A GUERRA PELOS OLHOS DA MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

A GUERRA PELOS OLHOS DA MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

“A Menina que Roubava Livros” é um livro escrito pelo australiano Markus Zusak. Sua mãe mudou-se para a Austrália na década de 1950, mas nasceu e cresceu na Alemanha. Por causa disso, o autor foi criado ouvindo histórias sobre o regime nazista e a forma em que crianças rebeldes resistiam no país durante a época.

O livro descreve as vivências de uma menina alemã chamada Liesel e acompanha os primeiros anos de sua adolescência. Entretanto, é narrado por um sujeito deveras incomum: a Morte. Sendo caracterizada por uma ficção histórica com traços de realismo fantástico, a obra tem uma carga emocional e reflexões intensas sobre os anos mais sanguinários da história contemporânea.

CHAMADA ABREVIADA DE 1942

1. Os judeus desesperados — seus espíritos no meu colo, ao nos sentarmos no telhado, junto às chaminés fumegantes.

2. Os soldados russos — que só carregam pequenas quantidades de munição, contando com os tombados para achar o resto.

3. Os corpos encharcados de um litoral francês — encalhados nos seixos e na areia.

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak.

Contexto

Durante a narrativa, Liesel é adotada por um casal alemão pobre que vive numa rua chamada Himmel o nome significa “Céu” ou “Paraíso”. Os seus primeiros anos na casa são marcados pelas cicatrizes da perda do irmão, pela alfabetização e pela recuperação concernente ao abandono materno. Além disso, a garota conhece e começa a conviver com um vizinho astuto e energético chamado Rudy, o qual a faz aprender a viver como uma criança da sua idade.

Entretanto, dentro de algum tempo, a sua família tem a missão de proteger Max, um jovem judeu que é filho de um antigo amigo da família. Liesel, então, começa a compreender as dificuldades da guerra e a lidar com o medo de ser descoberta por oficiais nazistas, de ver seus amigos mortos pelos bombardeios do conflito e com os próprios problemas relacionados a seus sentimentos por Rudy.

Sobre o narrador

Dizem que a guerra é a melhor amiga da morte, mas devo oferecer-lhe um ponto de vista diferente a esse respeito. Para mim, a guerra é como aquele novo chefe que espera o impossível. Olha por cima do ombro da gente e repete sem parar a mesma coisa: “Apronte logo isso, apronte logo isso.” E aí a gente aumenta o trabalho. Faz o que tem que ser feito. Mas o chefe não agradece. Pede mais.

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak.

Um dos pontos mais marcantes da narrativa de Zusak é a escolha do narrador. Em “A Menina que Roubava Livros”, ler através das lentes da Morte é algo surpreendente e intrigante, uma vez que as visões e reflexões passadas são únicas e impossíveis de serem imaginadas numa leitura comum. Esse detalhe traz profundidade à obra de uma maneira que eu nunca havia visto antes, em nenhum outro livro que tenha lido honestamente, sou suspeita a falar, mas é por isso que este é o meu livro preferido.

Um tópico que acho tocante no texto é a forma em que a Morte recolhe as almas dos que morrem. Cada alma representa uma cor e um céu diferente, e muitas agem de maneiras distintas na hora em que vão para o seu colo: “[…] comigo é frequente captar um eclipse quando morre um ser humano. Já vi milhões deles. Vi mais eclipses do que gosto de lembrar”.

Sob esse viés, Zusak também levanta a questão de que a Morte, um ser consciente, tem sentimentos. Ela sente a perda daqueles que partem e tenta acalentar os que sofrem. É justa e misericordiosa. Essa abordagem, acredito eu, é uma forma do autor de trazer certo consolo para o leitor enquanto este presencia uma história que se passa onde há tantas tragédias e sofrimentos.

A protagonista

Não, pensou Liesel, enquanto andava. É o meu coração que está cansado. Um coração de treze anos não devia sentir-se assim.

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak.

Liesel ainda é uma criança e ainda está no início do livro quando perde seu irmão. A partir desse momento, sua vida é marcada por várias frustrações e dores. Entretanto, esses sentimentos afloram nela em formato de palavras. Ela fica sedenta por palavras, histórias. Por livros. Como consequência, começa a roubá-los.

