A ÁSIA CENTRAL E O NOVO GRANDE JOGO ENERGÉTICO (NGJE)

A ÁSIA CENTRAL E O NOVO GRANDE JOGO ENERGÉTICO (NGJE)

“Save me from my friends” (Salve-me dos meus amigos), charge de Joseph Swain. Fonte: reprodução, via Flickr.

Influenciada por diversos impérios e mais recentemente por diversas superpotências, a Ásia Central é uma região de importância ímpar para a Política e Sistema Internacionais. A localização extremamente estratégica, aliada à abundância de recursos naturais – sobretudo de petróleo bruto – fazem da região um grande poço dos desejos para muitos países.

Um dos conceitos que servem para explicar essa batalha de interesses internacionais na região é “O Grande Jogo” (The Great Game), no entanto, antes de compreender este conceito, é necessário assimilar o contexto histórico e, ainda mais, o contexto geográfico da Ásia Central, o que foi o Grande Jogo, o que é o Novo Grande Jogo Energético (NGJE) e quais são os novos velhos players desse jogo.

Ásia Central: do século XIX ao XXI

Segundo a definição das Nações Unidas, a Ásia Central é composta pelo Cazaquistão, Quirguistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Uzbequistão[1]; todos esses, ex-Estados da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Localizada entre a Rússia ao Norte; o Irã e o Afeganistão ao Sul e a China a Leste, a Ásia Central é banhada a Oeste pelo Mar Cáspio, tendo portanto uma localização extremamente privilegiada. Enquanto uma das principais rotas entre a Europa e a Ásia, tendo sido fundamental para o comércio chinês no estabelecimento e na manutenção da “Rota da Seda” (PRADT, 2020; UNITED NATIONS, 2021).

Mapa político da Ásia Central. Fonte: Wikimedia Commons.

A história de conflitos envolvendo a região e atores internacionais começou ainda no século XIX. A marcha para o Oeste, promovida pelo Império Russo com o objetivo de estreitar os laços com Constantinopla (atual Istambul, capital da Turquia), Pérsia (região sul do atual Irã) e o Afeganistão, logo transformou-se em inúmeras invasões, com o Império Russo tentando, por diversas vezes, dominar não só os países centro-asiáticos, mas ainda territórios no Oriente Médio e na China. No entanto, ao mesmo tempo o Império Britânico buscava estabelecer novas rotas comerciais na região e, mais tarde, dada a proximidade dessas regiões com a Índia Britânica (dominada pelo Império Britânico em 1858), os ingleses, temendo uma invasão russa à sua colônia, decidiram atrapalhar os planos de Moscou na região (FROMKIN, 1980; PRADT, 2020).

Com isso, entre 12 de janeiro de 1830 (criação da rota comercial entre o Império Britânico e Bucara, no Uzbequistão) e 31 de agosto de 1907 (assinatura do acordo da Convenção Anglo-Russa de 1907), uma série de atritos aconteceram entre o Império Britânico e o Império Russo. Como exposto por Fromkin (1980, p. 939), este período de ameaças entre Londres e Moscou, denominado “Grande Jogo” (Great Game), às vezes pode ser definido “como uma guerra fria e às vezes como uma guerra quente, [pois] a luta entre a Grã-Bretanha e a Rússia durou quase cem anos de uma ponta à outra da Ásia”. Ademais, a crescente desavença entre ambos alterou ainda mais a balança de poder na região, que já pesava mais para os russos do que para os britânicos, e ficou mais acirrada com a descoberta de petróleo nas áreas já dominadas pela Rússia (FROMKIN, 1980; INGRAM, 1980).

Já no final do século XX, com a dissolução da União Soviética em 1991, a Ásia Central foi marcada por inúmeros processos de independência em todos os cinco países centro-asiáticos. Isso possibilitou aos Estados da região uma melhor liderança de seus regimes políticos, econômicos e de suas políticas externas, ainda que liderados por governos autoritários e/ou tirânicos. Obviamente, a maior parceira nas áreas política e econômica pós-independência foi (e ainda é) a Rússia. No entanto, outros players também mostraram-se interessados na região e em seus recursos, dentre eles: os Estados Unidos da América (EUA) e a República Popular da China (RPC).

