A INTERVENÇÃO MILITAR RUSSA NA GUERRA CIVIL SÍRIA

A INTERVENÇÃO MILITAR RUSSA NA GUERRA CIVIL SÍRIA

Encontro entre Bashar al-Assad (esquerda) e Vladimir Putin (direita) na Rússia. Fonte: Agência Fotos Públicas.

Marcada pela presença de inúmeras civilizações durante toda a sua rica história, a Síria enfrenta hoje uma Guerra Civil  considerada por muitos analistas como um dos conflitos mais importantes para a Política Internacional do século XXI. Sendo assim, o objetivo deste texto é analisar apenas uma das missões internacionais atuantes na Guerra Civil Síria:  a Intervenção Militar Russa.

No entanto, anteriormente à abordagem das motivações e dos objetivos da Rússia no Oriente Médio, é necessário compreender o contexto histórico e geográfico daquele país, o que é e como iniciou esta guerra que já dura uma década e, então, analisar se o objetivo russo foi cumprido e quais são as perspectivas para o país.

Contexto histórico e geográfico

A República Árabe da Síria (em árabe, al-Jumhuriyah al-Arabiyah al-Suriyah), está localizada na costa oeste do Oriente Médio e faz fronteira de jure[1] com outros cinco países: ao Norte com a Turquia; ao Sul com a Jordânia; a Leste com o Iraque; a Oeste com o Líbano e a Sudoeste com Israel, totalizando 2,363 km de fronteiras terrestres. Além disso, o país possui saída para o Mar Mediterrâneo, que possibilita à Síria ter uma costa marítima de 193 km. O país possui uma área de aproximadamente 187 mil km2 e uma população de pouco mais de 20 milhões de habitantes (CENTRAL, 2021; INDEX MUNDI, 2021; WORLD, 2021).

Mapa político da Síria. Fonte: Encyclopædia Britannica.

Fruto de sua localização e de uma história milenar, a Síria tem uma população composta por inúmeros grupos étnicos. De acordo com The World Factbook (2021) da Agência Central de Inteligência (CIA), do total de grupos étnicos existentes no país, aproximadamente 50% são árabes; 15% são alauítas; 10% são curdos; 10% são levantinos e os outros 15% incluem os drusos, ismaelitas, imames, nusairis, assírios, turcomenos e armênios. Além disso, a maior religião do país é o Islam (80%), sendo dividido entre sunitas (74%) e alauítas, ismaelitas e xiitas (13%). Outras religiões também estão presentes no país, porém em menor quantidade como os cristãos (10%) e os drusos (3%).

A Síria e sua história

Dominada pelo Império Otomano desde 1516, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Síria estreitou cada vez mais os laços com o Sultanato do Egito e, por conseguinte, com os britânicos – que lutavam contra os otomanos na guerra. O responsável por essa aproximação com os ingleses, o Emir de Meca Hussein ibn Ali, com “apoio” dos britânicos, iniciou em 1916 a Revolta Árabe, autodeclarando-se Rei de Hejaz.

No entanto, o interesse britânico ao apoiar a revolta envolvia dar apenas um “xeque-mate” no já combalido Império Otomano. Logo, o apoio dos ingleses não passaria de promessa, pois o Império Britânico e a França, tendo ciência do inevitável fim do Império Otomano, decidiram secreta e unilateralmente partilhar o território dos otomanos entre si  através do “Acordo Sykes-Picot” de 1916 (ZAHREDDINE, 2013; SHOUP, 2018).

Com a assinatura deste acordo, a parte francesa ficou com o controle total da Síria, Líbano, Cilícia e Mosul. A primeira consequência da presença francesa no país foi a Grande Revolta Síria (1925-1927), um levante armado contra os franceses que tinha como objetivo a independência do país. Entretanto, dada a fragmentação dos diversos grupos do movimento, a rebelião acabou sendo um fracasso (Ibidem).

Entre 1930 e 1961, a Síria passou por inúmeras alterações de poder. Logo após a independência do país, arduamente oficializada em 17 de abril de 1946, a Síria enfrentou um período de ditadura militar entre 1951 e 1954. Desde a independência, inúmeras disputas étnicas, políticas e religiosas aconteceram, sendo a minoria alauíta a mais bem sucedida politicamente (FURTADO; RODER; AGUILAR, 2014).

Em 1958, a Síria uniu-se ao Egito, formando a República Árabe Unida (RAU), até sua dissolução em 1961, mudando de nome para República Árabe Síria. Desde então houveram inúmeras tentativas de união com outros Estados Árabes; todas falharam.

