O QUE ANTECEDEU A GUERRA DO AFEGANISTÃO

O QUE ANTECEDEU A GUERRA DO AFEGANISTÃO

Fonte: UNSPLASH, 2021.

Mesmo após quase 20 anos desde o início da Guerra do Afeganistão, o conflito, que até hoje não chegou ao fim, é um dos que mais produz impactos aos Estados Unidos da América (EUA). Apesar da maioria das explicações sobre essa guerra ter início a partir do atentado terrorista ocorrido em 11 de setembro de 2001, as causas para o conflito remetem a décadas anteriores. Assim, uma contextualização histórica acerca das razões para esse evento faz-se necessária uma vez que este ataque foi apenas o estopim para que a guerra afegã se instaurasse. 

O presente artigo busca apresentar um breve histórico do que precedeu à Guerra do Afeganistão, tratando desde a relevância da invasão soviética no país, até o estabelecimento da Guerra do Golfo nesse processo. Assim, em primeiro lugar, é importante esclarecer que as motivações que levaram à operação do atentado do dia 11 são resultado de uma série de eventos que propiciaram a oposição entre Estados Unidos e fundamentalistas islâmicos [1], tais como Osama Bin Laden. 

A Política Externa estadunidense

Durante a década de 1970, ocorreram dois importantes eventos que mudaram a posição da política externa estadunidense em relação aos países orientais, enquanto modelos de Estados que contrapunham-se ao padrão ocidental e as suas instituições. O primeiro deles foi a Crise Petrolífera de 1973, causada pelo envolvimento dos EUA na Guerra de Yom Kipur, que provocou problemas macroeconômicos à potência americana, fazendo-a parecer vulnerável frente às ocorrências no oriente. O segundo, a Revolução Iraniana de 1979, levou o governo estadunidense a manter uma relação mais distante com aquele país (OLIC; CANEPA, 2003).

Resumidamente, a crise no preço dos barris de petróleo, em outubro de 1973, foi uma resposta da Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (OPAEP) à intervenção dos EUA no conflito entre Síria e Egito contra o Estado de Israel – Guerra de Yom Kipur. Isso se deu pelo fornecimento de armamentos aos israelenses como forma de apoio ao país, considerado o maior aliado dos EUA no Oriente Médio. Entretanto, a retaliação das autoridades sírias e egípcias, membros da OPAEP, trouxe graves consequências à economia estadunidense (OLIC; CANEPA, 2003).

A Revolução de 1979, cujos apoiadores eram predominantemente fundamentalistas islâmicos, visava derrubar a monarquia autoritária que governava o Irã, uma vez que possuía forte afinidade com países ocidentais, em especial os Estados Unidos. Como resultado, houve uma mudança no governo, que passou de uma monarquia autocrática para uma república islâmica teocrática. Isso significa que a base ideológica do país sofreu uma grande alteração ao colocar os dogmas islâmicos acima de qualquer princípio democrático, supostamente, tão valorizado pelos países ocidentais (RODRIGUES, 2004).

Assim, ambos acontecimentos fizeram com que a política externa estadunidense em relação à maioria dos Estados do Oriente Médio, Ásia Central e Meridional fosse alterada e passasse a ter um caráter mais agressivo. A partir disso, percebe-se que a mudança de posição estadunidense atinge, em especial, os países que seguem a religião islâmica.

Contexto afegão

Um importante marco para a organização política desse país foi a Revolução de Saur de 1978, momento em que o regime monárquico foi substituído e o Afeganistão passou a ser uma República Democrática, governada por um partido comunista. Portanto, foi na tentativa de apoiar esse novo regime, frente às camadas mais conservadoras da sociedade que não apoiavam as reformas que o partido propunha, que o governo soviético decidiu intervir na situação (VISENTINI et al, 2013).   

Então, em 1979, ainda durante o período da Guerra Fria, o Afeganistão foi invadido por tropas soviéticas, que permaneceram naquele território até 1989. Entretanto, com o plano de desestabilizar o seu maior adversário da época, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o governo estadunidense passou a apoiar financeiramente um forte grupo de oposição ao governo afegão, conhecido como Mujahedin (DORRONSORO, 2005).

Ao receber auxílio do Paquistão, dos EUA e da Arábia Saudita, que eram inimigos do governo soviético, o movimento de resistência afegão ganhou força dentro daquela sociedade e passou a ter um papel político significativo (SAIKAL, 2004). Assim, por maior que fosse a assistência prestada pelo governo soviético ao Afeganistão, o exército estrangeiro via-se incapaz de lidar com os Mujahedins [2]. Como consequência, a União Soviética iniciou o processo de retirada de suas tropas do país no momento em que o Estado afegão se encontrava em uma condição de fraqueza e debilidade, devido à ausência de coesão organizacional e institucional (RUCHEL; VIEIRA, 2021).

