PARAÍSO E CAMPO DE GUERRA: O CASO DE GUAM

PARAÍSO E CAMPO DE GUERRA: O CASO DE GUAM

Apesar de ser uma região frequentemente apagada do imaginário internacional, a Oceania possui alto valor geopolítico, principalmente por sua localização entre a Ásia e a América, o que a coloca exatamente no meio da região de conflitos do Oceano Pacífico, tornando estratégica sua posição geográfica, política e, principalmente, militar. Além disso, a localização do continente com diversas ilhas, no maior oceano do mundo, também tem valor geopolítico alto, pois, graças a isso, a região possui inúmeros recursos naturais valiosos em fauna e flora em seu território terrestre e marinho. 

No meio disto, encontra-se a Ilha de Guam. Descoberta pelo navegador português Fernando de Magalhães em 1521 e inicialmente ocupada pelo Império Marítimo Espanhol, em 1526, a ilha oceânica foi cedida pelos espanhóis aos Estados Unidos da América (EUA) no ano de 1898 através do Tratado de Paris, tratado que foi celebrado para colocar um fim na guerra Hispano-Americana por posses territoriais (SANTOS, 2012).

mapa de Guam

Ao mesmo tempo em que é uma possessão americana com usos militares, a ilha do Pacífico tem uma população com cultura própria, diferente daquela dos EUA contíguos[1], já que aproximadamente 40% da população de Guam é originária dos nativos da Indonésia, mais especificamente do povo Chamorro. Além disso, são um povo com interesses políticos próprios que, por vezes, não são atendidos na representação política limitada que Guam tem junto aos EUA, uma vez que a população local não participa das eleições americanas e o representante de Guam não pode votar em projetos no Congresso americano, apenas participar da discussão destes (SANTOS, 2012). Segundo a Associação de Imprensa Francesa (AFP, em francês): “Regularmente, surgem pedidos de referendo de autodeterminação, mas a Justiça federal americana os rejeita.” (AFP, 2017)

Outro fator curioso sobre Guam trata dos setores que a economia da ilha depende. As bases do Exército Americano, localizadas na ilha, e o consequente investimento militar americano é um dos maiores fatores que contribuem para o crescimento da economia local, gerando muitos empregos para a população. O outro setor no qual a economia de Guam é altamente dependente é o do turismo. Os tours nas praias paradisíacas do local, os serviços da indústria hoteleira e as lojas para turistas empregam aproximadamente 1/3 dos habitantes de Guam (AFP, 2017).

Assim, temos uma ilha de condições particulares e dúbias no Oceano Pacífico. Guam é buscada por turistas por ser uma das ilhas da Oceania de natureza exuberante com muitas paisagens paradisíacas, logo, é um destino turístico buscado com o intuito de descanso. Ao mesmo tempo, Guam é posse territorial dos EUA até hoje por sua posição estratégica no mapa, o que faz com que a ilha tenha sido essencial em incursões militares americanas, desempenhando um papel importante em guerras passadas nas quais o país norte-americano se envolveu e sendo essencial para que os EUA continuem a ter presença militar (com uma base naval e outra aérea) perto da região de conflitos asiática. Em seguida, analisaremos ambos os aspectos que fazem Guam ser um paraíso e um campo de guerra, ao mesmo tempo.

Ok, a ilha está posicionada estrategicamente. Mas por quê? Qual o histórico militar disso?

O interesse estadunidense de manter uma presença militar perto da Ásia não vem de hoje, mas certamente se intensificou desde os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). No ano de 1941, o Japão Imperial ocupou a ilha depois da incursão militar contra os EUA em Pearl Harbor, no Havaí. O domínio japonês durou de 1941 até junho de 1944, quando os EUA não só conseguiram tomar a ilha de volta, como também criaram uma base aérea para coordenar os ataques aéreos ao Japão de perto. (DW, 2017)

Guam também teve papel crucial para os Estados Unidos em outras duas ocasiões depois da Segunda Guerra Mundial: na Guerra da Coreia e na Guerra do Vietnã. Em ambas as situações o Exército Americano se utilizou da ilha para se posicionar junto à zona de conflito sem se arriscar em território inimigo, bem como para criar ali um ponto de reabastecimento e parada, além de enviarem aviões da Força Aérea Americana para combate em tais guerras. (DW, 2017)

Todas estas situações bélicas se devem à localização da ilha. Segundo o próprio Departamento de Interior dos Estados Unidos:

Guam, que é frequentemente descrito como a “ponta da lança”, é o território mais avançado dos EUA no Pacífico Ocidental. Localizado apenas algumas horas por via aérea ou alguns dias por mar de interesses estratégicos como o Japão, a península coreana, e China […] (Departamento de Interior dos EUA apud SANTOS, 2012, p.180)

 

Mas por que os americanos continuam ocupando a ilha até hoje?

