Brexit: O Aumento da Xenofobia no Reino Unido Após o Referendo de 2016

Brexit: O Aumento da Xenofobia no Reino Unido Após o Referendo de 2016

O termo Britain Exit (BREXIT) é usado para se referir ao pedido de saída do Reino Unido do bloco regional de cooperação econômica União Europeia (UE). O pedido formal foi findado após o resultado de um referendo popular convocado pelo Primeiro-Ministro David Cameron (2010-16), em 23 de junho de 2016.

As discussões pela permanência — ou não — começaram oficialmente em 2015, na reunião do Conselho Europeu. Na qual, Cameron apresentou os planos de seu Estado para a realização de um referendo, destacando temas como a governança econômica sobre a zona do euro e a garantia de que as mudanças na zona do euro, promovidas pelos países-membros, não afetassem e respeitassem aqueles que escolheram a não adesão à moeda única. Houve, sobretudo, uma tentativa por parte do Reino Unido, na carta de reformas, em descontinuar com a política de integração regional em nome da sua soberania frente aos Estados europeus, sem, contudo, perder os benefícios econômicos que ela trazia (IBID, 2015).

Inteira-se, assim, que o plano da Grã-Bretanha de apartar-se da União Europeia representa um movimento contra o establishment político que há anos cresce no continente. Além de configurar-se como uma representação dos antigo ideais de ideologias conservadoras, relacionados às questões identitárias, territoriais e econômicas, que atuam por meio da descrença e do descontentamento em relação às estruturas político-partidárias tocantes às tendências de globalização e de integração.

O AUMENTO DA AVERSÃO AO ESTRANGEIRO

De acordo com a UNESCO, a palavra xenofobia vem das palavras gregas xénos, que significam “ o estranho” e “hóspede” e phóbos, que significa “medo”. A xenofobia significa “medo do estrangeiro”, podendo ser entendida como uma orientação atitudinal de hostilidade contra não-nativos em uma determinada população. Com efeito, a repulsa ao estrangeiro advém de questões histórico-socioculturais, que alimentaram preceitos, discriminações e hostilidades em relação ao “outro”.

O aumento extremo da imigração nos últimos 20 anos ocasionou um sentimento politicamente potente na União Europeia, alimentando uma reação anti-imigrante.  A porcentagem de britânicos que classificam “relações de imigração/raça” entre as questões mais importantes do país passou de quase zero por cento para cerca de 45% no ápice do referendo de 2016. Atualmente, 77% dos britânicos acreditam que os níveis de imigração devem ser reduzidos. Como consequência, a demagogia anti-imigrante tornou-se ampla na política britânica (Vox, 24 jun 2016).

Isso contribuiu para que grande parte da população inglesa começasse a demandar por políticas de controle de imigração, resultando na votação de 52% em favor da implementação do Brexit. Segundo Sócrates (2019), há no Reino Unido a utilização de discursos de extrema- direita que se apegam a questões históricas e estabelecem uma espécie de síndrome da política de imigração. Assim, culminam no assentamento discursivo de que a “imigração é um problema” ou que os “imigrantes representam um problema”. Disso, os problemas sociais e estruturais, seja o desemprego, a segurança pública ou a economia de um país, são transformados em questões de imigração, nas quais se desenvolve um discurso consensual pelos conservadores e ultranacionalistas de que a imigração é uma patologia social que deve ser contida.

À vista disso, existe uma preocupação por parte das Nações Unidas em relação ao crescimento do aumento da violência ligado à xenofobia após o referendo de 2016. Relatores da ONU apontam que essas ondas de ataques estão relacionadas à votação pela saída do Reino Unido da União Europeia. Em três anos, os casos de crimes de ódio na Dinamarca, por exemplo, passaram de 110 para 274. Outrossim, segundo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), os casos registrados pela polícia inglesa aumentaram de 3 mil em 2015 para 3,6 mil em 2016 (Estadão, p.1, out 2018).

