NAÇÃO NORTE-AMERICANA SOB NOVA DIREÇÃO

NAÇÃO NORTE-AMERICANA SOB NOVA DIREÇÃO

As eleições americanas causaram um grande estrondo em toda a comunidade internacional, impactando diretamente todos os países que possuem relações bi ou multilaterais com os Estados Unidos (EUA). Assim, para entender um pouco melhor essa questão e as consequências da entrada de um presidente democrata no governo da maior potência mundial para os países passemos para a esquemática das eleições no território americano.

O sistema americano difere radicalmente do brasileiro, em que o eleito é aquele que obtém maior número de votos no território nacional. Nos Estados Unidos, presidente e vice-presidente são eleitos indiretamente por um colégio eleitoral composto por 538 delegados estaduais, cujo número correspondente a cada estado está associado ao tamanho de sua representação na Câmara e no Senado. Os delegados são escolhidos previamente às eleições pelos eleitores dos dois maiores partidos americanos e detêm a prerrogativa de eleger o presidente por maioria absoluta dos votos (a partir de 270) (ALVES, 2020)

Os eleitores dos Estados Unidos, assim como no Brasil, escolhem o presidente a cada quatro anos e o voto é depositado de forma secreta. Contudo, o ano de 2020, marcado pela pandemia de covid-19, reforçou uma peculiaridade: os votos antecipados. Na véspera da eleição, mais de 95 milhões já haviam registrado sua preferência, tanto presencialmente quanto pelo correio. Há ainda outras duas diferenças fundamentais entre a eleição norte-americana e a brasileira. A primeira trata-se da modalidade do voto (ALVES,2020), nos Estados Unidos os eleitores não são obrigados a “exercer a cidadania”. Ou seja, o voto é facultativo, o cidadão pode escolher entre ir ou não às urnas. Em caso negativo, não terá nenhum prejuízo. Por causa disso, uma campanha “diferente” precisa ser feita pelos candidatos, na qual eles precisam convencer as pessoas menos mobilizadas politicamente a participarem da eleição (ALVES, 2020).

A segunda distinção, e a que gera mais dúvidas está no caráter indireto da eleição. Nos EUA, apesar de os eleitores marcarem o nome do candidato nas cédulas, os votos são encaminhados para os chamados delegados no Colégio Eleitoral. Estes delegados, por sua vez, irão representar os eleitores do seu estado, confirmando a maioria dos votos populares em determinado candidato (ALVES, 2020). Nos Estados Unidos, a Presidência é sempre concentrada em dois partidos: o Democrata e o Republicano. Apesar dos dois serem os maiores e mais importantes no país, eles não são os únicos. Nas eleições deste ano, por exemplo, outros nove partidos concorrem à Casa Branca, entre Libertário, Verde, Independentes e até o recém-criado Birthday, do rapper Kanye West. Contudo, esses partidos menores e os candidatos independentes não têm condições reais de disputar as eleições, e, por vezes, nem mesmo figuram nas cédulas eleitorais de todos os estados, não alcançando representação para ter votos. Essa diferença em destaque é sentida até nos debates, em que apenas os candidatos democrata e republicano costumam participar (ALVES, 2020).

Para ser declarado vencedor, o candidato tem que recolher pelo menos 270 votos dos delegados. Em 2020, doze estados estão no centro das atenções dos democratas e republicanos, e prometem ser decisivos. São eles: Texas (38 delegados), Flórida (29), Pensilvânia (20), Ohio (18), Michigan (16), Geórgia (16), Carolina do Norte (15), Arizona (11), Wisconsin (10), Minnesota (10), Iowa (6) e Nevada (6) (ALVES, 2020).

Cada um desses estados, que estão no meio dessa “guerra” por votos, têm suas peculiaridades. Em alguns casos é por causa do alto número de delegados; em outros, por serem estados que alternam entre elegerem republicanos ou democratas a cada eleição — os “swings states” ou “estados-pêndulo”; ou ainda pelas características demográficas e econômicas, que podem definir as eleições em determinados cenários de acordo com nichos (ALVES, 2020).

