CONFLITOS ÉTNICOS EM PAÍSES-ILHAS DA OCEANIA

CONFLITOS ÉTNICOS EM PAÍSES-ILHAS DA OCEANIA

Fonte: Reprodução/ Pixabay

“Nós queremos que todos os Malaitas em Guadalcanal sejam repatriados de volta para a sua terra. Queremos que eles vão embora… se [essa solicitação] não for atendida… podemos montar um ataque em Honiara e matar a todos os Malaitas, eliminá-los.”

(GRAY, 1999 apud FOUKANA, 2002,  p. 24, tradução nossa)

Estas duras palavras foram ditas por um dos líderes do Movimento de Liberdade Isatabu (da sigla em inglês, IFM), George Gray. Ele pertencia à etnia Guali, a qual não aceitava a dominação da elite Malaita, que havia chegado ao poder nas Ilhas Salomão.

No entanto, antes de chegar nessa parte, é preciso, primeiro, entender o porquê de conflitos entre povos de um mesmo Estado nacional.

Muitos países da Oceania possuem a característica de serem diversos no que diz respeito à etnias. São diferentes grupos com distintas formas de pensar e agir. São costumes que muitas das vezes entram em conflito entre si. Mas, antes de tudo, é preciso conflitar com a ideia de que os países com várias etnias tendem a ter uma maior ocorrência de conflitos internos, ou seja, uma espécie de guerra civil. Pois, embora seja uma teoria válida e até plausível, a afirmativa que há mais conflitos em um país diverso etnicamente falando, é uma resposta rasa para um problema que pode ter raízes profundas. No caso da Oceania, o professor sênior Isiaka Alani Badmus (2017), da Universidade Afe Babola, na Nigéria, aponta alguns fatores que podem explicar a ocorrência de conflitos em alguns países desse continente.

De acordo com o professor, o subdesenvolvimento econômico, isto é, baixas capacidades produtivas que geram índices de qualidade de vida abaixo do ideal para o suprimento de necessidades básicas, e que “deságuam” no mar das convulsões sociais, é um desses fatores. No mais, o autor também revela que, os países insulares da Oceania, a exemplo das Ilhas Salomão, têm um forte elo com a terra. Uma das explicações pode ser o fato de que são países com pequenas faixas de terra disponíveis para o desenvolvimento econômico. Vale ressaltar que, dentro do ramo da economia, a terra é um fator de produção, portanto, se esse fator é ao extremo escasso, pode gerar disputas e conflitos. Da mesma forma funciona com os recursos minerais, que, em países menores, nota-se que há um nível de escassez maior do que em países com grandes territórios, a exemplo da Austrália, ou mesmo do Brasil.

Por outro lado, a liberalização (abertura) da economia para o capital estrangeiro (essencialmente por meio do investimento direto, ou seja, instalação de empresas estrangeiras em territórios nacional) principalmente por meio do turismo, fez com que, de acordo com Badmus (2017), ocorresse uma invasão de empresas estrangeiras em países insulares (ilhas) da Oceania que resultou em um deslocamento de povos originários de suas respectivas terras. Lembrando que a terra para esses povos possui um alto valor econômico, social, emocional e até religioso. Com isso,  a tendência é que as etnias menos influentes que estão sob o governo de um indivíduo de uma etnia dominante, se rebelem e tentem tomar à força o governo do país. E isso pode resultar em consequências desastrosas. Ainda de acordo com o autor, as etnias Sabah, no Estado de Sarawak, Malásia; Bougainville, da Papua-Nova Guiné; Aceh, de Papua Ocidental, na Indonésia são exemplos de povos que não aceitavam o governo de outra etnia que estava no poder.

Outro fator importante que pode ser levado em consideração nos conflitos étnicos de países da África, Ásia e Oceania, se deve ao fato da replicação do método colonial. Pois, é possível observar que as etnias começam a ser diferenciadas entre si por meio do poder econômico, a exemplo da ocupação de terras, assim como ocorre em muitos países insulares da região aqui mencionada. Sendo assim, a etnia mais influente até consegue chegar ao poder governamental por meios democráticos, porém, no imaginário desses povos, a lógica da exploração colonial muitas vezes permanece, e esse modelo, essa relação colonizador-colonizado, é reproduzida nas relações entre as etnias, o que acaba gerando conflitos.

