Tensões na Ásia-Pacífico

Tensões na Ásia-Pacífico

Tensões na Ásia-Pacífico: problemas diplomáticos no relacionamento sino-australiano

A Austrália é o maior país da Oceania. Em território, é um dos maiores países do mundo. Está bem inserido no Sistema Internacional (SI) moderno, estando em diversas instituições internacionais, entre elas o G-20, APEC e ASEAN (como dialogue partner). O país é um aliado histórico dos Estados Unidos (EUA). Porém, com a ascensão da China no SI e um fluxo comercial significativo com os chineses, a posição australiana torna-se ainda mais delicada. Manter a parceria com os Estados Unidos ou ceder a pressão econômica chinesa? Este é um dilema real? Ou é possível manter relações amistosas com ambas as nações?

As relações diplomáticas sino-australianas (China-Austrália) tiveram início em 1972. Havia um ano que os EUA tinham reatado relações com a China continental[1], com a visita do secretário de Estado Henry Kisinger ao país (KISSINGER, 2011). Logo mais, em 1973, a embaixada australiana é aberta em Pequim. Desde então, diversos mecanismos de intensificação político e diplomática foram se estabelecendo: em 2014 o relacionamento recebeu o título de ‘relações estratégicas abrangentes’; a Austrália mantém cinco consulados na China, sendo um em Hong Kong; há também o Encontro Anual de Líderes, evento que reúne o premiê chinês e o Primeiro-Ministro australiano, além de haver outros fóruns de discussão na área securitária e de mudanças climáticas (DEPARTMENT OF FOREIGN AFFAIRS AND TRADE, 2020). Portanto, percebe-se a relevância das relações diplomática entre os dois países, sendo uma das mais importantes da região da Ásia-Pacífico.

Como visto, os diálogos técnicos e políticos são significativos entre a Austrália e a China. Porém, quando se trabalha a temática econômica, fica evidente o quão dependente da China o país da Oceania é. Em 2018, dos US$ 248 bilhões exportados pela Austrália, US$ 83 bilhões[2] foi para a China (THE OEC, 2020). Em outras palavras, 1/3 das exportações australianas tem como destino a China. Ainda segundo THE OEC, os principais parceiros comerciais do país, após a China, respectivamente são: Japão (US$27,6 bilhões), Coreia do Sul (US$19,2 bilhões), Índia (US$18,9 bilhões) e EUA (US$9,7 bilhões). Canberra, portanto, tem uma dependência comercial significativa com a China. Nota-se também que os principais parceiros comerciais do país, com exceção da Índia, estão na região Ásia-Pacífico.

Mesmo somado todas as exportações australianas para a o Japão, Coreia do Sul, Índia e EUA (US$75,4 bilhões), não estão no patamar das exportações à China. Além do mais, em dezembro de 2015 foi firmado um acordo comercial bilateral entre as duas nações: o China-Australia Free Trade Agreement (ChAFTA), revelando que a Austrália não se mostra incomodada com sua dependência comercial ao dragão asiático, mas enxergam suas relações com os chineses como benéficas e uma oportunidade para intensificar o comércio australiano. Segundo o Departamento de Assuntos Exteriores e Comércio da Austrália:

ChAFTA é um acordo histórico que entregará enormes benefícios à Austrália, aumentando nossa posição competitiva no mercado chinês, intensificando o crescimento econômico e criando empregos. Empresários estão utilizando das baixas tarifas graças ao acordo, com uma taxa de utilização de 85% em ambas as direções.

(DEPARTMENT OF FOREIGN AFFAIRS AND TRADE, 2020)[3].

Tendo isto em vista, avança-se para o ano de 2020, durante a pandemia do COVID-19. Em abril de 2020, a ministra de relações exteriores australiana, Marise Payne, exigiu transparência da parte chinesa no combate à pandemia, e propôs uma investigação global sobre as origens do novo corona vírus (WORTHINGTON, 2020). A ministra ainda afirmou que confia que a China cooperaria com seu governo. Dois dias depois, o primeiro-ministro conservador do país, Scott Morrison afirmou que há críticas válidas contra a Organização Mundial de Saúde (OMS), e que reconsideraria a posição da Austrália com a instituição internacional, vanguarda no movimento internacional de crítica à OMS durante a pandemia, o que levou, mais de um mês depois, o desligamento dos EUA da organização[4].

