Uma nova Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia

Uma nova Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia

Com o fim da Guerra Fria, em 1989, surgiu uma hipótese de que as relações internacionais não mais seriam regidas pela geopolítica. O otimismo prevaleceu nas relações com a geoeconomia, interdependência e cooperação, que se sobrepunham à visão de instabilidade e conflito. Entretanto, depois de mais de vinte e cinco anos da Queda do Muro de Berlim, o sistema internacional parece viver uma de suas eras mais violentas e instáveis, ou seja, nenhuma destas previsões se consolidou, como comprovados pelos eventos do século XXI.

Nessa conjuntura, a geopolítica não foi superada pela geoeconomia. Esta questão é uma das mais sensíveis que ainda permanecem entre EUA e Rússia, uma vez que mesmo após o fim da União Soviética em 1991, essa interação bilateral permanece sendo relevante para o sistema internacional. Ambas as nações continuam se confrontando em cenários estratégicos da Eurásia e em organismos multilaterais, apesar das assimetrias de poder. Desse modo, permanecem em um relacionamento complexo, em que há tanto uma agenda competitiva quanto uma existência de espaço para convergências.

As divergências entre Estados Unidos e Rússia foram desenvolvidas depois da revolução russa de 1917, na qual Lenin liderava um movimento para a transformação das bases políticas que existiam no Ocidente e no mundo. Entretanto, de acordo com Nye, com a segunda guerra ocorreu um avanço em questões armamentistas — como os aviões, tanques e radares —, que não tiveram tanta importância na primeira guerra (NYE, 2009, p.118).

Ainda de acordo com Nye (2009, p.141), após o confronto mundial iniciou-se a chamada Guerra Fria. Este período se caracterizou como um conflito econômico, político, ideológico e bélico, no qual não aconteceu conflitos diretos entre os Estados Unidos e União Soviética, apesar das potências financiarem conflitos menores entre países periféricos. Como consequência, a corrida armamentista tem início nesse intervalo de tempo, caracterizada pela grande produção de armas para o financiamento de combates. (NYE, 2009, p.141)

O documentário “A visita de Khrushchev aos EUA” explora a primeira visita de um primeiro-ministro soviético, Nikita Khrushchev (1894-1971), aos Estados Unidos. A visita foi feita em setembro de 1959, dois anos depois do lançamento do satélite Sputnik e do teste de um míssil balístico intercontinental da União Soviética.

Com a visita, Khrushchev, apesar das diferenças em seus posicionamentos, conseguiu estabelecer um certo grau de confiança entre a União Europeia e os Estados Unidos. Todavia, no ano seguinte, um avião de espionagem norte-americano foi abatido no espaço aéreo soviético, e as relações entre as duas potências voltaram a piorar. Eclodiu, em 1961, a crise de Berlim, e as tensões atingiram seu máximo durante a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962, quando o presidente norte-americano John F. Kennedy (1917-1963) e o primeiro-ministro soviético Khrushchev demonstraram cautela, evitando que o pior acontecesse.

O documentário se encerra imaginando o estado de espírito de Khrushchev. Isso ocorre ao fazer a reflexão de que, embora houvesse razões que compeliram o primeiro-ministro soviético como político a comprometer-se na Guerra Fria, é possível imaginar que a lembrança de seus encontros com os cidadãos americanos tenha o impedido de entrar na guerra nuclear. Isso porque, mesmo que a imagem do primeiro-ministro Khrushchev, nos EUA, era de um homem perigoso e promotor da guerra, era evidente que ele sentia satisfação em suas interações com os cidadãos comuns norte-americanos.

Depois do documentário, percebe-se a importância que é demonstrar para os líderes dos Estados que detêm armamentos nucleares a multidão de pessoas – inclusive crianças – que vivem sob a ameaça dessas armas de destruição em massa.

Como exemplo, podemos citar o choque sentido pelo presidente dos  Estados Unidos, Ronald Reagan, em 1982, quando ele assistia uma simulação  de um exercício militar computadorizada, a qual exibia cidades destruídas, como pontos vermelhos em um mapa dos EUA, por um ataque nuclear soviético e, a cada minuto, o número desses pontos aumentava até o momento em que o mapa se tornava um mar de sangue. Reagan ficou paralisado com essa visão, ao ponto de não conseguir segurar a xícara de café que estava em sua mão.

