GERAÇÃO PUTIN: O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ SÓ VIU UM LÍDER A VIDA TODA?

GERAÇÃO PUTIN: O QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ SÓ VIU UM LÍDER A VIDA TODA?

Fonte: Natalia Kolesnikova/AFP via Getty Images

O atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, é conhecido por ocupar essa posição há muito tempo e por suas manobras políticas para se manter no poder. 1999 foi seu primeiro ano na liderança do país, assumindo como Primeiro-Ministro, e no ano seguinte ganhou as eleições para presidente. Cumpriu dois mandatos de quatro anos e deveria desocupar o cargo pelo tempo de um mandato, de acordo com a legislação da Rússia. Putin se manteve no poder voltando a ser Primeiro Ministro em 2008, até as próximas eleições em 2012, quando assumiu a presidência novamente. Desde então permanece no cargo, pois conseguiu fazer o poder Legislativo aprovar a mudança do mandato presidencial de quatro para seis anos. Também, recentemente, logrou a mudança constitucional de poder exercer quatro mandatos consecutivos, em vez de dois.

Assim, Putin não somente lidera a política russa, mas seus mais de 20 anos no poder lhe permitem moldar o pensamento e o funcionamento da sociedade civil. Isso tem implicação singular naqueles que eram muito novos ou não haviam nascido no momento de sua ascensão: a chamada “Geração Putin”, o grupo etário que não possui memória ou referência de outra pessoa dirigindo a Rússia (MENDES, 2018)

Com isso, é razoável pensar qual é o impacto na vida desses jovens. A maioria cresce apoiando Putin? Eles estão aceitando sua longa permanência no poder? Sem nenhuma outra referência para comparar, eles sabem o que é uma boa governança? O que acontece com a consciência e com a identidade política de uma geração que apenas viu um líder durante toda a vida?

Neste texto, pretende-se analisar algumas dessas perguntas, porém, sem delinear uma resposta totalmente conclusiva, pois ainda há pouco estudo sobre essa conjuntura e muito para acontecer.

Fonte: Elaborado pela autora

(Des)conscientizando os jovens russos

As autoridades russas direcionam políticas para a juventude, com mais atenção, desde o início deste século, elaboradas para suplementar outras e fortalecer o regime, pelo controle excessivo e desencorajamento do ativismo jovem. Com isso, o governo objetivou construir uma geração leal, educada na escola para ser desengajada da política, dotada de patriotismo e preparada para o serviço militar (MILOV; KHVOSTUNOVA, 2019).

A propaganda estatal e as falas de Putin sempre retrataram crianças e adolescentes como dependentes e facilmente manipuláveis, o que legitima intervenções “protetoras” do governo para determinar normas de conduta. Essas normas, majoritariamente, definem que jovens não devem se envolver em assuntos políticos e causas sociais ou serem incentivados a isso, pois qualquer envolvimento só poderia ser fruto de “manipulação por adultos mal-intencionados”. Mais um exemplo de estratégia são os subsídios financeiros a programas intensos para alunos menores de idade com alto desempenho. Porém, estes programas, como o Centro Educacional Sirius, na cidade de Sochi, focam apenas nas áreas de ciência, tecnologia e matemática para inovação tecnológica, sem nenhuma atenção ao desenvolvimento de pensamento crítico pelas ciências sociais e humanas (PETROV, 2020).

Até alguns anos, a população jovem russa (considerando adolescentes e jovens adultos até o final dos 20 anos) jamais seria considerada politicamente relevante e era vista como indiferente. Aqueles entre 18 e 30 anos pareciam constituir o grupo mais leal e confiável em relação ao governo. Porém, recentemente, um olhar aprofundado de alguns pesquisadores tem mostrado que a juventude é mais fragmentada e complexa do que homogênea. (MEYER-OLIMPIEVA, 2019; MILOV; KHVOSTUNOVA, 2019).

O rótulo de apatia não é mais totalmente condizente, pois a parte mais velha da Geração Putin está, gradativamente, se conscientizando, se engajando e se manifestando.