A razão pela qual os EUA até os dias atuais se agarram à necessidade de manter regiões de influência na Oceania foi resumida pelo cientista político Carlos José Crêspo Santos: “A questão de projeção de poder dos EUA está intimamente ligada ao controle dessas áreas estratégicas também na atualidade.” (SANTOS, 2012, p.183).

Por mais que, desde o fim da Guerra Fria, os confrontos militares diretos tenham ficado cada vez menos frequentes entre as grandes potências, ainda há uma grande disputa de poder latente entre elas, que envolve muitos elementos geopolíticos, ou seja, de influência política e territorial. Sendo assim, a presença dos EUA no Pacífico se faz crucial para o país norte-americano no sentido estratégico, uma vez que, de Guam, os EUA conseguem monitorar tanto a China (grande potência que cada vez mais ameaça a hegemonia de poder americana), quanto a Península Coreana (área de interesse pela aliança militar com a Coreia do Sul e a influência chinesa na Coreia do Norte). (SANTOS, 2012)

[…] a nova concepção estratégica adotada pela China de controle dos mares próximos estabelece a necessidade de controlar as águas ao Oeste e a segunda cadeia de ilhas que se estendem desde o Japão, incluindo as Ilhas Marianas e Guam, estas últimas sob o controle dos EUA […] (SANTOS, 2012, p.183-184)

A prova dessa importância estratégica atual de Guam está na crise diplomática entre os EUA e a Coreia do Norte no ano de 2017. No ápice da tensão entre os dois países, com arsenal nuclear, o general norte-coreano Kim Rak-gyom, através da TV estatal do país, afirmou que eles disparariam quatro mísseis contra Guam com o argumento de que o presidente americano Donald Trump “só entendia a linguagem da força” (AFP, 2017). No fim, o conflito armado não aconteceu, mas a guerra de ameaças envolvendo Guam demonstra a relevância de poder não só militar que a região da Oceania tem para as grandes potências.

E quanto ao turismo na região?

Apesar de ser uma área central em conflitos de poder e, historicamente, em conflitos militares, a ilha de Guam, parte do arquipélago de ilhas do Fosso das Marianas, é também uma das mais procuradas por turistas (principalmente japoneses e coreanos) por suas paisagens paradisíacas, passeios aquáticos, fauna selvagem local, comida regional, enfim, por ser um lugar de potencial turístico bastante semelhante àquele das ilhas caribenhas e outros destinos turísticos paradisíacos.

Em suma?

A Ilha de Guam, apesar de pouco conhecida e ignorada inclusive por parte de alguns americanos, está numa posição de suma importância para os EUA: ao mesmo tempo em que é uma joia do turismo praiano e de paisagens paradisíacas, é também o centro da estratégia militar estadunidense em uma região de alto interesse ao exercício de poder tanto militar quanto diplomático do país norte-americano. Assim, podemos concluir que Guam vive uma realidade dupla de dois aspectos principais: oásis pacífico e campo de guerra. Porém, independente do aspecto que a ilha assumir no momento, ela definitivamente terá um papel central para o país que a administra.

 

 

REFERÊNCIAS:

AFP. Conheça Guam, a estratégica ilha perdida no Pacífico ameaçada pela Coreia do Norte. G1, 2017. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/guam-a-estrategica-ilha-perdida-no-pacifico-ameacada-pela-coreia-do-norte.ghtml>. Acesso em: 12 de jan de 2021.  

___. Coreia do Norte confirma plano para atacar Guam com mísseis. G1, 2017. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/coreia-do-norte-confirma-plano-para-atacar-guam-com-misseis.ghtml. Acesso em: 13 de jan de 2021.  

  1. Zeitgeist: Guam, território estratégico dos EUA no Pacífico. DW Brasil, 2017. Disponível em: < https://p.dw.com/p/2i1R1>. Acesso em: 12 de jan de 2021.

BRITANNICA ESCOLA. Guam.. 2021. Disponível em: <https://escola.britannica.com.br/artigo/Guam/481428>. Acesso em: 12 de jan de 2021.

GUAM, uma pequena joia estratégica do Pacífico. El País, 2017. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/09/internacional/1502241748_266493.html>. Acesso em: 13 de jan de 2021.  

LYNCH, Amy. Guam: uma ilha repleta de belezas naturais e charme cultural. Disponível em: <https://www.visiteosusa.com.br/trip/guam-uma-ilha-repleta-de-belezas-naturais-e-charme-cultural>. Acesso em: 14 de jan de 2021.  

SANTOS, Carlos José Crêspo. A geopolítica de expansão dos EUA e as teorias geopolíticas clássicas. Revista de Geopolítica, Natal-RN, v.3, nº2, p.174-194, jul/dez 2012.

 

 

[1] São os 48 estados contíguos dos EUA, excluindo os estados do Alaska e do Havaí e territórios como Porto Rico, Guam, Palau, Ilhas Virgens Americanas, etc.

Letícia Martins Lima

Internacionalista em formação pela Universidade Federal de Goiás, gosta da área geral de Relações Internacionais, mas tem interesse mais específico nas áreas de Política Internacional e Diplomacia.

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