Em 1964, o Partido Social Árabe Ba’ath[2] toma o poder do país e cada vez mais os alauítas dominam a esfera política. Em 1970, após mais um golpe de Estado, Hafez al-Assad assumiu o poder do país, posição que liderou até sua morte no ano 2000. A transição de poder foi realizada pela passagem do cargo para um dos filhos de Hafez, neste caso, Bashar Hafez al-Assad, que comanda o país até hoje (2021) (SHOUP, 2018).

Guerra Civil Síria (2011-Presente)

Em março de 2011, inúmeras manifestações pacíficas da população síria começaram a tomar as ruas do país. Influenciadas pela Primavera Árabe, essas manifestações cobravam reformas constitucionais no país e foram, cada vez mais, tomando novos rumos e abrangendo novas discussões, como os conflitos étnicos e religiosos – facilitando o surgimento de uma jihad[3] na Síria (ROBERTO, 2012).

Grafite em árabe com a frase “Derrubem Bashar” feito durante as manifestações de 2011. Fonte: Wikimedia Commons.

Com a escalada de tensões em 2012 e 2013, os protestos ficaram cada vez mais violentos e a resposta estatal ainda mais brutal. Desde o início, a Organização das Nações Unidas (ONU) acompanhou de perto a situação. No entanto, houve mais impasses do que soluções, já que dentro do Conselho de Segurança da ONU (CSNU), a Rússia, enquanto aliada histórica do governo sírio, utilizou o seu poder de veto para barrar resoluções contra a Síria (FURTADO; RODER; AGUILAR, 2014).

Desde então, inúmeros atores internos, regionais e internacionais estiveram envolvidos no conflito, sendo os principais: Estados Unidos, Rússia, Turquia, Irã e Arábia Saudita (esses dois últimos, que lutam entre si em uma espécie de “Guerra Fria do Oriente Médio”), além do envolvimento do Da’ish[4], Hezbollah e dos curdos (PICCOLLI; MACHADO; MONTEIRO, 2016).

Objetivos e motivações da Rússia

Para a Rússia, a Síria tem grande importância econômica, já que desde os anos 1960 (com a União Soviética) o governo sírio é o principal comprador de armas do país, sem contar a capacidade energética da região. Além disso, há a importância política, já que o apoio russo reforça o caráter anti-imperialista e soberanista da política externa russa, além de prover para Moscou a única base militar russa no Oriente Médio, ocupando, portanto, uma posição de destaque na região (KOZHANOV, 2018).

Outro ponto importante para o Kremlin é evitar a propagação dos “Três Males” (extremismo, separatismo e terrorismo) dentro do seu próprio território, em regiões de maioria mulçumana, como a Tchetchênia. Essa posição favorece Vladimir Putin em duas esferas: na interna, tirando o foco dos problemas econômicos que o país enfrenta; e na esfera externa, enquanto um player internacional forte e independente (ROBERTO, 2012; GHOTME; RIPOLL, 2014).

Reunião oficial entre Bashar al-Assad (esquerda), Vladimir Putin (centro), o Ministro da Defesa russo, Sergey Shoigu (centro) e o Chefe do Estado-Maior Russo, Valeri Gerassimov (direita). Fonte: Presidência da Federação Russa.

Afinal, a intervenção mudou alguma coisa?

Presente na Síria desde setembro de 2015, a Intervenção Russa ainda não é passível de ser analisada como sucesso ou fracasso, pois é necessário considerar os seguintes pontos:

  • A legitimidade das operações;
  • A derrocada contra o Da’ish; 
  • O apoio dos demais países da região.

Diferentemente de outras operações militares em países do Oriente Médio, a intervenção russa é a única que busca manter o status quo ao mesmo tempo em que procura soluções “pacíficas” para ambos os lados, diferentemente da Oposição Síria (apoiada pelos Estados Unidos) que busca a saída de Bashar al-Assad do poder e o fim de seu regime autoritário. Pelo Direito Internacional, como afirma Mercier (2016), todos os lados realizam ações ilegais, já que as intervenções podem ser entendidas como ataques estrangeiros à população síria.

Militares russos na cidade de Aleppo. Fonte: Wikimedia Commons.

A vitória dos governistas e da Intervenção Russa sobre o Da’ish em Aleppo, no ano de 2017, só foi obtida às custas de inúmeros ataques aéreos que resultaram em perdas para todos. Portanto, a depender da interpretação do conceito de “intervenção por convite” e, ainda que tenha acontecido a derrocada sobre o Da’ish, a morte de milhares de civis durante os ataques aéreos russos pode ser considerada agressão externa (MERCIER, 2016).

