GEOPOLÍTICA DO SUDESTE ASIÁTICO: RUMO AO XEQUE-MATE?

GEOPOLÍTICA DO SUDESTE ASIÁTICO: RUMO AO XEQUE-MATE?

A geopolítica do Sudeste Asiático ainda é pouco explorada. Entender mais acerca de países tão distantes da nossa realidade pode parecer abstrato demais. No entanto, é preciso destacar que, assim como todas as outras regiões do mundo, esta possui a sua própria dinâmica. E tal conjuntura também influencia os rumos da política internacional. Foi pensando neste cenário que o Dois Níveis buscou sintetizar as características dos principais “players” ou, como pode-se dizer, os principais “jogadores” do tabuleiro de xadrez do Sudeste Asiático, que, por sua vez, suas estratégias são influenciadas e influenciam questões que não estavam previstas em um jogo de xadrez comum, ou seja, são externas à dinâmica do jogo, visto que são fatores que vão além da conjuntura regional.

Figura 1– Países do Sudeste Asiático

Observando as características da região, podemos notar que a Indonésia desponta como o principal player, ou potência regional. Logo em seguida, para equilibrar a balança de poder no Sudeste Asiático, aparecem as Filipinas, a Malásia, a Tailândia e o Vietnã como potências emergentes da região, além de Singapura que consegue, em alguns casos, influenciar na estrutura regional. Como fator externo, as sucessivas interferências chinesas na conjuntura local pode ser considerada um fator exógeno, isto é, externo ao “xadrez” regional. Ademais, não há como descartar o xadrez global no qual as principais peças são movidas pelos Estados Unidos (EUA) e pela China, prova disso, é a guerra comercial que influencia diferentes partes do globo. Portanto, tal relação entre as duas superpotências (EUA e China) também pode ser considerado como um fator exógeno.

Outro ponto que vale a pena ser ressaltado é o papel geopolítico que a Associação de Estados do Sudeste Asiático (ASEAN), como arena multilateral e de fortalecimento da cooperação regional nos campos econômico, social, cultural, técnico, educacional e outros, tem. Com sede em Jacarta, Indonésia, o bloco foi fundado em 8 de agosto de 1967 pela Filipinas,  Indonésia, Malásia, Singapura e Tailândia. O Vietnã adere à associação em 1985. Serão apresentados, portanto, breves análises dos principais players da região:

Indonésia

A Indonésia é considerada pelo professor de relações internacionais da American University em Washington, Amitav Acharya (2014), uma potência emergente, visto que possui capacidades estatais para tanto. De acordo com o autor, no âmbito econômico, por exemplo, o país deverá se tornar, até 2030, a sétima maior potência econômica do mundo e a única da região a ter um produto interno bruto acima de US$ 1 trilhão (produto interno bruto- PIB é a soma de todas as riquezas produzidas em um país, durante um determinado período de tempo), além do mais, a Indonésia possui a quarta maior população do planeta, ou seja, uma das maiores forças de trabalho do mundo. No quesito militar, sua capacidade é inferior à de outros países emergentes como Brasil, Rússia, Índia e China, porém, se mantém com uma grande força militar da região.

No entanto, para ser considerada uma potência regional, além destes quesitos já elencados, é necessário possuir prestígio político na sua respectiva região, e, de acordo com o autor, a Indonésia se caracteriza como um poderoso mediador de conflitos do Sudeste Asiático e um exemplo de democracia local. Embora nas características consideradas “poder duro/ bruto” ou hard power, isto é, economia e poderio militar, por exemplo, o país tenha deixado um pouco a desejar, na esfera do “poder brando” ou soft power (mediação de conflitos, influência democrática e cultural), a Indonésia tem se destacado e se movimentado para se afirmar como potência regional.

De acordo com a professora e diretora do Centro para Potências Emergentes e Tendências Transnacionais da Escola de Diplomacia e Relações Internacionais da Seton Hall University de Nova Jersey, Ann Marie Murphy (2017), a relação da Indonésia com os EUA e a China se baseia na tentativa de encontrar um meio-termo, portanto, não há favorecimento nem de um, nem de outro. Para além da dicotomia sino-americana, isto é, China-EUA, a Indonésia também procurar estreitar seus laços diplomáticos com a Coreia do Sul, Índia e Brasil, por exemplo. O país possui ainda um acordo de parceria com Washington (2010) e Pequim (2013).