Val Percival e Thomas Homer-Dixon (1996) relacionam a escassez de recursos naturais com conflitos. Para isso, os autores estudam o que para eles, naquela altura, era o recém grande conflito da África, o genocídio de Ruanda de 1994. Segundo os autores, no período pré-colonial do país, as duas grandes etnias (Tutsis e Hutus) possuíam uma fronteira fluida, isto é, não haviam grandes desentendimentos, porém, a diferenciação das etnias se baseava em possessões, visto que, como explicam Val e Homer-Dixon (1996), provavelmente a diferenciação entre as duas etnias era por meio da quantidade de gado que cada uma tinha. Porém os ânimos esquentaram quando os belgas desembarcaram no país e separaram os dois povos por meio de características biológicas. A partir daí, a divisão entre as duas etnias se tornou cada vez mais forte a ponto de chegar ao terrível número de 800 mil vidas perdidas no combate entre Tutsis e Hutus, ambos ruandeses (MENDONÇA, 2013).

O caso de Ruanda pode ilustrar bem a relação de etnias de um determinado país e como se diferenciam por meio de capital físico, isto é, terras, recursos minerais, recursos naturais em geral, etc. E isso pode ser visto no caso das Ilhas do Pacífico (Oceania), visto que

Há uma correlação entre os conflitos internos na região e os recursos minerais, já que a maioria das terras que foi tirada à força das populações locais é rica em recursos minerais. Exemplos disso incluem Bougainville (Mina Panguna), Papua Ocidental (Mina Freeport), Nova Caledônia (Mina de Níquel), Ilhas Salomão (Mina Gold Ridge) e Mineração de Ouro em Fiji.

(BADMUS, p. 14, 2017)

No entanto, geralmente, a escassez de recursos naturais não consegue explicar por si só a ocorrência de conflitos. Como já visto, outras variáveis como subdesenvolvimento e até práticas coloniais aliadas à escassez de recursos podem desencadear sérios conflitos intraestatais (entre as pessoas do mesmo país). Com respeito às Ilhas Salomão não foi diferente. Colonizada pelo Reino Unido, a Ilha serviu como base de exploração. Badmus (2017) aponta que houveram tentativas por parte da coroa britânica de estabelecer plantações na Ilha, porém, sem muito sucesso. Os ânimos entre as etnias Guali de Guadalcanal e migrantes que buscavam se instalar em Honiara se acirraram quando o Reino Unido resolveu mudar a capital administrativa de Tulagi, nas Ilhas da Flórida, para Honiara, na Ilha Guadalcanal. Sendo assim, como bem aponta O’Connor (2003), Honiara como o principal centro financeiro das Ilhas Salomão, atraiu, portanto, salomônicos de todas as partes do país, o que provocou um inchaço dos serviços públicos e a revolta dos habitantes de Honiara.

Figura 1- Ponto em vermelho mostra a capital das Ilhas Salomão, Honiara, localizada na Província de Guadacalnal (ou Ilha de Guadacalnal)

Fonte: Google Maps, 2021.

Porém, como afirma Badmus (2017), o descontentamento dos Guali de Guadacalnal aumentou vertiginosamente após a independência das Ilhas Salomão do Reino Unido em 1978. Naquela altura, as já fragilizadas estruturas governamentais das Ilhas Salomão, somadas ao grande aumento da pobreza entre as décadas de 1980 e 1990, tornou o país em um “barril de pólvora” prestes a explodir, a qualquer momento, visto que, como aponta O’Connor (2003), o fluxo de migrantes de Malaita para Honiara, em Guadalcanal, deixaram os Guali extremamente irritados.

Figura 2- Ilha de Malaita e Guadalcanal, Ilhas Salomão

Fonte: Google Maps, 2021

Já os Malaitas, como revela Foukana (2002), ganhavam cada vez mais poder em Honiara ao ponto que se tornaram a elite política e empresarial de Guadalcanal, e, assim, os Guadalcanales foram sendo retirados de suas terras originárias. Agora, você deve estar se perguntando: Qual foi o resultado desse rebuliço todo?