Desse modo, a retirada das tropas soviéticas implicaram diretamente no fim do regime comunista afegão chefiado por Mohammad Najibullah, seguido pela criação de um vácuo de poder naquele território. Nesse período, outros atores surgiram naquele cenário para preencher o espaço político “vazio” do país, o que acabou por se transformar em um conflito interno por disputa de poder (RUCHEL; VIEIRA, 2021).

Cinco anos após a retirada das tropas soviéticas do território afegão, em 1994, surgia, de um pequeno grupo de pessoas que anteriormente haviam feito parte dos Mujahedins, o movimento fundamentalista islâmico conhecido como Talibã. Já no ano de 1996, o grupo passa a comandar o Afeganistão, transformando-o em uma República Islâmica. Essa nova administração foi reconhecida inicialmente por três países, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Paquistão, na esperança de que os novos líderes pudessem trazer certa estabilidade ao país. Tal confiança era fundamentada em algumas características do Talibã, como a base religiosa do grupo (SOUZA, 2012).

No entanto, a chegada de Osama Bin Laden em solo afegão levou os três Estados orientais a retirarem, gradativamente, seu apoio ao regime Talibã. Além disso, é a presença dessa mesma pessoa no Afeganistão que leva os Estados Unidos a invadirem o país em 2001. Nesse sentido, Bin Laden é visto como um vetor da relação traçada entre EUA e o Talibã (SAIKAL, 2004).

Mas qual a relação de Bin Laden, um saudita, com o país afegão?

Quando jovem, Bin Laden estudou administração na Universidade King Abdul Aziz, situada em Jidá, na Arábia Saudita. Estipula-se que, no ambiente universitário, tenha também tido instruções sobre estudos religiosos com um militante religioso chamado Abdullah Azzam, sendo esse período marcado pelo forte contato com ideais islâmicos radicais (GUNARATNA, 2004). Alguns anos depois, Azzam foi quem chamou Bin Laden a participar da jihad [1] que havia convocado contra os soviéticos, uma vez que a intervenção da URSS em território afegão era percebida pelos islâmicos como um ato de agressão contra a sua religião. Assim, no Afeganistão, Azzam foi um dos encarregados pela organização e articulação do grupo de árabes e afegãos que integrariam os Mujahedins (AMORIM, 2008).

Um ponto fundamental para entender o papel de Osama Bin Laden nesse contexto é a influência que Azzam possuía sobre ele. Dessa forma, é importante conhecer o pensamento desse militante para que se possa compreender também a posição de Bin Laden. Assim, como afirma Souza (2012, p. 73):

“o ponto fundamental do discurso de Azzam é a construção da necessidade da jihad contra aqueles que são considerados ocupantes ou opressores de terras islâmicas. Para tanto, ele coloca como um dever religioso obrigatório de todo muçulmano”.

Nesse contexto, durante o ano de 1984, Osama Bin Laden e Abdullah Azzam criam a organização que teria um papel fundamental na derrota do exército soviético e que, em anos posteriores, serviria de base para a fundação da Al Qaeda: o Gabinete Afegão de Serviços (MAK, sigla na língua original).O principal objetivo para o estabelecimento do Gabinete foi abrigar, treinar e recrutar árabes e afegãos para lutarem ao seu lado contra a URSS. Para isso, a organização precisou arrecadar dinheiro, armamentos e combatentes para a resistência afegã (BAKKER; BOER, 2007). 

Alguns anos após a derrota soviética, Bin Laden reúne alguns dos combatentes Mujahedins e, utilizando da estrutura pré-existente do Gabinete, funda a Al Qaeda. Dessa vez, o objetivo da constituição da organização é atuar em diversos embates em que exista o envolvimento de religiosos islâmicos (GUNARATNA, 2004). 

Até o momento, com o envolvimento de Bin Laden no conflito contra a ocupação soviética, havia um apoio entre a resistência da qual fazia parte e o governo estadunidense. Porém essa relação muda a partir da ocorrência da Guerra do Golfo.

Guerra do Golfo

Em agosto de 1990, quando houve a invasão por parte do Iraque ao território que pertencia ao Kuwait, a família real kuaitiana precisou fugir e se refugiar na capital saudita, Riad, criando um clima de tensão entre os governos iraniano e saudita. Prontamente, Bin Laden ofereceu seu exército para fazer o papel de proteção de sua terra natal, mas teve sua proposta recusada. Em contrapartida, o exército estadunidense é escolhido para garantir a segurança do país, onde permaneceu mesmo após o término do conflito (SAGEMAN, 2004).

A continuidade dos EUA no território sagrado saudita foi considerada pelo líder da organização fundamentalista islâmica uma traição, levando-o a cortar relações com a realeza saudita. A partir disso, Bin Laden inicia uma campanha de ataques contra a potência americana e a ameaça de dominância estadunidense no mundo muçulmano. Como consequência dessa inimizade, além de enfrentar os Estados Unidos, Bin Laden também exaltava ataques realizados por outros grupos ao mesmo alvo (SOUZA, 2012).