Filipinas

Alguns indicadores, como demografia, produto interno bruto, dentre outros, apontam as Filipinas como um forte candidato à ascensão de potência regional. O país possui, de acordo com Banco Mundial, uma população estimada em 108 milhões de pessoas, a segunda maior da região. Além disso, dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), mostram um crescimento exponencial da economia do país em 2013, com uma taxa de crescimento de 7,1% do produto interno bruto, 6,9% em 2016 e 5,9% de crescimento em 2019, neste mesmo ano, o PIB do país estava em torno de 376 bilhões de dólares, o terceiro maior do Sudeste Asiático, à frente, inclusive, de Singapura. Ademais, apesar da pandemia de Covid-19 a qual influenciou os resultados econômicos negativos da maioria dos países do mundo, o FMI ainda prevê um crescimento para a economia das Filipinas em torno de 0,6%.

Com respeito às relações deste país no contexto EUA/China, nota-se que o governo filipino se aliou a quem melhor pudesse servir melhor aos seus interesses. Ademais, a autora Murphy (2017) mostra que, nos último anos, devido à pressões militares da China e à busca por investimentos, as Filipinas se mostrou mais favorável a Pequim do que a Washington. No entanto, a autora alega que ainda é difícil ter uma interpretação assertiva da real posição das Filipinas nesse contexto, pois o país reivindica partes do mar do Sul da China.

Malásia

Em termos de distribuição de renda, a Malásia figura entre as maiores posições da região, visto que, mais de 80% dos malaios são pertencentes à classe média. É uma taxa tão elevada que se equipara às taxas de países desenvolvidos. Além do mais, a Malásia possui quase 80% da população vivendo em zona urbana. No âmbito econômico, o PIB malaio chegou a crescer 5% em 2015, e, agora, está previsto uma retração de 1,7%. Vale ressaltar que o produto interno bruto do país em 2019 foi de US$ 364 bilhões.

No mais, assim como as Filipinas, a Malásia também reivindica uma parte do do mar do Sul da China. No entanto, o país tem procurado não enfrentar solitariamente o gigante chinês. Assim como a Indonésia, a Malásia aposta no fortalecimento dos laços diplomáticos com os dois países. Ademais, como afirma Murphy (2017), o foco central da atuação da política externa da Malásia está nas movimentações multilaterais da ASEAN, ou seja, ela faz uso da ASEAN como arena de discussão e veículo de defesa de interesses nacionais/ regionais.

Tailândia

Com uma população de quase 70 milhões de habitantes, a Tailândia figura na vigésima posição de países mais populosos e é o quarto dentro da ASEAN, atrás apenas da Indonésia, Filipinas e Vietnã. O país também tem uma alta proporção de pessoas vivendo na classe média, são cerca de 60% da população. No mais, 50% dos tailandeses vivem no meio urbano. Embora o FMI prevê que, dentre os países aqui citados, a Tailândia sofrerá o maior baque na economia devido à pandemia de Covid-19, com uma retração de 6,7%, é previsto, no entanto, que em 2021 o país já consiga recuperar quase a totalidade da perda, com um crescimento estimado de 6,1%. Apesar do vaivém na economia, a Tailândia figura como a segunda maior potência econômica da região, visto que o seu PIB em 2019 foi cerca de US$ 543 bilhões.

A estratégia Tailandesa, no últimos anos, tem sido de maior fortalecimento das relações com a China do que com os EUA, porém, ainda mantém fortes laços econômicos e militares com os Estados Unidos. Vale ressaltar ainda que, dentre os países aqui abordados (exceto Singapura), a Tailândia é o único que não sofre ameaças marítimas da China, portanto, possui maior espaço de manobra para a formulação da política externa regional/ internacional.