De acordo com Agnieszka Golec de Zavala, psicóloga social da Goldsmiths, Universidade de Londres, e principal autora do artigo Frontiers in Psychology, pode-se diferenciar três grupos que votaram para a saída do Reino Unido da UE que estão ligados a visões xenofóbicas. Dois desses conjuntos de traços de personalidade estão vinculados ao autoritarismo de direita e à orientação de domínio social – a ideia de que o grupo de alguém precisa lutar pela superioridade no mundo, discurso extremamente promulgado durante o imperialismo britânico do século XIX. O terceiro é caracterizado pelo narcisismo coletivo, a crença na grandeza incomparável do país, novamente, um tipo de pensamento historicamente já conhecido (Independent, p.3, nov 2017).

A conclusão de Zavala foi concebida por meio de dois estudos realizados no Reino Unido. O primeiro ocorreu logo após o referendo da UE e consistiu em um questionário online com a votação de 280 participantes. O segundo envolveu 226 pessoas e ocorreu depois que o governo anunciou o apoio a uma opção “dura” do Brexit em setembro de 2016. Após a análise de ambos os estudos, chegaram à conclusão de que os três traços de personalidade que examinaram estavam relacionados à xenofobia e ao apoio ao Brexit (Independent, p.4, nov 2017).

Com isso, pesquisas e dados qualitativos comprovam que minorias étnicas no Reino Unido estão enfrentando crescente racismo, com discriminações e abusos físicos aumentando em sequência ao referendo do Brexit. Setenta por cento das pessoas de minorias étnicas, atualmente, revelam vivenciar discriminações raciais, em comparação com 58% em janeiro de 2016. Uma pesquisa realizada pela Opinium confirma  que os indivíduos com ideologias de superioridade étnica vêm sentindo cada vez mais confiança no uso explícito de abusos ou descriminações, o que resulta em um aumento de 80% em discriminação racial após a efetivação do referendo de 2016 (The Guardian, p.2, 20 maio 2019).

A conferência da Associação Europeia de Sociologia em Manchester, em conjunto com a Universidade de Strathclyde, realizou uma pesquisa com 1.100 pessoas de 12 a 15 anos, originárias da Europa Central e Oriental, que vivem no Reino Unido há pelo menos três anos. A pesquisa teve o intuito de verificar se houve um aumento de racismo e xenofobia desde o referendo do Brexit em 2016. Diante da amostragem, verificou-se que 77% dos jovens europeus experimentaram ou testemunharam intolerância étnica, xenofobia e bullying desde a votação pública de 2016 (PhysOrg, p.1, 22 ago 2019).

Por conseguinte, a xenofobia, após o referendo de 2016, não está exclusa apenas aqueles indivíduos que estão em outro continente, como os africanos, asiáticos e sul- americanos. A aversão ao estrangeiro e a crença de que imigrantes ameaçam o país também se encontra dentro do continente Europeu. É nesse sentido que a identidade europeia promovida pela União Europeia não é amplamente revogada por toda comunidade britânica.

Conclusão

O referendo de 2016, que abriu uma votação popular sobre a saída ou permanência do Reino unido na União europeia, não se configura em uma demanda política e popular atual. Isso em virtude de que a adesão da nação insular à organização internacional sempre esteve envolta de polêmicas e resistências.

O ultranacionalismo e a xenofobia possuem resquícios extremamente antigos, um legado que remota aos projetos históricos de escravidão e colonialismo. O Brexit, portanto, não introduziu de forma recente o racismo e o ódio contra estrangeiros. Não obstante, como foi demonstrado durante a análise, o ambiente que antecedeu o referendo e, essencialmente, a sua efetivação, deliberaram uma maior vulnerabilidade às minorias raciais e étnicas, causando ondas de discriminações e intolerâncias raciais e religiosas.

REFERÊNCIAS

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GOODMAN, Stan. The European Union. London: Palgrave Macmillan, 1996.

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Ana Clara Bueno

Estudante de Relações Internacionais pela UFG. Apaixonada por Direitos Humanos, Segurança internacional e Política Externa. Mescla todas suas paixões com produções cinematográficas. Futura ativista dos Direitos dos Animais.

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