Nos anos posteriores, a Al Qaeda expande sua infraestrutura e sua quantidade de membros, fortalecendo-se. Em 1996, Osama retorna ao Afeganistão, onde recebe apoio da milícia que exercia maior dominância no país, o Talibã. Assim, a Al Qaeda encontra no território afegão as melhores condições para praticar e desenvolver suas atividades, lançando oficialmente a jihad contra o Ocidente (SOUZA, 2012).

Considerações Finais

Além de propriamente explicar o que motivou o atentado do dia 11 de setembro e a subsequente Guerra do Afeganistão, a contextualização das intervenções estadunidenses em países do Oriente Médio e da Ásia mostra como ocorreu o progressivo antagonismo entre ocidente e oriente. Dessa forma, durante os anos da Guerra Fria, houve o começo da construção de quem seria o próximo grande inimigo no imaginário estadunidense, assim como há décadas era feito com a Rússia.

Portanto, em setembro de 2001, essa rivalidade se tornou mais explícita após os ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono. Como retaliação, houve o início da política de Guerra ao Terror, instaurada pelo presidente estadunidense George W. Bush, cuja primeira operação foi a Guerra do Afeganistão. 

Ademais, não há como ignorar o papel da URSS nesse contexto como um ator que também tinha interesse em tirar proveito da situação de vulnerabilidade afegã. Nesse sentido, o histórico dessa guerra mostra que o Afeganistão, assim como muitos outros países do Oriente Médio, Leste Europeu e Ásia, foi vítima da disputa por controle entre as duas potências da época. A repercussão de tal embate afeta, em especial, aqueles que menos tem controle sobre a situação, as camadas mais frágeis da sociedade, o que torna a discussão sobre esse tema tão importante.

Notas

[1] Uma ideologia baseada nos textos sagrados, símbolos e eventos islâmicos de forma que possa articular uma agenda política pautada nesses dogmas, distinguindo-se da ordem política social, econômica e cultural dominante. 

[2] Um grupo de jovens que representavam uma resistência de guerrilheiros islâmicos. 

[3] É uma guerra declarada em defesa aos valores e ideais islâmicos, traduz-se como “guerra santa”.

Referências

AMORIM, Alexandre Santo de. A globalização do radicalismo islâmico: um estudo de caso da Al-Qaeda sob a luz do choque de civilizações. 2008. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2008.

BAKKER, Edwin; BOER, Leen. The evolution of Al-Qaedaism: ideology, terrorism, and appeal. Den Haag: Netherlands Institute of International Relations Clingendael, 2007.

DORRONSORO, Gilles. Revolution Unending: 1979 to the Present. London: Hurst & Co Publishers, 2005.

GUNARATNA, Rohan. No interior da Al-Qaeda, rede global de terror. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2004.

OLIC, Nelson Bacic; CANEPA, Beatriz. Oriente Médio e a Questão Palestina. 2 ed. São Paulo: Moderna, 2003.

SAGEMAN, Marc. Understanding Terror Networks. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2004. 

SAIKAL, Amin. Modern Afghanistan: A history of struggle and survival. London: Bloomsbury Publishing, 2004. 

RODRIGUES, Alexandre Reis. O 11 de Setembro e a Política Externa Americana. Revista de Relações Internacionais – 11 de Setembro e 11 de Março: Interpretações, p. 5 – 11, Set., 2004.

RUCHEL, Gabriel; VIEIRA, Maria Gabriela de O. Afeganistão em guerra: invasão e insurgência (2001-2020). Observatório de Conflitos: Dossiê de Conflitos Contemporâneos, v. 2, n. 2, p. 4 – 12, fev./mai., 2021. Disponível em: https://gedes-unesp.org/wp-content/uploads/2021/07/Dossie-Obs.-Conf.-vol2-v2-2021-FINAL-7-15.pdfhttps://gedes-unesp.org/wp-content/uploads/2021/07/Dossie-Obs.-Conf.-vol2-v2-2021-FINAL-7-15.pdf. Acesso em 05 de Agosto de 2021.

SOUZA, Bruno Mendelski de. A construção do conceito de inimigo nos discursos de Osama Bin Laden. 2012. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 2012. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/54091/000851264.pdf?sequence=1. Acesso em 05 de agosto de 2021.

VISENTINI, Paulo Fagundes; PEREIRA, Analúcia Danilevicz; MARTINS, José Miguel; RIBEIRO, Luiz Dario; GRÖHMANN, Luiz Gustavo. Revoluções e Regimes Marxistas: rupturas, experiências e impacto internacional. Porto Alegre: Leitura XXI, 2013. 

Isadora Ferreira Marinho

Estudante de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Possui interesse nas áreas de Direito Internacional Público e Política Internacional.

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