Ver o mundo a partir das ações de uma menina em meio à Segunda Guerra Mundial e aos momentos de aflição, pobreza e fome é algo que emociona o leitor. Entretanto, assistir sua esperança renascer dia após dia também traz aconchego aos nossos corações, e presenciar todas as formas de resistência ao Reich que ela consegue expressar é algo puro e juvenil. Liesel definitivamente é uma das minhas protagonistas preferidas.

A outra capa do livro.

A ideologia

Sim, o Führer decidiu que dominaria o mundo com palavras. “Jamais dispararei uma arma”, concebeu. “Não precisarei fazê-lo.” Mesmo assim, não se precipitou. Reconheçamos nele ao menos isso. Ele não tinha nada de burro. Seu primeiro plano de ataque foi plantar as palavras em tantas áreas de sua terra natal quanto fosse possível.

Plantou-as dia e noite, e as cultivou.

Observou-as crescer, até que as grandes florestas de palavras acabaram crescendo por toda a Alemanha… Era uma nação de pensamentos cultivados.

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak.

Um pensamento que perdura por toda a obra é o de que palavras têm poder. Elas servem como resistência e opressão nas mãos dos humanos. Liesel as usa como modo de entender o que acontece em seu mundo e de como sobreviver em meio ao auge do nazismo na Alemanha. Ela busca a leitura e a escrita para escapar de seus pesadelos, e lê livros para os seus vizinhos nos abrigos anti-bombas durante bombardeios para acalmá-los. Em sua posse, as palavras são uma forma de salvação.

Entretanto, Hitler as utilizava para excluir, para ofender, para segregar. Suas palavras decidiram o rumo de nações, além de condenarem a vida de povos, raças e classes consideradas “inferiores”. O personagem Max escreve peças e ensaios sobre como o Führer sabia manipular letras e símbolos de tal maneira a criar uma ideologia forte o suficiente para sentenciar milhões de pessoas à morte.

Sem as palavras o Führer não era nada.

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak.

Uma história sobre a “Culpa do Sobrevivente”

Além de tratar da vida doméstica na Alemanha nazista, Zusak escreve brevemente sobre os dias de soldado do pai adotivo de Liesel, Hans, e sobre os dois filhos de sua vizinha, a Senhora Holtzapfel. Em uma dessas histórias, ela perde um deles na guerra e entra em um estado depressivo, mesmo quando o filho sobrevivente, Michael, volta para cuidar dela. Em seguida, quando há um alerta de bombardeio, a mulher se recusa a ir para o abrigo, enquanto seu filho sofre com a sua escolha de ser deixada para uma possível morte enquanto ele anseia tanto por viver.

— Diga-me, Rosa, como é que ela pode ficar lá sentada, pronta para morrer, enquanto eu ainda quero viver? — afligiu-se. O sangue tornou-se mais espesso. — Por que é que eu quero viver? Não devia querer, mas quero.

[…]

Michael Holtzapfel sabia o que estava fazendo.

Matou-se por querer viver.

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak.

Essa história é uma das várias no livro que mostram as consequências da guerra, e definitivamente é um das mais tocantes e emocionantes. Ver o sofrimento do irmão sobrevivente e a sua culpa são, infelizmente, coisas comuns em cenários de conflito.

Conclusão

“A Menina que Roubava Livros” tem um peso emocional muito grande. Ler esse livro o que já fiz três vezes continua sendo uma tarefa dolorosa e intensa. Entretanto, é impossível não refletir sobre todas as questões trazidas à tona pela narrativa de Zusak. O autor não erra ao apontar a importância das palavras, da leitura e da ideologia sobre o destino de uma nação, além de expressar de forma intensa e inequívoca como o poder político pode usufruir das suas manipulações sobre um povo.

Este livro é o meu preferido desde que eu o li em 2015, quando tinha a mesma idade de Liesel. Fiquei encantada pela escrita do autor, pela forma como ele coloca as palavras umas após as outras, e até hoje a sua escrita é referência para mim. Inclusive, ver a Morte como narradora foi e é um diferencial até hoje em qualquer história que eu leia. Definitivamente é a primeira recomendação que eu dou para qualquer pessoa que me peça indicações de livros que se passem durante a Segunda Guerra Mundial

Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.

A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak.

Talita Soares

Internacionalista em formação, leitora voraz e escritora nas horas vagas.

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