Capernaum: um grito de socorro em meio ao caos

Capernaum: um grito de socorro em meio ao caos

Quero condenar meus pais? Por quê? Por terem me colocado no mundo.

Essa é a frase que introduz o filme Capernaum, dirigido por Nadine Labaki, uma cineasta libanesa. Capernaum é uma ficção de retrato real, tal realidade que atravessa as telas de cinema, sobre um menino que tenta sobreviver pelas ruas de Beirute. Vagando em meio a penúria e enfrentando um relacionamento abusivo com os pais, Zain, de apenas 12 anos, é uma criança que carece de inocência. Seu amadurecimento precoce não é uma escolha, é uma necessidade de sobrevivência.

No Líbano, o casamento infantil é algo comum e amparado pela lei, e acontece primordialmente em famílias de situação socioeconômicas frágeis. É nesse contexto, que o estopim do filme se concentra: Zain parte em uma tentativa de salvar sua irmã de um casamento arranjado, mas falha miseravelmente. O descontentamento com os pais era antigo: entre muitos irmãos, o desleixo, a ausência de certidões de nascimento, o trabalho infantil e a “venda de sua irmã”, assim era como o jovem Zain enxergava o casamento arranjado. A sucessão destes fatores o levaram a única ação: fugir.

A evasã  faz com que o menino se envolva em uma nova experiência, que será o foco desse texto: a situação dos refugiados no Líbano. Zain novamente tenta sobreviver nas ruas de Beirute, agora sem a ajuda de sua família. Em uma investida para conseguir um emprego em um restaurante, o garoto conhece uma imigrante etíope, Rahil, que possui um filho de colo, ao qual sempre o leva junto ao emprego. Rahil, acaba pegando certo afeto a Zain e deixa-o morar em sua casa e, enquanto trabalha, Zain cuida do seu bebê.

A problemática de Rahil, imigrante ilegal, a leva ser presa, e o ocorrido torna Zain responsável pelo cuidado de seu filho, que acaba conhecendo uma refugiada síria. Zain, então, dedica-se a conquistar, de forma ilegal, o status de refugiado para poder sair do país em busca de uma vida melhor.

Vamos entender um pouco mais sobre a Guerra Civil na Síria e a dispersão de sua população para o Líbano. O conflito se inicou em meados de março de 2011,  em meio a Primavera árabe. O descontentamento por inúmeras denúncias de corrupção, principalmente aquelas reveladas pelo Wikileaks[1], acarretou diversas  manifestações contra o governo Ba’ath, e este respondeu por intermédio de violência, deixando vários mortos. Exigia-se, assim, a exoneração do presidente Bashar al-Assad, cuja família estava ocupando o cargo de presidência desde 1971. (BBC, 2019)

Sem resoluções, a oposição se armou e começou a combater pelos seus propósitos, formando o Exército Síria Livre e o Partido da União Democrática, composto pelos curdos. Diante disso se estabelece na Síria um verdadeiro caos. Com toda a vulnerabilidade do país, o Estado Islâmico embarca em ações intervencionistas no território, e, nessa intervenção, a violência aumenta, estando o país em uma fidedigna guerra civil. A guerra civil tem seus inúmeros lados, desde aqueles que são contra o governo da Assad, aos Curdos que desejam o direito de autogoverno, e às questões religiosas na Síria, com uma maioria muçulmana sunita contra a seita xiita alauita do governo Ba’ath. (BBC, 2019)

As consequências do conflito são milhares de mortes, milhares de pessoas feridas e cerca de 5,7 milhões de refugiados sírios, de acordo com o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Só no Líbano, conforme a organização, existem mais de 1 milhão de refugiados, o que incluía os próprios atores do filme Capernaum. Em uma entrevista ao New York Times, a diretora do filme, Nadine Labaki, revela que Zain, sim o ator possui o mesmo nome do personagem, e sua família antes das filmagens estavam em situação precária no Líbano, e contavam com status de refugiado. Durante as filmagens, o ACNUR entrevistou Zain e sua família, que recebeu um reassentamento, uma vez que quando a organização percebe que uma família refugiada está em situação problemática em um país anfitrião, solicita o reassentamento. Hoje, Zain mora na Noruega e já não enfrenta mais as condições similares de seu personagem em Capernaum.

