Heroína contra a COVID-19?

Heroína contra a COVID-19?

Não se ouve falar muito da Austrália, ou do continente, Oceania, no nosso Brasil. Eu me pergunto se seria pela distância psíquica¹? Pela real distância entre os países? Pelo baixo incentivo na educação brasileira de aprender mais sobre o continente? Ou porque realmente o governo brasileiro realmente não tem tantos interesses econômicos, políticos e sociais para com os australianos? Bom, independente de qualquer coisa, as notícias envolvendo a Austrália ultimamente repercutiram no mundo todo, principalmente por causa da forma de combate do COVID-19. O país conseguiu em pouco tempo lidar com a pandemia dentro de seu território e hoje o vírus está quase extinto da região. As pessoas não precisam mais usar máscaras e estão livres para ir e vir.

Dessa maneira, gostaria de mostrá-los, através desse texto, a incrível política australiana de combate ao novo coronavírus e a conscientização da população apoiando as estratégias governamentais sobre o assunto.

O país teve um dos mais longos lockdowns (fechamentos) ainda em março, com períodos diferentes de duração em cada estado. Uma das moradoras, Anita Chrispim de Melbourne, cidade em que houveram o maior número de casos, comenta que a cidade atingiu zero casos muito rápido. No entanto, as pessoas começaram a sair, e havia pessoas em quarentena dentro de um hotel, as mesmas tiveram contato com outras e ficou comprovado que houve uma falha na segurança do estabelecimento, levando a um contágio comunitário. Isso acabou causando uma segunda onda dentro do país. Assim, entre junho a julho atingiu-se quase 800 casos por dia, o que é alarmante para uma região que não tinha tido problemas com a contaminação anteriormente (MOTTA, 2020).

Nesse contexto, o governo incentivou um novo lockdown, ainda mais severo. As pessoas só eram autorizadas a sair para ir à farmácia ou ao supermercado, uma pessoa por casa, por dia e num raio de cinco quilômetros. Foram quase cinco meses assim. Anitta diz que foi extremamente severo, as indústrias foram limitadas, não tinha  nenhum comércio fora da lei aberto (MOTTA, 2020). O que demonstra a grande severidade do problema e a preocupação da população em não se contaminar. Assim, o resultado dessa política extrema do governo foram zero casos e zero mortes. Em novembro o país voltou a “funcionar”, com cuidados e uso obrigatório de máscaras. Na Austrália, os estudantes internacionais receberam uma única parcela de auxílio de cerca de 1.000 dólares locais. Muitos voltaram aos seus países de origem (MOTTA, 2020).

Levando em conta toda a estratégia do governo de combate ao vírus, ainda sim, o país que tem 26 milhões de habitantes, teve 28 mil casos de covid-19 e 908 pessoas morreram. A taxa de letalidade de 35 óbitos por 1 milhão de habitantes foi, também, uma das mais baixas do mundo (MOTTA, 2020).

As noites eram longas e escuras no início de julho, e a segunda maior cidade da Austrália enfrentava a terrível realidade de uma segunda onda mortal de infecções por coronavírus. Agora, mais de 110 dias após o decreto de um novo bloqueio, especialistas dizem que a Austrália através de Melbourne está emergindo como líder mundial na supressão da doença, ao lado de outros países como Singapura, Vietnã, Coreia do Sul, Nova Zelândia e Hong Kong (MERCER, 2020).

Diante disso, Raina McIntyre, professora de biossegurança do Kirby Institute, da Universidade de Nova Gales do Sul, disse que a resposta da Austrália foi “anos-luz à frente” dos Estados Unidos e do Reino Unido. “É muito chocante. Quando pensamos em pandemias, não achamos que países de alta renda e com bons recursos vão desmoronar, mas foi exatamente isso que vimos” (MERCER, 2020)

Abaixo, conseguimos perceber na foto o cumprimento rigoroso da população australiana na tentativa de combater o vírus.

Fonte: Folha UOL, 2020.

Os moradores suportaram um dos mais longos e severos lockdowns do mundo, com restrições para sair, viajar, fechamento de lojas e restaurantes após a epidemia do vírus desde o início de julho, quando ocorreu um segundo bloqueio na cidade (MERCER, 2020).

Tem sido controverso, terrível para o emprego, e tremendamente difícil para muitos, mas os especialistas em saúde acreditam que funcionou. Há um otimismo cauteloso de que com um número muito baixo de casos, o pior já passou, já outras regiões como Europa e  Estados Unidos ainda estão enfrentando números extremamente altos. Vale ressaltar ainda que, na Austrália,  a máscara era obrigatória em todo o Estado de Victoria, e Melbourne estava sob toque de recolher noturno (MERCER, 2020).

