AS MULHERES DE CONFORTO E ‘GRAMA’

AS MULHERES DE CONFORTO E ‘GRAMA’

“Grama” é uma HQ antiguerra feita por Keum Suk Gendry-Kim que relata a história de Ok-sun Lee. Ela é uma mulher sul-coreana que foi vendida pelos pais durante a infância e depois capturada pelo Exército Imperial Japonês para servir como escrava sexual — fazendo parte do grupo chamado de “mulheres de conforto”. A história das mulheres que foram forçadas à prostituição toca o leitor e o lembra de que nenhum reconhecimento ou ressarcimento foi oferecido às vítimas da guerra.

“Eu nunca conheci a felicidade. Nunca, desde o momento em que saí da barriga da minha mãe.”

Ok-sun, sobre ser uma Mulher de Conforto.
Keum Suk Gendry-Kim, p. 438.

Contexto

A guerra entre a China e o Japão foi deflagrada em julho de 1937. O Japão dominou Pequim e Tianjin com facilidade e, um mês depois, afirmou com arrogância que em 30 dias conquistaria Xangai. Mas a previsão do Japão estava equivocada.

A batalha em Xangai se prolongou por mais três meses devido à resistência da China. Após muita dificuldade, o Exército Japonês conseguiu dominar Xangai em novembro e marchou por 300 km até Nanquim, a capital de Taiwan. Por cerca de um mês, conforme o Exército se deslocava, os soldados tacavam fogo nas casas de todas as vilas pelas quais passavam e cometiam assassinatos e estupros.

Keum Suk Gendry-Kim, p. 56-58.

Com o avanço do Exército Imperial Japonês sobre o leste asiático, os soldados criaram casas de prostituição forçada por toda a área conquistada, da China à Coreia ao Japão. As mulheres eram capturadas no campo ou em vilas e cidades subjugadas e colocadas nesses locais, chamados de “Casas de Conforto”. Lá, as vítimas serviam como escravas sexuais para os militares japoneses e tinham sua história e dignidade ignoradas.

Como Ok-sun foi parar em uma dessas casas

Ok-sun Lee era uma garota que desejava muito ir para a escola e estudar, como o seu irmão mais velho. Entretanto, seus sonhos eram impossíveis de se realizar naqueles momentos por um motivo: sua família era muito pobre e os tempos de guerra e conflito agravaram a situação dela e de seus irmãos, que padeciam com a fome. Seu pai sofreu um acidente e ficou incapacitado de trabalhar enquanto os esforços da mãe não resultavam em muitos lucros. Assim, Ok-sun devia ajudar sua mãe com as tarefas domésticas.

Sua infância, marcada pela dor, teve o contato com os pais interrompido após um homem surgir em sua casa. Ele propôs que ela fosse morar com conhecidos que poderiam dar a jovem uma vida melhor, sem fome e com acesso à escola. Seus pais acabaram por concordar, acreditando que a garota pelo menos teria o que comer. Mas o que ocorreu foi o inverso: foi forçada a trabalhar e a fazer as atividades domésticas da família que a abrigou. A jovem foi enviada a outras pessoas após muitos meses de sofrimento. Cada local a obrigava a gastar energia com atividades de limpeza e organização, nenhuma levando-a a realizar seu sonho de ir para a escola.

Sabendo que todas as pessoas que a acolhiam não iriam manter suas promessas, a pequena Ok-sun escapou do lar em que estava. Todavia, foi capturada por oficiais japoneses em sua fuga que a levaram para uma casa de conforto: um centro repleto por outras meninas e mulheres que também foram pegas.

— A casa de conforto é igual banheiro público.

— Foi justamente o que o oficial disse.

Keum Suk Gendry-Kim, p. 261.

Vida das Mulheres de Conforto

Com apenas treze anos, Ok-sun foi obrigada a encarar uma realidade cruel demais para qualquer pessoa, principalmente para alguém de sua idade. Os oficiais que estavam na região visitavam as casas e escolhiam uma menina ou mulher e pagavam aos donos do local. Nenhuma parte do dinheiro ia para as vítimas. Em Grama, a jovem relata, além de suas vivências, as dores de colegas e amigas que estavam no mesmo lugar. Gravidezes, espancamentos, estupros, doenças… todos esses momentos a marcaram profundamente.