Para a compreensão sobre refugiados e reassentamento.  O ACNUR, define refugiado como:

São pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados.

O reassentamento, de acordo com as Nações Unidas, é a transferência de pessoas com status de refugiado que estão em uma determinada nação para outro país, este aufere e garante a permanência desses indivíduos em seu território.

O reassentamento é uma solução extremamente importante no Líbano, em virtude de que este é o país que mais abriga refugiados por per capita no mundo, o que transforma totalmente o seu mapa demográfico. Além disso, desde 2008, segundo o próprio FMI(Fundo Monetário Internacional), o Líbano enfrenta uma crise econômica. Com o excedente de refugiados no país a crise se intensificou e os problemas sociais estatais dificultaram a vida dos sírios, o mercado de trabalho está saturado, a inflação só aumenta, e os preços dos alugueis e alimentícios supersaturados.

Depois da elucidação da Guerra Civil Síria e do conceito de refugiado, enfoquemos novamente ao filme Capernaum. Zain, para mudar de país, precisa antes de tudo de um documento falso identificando ele como sírio. Para isso busca seus documentos originais na casa dos pais, entretanto descobre que ele e alguns de seus irmãos não possui documentos. Infelizmente, o novo contato com os pais resulta da ida de Zain à prisão. O garoto é condenado, e durante a sentença resolve processar os pais.

Durante o julgamento, o filme faz o expectador refletir sobre de quem é a culpa sobre a vida de Zain. Sua vulnerabilidade é apenas culpa das inconsequentes ações de seus pais? Ou de todo o sistema? Tanto o Internacional quanto o Estado do Líbano? Os adultos possuem sua porção de culpabilidade, uma porção que não deve ser ignorada, entretanto as desigualdades sociais, as leis falhas, a assimetria do sistema internacional e a cultura colaboram para o constrangimento da situação.

Para finalizar a minha primeira coluna, deixo aqui um diálogo dos pais do Zain durante seu julgamento, argumentando sobre não serem os únicos culpados por toda a problemática em questão. É um diálogo que traz deveras reflexões:

            -Vivo e trabalho como uma cadela para a senhora (advogada do réu) estar aqui a julgar-me? Como se atreve a julgar-me? Já esteve no meu lugar? Viveu minha vida? Nunca viveu nem nunca viverá! Nem no seu pior pesadelo. Se vivesse enforcar-se-ia! Imagina ter de alimentar os seus filhos com água e açúcar, por não ter mais nada para lhes dar. Estou disposta a cometer cem crimes para manter os meus filhos vivos!

REFERÊNCIAS

BBC. Why is there a war in Syria?. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-middle-east-35806229. Acesso em: 25 set. 2020.

UNHCR. Syria emergency. Disponível em: https://www.unhcr.org/syria-emergency.html. Acesso em: 22 set. 2020.​

FMI. IMF Survey: Resilient Lebanon Defies Odds In Face of Global Crisis. Disponível em: https://www.imf.org/en/News/Articles/2015/09/28/04/53/socar081109a. Acesso em: 22 set. 2020.​

[1] O WikiLeaks é uma plataforma de denúncias fundada por Julian Assange. Foi estabelecido para obter e divulgar documentos classificados e conjuntos de dados de fontes anônimas e vazadores

Ana Clara Bueno

Estudante de Relações Internacionais pela UFG. Apaixonada por Direitos Humanos, Segurança internacional e Política Externa. Mescla todas suas paixões com produções cinematográficas. Futura ativista dos Direitos dos Animais.

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