Logo após esse episódio, o presidente Reagan buscou diálogo com a União Soviética e realizou vários encontros com o secretário-geral Mikhail Gorbachev, com quem firmou o Tratado INF (Intermediate-Range Nuclear Forces).

O fim da Guerra Fria é compreendido como a derrota da ideologia socialista e o triunfo do sistema capitalista, o “mundo livre”. Assim, é interpretado como a superação da bipolaridade, o fim das ideologias e a supremacia dos valores ocidentais de liberdade, democracia, direitos humanos e o livre mercado — com respeito à propriedade privada e ao Estado de Direito.

No mundo pós-guerra fria, houve a predominância de duas visões: uma mais otimista, pautada na crença de uma paz perpétua (Francis Fukuyama e sua tese do fim da história) e uma mais pessimista com a previsão de novas ameaças (Samuel Huntington com o “choque de civilizações”). Percebe-se que o mundo pós-guerra fria se converteu em um mundo unimultipolar dominado pelos Estados Unidos, o Estado hegemônico; onde prevaleceu, primeiramente, a tensão e a incerteza da estratégia imperial com a “guerra ao terrorismo”.

Entre o período de 2009 a 2011, predominou-se uma acomodação entre Estados Unidos e Rússia, e tentativas da Rússia de relativizar sua fragilidade.  Em contraste, a partir de 2011, recomeçaram as tensões entre os dois países, a qual se prolonga até hoje.

As tensões bilaterais entre EUA e Rússia foram elevadas durante 2011/2012 com a nova vitória de Putin para assumir a Presidência e com a recuperação econômica-estratégica dos EUA. Os EUA e a União Europeia criticaram a eleição de Putin para um terceiro mandato à frente do Kremlin e; os protestos contra ele ganharam ampla divulgação na mídia ocidental. Havia, no geral, uma tentativa de desestabilizar a Rússia, que já tinha um aumento da vulnerabilidade econômica com a queda dos preços do petróleo.

A Rússia, ao lado dos demais BRICS, se manifestou contra a intervenção militar da OTAN na Líbia em 2011, o que levou à derrubada do governo Khadaffi. A tensão aumentou com a questão do Estado Islâmico (EI), pois, para a Rússia, os EUA têm permitido a ascensão do EI e deveriam aumentar o reforço para combater esse grupo. Nesse contexto, a Rússia passou a realizar operações militares contra o EI e reforçou seu apoio a aliados locais, como o governo de Assad na Síria. Por fim, deve-se mencionar o Acordo de 2015, patrocinado pelo P5+1, que postulou a busca de um maior protagonismo nas negociações nucleares com o Irã.

Uma das maiores tensões políticas foi com a Ucrânia e a crise da Crimeia em 2014. Assim, durante o período de 2014 a 2016, a Ucrânia passou a ser tratada como uma parceria preferencial de OTAN e União Europeia, indicando, inclusive, a possibilidade desse país se tornar membro de ambas as organizações. Além disso, rebeldes anti-Moscou receberam cobertura favorável da mídia ocidental e até ajuda financeira.

Em consequência, o Ocidente respondeu à Rússia em diversos setores, como na suspensão da participação do país no G8, na imposição de embargo econômico (corte de comércio e financiamentos) e na proibição da venda de armas.

Essas relações entre EUA e Rússia são, também, assimétricas. Visto que a Rússia possui uma inferioridade em suas dimensões econômica e militar em relação aos Estados Unidos, mesmo que detenha um poderoso arsenal nuclear e ocupe um lugar de importância no mercado enérgico.

Além disso, a mídia ocidental entende a política externa de Vladimir Putin como agressiva, em consequência da atuação da Rússia no sistema internacional. E, até mesmo durante a campanha eleitoral de Donald Trump, Putin foi acusado, sem evidências concretas, de invadir os computadores do Partido Democrata através de hackers e, assim, induzir os resultados do processo eleitoral democrático dos Estados Unidos.

Diante dessa conjuntura, os países que estão aumentando seu arsenal nuclear não têm receio de fazê-lo para conquistarem poder militar e se defenderem. Isso faz com que acordos sejam quebrados, não ratificados e que outros tratados não tenham a perspectiva de existir, causando um aumento da tensão no mundo.

