

A segunda estratégia, por sua vez, tem pouco ou nenhum custo no presente, se tratando de basicamente esperar para ver quais serão os efeitos climáticos futuros, e só aí despender recursos para os balancear. As secas não permitem a produção de grãos? Bastaria investir em novas espécies que dependem de menos água para se desenvolver. Além da expectativa de renda futura, essa estratégia depende de outro conceito da economia, o de custo marginal.

O conceito de custo marginal é simples, se trata do custo adicional por se produzir mais uma unidade de um produto. Por exemplo, nas etapas de produção de um determinado produto, temos custos iniciais altos, que envolvem a instalação de maquinário e contratação de trabalhadores, e o primeiro produto produzido, portanto, teria um custo extremamente alto. O custo marginal começa a operar a partir da segunda unidade produzida: como nós já temos o maquinário e os trabalhadores, o custo adicional seria somente da energia e da matéria prima usada, ou seja, menor. Enquanto esse custo adicional está caindo, vale a pena continuar produzindo, e nós temos o chamado ganho de escala — ganha-se mais ao produzir mais (VARIAN, 2016).

E como esse conceito pode explicar a decisão estratégica de combate à mudança climática? A tendência das tecnologias adaptativas seria a de um custo marginal decrescente, o que justifica não só o investimento inicial, como pode permitir a existência de novas indústrias, lucrativas e com mercado consumidor cativo. Para um país que pode esperar, pode ser lucrativo jogar o custo das mudanças climáticas para quando elas acontecerem, ou seja, para o futuro.

Com base nesses dois conceitos, podemos separar os agentes internacionais em dois grupos: os que veem sua existência econômica (ou literal, como no caso das pequenas ilhas insulares) ameaçada pela mudança climática, e os que preveem mudanças que não são necessariamente catástrofes, ou que simplesmente consideram o custo da mitigação alto demais para as suas indústrias no presente. Pelo seu efeito global, é claro que todos serão afetados, contudo, um aquecimento que seria catastrófico no Oriente Médio poderia ser uma dádiva para um país como a Rússia, que veria o descongelamento de amplos campos férteis em seu território.

É claro que em um cenário realista, as duas opções estão na mesa de todos os países. Pode-se querer proteger uma indústria poluente e ao mesmo tempo buscar a minimização dos riscos de catástrofes climáticas, e com essas premissas, as simulações de Buob e Stephan (2010) encontraram uma divisão que em si já chama a atenção: países de alta renda investiriam nas duas estratégias, enquanto países de baixa renda focariam somente nas políticas de mitigação.

O prognóstico

Afinal, para tentar entender o comportamento de alguns países na questão climática, e sabendo quais são as duas possíveis estratégias básicas, só nos resta saber quais são as projeções atuais da mudança climática. Os pontos a seguir foram publicados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas em agosto de 2021 (PIMC, 2021).

Em relação ao período de 1850 a 1900, em todos os cenários de aumento da temperatura média global (de 1,5º C a 4º C), o relatório prevê alguns pontos relevantes: em relação à temperaturas, é certo que os aumentos serão mais extremos sobre terra do que sobre o mar, e que a região do Ártico será proporcionalmente mais aquecida. Em relação a umidade do solo, para fins agrícolas e de uso humano, prevê secas acentuadas nas Américas, na Europa Ocidental, na África Austral e na China e arredores.

Fonte: PIMC (2021).

Embora não exaure os pontos do relatório, faz sentido que concentremos nossa análise em algumas regiões chave, uma vez que as atuais tentativas de controle da mudança climática existem no âmbito multilateral. Também, existem regiões de maior interesse para países que atualmente possuem grande influência no andamento das negociações.

Em primeiro lugar, além do claro efeito sobre o nível dos mares, um aquecimento do Ártico, ao derreter partes de uma região atualmente congelada, abriria uma nova rota marítima, criando uma conexão comercial e militar entre os continentes asiático e americano muito mais curta do que as atuais. Para a China e EUA, especialmente, o mercado potencial criado por essa conexão é gigantesco, em termos de economia com fretes e tempo, e, para a Rússia, o Ártico já é uma região altamente estratégica em termos de segurança, e a possibilidade de navegação ali só aumenta suas possibilidades (NICOLAS, 2020; RUMER et al., 2021).

