ENTENDENDO A TENSÃO CHINA x TAIWAN

ENTENDENDO A TENSÃO CHINA x TAIWAN

Em junho de 2021, durante o discurso do aniversário de 110 anos do Partido Comunista Chinês (PCC), o presidente da China, Xi Jinping (2013-), mencionou que a reunificação pacífica de todos os territórios chineses sob o governo central em Pequim é uma pauta de interesse de longa data da República Popular da China (BBC, 2021). Na ocasião, Xi referia-se a ilha de Taiwan, território cuja relação política e territorial com a China continental é conturbada desde a década de 1940. O presidente chinês ainda citou a reunificação sob a condição de “dois governos, um país”, adotada em Hong Kong, como uma possível solução.

Apesar das relações China-Taiwan terem permanecido em um estado relativamente tranquilo nos últimos anos, em outubro de 2021 as tensões voltaram a esquentar quando a China continental enviou alguns jatos militares para o espaço aéreo taiwanês. O ministro da defesa de Taiwan chegou a dizer que as tensões com a China estão em seu pior nível em quarenta anos.

Neste artigo iremos abordar o histórico conturbado entre China e Taiwan que envolve uma disputa política e, principalmente, territorial, na qual um lado clama pela soberania de um país independente e o outro reivindica seus direitos de posse de terra e age contra o separatismo de quaisquer províncias. Após isto, usaremos a história para compreender os desdobramentos recentes desse conflito no Leste Asiático.

O surgimento da questão de Taiwan

Após sucessivos conflitos internos que enfraqueceram o Estado chinês no final do século XIX e início do século XX, o país do leste-asiático se viu vulnerável a um empreendimento colonial do Império Japonês que ocorreu na região da Manchúria. No momento em que as potências Aliadas derrotaram o Japão no final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a China se encontrava dividida politicamente e com o controle territorial do governo nacionalista imensamente enfraquecido, sendo esta situação consequência de anos de governo de uma potência invasora e colonialista que forçou sua administração sobre uma população culturalmente diferente.

Em um momento propício, regiões do Tibete, Mongólia e Xinjiang expressavam desejos separatistas, e o controle em Pequim, apesar de ser exercido pelos nacionalistas liderados por Chiang Kai-shek, fraquejava em uma divisão política com os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung. A partir daí, seguiu-se uma guerra civil em território chinês entre nacionalistas e comunistas, contando com uma tentativa fracassada de intermediação e resolução diplomática dos conflitos por parte dos Estados Unidos da América (EUA) e seu Plano Marshall (KISSINGER, 2011).

Com o gradual enfraquecimento militar das tropas nacionalistas e o sucesso das táticas de guerrilha de Mao Tsé-Tung, o grupo de Chiang não viu outra opção a não ser se retirar para a ilha de Taiwan no ano de 1949. Apesar da derrota militar, Chiang clamava que seu governo ainda representava a República da China oficial, com uma mudança de capital de Pequim para Taipei. Inicialmente, os EUA e as outras potências reconheceram o governo em Taiwan como sendo de fato representativo da China, ignorando a ascensão do governo comunista de Mao-Tsé-Tung na China continental (ALBERT, 2016). Contudo, esses mesmos países voltariam atrás nessa decisão:

O posicionamento de Washington começou a mudar sob a administração Nixon. A diplomacia entre canais de conversa resultou no reconhecimento formal da República Popular da China (RPC) por parte de Washington em 1979. A República da China (RDC) perdeu seu assento de representante da China nas Nações Unidas para Pequim em 1971 (ALBERT, 2016, p. 2, tradução minha)    

República Popular da China x República da China

Assim que a República Popular da China se estabeleceu, a política de Mao Tsé-Tung envolveu recuperar territórios historicamente chineses perdidos com o enfraquecimento político e territorial do país após anos de colonização japonesa no final da Segunda Guerra Mundial. O principal objetivo do líder comunista era o de resgatar a abrangência  territorial histórica que o país asiático possuía em tempos imperiais, antes de ser invadido pelo Japão. Desta forma, ele reconquistou Xinjiang, Tibete e a Mongólia Interior. Faltava a reunificação oficial entre o governo comunista na China continental e o governo nacionalista na ilha de Taiwan (KISSINGER, 2012).