Dito isso, após toda essa complexidade nas votações, Joe Biden é o mais novo presidente dos Estados Unidos, eleito o 46º chefe de Estado americano. O presidente eleito tem vida pública desde 1969, quando iniciou a carreira política como vereador de um condado do estado do Delaware. Três anos depois, em 1972, aos 29 anos, ele venceu eleições para o Senado do país pela primeira vez e se tornou uma das pessoas mais jovens a ocupar o cargo de senador nos EUA. O presidente era Richard Nixon, e o país ainda estava a três anos de sair da Guerra do Vietnã. Depois disso, Biden se reelegeu outras cinco vezes até assumir o cargo de vice-presidente na chapa de Barack Obama, em 2008. Ele teve cargos como deputado eleito entre 1969 e 2017 (GUTIERREZ, 2020).

Após vitória na Pensilvânia, o democrata reuniu 273 delegados – três a mais do que o necessário para ganhar o pleito – e derrotou o republicano Donald Trump, que tentava a reeleição (BERMÚDEZ e TEIXEIRA, 2020), e herdará um país fraturado.

Para sua campanha, Biden propôs uma série de objetivos a cumprir, caso fosse eleito (G1, 2020):  

  1. Coronavírus: Ele tem como propostas aumentar o número de testes e torná-los mais acessíveis caso seja eleito. Ele ainda estuda um projeto de lei que obrigaria as pessoas a usar máscaras. Além disso, ele planeja mobilizar 100 mil pessoas para uma espécie de exército de servidores que terão como função rastrear o vírus e a epidemia;
  2. Acesso à saúde: O democrata propõe criar uma empresa estatal que vai oferecer planos de saúde mais acessíveis. A ideia é que, dessa forma, os preços vão baixar. Ele também pretende ter uma política de preços para os remédios.
  3. Tributos: Biden afirmou que pretende aumentar a alíquota de impostos entre as pessoas de maior renda dos EUA, mas ele prometeu não levantar a taxa para 90% dos contribuintes.
  4. Proteção ambiental: A proposta de Biden é começar um movimento para diminuir as emissões e chegar a 2050 como um país neutro. Ele também pretende voltar ao Acordo de Paris. Trump saiu do acordo e acabou com mais de 100 regras para preservar o ambiente eu seu mandato. Ele afirmou que não pretende fazer uma transição de combustíveis fósseis para renováveis (G1, 2020).

Esperemos que ele cumpra com todos os objetivos nacionais para melhorar a atual situação e isso cause reflexo no cenário internacional.

Com relação ao cenário brasileiro, as consequências seriam um pouco distintas. A princípio, uma mudança de governo nos EUA não necessariamente traria um problema para o governo Bolsonaro, segundo analistas políticos, já que a relação dos dois países tem sido pautada por pragmatismo em todos os governos desde a redemocratização brasileira (REUTERS, 2020).  “Biden e sua equipe vão buscar fortalecer as relações com todos os países e, especialmente, com o Brasil, pela importância que o Brasil tem na América Latina e no mundo”, diz o professor Arturo Valenzuela, da universidade de Georgetown (CARMO, 2020).

O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS), fez uma análise das consequências do pleito para as relações do Brasil com os Estados Unidos. Dizendo que as relações entre Brasil e Estados Unidos vão permanecer constantes e sólidas, em detrimento de grandes projetos já criados e outros ainda planejados, não havendo assim nenhuma problemática (PINCER, 2020).

Com a vitória de Biden, o advogado e cientista político Rafael Favetti falou sobre as possíveis consequências dos resultados das eleições americanas. Ernesto Araújo¹ terá muito mais trabalho do que antes, quando o alinhamento era favorável. Sobre Ricardo Salles (Meio Ambiente), a situação é diferente: “O que pode acontecer, não por pressão externa, mas interna, é aproveitar o momento e fazer o que Bolsonaro queria desde o começo, que é rebaixar o Ministério do Meio Ambiente” (PAUXIS, 2020).

Além disso, um governo extremamente republicano, como o de Trump, tende a se fechar e esvaziar o comércio com outros países, diferentemente de um governo democrata. “Os mercados acreditam que com a vitória de Biden, terá uma desinflação do dólar perante o mundo, porque terá mais comércio e consequentemente mais dólar transita” (PAUXIS, 2020).