Por outro ângulo, o efeito das secas é claro sobre a produção agrícola de forma geral: nas Américas, se trata de uma indústria essencial para a maioria dos Estados, além de ser influente em Estados de peso na Europa, como a França, e ainda extremamente importante para um Estado como a China. O efeito sobre emprego, renda e segurança alimentar seria socialmente desastroso, e, quando consideramos a mesma queda de produtividade na África Austral, aliada à eventos de extremo calor no Oriente Médio (PIMC, 2021), os efeitos econômicos se somariam a uma possível onda de migração em direção à Europa, com efeitos desestabilizadores, difíceis de prever. 

Assim, é possível ver que as perspectivas sobre mudanças climáticas podem ser ambíguas. Um país como a China pode se dar ao luxo de ser ponderado, pesando em termos frios os custos e benefícios de cada uma das estratégias — a mitigação pode ser vantajosa no âmbito doméstico, mas seu alto custo econômico pode deixar a perspectiva de uma rota Ártica ainda mais atrativa, ainda que em detrimento do setor agrícola.

Para países mais dependentes do setor agrícola, ou aqueles ameaçados de extinção pela elevação dos níveis dos mares, a questão é mais urgente, e a adaptação pode se mostrar impossível no futuro. Assim, qualquer investimento em mitigação é barato, desde que feito no presente.

Por fim, é possível perceber países como a Rússia ou os EUA, que estariam dispostos a “pagar para ver” — suas perspectivas econômicas, em caso de mudança climática, não são necessariamente catastróficas, e podem até mesmo ser vantajosas. Um investimento alto em mitigação deixa, portanto, de fazer sentido como uma urgência.

Conclusão

É inegável que o desafio da mudança climática para as próximas décadas é um desafio comum da humanidade. Se as emissões de GEE seguirem da mesma forma, as próximas gerações herdarão um mundo bem diferente do atual. Mas se algo é para ser feito pela comunidade internacional, ele deve ser entendido como é — um cenário com vencedores e perdedores.

Ações consensuais são difíceis, mesmo quando tomadas em ambientes de quase certeza, com poucos custos. Inclinações de política doméstica e percepções públicas já têm um impacto enorme sobre decisões em organismos internacionais, e um problema da magnitude e complexidade da mudança climática tem variáveis ainda mais relevantes para os tomadores de decisão.

Não seria razoável esperar que líderes de um país tomassem decisões abertamente contrárias a suas indústrias de base, ou que abrissem mão de vantagens futuras sem uma boa contrapartida, especialmente quando esses líderes dependem do público para o seu futuro profissional. Assim sendo, não é razoável esperar um consenso fácil e tranquilo quando se trata de uma questão de altos custos potenciais e altíssima incerteza.

Referências

NAÇÕES UNIDAS. ‘Serious risk’ COP26 may not deliver, warns Guterres, urging more climate action. UN News, 29 out. 2021. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2021/10/1104412. Acesso em: 9 nov. 2021.

PNUD. People‘s Climate Voice. 27 jan. 2021.

RUHL, J. B. The Political Economy of Climate Change Winners. Minnesota Law Review, p. 206-277, 2012.

VARIAN, Hal R. Microeconomia: Uma Abordagem Moderna. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. 806 p.

BUOB, Seraina; STEPHAN, Gunter. To mitigate or to adapt: How to confront global climate change. European Journal of Political Economy, p. 1-16, 2010.

PIMC. Climate Change 2021: Summary for Policymakers. 9 ago. 2021.

NICOLAS, LePan. The final frontier: how Arctic ice melting is opening up trade opportunities. World Economic Forum, 13 fev. 2020. Disponível em: https://www.weforum.org/agenda/2020/02/ice-melting-arctic-transport-route-industry/. Acesso em: 9 nov. 2021.

RUMER, Eugene et al. Russia in the Arctic: A Critical Examination. Carnegie Endowment for International Peace, mar. 2021.

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¹Do original: […] the delayed effects and uncertain outcomes of  mitigation  policy  makes  convincing  the  public  to  invest  in and bear the costs of aggressive emissions regulation measures a  tough  sell  politically.

Vinicius Santos Marques

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