POR QUE O MAR DE ARAL SE TORNOU UM DESERTO?

POR QUE O MAR DE ARAL SE TORNOU UM DESERTO?

Localizado no coração da Ásia Central, entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, se encontra o que restou do Mar de Aral, lago terminal de águas salgadas que já foi considerado o quarto maior lago do mundo, mas teve seu volume reduzido exponencialmente a partir de 1960, como resultado da adoção de políticas ostensivas de irrigação por parte do governo soviético. O desaparecimento do Mar de Aral é atualmente uma das maiores catástrofes ambientais provocadas pelo homem, causando sérios efeitos à economia, ao meio ambiente e à saúde da população local. 

Por que o Mar do Aral virou um deserto?

Durante quase dois séculos (1742-1917) os países que compõem a Ásia Central (Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão) estiveram sob o domínio do Império Russo. Durante este período, ocorreu um intenso cultivo do algodão, a fim de suprir as necessidades internas do Império e abastecer os mercados internacionais, haja vista que como efeito da Guerra de Secessão (1861-1865) houve exponencial redução da capacidade de suprir a demanda por essa matéria prima (IGLESIA, 2006). Dessa maneira, a única região propícia para instalação desta cultura era nas proximidades do Mar de Aral, lago alimentado pelas águas dos rios Amu Dária e Sir Dária, formando um grande oásis em meio ao deserto.

Fig. 1. Localização do Mar de Aral. 

FONTE:  WORLD ATLAS, 2020.

Contudo, em 1870, buscando confrontar o algodão americano, recém introduzido no território, o Império Russo ampliou  drasticamente o cultivo dessa importante matéria prima e de sua irrigação na Ásia Central. Consequentemente, através da construção de ferrovias ligando a Ásia Central à Rússia, foi possível avultar o volume das exportações de algodão, tornando o território dependente da monocultura e da irrigação por meio do Mar de Aral. Se a princípio a produção de algodão nos territórios supracitados foi relativamente benéfica à Rússia, haja vista que no começo da  Primeira Guerra Mundial, em 1914, se tornou a principal fornecedora mundial de algodão, toda essa exploração agrícola veio acompanhada das dificuldades de irrigar um solo árido, como por exemplo, a salinização e aumento de terras pantanosas, ocasionando em surtos de malária (WHITE, 2012).  

Após a derrubada da monarquia russa pela Revolução Bolchevique (1917) e criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), foram feitos planos para aumentar a produção de algodão na Ásia Central, através da expansão das áreas irrigadas do território. Assim sendo, os planos quinquenais de Josef Stalin exigiam que a URSS se tornasse autossuficiente em algodão e fossem cumpridas paulatinas metas para que tal objetivo fosse atingido. Consequentemente, grandes projetos de irrigação na Bacia do Mar de Aral foram estabelecidos na década de 1950, intensificando a monocultura do algodão (WHISH-WILSON, 2002).

Mesmo após a morte de Stalin em 1953, a opção escolhida por seus sucessores, Nikita Khrushchov e Leonid Brezhnev, foi em prosseguir com a política agrícola adotada anteriormente, tornando maiores as áreas voltadas ao cultivo em grande escala, não só do algodão (popularmente chamado de ‘Ouro Branco’), mas também do arroz, pois Khrushchov adicionou uma nova meta: tornar a União Soviética autossuficiente na produção desse grão, o que aumentou expressivamente a dependência da região ao Mar de Aral. 

“Nas décadas de 1940 e 1950, o Governo Central decidiu prosseguir uma política de independência do algodão. O Comitê de Planejamento viu que o ambiente árido ao redor do Mar de Aral era perfeito para a produção de algodão devido à longa e quente estação de cultivo. O algodão foi considerado ideal para a região [Ásia Central], pois as taxas de desemprego eram elevadas, tornando abundante a disponibilidade dos trabalhadores. À medida que a indústria do algodão crescia, sua importância permeou muitos aspectos da vida cotidiana e da cultura. O “Ouro Branco” ganhou dominação política, e foi cuidadosamente esculpido em uma identidade nacional. A Ásia Central foi transformada no principal produtor de algodão da União Soviética” (WHISH-WILSON, 2002, TRADUÇÃO DA AUTORA DO TEXTO).

