ISLÂNDIA: SECURITIZAÇÃO DA COVID-19?

ISLÂNDIA: SECURITIZAÇÃO DA COVID-19?

O contexto de Pandemia da Covid 19 modificou a vida de milhões de pessoas, alterou a lógica de trabalho de milhares de empresas e até influenciou a política doméstica dos Estados para lidar com essa ameaça a vida humana. Dentro desse contexto, podemos fazer uma análise sobre o processo de securitização em relação a Covid 19 feito pela Islândia, um país que agiu de forma excepcional diante dessa crise e que é interessante para exemplificar o processo de securitização dentro dos Estados e consequentemente, dentro das Relações Internacionais. 

O que é securitização

A securitização é um processo desenvolvido a partir da identificação de uma ameaça existencial e da identificação de um objeto de referência – o que está sendo ameaçado -. Dentro desse contexto, as ações políticas podem ser direcionadas para combater a ameaça, sendo possível uma quebra de regras ou uma medida atípica dentro dos procedimentos de rotina para contê-la. 

Nesse sentido, securitização também é vista como o último estágio dentro de um processo intersubjetivo e construído socialmente. Em outras palavras, é quando um ator, seja ele um Estado, Organização Internacional, ou até mesmo um governante, profere discursos e atua com um conjunto de ações, de forma a construir e compartilhar um cenário em que a ameaça consiga ser percebida e aceita pela audiência, mais especificamente pela população (BUZAN et al, 1998). 

O processo é acumulativo até se tornar securitizado e perpassa por três momentos. Primeiramente, o Não politizado, quando o Estado não lida diretamente com o problema e não está incluído no debate público. Como por exemplo, os primeiros casos de Covid-19 no mundo, quando apenas a China precisava lidar com essa demanda e outros Estados não percebiam a doença como uma ameaça efetiva. Em seguida, existe a Politizado, quando a ameaça começa a ser gerida dentro de um sistema político, englobando decisões governamentais e alocação de recursos. Por fim, a Securitização de fato, é o estágio mais avançado onde o ator securitizador consegue articular sobre o fenômeno já politizado, criando um cenário com caráter de urgência, onde é possível agir com o que for necessário para defender e preservar o objeto de referência (BUZAN et al, 1998). 

Atuação da islândia

No contexto islandês é possível identificar duas figuras importantes, a primeira ministra Katrín Jakobsdótti e o Dr. Kári Stefánsson, cientista CEO do deCODE genetics, maior laboratório do país, juntos eles construiram de forma objetiva um discurso que centralizava a doença como ameaça a vida de sua população e que deveria ser combatida o mais rápido possível para evitar maiores danos. De acordo com a primeira ministra: 

Estávamos acompanhando as notícias da China muito de perto. Portanto, começamos nossos preparativos muito antes de o primeiro caso dar positivo aqui na Islândia. E ficou muito claro desde o início que isso era algo que deveria ser liderado por especialistas – por especialistas científicos e médicos (KOLBER, 2020, TRADUÇÃO DA AUTORA DO TEXTO).

Em seguida, iniciaram a prática de testes de forma massiva com o objetivo de testar a maior parte população, mesmo que assintomática. Essa estratégia é importante porque consegue identificar o paciente antes mesmo de apresentar sintomas, e promover o isolamento desse indivíduo de forma a não propagar a doença para outros (CARBINATTO, 2020). 

Sem rodeios, as medidas de distanciamento social sobre a Covid-19 da Islândia e suas restrições de “confinamento leve” alcançaram resultados iguais ou melhores as medidas mais rigorosas em vigor na Alemanha e na Noruega, para citar dois dos principais países da Europa Ocidental com esforços muito bem-sucedidos em “achatar” o pico nas taxas de infecção (MARTIN, 2020, TRADUÇÃO DA AUTORA AUTORA DO TEXTO).

Não apenas, a Islândia reuniu um plano de ação um pouco diferente de outros Estados europeus, aderindo um isolamento relativamente leve. Universidades e escolas foram fechadas, creches, estabelecimentos comerciais e restaurantes se mantiveram abertos mas com uma capacidade menor de pessoas, além disso, proibiram aglomerações com mais de 20 pessoas, fecharam a fronteira do país por determinado momento e interromperam atividades turísticas (CARBINATTO, 2020). Não obstante, o que se destaca na maneira como o país lidou com a crise foi a estratégia de rastreamento de pacientes, com uma equipe capacitada para mapear a rede de pessoas que um infectado teve contato. 

Como exemplo dessa atuação: o primeiro caso registrado no país foi um homem que tinha chegado da Itália e alguns dias depois apresentou os sintomas, enquanto esteve assintomático ele frequentou lugares públicos normalmente sem ter a noção que poderia estar contaminando outras pessoas. Assim que o paciente foi diagnosticado, a equipe de rastreamento entrou em ação:

Qualquer pessoa que passou mais de quinze minutos perto do homem nos dias antes de ele sentir os primeiros sintomas foi considerada potencialmente infectada. A equipe criou uma lista de cinquenta e seis nomes. À meia-noite, todos os cinquenta e seis contatos foram localizados e colocados em quarentena por quatorze dias (KOLBER, 2020, TRADUÇÃO DA AUTORA DO TEXTO).

A estratégia foi mantida em conjunto com uma testagem avassaladora da população. Até o momento – setembro de 2020 – o país já fez cerca de 244 mil testes domésticos e de triagem transfronteiriça, diante de sua população de aproximadamente 364 mil pessoas. Apenas 2.307 casos foram confirmados, dentro destes, 10 vieram a óbito. Além disso, o Estado criou o  aplicativo Rakning C-19, que tem como objetivo auxiliar o mapeamento de pessoas, sua movimentação, analisar os dados em relação a prováveis riscos de contaminação e manter um contato direto entre os islandeses e profissionais da saúde (ICELAND DATA, 2020). 