Bom, aconteceu o que, usualmente, sempre ocorre. Devido a tanta insatisfação, a etnia que se sente injustiçada tende a iniciar um conflito por meio de grupos paramilitares e milícias. E assim foi no caso das Ilhas Salomão. Na década de 1990, pipocavam os movimentos militares da região de Guadalcanal: as gangues armadas de Guali; o Movimento de Liberdade Isatabu (IFM); e o Exército Revolucionário de Guadacalnal (GRA). Badmus (2017) afirma que 20 mil Malaitas foram forçados a deixar suas casas. Por outro lado, os Malaitas criaram a Força de Águia Malaita (MEF) que contra-atacava os paramilitares de Guadacalnal.

Já na Papua-Nova Guiné (PNG) são os Bougainvilles que possuem atritos com o governo central. Tal etnia chegou a votar, em 1978, pela independência da PNG, porém sem sucesso. De acordo com Badmus (2017), as disputas entre os Bougainvilles e o governo da Papua-Nova Guiné se dão por conta da mina de cobre Pangura (operada por uma empresa australiana). Frequentemente, os Bougainvilles reclamam da operacionalização da mina, cujas alegações são praticamente ignoradas pelo governo da Papua-Nova Guiné.

Figura 3- Ilha Bougainvile à direita (ponto vermelho) e Port Moresby, capital da Papua-Nova Guiné à esquerda

Fonte: Google Maps, 2021.

Assim como no caso de Ruanda os conflitos ultrapassaram as fronteiras estatais, chegando no seu vizinho República Democrática do Congo, poderia ocorrer da mesma forma na Oceania, porém, nos dois conflitos, isto é, das Ilhas Salomão e Papua-Nova Guiné, houve interferência de potências regionais da Oceania como Austrália e Nova Zelândia, além das Nações Unidas. Tais circunstâncias apontam para a ocorrência da busca por uma segurança regional, a qual funciona como um meio termo entre a segurança nacional e global. E é daí que surge, por exemplo, a ideia de complexos regionais de segurança os quais podem servir para a defesa de inimigos externos bem como pela manutenção da ordem regional (BUZAN e WAEVER, 2003). Bem… Mas isso já é assunto para outro dia…

Conclusão

Portanto, pode-se concluir que três variáveis influenciam no desenvolvimento de conflitos entre os povos de um determinado país. A primeira delas é a escassez de recursos naturais; a segunda possui um viés econômico, portanto, o subdesenvolvimento pode influenciar em convulsões sociais, e, por último, a explicação da ocorrência de conflitos pode estar em raízes coloniais que estão intrínsecas às instituições de determinados países e que acabam replicando a relação entre colonizado e colonizador.

BIBLIOGRAFIA

BADMUS, I. A. A Austrália, a Nova Zelândia e a segurança regional no Pacífico: Reflexões sobre a manutenção da paz nas Ilhas Salomão e Papua-Nova Guiné (Bougainville). Austral: Revista Brasileira de Estratégia e Relações Internacionais, Porto Alegre, RS, v. 6, n. 11, p. 9-37, 2017. Disponível em: <file:///C:/Users/tbaff/Downloads/74949-319285-1-PB%20(3).pdf>. Acesso em: 23 fev. 2021.

FOUKONA, J. D. Solomon Islands: A Nation of Islands in Conflict. Wellington: Victoria University of Wellington, 2002. 53 p.

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MENDONÇA, M. G. O genocídio em Ruanda e a inércia da comunidade internacional. Brazilian Journal of International Relations, Marília, SP, v. 2, n. 2, p. 300-328, 2013. Disponível em: <https://files.comunidades.net/massacres-e-genocidios/MENDONCA._O_genocidio_de_Ruanda_e_a_inercia_da_comunidade_internacional.pdf>. Acesso em: 24 fev. 2021.

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Thiago Barros

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás. Diretor Executivo do Dois Níveis.

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