“Tinha saudades da minha mãe, do meu pai, da casa onde os meus irmãozinhos moravam. Depois daquilo [estupro]… eu nunca mais poderia ir pra lá”

[…]

“Naquela época, os soldados que chegavam eram da força aérea. Portanto, pilotavam aviões. Nós nunca podíamos chegar perto dos aviões. Por isso, não sabíamos quantos eram e nem pra onde iam. Eu só os via pousando e decolando. Às vezes eu me perguntava ‘será que esse avião passa por cima da minha casa?'”.

Keum Suk Gendry-Kim, p. 209-213.

Bombardeios e o fim da guerra

Na parte final da história, Grama mostra como a liberdade chegou às Mulheres de Conforto. No dia 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos atacaram Hiroshima, no Japão, com a bomba atômica “Little Boy”. A potência aguardava uma rendição japonesa a partir dessa investida, mas o momento não veio. Três dias depois, os EUA lançaram “Fat Man” — outra bomba nuclear — sobre Nagasaki. Finalmente, o Japão se rendeu e a Segunda Guerra Mundial teve seu fim. Ao todo, os ataques resultaram em 740 mil vítimas.

Muitos coreanos levados à força para trabalhar em Hiroshima e Nagasaki também se tornaram vítimas [dos ataques nucleares de 1945]. Eles foram mortos e nem sequer tiveram seus nomes reconhecidos. Já os feridos eram impedidos de receber tratamento adequado, apenas por serem coreanos. Jin-Tae Shim, diretor da Associação de Vítimas Coreanas da Bomba Atômica […], estima que, do total de 740 mil vítimas da bomba nuclear, cerca de 100 mil tinham nacionalidade coreana. Entre elas, aproximadamente 50 mil morreram nas detonações.

Keum Suk Gendry-Kim, p. 341.

Liberdade para as Mulheres de Conforto

Apesar da notícia da rendição japonesa ter rodado o mundo, as Mulheres de Conforto não tiveram conhecimento de sua liberdade. Ok-sun e suas companheiras foram abandonadas em uma cabana no topo de uma montanha. Os donos da Casa de Conforto fugiram e as deixaram para trás. Após vários dias, um fazendeiro local as encontrou e disse que estavam livres. Por um momento, ficaram felizes que o inferno que viveram tinha acabado ali, mas perceberam que teriam de enfrentar outro: sobreviver com o estigma sem que pudessem voltar para casa.

“Determinadas a sobreviver, nós seis nos separamos. Num dia, alguém me dava uma colherada de comida e eu continuava andando por aí… no outro, mendigava na rua… e, quando ficava sem forças, virava de lado em qualquer lugar e dormia. Às vezes, me dava conta de que estava dormindo no meio de uma rua movimentada. Qualquer lugar sob o céu era a minha casa.”

Keum Suk Gendry-Kim, p. 363-364.

Onde está o reconhecimento?

Por fim, Grama mostra um detalhe que é ignorado pelo Estado Japonês no que concerne às Mulheres de Conforto: o reconhecimento do erro e o ressarcimento pela violência cometida. Após mais de 80 anos do que foi feito a essas jovens, não houve um pedido de desculpas oficial por parte do Japão nem alguma atitude de memórias às vítimas da escravidão sexual. Agora idosa, Ok-sun é uma ativista pelos direitos das Mulheres de Conforto e manifesta sua luta nos Protestos de Quarta-feira, realizados semanalmente desde 1992 na frente da embaixada do Japão, em Seul, para que haja justiça e indenização para as vítimas.

Ok-sun não vai desistir de lutar pelas companheiras que pereceram ao seu lado durante aqueles dias sombrios, que foram renegadas pelo Estado e pela própria família por causa do estigma que as Mulheres de Conforto carregam, que sobreviveram para contar suas histórias. Como a grama, elas renascem mesmo após o inverno.

O solo, por muito tempo adormecido, vai despertar, e a pequena grama vai se reerguer em meio às folhas secas, queimadas pelo frio.

Mesmo derrubada pelo vento e pisoteada por muitos, a grama sempre se reergue. Pode ser que ela te cumprimente de forma tímida, passando de raspão pelas suas pernas.

O inverno está indo, e a primavera, chegando. O calor da primavera estará aqui em breve, derretendo o frio que parece não ter fim.

Keum Suk Gendry-Kim, p. 477-478.

Autor

Talita Soares

Internacionalista em formação, leitora voraz e escritora nas horas vagas.

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