Dessa forma, com a manutenção de líderes impetuosos, instabilidades regionais e disputas diplomáticas intensas, é criado um contexto internacional no qual os perigos nucleares são reais. Além disso, a soberania dos Estados que têm a intenção de prevalecer sobre os outros persegue seus objetivos de segurança com a posse de armas nucleares e, consequentemente, com a ameaça da destruição que podem causar. No entanto, o uso das armas nucleares deve ser inadmissível em qualquer circunstância.

Portanto, é preciso que os países se preocupem primordialmente com o bem estar da população mundial e com a manutenção da paz e da segurança do planeta.  Isso pode ser alcançado através do diálogo sincero entre os líderes mundiais, e mesmo que as outras potências não queiram ouvir ou continuem com a  desconfiança, a partir do momento que uma grande potência nuclear decidir agir para acabar com essa tensão, terá resultados surpreendentes para a paz no mundo.

 REFERÊNCIAS

ACTON, James. Guerra nuclear: As novas armas que aumentam as chances de um conflito global. 2019. Disponível em:

<https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47200806>. Acesso em: 28 jul.  2020.

COLIN, Roberto. O ressurgimento da grande potência. Florianópolis: Letras Brasileiras, 2007.

EUA, Departamento de Estado. Um esboço da História Americana, 1. ed.  Washington,: Escritórios de Assuntos Públicos, 2012.

FAY, C.M. A questão do petróleo e suas implicações na Guerra do Iraque. Indic.  Econ. FEE, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 59-74, jun. 2003.

FONSECA, Leandro Dalalibera. TNP e o Regime Internacional de Não‐ Proliferação: Desafios Contemporâneos. Conjuntura Global, Curitiba, v. 2, n.  1, p.8-12, jan./mar. 2013.

Ghotme, R., & Ripoll, A. (2014). Las relaciones internacionales de la guerra civi Siria: Estados Unidos y Rusia en la lucha por el poder internacional. Revista Relaciones Internacionales, Estrategia Y Seguridad, 9(2), 77-102.  https://doi.org/10.18359/ries.41

NYE, J.S. Cooperação e conflito nas relações internacionais. São Paulo: Editora Gente, 2009.

PAUTASSO, Diego. “Da política de contenção à reemergência: a Rússia volta ao tabuleiro”. Austral: Revista Brasileira de Estratégia & Relações Internacionais, v.3, n.6, Jul.-Dez. 2014, p. 73-94. Disponível em:  http://seer.ufrgs.br/index.php/austral/article/view/51284/33167. Acesso em 24 jul. 2020.

PECEQUILO, C.; LUQUE, A. Estados Unidos e Rússia. Meridiano 47 – Journal of Global Studies, v. 13, n. 134, 11.

POMERANZ, Lenina. Relações entre Estados Unidos e Rússia hoje. 2017.  Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103- 40142017000300287>. Acesso em: 15 jul. 2020.

RIBERA, Ricardo. A guerra fria: breves notas para um debate. Novos Rumos, Marília, v. 49, n. 1, p.87-106, jan./jun. 2012.

SÁ, Tiago Moreira de. Os Estados Unidos e o fim da Guerra Fria. 2014.  Disponível em:

<http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1645- 91992014000300002>. Acesso em: 28 jul. 2020.

SAHUQUILLO, MarÍa R.. Putin acusa os EUA de elevarem o risco de guerra nuclear. 2018. Disponível em:

<https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/20/internacional/1545303897_367545. html>. Acesso em: 28 jul. 2020.

SAHUQUILLO, MarÍa R.. Tensões entre Rússia e Estados Unidos reavivam corrida armamentista. 2018. Disponível em:

<https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/10/internacional/1549822196_080179. html>. Acesso em: 28 jul. 2020.

TRENIN, D. Should we fear Russia? Cambridge, UK; Malden, MA, USA, Polity Press, 2016.

ZHEBIT, Alexander. “A Rússia na ordem mundial: com o Ocidente, com o Oriente ou um pólo autônomo em um mundo multipolar?”. Revista Brasileira de Política Internacional, 46 (1) 2003. p. 153-181.

Thaynara dos Santos

Formada em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Brasília. Apaixonada pela área de Direitos Humanos das mulheres.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.