Como resposta firme do governo chinês às autoridades australianas, o embaixador em Canberra Cheng Jingye aparentemente fez ameaças de retaliação econômicas (CHANG, 2020). Em meados de maio, ações práticas foram tomadas pelo governo chinês: quatro abatedores australianos tiveram suas exportações de carne suspensas para o país asiático (DZIEDZIC, 2020). Oficiais do governo chinês alegaram questões técnicas para a tomada de decisão, enquanto analistas sugerem que a atitude foi uma retaliação aos posicionamentos anteriores do governo australiano.

Felix Chang (2020) cita que a Austrália tem uma aliança histórica com os Estados Unidos, mas vê que o Sistema Asiático está em alteração, com o ‘desenvolvimento pacífico’ da China, com perda de poder relativo dos Estados Unidos na região. A saída dos EUA da Parceria Trans-Pacífico é um dos principais símbolos para a perda de poder estadunidense na região da Ásia-Pacífico. Ele cita a necessidade, apontada por analistas australianos, de uma ‘abordagem mais balanceada’ para as relações de seu país com os Estados Unidos e com a China. Porém, para que isto seja possível, seria necessária concessões em temas-chave para a política externa chinesa, como sua soberania no Mar do Sul da China, Taiwan e Hong Kong.

As concessões sugeridas por Chang estão acertadas, mas dificilmente serão postas em prática pelos australianos, já que o país tem um Primeiro-Ministro de vertente conservadora e os laços históricos com os Estados Unidos são significativos, além do próprio Departamento de Relações Exteriores e Comércio (2020) ter um tom duro com a China. Em sua página nas relações diplomáticas entre os dois países, os australianos reconhecem fatores que afetam as relações entre as duas nações, como: diferença de abordagem de Direitos Humanos; liberdade de expressão limitada em território chinês; baixa liberdade religiosa; tratamento de prisioneiros políticos e minorias étnicas (incluindo Xinjiang e Tibet); e direitos legais de ativistas.

Por fim, percebe-se que a Austrália, muitas vezes, está numa posição delicada. Eles precisam balancear alguns valores de sua política externa para conter impulsos chineses de retaliação comercial. O papel cada vez mais predominante da China, tanto na região da Ásia-Pacífico, faz com que policymakers australianos levem em cada vez mais em consideração posições chinesas neste tabuleiro. A dependência australiana à China na arena comercial põe o país da Oceania numa posição complicada, pois manter forte seu comércio com seu principal parceiro e criticar suas práticas autoritárias não parece ser uma opção possível.

Referências

BRASIL. ComexVis – China. Ministério da Economia, Brasília, 2020. Disponível em: <http://comexstat.mdic.gov.br/pt/comex-vis>. Acesso em: 03/06/2020.

CHANG, Felix. Social Distancing. Australia’s relations with China. Disponível em: < https://www.fpri.org/article/2020/05/social-distancing-australias-relations-with-china/>. Acesso em: 08/06/2020.

DEPARTMENT OF FOREIGN AFFAIRS AND TRADE. China Country Brief. 2020. Disponível em: <https://www.dfat.gov.au/geo/china/Pages/china-country-brief>. Acesso em: 07/06/2020.

DZIEDZIC. China’s meat import suspension a reminder of Beijing’s ability to inflict economic pain. Disponível em: < https://www.abc.net.au/news/2020-05-13/china-import-suspension-reminder-bejing-inflict-economic-pain/12243560>. Acesso em: 08/06/2020.

KISSINGER, Henry. Sobre a China. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

THE OEC. Australia. 2020. Disponível em: <https://oec.world/en/profile/country/aus>. Acesso em: 07/06/2020.

WORTHINGTON, Brett. Marise Payne calls for global inquiry into China’s handling of the coronavirus outbreak. ABC, 2020. Disponível em: < https://www.abc.net.au/news/2020-04-19/payne-calls-for-inquiry-china-handling-of-coronavirus-covid-19/12162968>. Acesso em: 07/06/2020.


[1] Até aquele momento, havia um equilíbrio maior no reconhecimento internacional de quem representava a China histórica, se os nacionalistas sediados em Taiwan (República da China), ou se Pequim (República Popular da China).

[2] Para efeitos de comparação local, as exportações brasileiras para a China, em 2019, foram da ordem de US$63,3 bilhões (BRASIL, 2020).

[3] No original: “ChAFTA is an historic agreement that is delivering enormous benefits to Australia, enhancing our competitive position in the Chinese market, boosting economic growth and creating jobs. Businesses have taken advantage of lower tariffs under the agreement, with a utilization rate of oer 85 per cent in both directions”.

[4] O anúncio de Trump foi feito no dia 29 de maio de 2020.


Gustavo Milhomem

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás. Idealizador do Dois Níveis.

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