É incontestável que o ‘Projeto Mar de Aral’, iniciado em 1960, foi o fator primário do desaparecimento deste lago. O audacioso programa lançado por Moscou desviou o curso natural dos rios Sir Dária e Amu Dária para as planícies áridas do Cazaquistão, Uzbequistão e Turcomenistão, tornando o deserto em fazendas de algodão e de outras espécies agrícolas, devastando o Mar de Aral (NASA Earth Observatory, 2011). 

“Foi o planejamento soviético irresponsável, portanto, que criou a tendência de má gestão dos recursos hídricos e desenvolvimento insustentável na Ásia Central. A monocultura do algodão exacerbou a situação e resultou na destruição do Mar de Aral, do ecossistema da Ásia Central e dos recursos hídricos sustentáveis para as gerações presentes e futuras” (PEACHEY, 2004, TRADUÇÃO DA AUTORA DO TEXTO). 

Fig. 2. Colheita de algodão, República Socialista Soviética do Uzbequistão, 1973.

Fonte: RUSSIA BEYOND, 2017.

A partir desse momento, tem-se observado uma drástica mudança no equilíbrio da água, da morfologia e da ecologia do Mar de Aral. Além da diminuição da área que compreende o lago, pesquisas indicam um elevado e crescente grau de salinidade, prejudicando a vida marinha e a dinâmica anteriormente presente ali. Embora a irrigação tenha sido uma prática frequente há milhares de anos na região, na década de 1960 houve uma diminuição substancial do fluxo das águas de rios que ali desembocam. Segundo o especialista Philip P. Micklin (2006), professor emérito da Universidade de Western Michigan, são significativas as alterações provocadas pelo desvio de rios para a prática da irrigação, haja vista que:  

“O crescimento dessa atividade [irrigação] de cerca de 5 milhões de hectares em 1965 para 7,9 milhões de hectares hoje reduziu significativamente a descarga do rio para este corpo d’água como, entre outros fatores, enormes sistemas de irrigação foram construídos nos desertos e uma parcela muito maior de água retirada dos Amu Dária e Sir Dária foi perdida para evaporação em vez de devolvida a esses rios, como havia sido anteriormente o caso, quando a irrigação estava principalmente confinada às zonas deltaica e litorânea” (MICKLIN, 2006, TRADUÇÃO DA AUTORA DO TEXTO) 

Fig. 3. Alteração do volume de água na Bacia do Mar de Aral.

Fonte: MAPS OF WORD, 2010

Com a queda da URSS, as cinco antigas repúblicas socialistas da Ásia Central se tornaram Estados independentes nos anos de 1990. Dessa maneira, a degradação do Mar de Aral se tornou uma preocupação secundária diante das necessidades em estruturar cada uma destas economias segundo a lógica de mercado e construção de suas identidades nacionais (WHITE, 2012). Neste momento, o que restou do lago já se restringia à região fronteiriça entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, sendo as bacias dos rios Amu Dária e Sir Dária compartilhadas pelo Quirguistão, Tadjiquistão e Turcomenistão. Por conseguinte, tais países se tornaram livres para utilizar dos recursos hídricos de seus limites geográficos em conformidade com os seus interesses, surgindo a necessidade de criação da Comissão Interestadual de Coordenação da Água[1], ratificada em 1993, atuando a fim  de evitar potenciais conflitos entre tais países e fomentar a gestão dos recursos hídricos (WHITE, 2012).

Consequências do desaparecimento do Mar de Aral

O nefasto modo de produção implementado pelos soviéticos na Ásia Central tornou a economia da região completamente vulnerável às mudanças e às condições climáticas. Dessa maneira, o desaparecimento do Mar de Aral resultou em uma evidente alteração no ecossistema local e a utilização de pesticidas e herbicidas nas lavouras de algodão aumentaram a salinidade do lago. Esse processo constante e crescente na região é conhecido como desertificação. Assim, a vegetação de águas salgadas está substituindo as espécies nativas e sensíveis ao sal, afetando diretamente a sobrevivência dessas, bem como de aves nativas e aquáticas em virtude da diminuição de áreas úmidas e do elevado teor de pesticidas na água (PEACHEY, 2004).