No caso da China, Biden e Trump parecem concordar que os Estados Unidos precisam conter o avanço do país asiático. “Isso se tornou um consenso entre democratas e republicanos e não há muita distinção entre o que os dois candidatos propõem para lidar com a China”. A principal diferença aqui está na estratégia que cada um deles adotaria para competir na disputa geopolítica e econômica internacional com o seu principal concorrente. “Trump adota uma postura solitária, de a América lidar sozinha com esse desafio, enquanto Biden deve buscar conter a China com acordos multilaterais e aliados na Europa e em outras partes do mundo” (BIERNATH, 2020). 

A disputa pelo 5G, a plataforma de transmissão de dados e comunicação digital que será adotada por cada país já é e poderá se tornar um dos campos mais intensos dessa batalha. Ainda na administração Trump, houve uma série de movimentos para impedir que nações aliadas adotassem a tecnologia chinesa (o Brasil, inclusive, foi um dos principais alvos dessa briga, que deve se intensificar a partir do próximo ano) (BIERNATH, 2020).

Em suma, percebendo muitas disparidades na administração entre o governo republicano anterior e o próximo democrata que virá, o mundo espera que a nova direção da atual maior potência mundial seja de acordo com as expectativas e que Joe Biden cause boa impressão dentro da comunidade internacional, sendo, portanto, mais querido pelo mundo e recebendo melhores feedbacks que seu antecessor, Donald Trump.

¹ Ernesto Henrique Fraga Araújo é um diplomata e escritor brasileiro, atual Ministro das Relações Exteriores do Brasil, cargo que ocupa desde 1° de janeiro de 2019.

Referências

ALVES, Maíra. Tudo o que você precisa saber para entender as complexas eleições dos EUA. Disponível em:https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2020/11/4886213-tudo-o-que-voce-precisa-saber-para-entender-as-complexas-eleicoes-dos-eua.html. Acesso em: 07 nov. 2020

BERMÚDEZ, Ana Clara e Lucas Borges Teixeira. Biden vence eleições dos Estados Unidos. Disponível em:https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/11/07/biden-vence-eleicoes-dos-estados-unidos.htm. Acesso em: 07 nov. 2020

BIERNATH, André. Eleições americanas: o que muda nos EUA numa Presidência de Joe Biden. Disponpivel em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54835895. Acesso em: 07 nov. 2020

CARMO, Márcia. Eleições nos EUA: se Biden vencer, relação com Brasil será mais ‘normalizada’ e menos de ‘compadres’, diz ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54830896. Acesso em: 07 nov. 2020

FERNANDES, Jorge. Consequências das eleições americanas Disponível em: https://www.publico.pt/2020/11/07/mundo/analise/consequencias-eleicoes-americanas-1938285. Acesso em: 07 nov. 2020

G1. Joe Biden vence na Pensilvânia e é eleito presidente dos Estados Unidos. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/11/07/joe-biden-vence-na-pensilvania-e-garante-votos-para-ser-eleito-presidente-dos-eua-aponta-projecao-da-ap.ghtml. Acesso em: 07 nov. 2020

GUTIEREZ, Felipe. Com história familiar trágica, Biden será o presidente americano mais velho a assumir. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/11/07/biden-sera-o-mais-velho-a-assumir-a-presidencia-dos-eua.ghtml. Acesso em: 07 nov. 2020

PAUXIS, Bruna. Impacto das eleições americanas no Brasil é pauta em live do Correio. Disponível em:

https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2020/11/4886731-impacto-das-eleicoes-americanas-e-pauta-em-live-do-correio.html. Acesso em: 07 nov. 2020

PINCER, Pedro. Senadores analisam consequências da eleição americana para o Brasil. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/senadores-analisam-consequencias-da-eleicao-americana-para-o-brasil. Acesso em: 07 nov. 2020

REUTERS. Eleições nos EUA: de ‘ele vai ser reeleito’ a ‘não é o mais importante do mundo’, o que Bolsonaro já disse sobre Trump. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-54847726. Acesso em: 07 nov. 2020

Djamilly Rodrigues

Graduanda em Relações Internacionais e Diretora de Conteúdo do Dois Níveis.

2 comentários sobre “NAÇÃO NORTE-AMERICANA SOB NOVA DIREÇÃO

  1. Este post trouxe informações relevantes de forma compactadas, às quais nos abrange um conhecimento de pontos norteadores para um conhecimento de como é o processo eleitoral americano, discorrendo também de temáticas que agregam a este processo nos dando uma compreensão e uma perspectiva de como serão os próximos anos com Biden na liderança.

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