Na década de 1940, tanto o grupo de Mao Tsé-Tung quanto o de Chiang Kai-shek concordavam sobre China e Taiwan serem parte do mesmo país, a discordância era meramente quanto a quem deveria governar. Ao estabelecer seu governo na Ilha de Taiwan, Chiang instituiu um governo ditatorial fundado sobre uma lei marcial que determinava a perseguição de quaisquer opositores. Esta lei só viria a ser derrubada em 1975 com a morte de Chiang Kai-shek e com a ascensão de seu filho Chiang Ching-kuo ao poder. A partir daí, houve um gradual processo de democratização na ilha (GEROMEL, 2019)

A divisão interna de Taiwan e as relações com a China continental

Os quase cinquenta anos de perseguição política operada pelos nacionalistas, representados pelo partido Kuomitang (KMT), teve como principais alvos grupos oposicionistas que pediam a independência da ilha e não necessariamente os simpatizantes do Partido Comunista Chinês (PCCh). Ao contrário do que prega o senso comum sobre  as relações Taiwan-China, o partido Kuomitang, que governou a ilha por muitos anos, tem como uma de suas principais bandeiras a política de “apenas uma China” e a busca do entendimento político com o grupo que governa a China continental. Pouco antes da democratização de Taiwan, ao fim da década de 1980, o KMT estreitou laços comerciais e diplomáticos com a República Popular da China (FEDDERSEN, 2012).

Em 1986, foi fundado o partido opositor do KMT que representaria os interesses daqueles que desejam a separação e independência de Taiwan da China: o Partido Democrático Progressista, Democratic Progressive Party (DPP) em inglês. De 2000 a 2008, a ilha teve seu primeiro presidente do DPP, Chen Shui-bian. Mais recentemente, em 2016, Tsai Ing-wen foi eleita presidente pelo partido, além do grupo ter conseguido a maioria no parlamento taiwanês pela primeira vez na história (ALBERT, 2016).

Tensões recentes

Esta última eleição mostra, portanto, uma tendência independentista na população da ilha, situação esta que re-acendeu tensões latentes com a China continental. De um lado, as lideranças de Taiwan clamam que o lugar é um país independente e soberano, e, além disso, dizem ser a verdadeira República da China. Do outro, a República Popular da China clama que Taiwan é uma província rebelde separatista e oferece a solução “um país, dois sistemas”, em que eles ganhariam o status de região especial administrativa – o mesmo que Hong Kong possui. Contudo, nenhum acordo concreto foi feito até hoje e o aumento ocasional de tensões continua a ser recorrente.

No desdobramento mais recente das relações conflituosas, autoridades taiwanesas, como o primeiro-ministro Su Tseng-chang, acusaram a China continental de “flexionar os músculos”, em ameaça, ao fazer uma exibição de poder militar no espaço aéreo da ilha. As relações entre China e Taiwan se encontram em seu pior estado desde 1996, ano em que o PCCh operou testes de mísseis em meio às eleições presidenciais taiwanesas (BBC, 2021).

Conclusão

Com uma cisão que data desde a década de 1940, as relações insulares entre a China continental e a ilha de Taiwan continuam oscilando entre altos e baixos em meio a uma discordância de objetivos não apenas entre os dois grupos governantes, mas também entre grupos internos da ilha. Não obstante, a situação internacional diplomática relacionada à problemática é complicada, já que poucos países no mundo reconhecem Taiwan como uma nação independente, mas ainda assim mantêm relações extra-oficiais com a ilha ao mesmo tempo que fazem negócio com a China continental. Este é o caso dos EUA, por exemplo, que oficialmente mantém a política de apenas uma China enquanto fornece ajuda militar e respaldo diplomático para Taipei.

Sendo assim, a tão esperada solução diplomática para o conflito de interesses entre China e Taiwan aparenta ser o melhor caminho a ser tomado por ambos os governos com o objetivo  de manter a estabilidade naquela região do Leste-Asiático.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALBERT, Eleanor. China­-Taiwan Relations. Council on Foreign Relations, 2016. Disponível em: <https://css.ethz.ch/content/dam/ethz/special-interest/gess/cis/center-for-securities-studies/resources/docs/CFR-China-Taiwan%20Relations.pdf>. Acesso em: 22 out 2021.

CHINA-Taiwan Tensions: Xi Jinping says ‘reunification’ must be fulfilled. BBC, 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-asia-china-58854081>. Acesso em: 22 out 2021.

FEDDERSEN, Gustavo Henrique. China e Taiwan: evolução das relações interestreito. TCC (Bacharelado em Relações Internacionais) – Faculdade de Ciências Econômicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, p. 79. 2013.

GEROMEL, R. O Poder da China. 1ª Ed. São Paulo: Editora Gente, 2019.

KISSINGER, H. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

Letícia Martins Lima

Internacionalista em formação pela Universidade Federal de Goiás, gosta da área geral de Relações Internacionais, mas tem interesse mais específico nas áreas de Política Internacional e Diplomacia.

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