A vida se resumia em estar dentro de casa, enquanto na linha de frente de uma guerra invisível, o número crescente de vítimas incluía profissionais da saúde e pessoas em asilos. O verdadeiro impacto na saúde mental pode nunca ser conhecido (MERCER, 2020). Desse modo, o vice-presidente do Conselho Islâmico de Victoria, Adel Salman comenta que o conselho entende por que o governo adotou essa abordagem e funcionou, mas que acham que poderiam ter agido mais rápido para começar a aliviar as restrições. Desta forma, eles estão adotando uma abordagem excessivamente cautelosa. Por conseguinte Salman reflete que a tensão nas famílias, o aumento da violência doméstica são fatores preocupantes nessa situação de “aprisionamento doméstico” (MERCER, 2020).

Ainda com todas precauções e dinâmicas para evitar contatos entre as pessoas, a economia da Austrália apresenta uma forte recuperação depois do impacto dessa pandemia. O secretário do tesouro Josh Frydenberg apresentou o relatório de atualização semestral do orçamento 2020-21, de acordo com o qual o déficit será de 198 mil milhões de dólares australianos (cerca de 123 mil milhões de euros), o que significa uma diminuição de 8% em relação à previsão inicial. A taxa de desemprego, também, vai fixar-se em 7,5% no primeiro trimestre de 2021, ou 0,5 pontos percentuais abaixo do calculado no orçamento de 2020-21, apresentado em outubro. O Produto Interno Bruto (PIB) vai cair 2,5% este ano, mas vai aumentar para 4,5% em 2021 (SANDERS, 2020). Esta recuperação deveu-se a uma redução dos subsídios salariais do programa JobKeeper, criado para ajudar empresários e assim proteger empregados e postos de trabalho (SANDERS, 2020).

O ministro destacou que 85% dos 1,3 milhões de australianos que perderam os seus trabalhos ou viram reduzidas as horas laborais a zero, no início da crise, estão agora de volta aos seus postos. O terceiro trimestre registrou um aumento de 3,3% do PIB, no maior aumento trimestral desde 1976. Dessa forma, a recuperação se deve à subida do preço do ferro, matéria-prima da qual a Austrália é o principal exportador do mundo (SANDERS, 2020).

Não obstante, entendemos que o governo australiano adotou medidas muito cautelosas para proteger sua população. No entanto, há benefícios que a própria região possui que facilitou para o governo. Em uma pandemia, as estratégias de controle da doença variam de país para país. Uma parte importante das defesas australianas tem sido sua geografia. Trata-se de uma ilha grande e isolada. Em março, fechou suas fronteiras internacionais para viajantes estrangeiros para impedir a entrada de pessoas infectadas. Na Austrália, quase 8,5 milhões de testes foram realizados desde o início da pandemia. Mais de um terço deles em Victoria (MERCER, 2020).

Não apenas isso, mas as medidas rigorosas eram com todos, cidadãos e residentes permanentes podem retornar à Austrália e, na chegada, ficam obrigatoriamente de quarentena durante 14 dias. O fechamento das fronteiras; um sistema de testes “uniformemente bom” entre Estados e territórios; rastreamento de contatos, onde Nova Gales do Sul levou a “medalha de ouro”; e uma população disciplinada que adotou os protocolos de distanciamento (MERCER, 2020).

A partir disso, percebemos a cultura de um país que se uniu em solidariedade ao próximo, fornecendo o que era necessário para se manterem saudáveis e protegidos. O governo teve a capacidade de adotar medidas preventivas com rapidez e cautela para que a realidade australiana voltasse ao normal o mais rápido possível (SAMBORA, 2010).

¹ A distância psíquica envolve elementos como distância geográfica, cultura, língua, nível educacional, nível de desenvolvimento tecnológico, nível de desenvolvimento econômico, logística e infra-estrutura, sistema político, sistema legal, regulamentação, práticas de negócios aceitas e ética nos negócios.

REFERÊNCIAS

MOTTA, Claudia. Covid-19: Nova Zelândia e Austrália barraram a pandemia. Israel começou bem, mas relaxou. Disponível em:https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2020/12/covid-19-nova-zelandia-australia-barraram-pandemia-israel-comecou-bem-relaxou/. Acesso em: 18 dez. 2020

SANDERS, Sandra. Covid-19. Austrália regista “forte recuperação” da economia, diz Governo. Disponível em:https://sicnoticias.pt/especiais/coronavirus/2020-12-17-Covid-19.-Australia-regista-forte-recuperacao-da-economia-diz-Governo. Acesso em: 18 dez. 2020

MERCER, Phil. Coronavírus: como Melbourne conseguiu vencer a segunda onda de covid-19. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54741720. Acesso em: 18 dez. 2020

SAMBORA, Jamili. Comércio Internacional. Distância Psíquica. Disponível em: http://jamili-comerciointernacional.blogspot.com/2010/09/distancia-psiquica.html. Acesso em: 18 dez. 2020

Djamilly Rodrigues

Graduanda em Relações Internacionais e Diretora de Conteúdo do Dois Níveis.

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