Vietnã

Considerado um dos países com um dos maiores crescimentos econômicos da região, o Vietnã vem desfrutando de um aumento rápido da qualidade de vida de seus cidadãos. Entre 2015 e 2019, por exemplo, o país cresceu, em média, 7% ao ano. Embora, dentre os países aqui explanados, o Vietnã seja o que possui o menor poder econômico, pois em 2019 seu PIB foi de apenas 261 bilhões de dólares, ele é, provavelmente, devido ao seu poderio militar e prestígio político, o país que mais possui capacidades de ameaçar o poderio regional da Indonésia, alterando assim, a balança de poder na região. Com uma população estimada em 95 milhões, figurando como a terceira maior da região, o país parece estar conseguindo ganhar espaço de liderança, devido ao vazio de poder deixado pela Indonésia.

Com ousadia, o país vem se posicionando de forma incisiva perante a gigante China devido às suas reivindicações no mar do Sul da China. Em 2017, por exemplo, durante um fórum da ASEAN, cobrou uma reação mais firme do bloco frente ao expansionismo chinês, a qual, por sua vez, expunha uma possível falha de liderança da região por parte da Indonésia. E agora, mais atualmente, devido ao sucesso do Vietnã no combate à Covid-19 somado às suas reações enfáticas frente às reivindicações chinesas, tornaram-o um forte candidato a substituto da então líder da Indonésia no comando da ASEAN.

Com respeito à sua relação na disputa de poder entre China e EUA, o Vietnã tem procurado diversificar suas parcerias estratégicas com três países estratégicos além das duas superpotências (EUA e China), são eles: Índia, Japão e Rússia. Por fim, como aponta Murphy (2017), nota-se, novamente, uma determinação do Vietnã frente a ameaças da China. A autora apresenta o caso em que, durante o impasse para instalação de uma plataforma de petróleo da China na Zona Econômica Especial (ZEE) do Vietnã, este confrontou diariamente os navios chineses. Enquanto isso, o governo vietnamita enviou um representante a Pequim para tratar do assunto pacificamente.

Singapura

Com índices altíssimos de qualidade de vida, e, com certeza, o país mais desenvolvido do Sudeste Asiático, ela possui um PIB de 372 bilhões de dólares (2019), além de altíssimas taxas de crescimento, tendo um pico em 2010 de 14,5% de crescimento econômico. Inclusive, em 2006, por um vazio de liderança da Indonésia novamente, Singapura se aproximou dos Estados Unidos, e, por um momento, foi considerada como líder da ASEAN, pelo menos pelos EUA durante uma visita do presidente George W. Bush no país. Porém, Singapura não será considerada, neste trabalho, como um dos Estados que estão na disputa pelo poder na região, visto que não possui grandes capacidades de poder bruto “hard power” para liderar o Sudeste Asiático, como uma grande população, poder militar ou tamanho territorial satisfatório. No entanto, é um importante membro da balança de poder da região. Desta forma, não será inserida no quadro abaixo que sintetiza as informações acerca do poder econômico e militar dos países aqui mencionados.

Quadro 1– Capacidades Estatais (Poder Econômico, Demográfico e Militar)

Os dados econômicos do quadro acima representam o período pré-pandemia (2019), durante a pandemia (2020) e estimativa para o pós-pandemia (2021). Nota-se, portanto, uma forte recuperação da Malásia e uma estabilidade do Vietnã se considerar os níveis antes e após a ocorrência da Covid-19. Sendo este último, inclusive, o país da região que terá o maior crescimento econômico ainda em 2020 (+ 2,7%). A nível de comparação, a economia brasileira cresceu 1,1% em 2019. Talvez presenciaremos um “xeque-mate” nos próximos meses do Vietnã à liderança indonésia na ASEAN, e, portanto, na região como um todo. Agora, será preciso acompanhar as próximas jogadas dos players ali presentes para entender os rumos da geopolítica do Sudeste Asiático, e aqui, você leitor, já pôde ter um spoiller (prévia) das futuras jogadas desse xadrez regional.

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REFERÊNCIAS

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Thiago Barros

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás. Diretor Executivo do Dois Níveis.

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