The Great Game

O termo “Grande Jogo” foi originalmente cunhado pelo diplomata, militar e espião britânico Arthur Conolly, no ano de 1837, em cartas trocadas com oficiais ingleses na Ásia Central. No entanto, como argumenta Morgan (1973, p. 55), o capitão Conolly era “um exemplo extremo do tipo não incomum de oficial que lutava com a Bíblia em uma mão e uma espada na outra […]”, por isso a visão estabelecida por ele sobre o Grande Jogo, era muito mais espiritual do que política.

A noção política do termo só foi criada após a publicação do romance de espionagem “Kim” escrito por Rudyard Kipling e publicado em 1901. Desde então, a expressão se popularizou fora do meio diplomático-militar e é amplamente utilizada para descrever esse período de quase cem anos de embates entre o Império Britânico e o Império Russo pelo domínio da Ásia Central (MORGAN, 1973).

Nesse ínterim, russos e britânicos estiveram envolvidos em inúmeros conflitos armados em diversas partes da Ásia, dentre eles: Primeira Guerra Anglo-Afegã (1839-1842), Guerra Russo-Turca (1877-1878), Segunda Guerra Anglo-Afegã (1878–1880), Guerra Civil Russa (1918–1920), Terceira Guerra Anglo-Afegã (1919), Guerra de Independência Turca (1919-1923), Guerra Sino-soviética (1969) e a Guerra Soviético-Afegã (1979–1989) (FROMKIN, 1980).

O Novo Grande Jogo Energético (NGJE)

O colapso da União Soviética abriu as portas para os Estados centro-asiáticos. No entanto, a independência veio com novos desafios, como os conflitos fronteiriços entre os uzbeques e quirguizes, conflitos étnicos no Cazaquistão e o aumento do tráfico de drogas e a disseminação de grupos terroristas do Afeganistão. Porém, grande parte dessas questões pós-independência são consequências diretas de influências externas nos Estados da região, como a Invasão (e recentemente a retirada) Estadunidense no Afeganistão[2] e a Revolução das Tulipas em 2005 no Quirguistão, também apoiada pela Casa Branca (ZABORTSEVA, 2012).

Por sua capacidade energética ainda pouco explorada, a Ásia Central, que possui 2,7% do total de reservas de petróleo e 7% do total de reservas de gás natural no mundo, despertou interesse em novos velhos atores regionais (Rússia e China) e internacionais (Estados Unidos e União Europeia). É nesse cenário que acontece o “Novo Grande Jogo Energético” (NGJE), onde o domínio da produção, exportação e/ou beneficiamento do petróleo centro-asiático é o objetivo desta disputa geopolítica. As maiores zonas petrolíferas estão no Mar Cáspio, que banha o Azerbaijão, Irã, Cazaquistão, Rússia e Turcomenistão, sendo, portanto, os países mais envolvidos nas dinâmicas do NGJE (JAFFE, 1998; LOPES, 2012; MONIÉ, 2012).

Zonas petrolíferas na Ásia Central e Cáucaso. Fonte: Monié (2012, p. 6).

Os novos velhos atores

Estados Unidos. A presença militar e a influência direta nos países da região, é uma das características da presença estadunidense na Ásia-Central. A perda da força americana nos países centro-asiáticos, devido à recente ausência no Afeganistão, deixou o caminho aberto tanto para a influência russa quanto chinesa, países que firmam acordos econômicos, políticos e militares com os Estados centro-asiáticos desde o início do século (LOPES, 2012).

China. Além da necessidade/desafio energético envolvendo o abastecimento de 1,4 bilhão de habitantes, as intenções da presença chinesa na Ásia Central sempre tiveram um caráter geopolítico. Junto dos russos na Organização para Cooperação de Xangai (OCX), a China busca combater o extremismo, o separatismo e o terorrismo; vetores que contribuem para a instabilidade da região e que influencia países com minorias muçulmanas, como a Rússia e a própria China (MONIÉ, 2012; ZABORTSEVA, 2012).