Já a disputa digna da Guerra Fria entre Irã e Árabia Saudita faz com que os ataques apoiados pelos Estados Unidos e pela Árabia Saudita sejam criticados pelos iranianos e russos. Simultaneamente, os ataques apoiados pela Rússia e pelo Irã são criticados pelos estadunidenses e sauditas. Logo, o apoio dos demais países da região é extremamente dividido, ainda que a Rússia tenha conseguido manter um equilíbrio nas relações com turcos, iranianos, sauditas e estadunidenses (KOZHANOV, 2018).

Portanto, as únicas mudanças evidentes no âmbito da guerra referem-se ao número de civis mortos nos conflitos (aproximadamente 207 mil), à quantidade de pessoas deslocadas internamente (6,56 milhões) e à quantidade de refugiados (6,65 milhões), números esses que só aumentam (STATISTA, 2021). Logo, ainda que tenham acontecido vitórias importantes para ambos os lados (opositores e governistas), é necessário ressaltar que todos os atores envolvidos nesta guerra têm interesses próprios, que podem ser apoiados ou não a depender de qual lado conta a história. Sendo assim, a verdadeira mudança só acontecerá quando o conflito chegar ao fim e o autoritarismo e a Guerra Civil forem apenas mais um doloroso episódio da longa história da Síria.

Notas

[1] Como a Resolução 181 das Nações Unidas criou o Estado de Israel, de jure, isto é, pela Lei, a Síria faz fronteira com todos os seus países vizinhos mais o Estado de Israel, no entanto, de facto, a Síria não reconhece formalmente o Estado de Israel.

[2] O partido baseou-se na ideologia socialista, nacionalista e pan-arabista do baathismo, que é contrária ao fundamentalismo islamista e ao regime teocrático.

[3] Palavra árabe que pode ser entendida como “luta” ou “esforço” no âmbito de uma “Guerra Santa” travada contra os inimigos do islamismo.

[4] Sigla do árabe “ad-Dawlat al-’Iraq wa sh-Sham”, em português “Estado do Iraque e do Levante”.

Referências

CENTRAL Intelligence Agency. Syria. 2021. Disponível em: <https://www.cia.gov/the-world-factbook/countries/syria>. Acesso em: 22 nov. 2021.

FURTADO, G.; RODER, H.; AGUILAR, S. L. C. A Guerra Civil Síria, o Oriente Médio e o Sistema Internacional. Série Conflitos Internacionais, v. 1, n. 6, p. 6, 2014.

GHOTME, R.; RIPOLL, A. Las relaciones internacionales de la guerra civil Siria: Estados Unidos y Rusia en la lucha por el poder internacional. Revista de Relaciones Internacionales, Estrategia y Seguridad, v. 9, n. 2, p. 77–102, 28 ago. 2014.

INDEX MUNDI. Countries ranked by Surface area (sq. km) – Middle East. 2021. Disponível em: <https://www.indexmundi.com/facts/indicators/AG.SRF.TOTL.K2/rankings/middle-east>. Acesso em: 22 nov. 2021.

KOZHANOV, N. O que os russos querem no Oriente Médio? 2018. Disponível em: <https://diplomatique.org.br/o-que-os-russos-querem-no-oriente-medio/>. Acesso em: 25 nov. 2021.

MERCIER, S. The Legality of Russian Airstrikes in Syria and “Intervention by Invitation”. E-International Relations, 29 abr. 2016. Disponível em: <https://www.e-ir.info/2016/04/29/the-legality-of-russian-airstrikes-in-syria-and-intervention-by-invitation/>. Acesso em: 25 nov. 2021.

PICCOLLI, L.; MACHADO, L.; MONTEIRO, V. F. A guerra híbrida e o papel da Rússia no conflito sírio. Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v. 3, n. 1, 7 jul. 2016.

ROBERTO, W. M. O papel russo na crise síria e sua decorrência internacional. Revista Perspectiva, v. 5, n. 9, p. 57–72, set. 2012.

SHOUP, J. A. The history of Syria. California: Greenwood, 2018.

STATISTA. The Syrian Civil War. 2021. Disponível em: <https://www.statista.com/topics/4216/the-syrian-civil-war/>. Acesso em: 25 nov. 2021.

WORLD POPULATION REVIEW. Aleppo Population 2021. 2021. Disponível em: <https://worldpopulationreview.com/world-cities/aleppo-population>. Acesso em: 23 nov. 2021.
ZAHREDDINE, D. A crise na Síria (2011-2013): uma análise multifatorial. Conjuntura Austral, v. 4, n. 20, p. 6, 1 nov. 2013.

Jorge Willian Ferreira Gonçalves

Graduando em Relações Internacionais pela UFG. Membro do Grupo de Estudos sobre a Rússia (PRORUS/UFSC) e pesquisador voluntário na Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM/UFG). Tenho interesse nas relações Brasil-Rússia e a política externa russa no âmbito da Organização para Cooperação de Xangai e os BRICS.

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