Fig. 4. Imagem do Espectrorradiômetro de Resolução Moderada de Imagem (MODIS) no satélite Terra da NASA em 21 de agosto de 2018.

Fonte: NASA Earth Observatory, 2018

Além disso, é importante destacar que antes de 1960, a atividade pesqueira era uma fonte de renda importante para as localidades próximas à Bacia do Mar de Aral, mas foi prejudicada pelo aumento de poluentes advindos dos rios que foram desviados de seus cursos naturais, diminuindo vertiginosamente, portanto, a população de peixes do lago. Dessa maneira, segundo Kumar (2002), observa-se que: 

“O teor mineral da água quadruplicou para 40 g/litro, impedindo a sobrevivência da maioria dos peixes do mar e da vida animal. Os peixes praticamente desapareceram do que resta do lago, deixando milhares de pessoas sem meios de subsistência” (KUMAR, 2002, TRADUÇÃO DA AUTORA DO TEXTO). 

Como efeito da destruição do Mar de Aral também observam-se alterações nas dinâmicas climáticas. Antigamente o Mar de Aral regulava a temperatura em seu entorno, já que mitigava os ventos frios vindos da Sibéria no inverno, enquanto impedia que as temperaturas do verão se elevassem demasiadamente. Contudo, as mudanças climáticas fizeram com que o verão se tornasse mais seco e o inverno mais frio, ocorrendo diminuição da precipitação nas margens do Aral, reduzindo, consequentemente, a disponibilidade de água para a irrigação das plantações de algodão (KUMAR, 2002), afetando diretamente a renda das pessoas dependentes dessa atividade agrícola.

Ademais, também são grandes as consequências à saúde da população desses países. Segundo estudos realizados no Uzbequistão, das 700.000 mulheres desse país, 97% são anêmicas, com níveis de hemoglobina no sangue muito abaixo do padrão indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A causa dessa problemática é atribuída à água poluída, já que essa possui sal e produtos químicos dos campos de algodão. Dessa maneira, médicos afirmam que essas mulheres não conseguem absorver o ferro (uma das causas principais da anemia), em virtude da presença acentuada de metais pesados na água, como o manganês e zinco (FAO, 1997). Outrossim, a Região do Mar de Aral possui uma das taxas de mortalidade infantil mais elevadas do mundo, só sendo superada por alguns países da África Subsaariana. Somando-se a isso, muitos bebês têm recusado o leito materno em virtude da grande concentração de sal que esse possui (WHITE, 2012). 

Dessa maneira, é evidente que a devastação do Mar de Aral trouxe consequências desastrosas para a economia, meio ambiente e sociedade desta região, além de ser a prova mais genuína de que “o homem pode destruir o planeta”, conforme apontou António Guterres, Secretário Geral das Nações Unidas, em visita ao Uzbequistão em 2017. Portanto, essa crise se configura como um dos piores desastres sistêmicos provocados pela ação humana, havendo, dessa forma, a necessidade de captar e prover água de forma mais eficiente. Embora algumas ações tenham sido tomadas para mitigar os efeitos danosos do desaparecimento do lago- como o programa de Banco Mundial, o qual buscou melhorar as condições da área do desastre em torno do Mar de Aral- ainda é urgente a necessidade de cooperação a nível local, regional, nacional e internacional para evitar que essa problemática ganhe contornos mais irreversíveis, a fim de se recuperar minimamente o ecossistema do lago e da área dependente da Bacia, além de melhorar as condições de vida da população. 

 Fig. 5. António Guterres em visita  à região do Mar de Aral, no Uzbequistão, em 2017.

Fonte: UN NEWS, 2017

[1] Em inglês: Interstate Commission for Water Coordination (ICWC)

REFERÊNCIAS

FAO NEWS. Contaminated water devastates health across the Aral Sea region. 1997. Disponível em: <http://www.fahttp://www.fao.org/NEWS/1997/970104-e.htmo.org/NEWS/1997/970104-e.htm>.Acesso em: 18 nov. 2020.