Rússia. Detentora de boa parte dos oleodutos e gasodutos da região, a Rússia, busca cada vez mais aumentar sua infraestrutura petrolífera, ligando o extremo Oriente à Europa Ocidental. Desde o início do século, está presente em tratativas multilaterais tanto na Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, na sigla em inglês) quanto na OCX, que abrange ainda mais players regionais e que tem sido responsável por solucionar diversos conflitos fronteiriços e securitários na Ásia-Central (ZABORTSEVA, 2012).

União Europeia. Principal destino dos gasodutos e oleodutos russos e do petróleo centro-asiático, a União Europeia tem papel fundamental na diplomacia energética liderada por Moscou. Ainda que não tenha uma influência tão considerável quanto os demais Estados supramencionados, tem participações pontuais importantes nas dinâmicas do NGJE (MONIÉ, 2012).

Oleodutos e gasodutos na Ásia Central e Cáucaso. Fonte: Monié (2012, p. 17).

Conclusão

A dinâmica do Novo Grande Jogo Energético (NGJE), diferentemente do Grande Jogo depende muito pouco do conflito militar e étnico e mais da capacidade de persuasão e diplomacia dos países envolvidos. O principal motivo é a instabilidade regional, que reverbera em todos os países envolvidos. Além disso, a política externa multilateralista e soberanista de ambos da Rússia e China, faz com que o diálogo seja muito mais frutífero do que a ameaça. Não por coincidência, russos e chineses compartilham inúmeros mecanismos diplomáticos com os países da região, que têm sido extremamente frutíferos nas mediações envolvendo conflitos fronteiriços na Ásia Central.

 No entanto, a questão energética ainda pode resultar em tensões entre a própria Rússia e a China, já que ambos os países possuem políticas (internas e externas) muito similares quando o assunto é Ásia Central. Tais tensões podem, inclusive, atrapalhar os mecanismos diplomáticos compartilhados entre os dois países, como a OCX ou os BRICS. Ademais, o Novo Grande Jogo Energético continuará sendo palco para muita discussão no Sistema Internacional.

Notas

[1] A composição da Ásia Central também pode incluir (partes dos territórios de) outros países, como o Afeganistão, China, Índia, Irã, Mongólia, Paquistão e Rússia.

[2] Assunto já abordado pelo Dois Níveis no artigo “A interferência estrangeira e o regime Talibã no Afeganistão”.

Referências

FROMKIN, D. The Great Game in Asia. Foreign Affairs, v. 58, n. 4, p. 936, 1980. 

INGRAM, E. Great Britain’s Great Game: An Introduction. International History Review, v. 2, n. 2, p. 160–171, 1980. 

JAFFE, A. M. Unlocking the Assets: Energy and the Future of Central Asia and the Caucasus. James A. Baker III Institute for Public Policy, p. 42, abr. 1998. 

LOPES, J. M. M. O novo grande jogo da energia na Ásia. 1. n. 6–7, p. 253–339, 2012. 

MONIÉ, F. O novo “Grande Jogo” e a geopolítica dos oleodutos no Mar Cáspio. In: MONIÉ, F.; BINSZTOK, J. (eds) Geografia e geopolítica do petróleo. Rio de Janeiro: Mauad X, 2012. p. 237–262. 

MORGAN, G. Myth and reality in the great game. Asian Affairs, v. 4, n. 1, p. 55–65, fev. 1973. 

PRADT, T. The prequel to China’s New Silk Road: preparing the ground in Central Asia. Singapura: Palgrave Macmillan, 2020. 

UNITED NATIONS Department of Economic and Social Affairs. Classification and definition of regions, 2021. Disponível em: <https://esa.un.org/MigFlows/Definition%20of%20regions.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2021

ZABORTSEVA, Y. N. From the “Forgotten Region” to the “Great Game” Region: On the Development of Geopolitics in Central Asia. Journal of Eurasian Studies, v. 3, n. 2, p. 168–176, jul. 2012.

Jorge Willian Ferreira Gonçalves

Graduando em Relações Internacionais pela UFG. Membro do Grupo de Estudos sobre a Rússia (PRORUS/UFSC) e pesquisador voluntário na Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM/UFG). Tenho interesse nas relações Brasil-Rússia e a política externa russa no âmbito da Organização para Cooperação de Xangai e os BRICS.

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