Outra ação peça chave para a gestão da crise, é o mapeamento genético sobre a mutação do vírus, que o laboratório deCODE genetics vem fazendo no país. A empresa, em conjunto com o governo, sequenciou o vírus de todos os islandeses cujo o teste deu positivo, e criaram um banco de dados rico em informações que está servindo para os estudos do genoma do vírus e seus anticorpos. 

Conforme o vírus passa de pessoa para pessoa, ele pega mutações aleatórias. Ao analisá-los, os geneticistas podem mapear a propagação da doença. Os pesquisadores da deCODE descobriram que, embora as atenções estivessem voltadas para a Itália, o vírus estava discretamente entrando no país vindo de várias outras nações, incluindo a Grã-Bretanha (KOLBER, 2020, TRADUÇÃO DA AUTORA DO TEXTO).

Ao sequenciar o vírus de cada pessoa infectada, os pesquisadores da deCODE também podem fazer inferências sobre como ele se espalhou e aprimorar as pesquisas, de forma a colaborar com os estudos internacionais e na produção de uma vacina. Para o cientista Kári Stefánsson: 

Isso foi feito de uma forma extremamente equilibrada”, disse ele a certa altura. “E acho que as autoridades fizeram praticamente tudo certo.” Em outro ponto, ele me disse: “O que é notável em todo esse caso é que na Islândia tudo é administrado inteiramente pelas autoridades de saúde pública. Eles elaboraram o plano e simplesmente o instituíram. E tivemos a sorte de que nossos políticos conseguiram se controlar (KOLBER, 2020, TRADUÇÃO DA AUTORA DO TEXTO).

Atualmente a Islândia reabriu seu comércio com todas as medidas de segurança, as universidades e escolas também se mantém ativas com medidas restritivas de pessoas e horários, as fronteiras estão abertas, desde que o passageiro apresente um teste recente de Covid-19 negativo ou se comprometa a se manter em quarentena durante 7 dias após o desembarque. Inegavelmente, o país não está imune a uma nova onda de contaminação ou crescimento dos casos, mas a forma como a crise tem sido contornada é digna de reconhecimento e aplausos no Sistema Internacional. 

Ademais, cabe ressaltar o contexto Islandês, um país localizado em uma ilha no oceano Atlântico que tem como alternativa de acesso o transporte aéreo, fator importante que contribuiu para a contenção de pessoas, somando-se a uma população relativamente pequena, a qual 80% está concentrada na capital Reykjavik. E considerado um dos melhores países em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), em outras palavras, um Estado com recursos e com uma conjuntura que colaborou para a minimização dos danos da Covid-19. 

Ao analisarmos a trajetória da Islândia diante de uma ameaça, podemos facilmente identificar algumas características do processo de securitização. Os principais atores securitizadores que emitem o discurso para a população, e constroem socialmente o ideal de se combater a doença, é a Primeira Ministra Katrín Jakobsdótti em parceria com o cientista Kári Stefánsson, responsáveis pela maior parte da articulação e gestão da crise. 

Paralelo a isso, o objeto de referência, aquilo que está em risco no momento, claramente é a vida humana, principalmente a vida da população islandesa. Além disso, percebe-se a aceitação da audiência perante toda a atuação governamental, ou seja, os cidadãos do país cooperaram com as medidas restritivas e acataram as informações ditas pelo governo, tornando o momento o menos danoso possível.  

Por fim, é nítido o envolvimento do Estado sobre a questão do novo coronavírus e sua necessidade de ação para conter a ameaça, propondo protocolos de saúde que destoam das condições rotineiras, uma forte alocação de recursos e estruturação, como o mapeamento dos infectados em todo o país, categorizando assim um tema extremamente politizado dentro da área de Segurança para o país e que caminha a passos largos para a efetiva securitização da ameaça do Covid-19.  

REFERÊNCIAS

BUZAN et alli, Security: a new framework for analysis. London: Lynne Rienner publishers, 1998.

CARBINATTO, Bruno. O ousado plano da Islândia contra a Covid-19: testar (quase) todo mundo. SuperInteressante, 13 Abril. 2020. Disponível em <https://super.abril.com.br/ciencia/o-ousado-plano-da-islandia-contra-a-covid-19-testar-quase-todo-mundo/> Acesso em 18 Setembro 2020. 

ICELAND DATA. Official information about COVID-19 in Iceland. Disponível em < https://www.covid.is/data > Acesso em 18 Setembro 2020. 

KOLBER, Elizabeth. How Iceland Beat the Coronavirus. THE NEW YORKER, 1 Junho 2020. Disponível em < https://www.newyorker.com/magazine/2020/06/08/how-iceland-beat-the-coronavirus > Acesso em 18 Setembro 2020. 

MARTIN, Guy. Iceland’s Lessons For Us All: How The Country Fought SARS-CoV-2 With Success, And Why It’s Coming Out Of The Battle Fast. FORBES, 16 Abril. 2020. Disponível em <https://www.forbes.com/sites/guymartin/2020/04/16/icelands-lessons-for-us-all-how-the-country-fought-sars-cov-2-with-success-and-why-its-coming-out-of-the-battle-fast/#473f24d912cc > Acesso em 18 Setembro  2020. 

Juliana Brito

Baiana e estudante de Relações Internacionais na PUC Minas em Belo Horizonte. Tem interesse em Segurança Internacional, Direitos Humanos e debates Pós-coloniais.

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