IGLESIA, Jesus de la. El desastre ecológico de Asia Central. Anuario Jurídico y Económico Escurialense, San Lorenzo de El Escorial, ano XXXIX, ed. 39, p. 493-522, 2006. Disponível em: <https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=1465582>. Acesso em: 12 nov. 2020.

KUMAR, Rama Sampath. Aral Sea: environmental tragedy in central asia. Economic And Political Weekly, Mumbai, v. 37, n. 37, p. 3797-3802, 2002. Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/4412601?seq=1>. Acesso em: 18 nov. 2020.

MICKLIN, Philip. The Aral Sea Crisis and Its Future: an assessment in 2006. Eurasian Geography And Economics, Reino Unido, v. 5, p. 546-567, 2006. Disponível em: <https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.2747/1538-7216.47.5.546>. Acesso em: 14 nov. 2020.

NASA (Estados Unidos). NASA Earth Observatory. World of Change: Shrinking Aral Sea. [S. l.], 2018. Disponível em: <https://earthobservatory.nasa.gov/world-of-change/AralSea>. Acesso em: 17 nov. 2020.

PEACHEY, Everett J.. The Aral Sea Basin Crisis and Sustainable Water Resources Management in Central Asia. Journal Of Public And International Affair, Princeton, v. 15, p. 1-20, 2004. Disponível em: <https://jpia.princeton.edu/sites/jpia/files/2004-1.pdf>. Acesso em: 15 nov. 2020.

UN News. UN launches new fund to advance sustainable development in Aral Sea region. 2018. Disponível em: <https://news.un.org/en/story/2018/11/1026701>. Acesso em: 18 nov. 2020.

WHISH-WILSON, Phillip. The Aral Sea environmental health crisis. Journal Of Rural And Remote Environmental Health, Austrália, v. 2, n. 1, p. 29-34, 2002. Disponível em: <http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.581.3798&rep=rep1&type=pdf>. Acesso em: 17 nov. 2020.

WHITE, Kristopher D. Nature–society linkages in the Aral Sea region. Journal of Eurasian Studies, Cazaquistão, v. 4, ed. 1, p. 18-33, 7 ago. 2012. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S187936651200022X>. Acesso em: 16 nov. 2020.

IMAGENS

MAPS OF WORD. Aral Sea Map. 2010. Disponível em: <https://mapsofworld.wordpress.com/2010/02/03/aral-sea-map/>. Acesso em: 16 nov. 2020. 

NASA EARTH OBSERVATORY. World of Change: Shrinking Aral Sea. Disponível em: <https://earthobservatory.nasa.gov/world-of-change/AralSea>. Acesso em: 17 nov. 2020.

RUSSIA BEYONDS. Como o algodão derrubou a União Soviética. Disponível em: <https://br.rbth.com/multimedia/inpictures/2017/08/02/o-algodao-e-o-colapso-da-uniao-sovietica_815668>. Acesso em: 17 nov. 2020.

UN NEWS. UN launches new fund to advance sustainable development in Aral Sea region. Disponível em: <https://news.un.org/en/story/2018/11/1026701>. Acesso em: 18 nov. 2020.

WORLD ATLAS. Aral Sea Map. 2020. Disponível em: <https://www.worldatlas.com/aatlas/infopage/aralsea.htm>. Acesso em: 15 nov. 2020. 

Autor

  • Estudante de Relações Internacionais na Universidade Estadual Paulista (UNESP). Tem interesse em Direitos Humanos e Segurança Internacional.

Giovana Machado

Estudante de Relações Internacionais na Universidade Estadual Paulista (UNESP). Tem interesse em Direitos Humanos e Segurança Internacional.

Um comentário em “POR QUE O MAR DE ARAL SE TORNOU UM DESERTO?

  1. Excelente artigo! Muito claro e informativo. Sensacional. Parabéns! As imagens e citações usadas também encaixaram muito bem.
    É muito triste ver como a ganância humana pode colocar fim a um patrimônio tão rico quanto era o Mar de Aral e as consequências que isso tem para a população local.

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