A insatisfação política e a onda de manifestações juvenis

Esta conjuntura, pouquíssimo estudada, ainda é recente. Alguns cientistas políticos acreditam que um momento importante foram os protestos na Rússia em 2011 e 2012, os quais “lançaram a politização da juventude russa”. Eles foram motivados pela descoberta de fraude nas eleições parlamentares de dezembro de 2011, que favoreceram candidatos da Rússia Unida (partido conservador que domina o país e do qual o presidente é líder). Outra causa foi o anúncio de que Putin concorreria novamente à presidência no ano seguinte, após seu mandato como Primeiro-Ministro, e houve protestos contra sua vitória quatro meses depois (GERSHKOVICH, 2019a; MEYER-OLIMPIEVA, 2019)

Foi a maior onda de manifestações desde os anos 1990, a repressão contou com mais de mil presos, inclusive líderes da oposição. Ademais, novas leis foram aprovadas visando conter o ativismo, como a permissão de solicitar pena de prisão de até cinco anos para indivíduos que comparecessem a vários movimentos não autorizados oficialmente. Na Rússia, qualquer manifestação com duas ou mais pessoas é ilegal caso não permitida pelas autoridades – a maioria é rejeitada ou são oferecidos outros lugares para o ato, geralmente afastados dos centros das cidades. Com isso, muitos realizam protestos individuais, pois atos de uma única pessoa não demandam autorização (GERSHKOVICH, 2019a; QURESHI, 2020; RADIO FREE EUROPE/RADIO LIBERTY, 2017).

Nestes anos, a participação jovem foi pequena. A maior parte era composta por adultos que acompanharam a ascensão do Putin, porém, muitos dos mais novos tinham idade suficiente para guardar os protestos na memória. Com isso, adolescentes viram pela primeira vez movimentos em grande escala contestando a situação da Rússia, algo motivador para buscar informações. Estes adolescentes estão, hoje, acima dos 18 anos e tem chance de participar dos mais recentes movimentos contra o governo (MEYER-OLIMPIEVA, 2019; MILOV; KHVOSTUNOVA, 2019).

Essa oportunidade veio em março de 2017. Alexei Navalny, um ativista anticorrupção nas redes sociais, fez suas primeiras aparições mais chamativas em 2011, pela participação nos protestos, fortíssimo ativismo de oposição e criação da Fundação AntiCorrupção. Grande parte de seus apoiadores e seguidores são jovens (haja vista o uso das mídias sociais), e em 2017 seu documentário viralizou no YouTube e agitou a Rússia. “Don’t Call Him Dimon”[1] expôs a corrupção dentro do governo e no círculo íntimo de Vladimir Putin, com foco no político Dmitri Medvedev[2], ridicularizando sua tremenda riqueza. (GERSHKOVICH, 2019a; MILOV; KHVOSTUNOVA, 2019; OTARASHVILI, 2017).

Inesperadas manifestações ocorreram em 150 cidades, em quase todas as 86 regiões da Rússia, e seguiram por meses, ganhando atenção pela presença significativa de jovens. De acordo com relatórios, apenas em março, 136 dos mais de 800 presos tinham 18 anos ou menos. Dados da revista The Economist mensuram que metade dos envolvidos na onda de protestos tinham entre 18 e 29 anos. A organização de Navalny fez uma análise própria dos eventos em 26 de março de 2017, informando que os dois maiores grupos de idade presente eram pessoas entre 18-21 anos e 21-24 anos, cerca de 20% cada (MILOV; KHVOSTUNOVA, 2019; OTARASHVILI, 2017).

No ano seguinte, a juventude permaneceu forte. O governo aprovou reformas previdenciárias que geraram grande insatisfação, aumentando a idade da aposentadoria – algo que Putin, em 2005, prometeu nunca fazer – em meio à progressiva queda da qualidade de vida e da estabilidade financeira. Os jovens, revoltados vendo a situação de seus pais e pensando em seus futuros, tomaram as ruas novamente, também ainda motivados pelas questões de corrupção. Apenas em 5 de maio de 2018, durante movimentos contra mais uma posse de Vladimir Putin, 1600 pessoas foram presas na Rússia, 158 menores de idade. (GERSHKOVICH, 2019a; LITOI, 2018).

Desde então, todo ano a Rússia enfrenta protestos enormes, motivados fortemente por questões políticas. Em 2019, demandaram eleições justas para a Câmara Municipal de Moscou, sem a rejeição total de candidatos independentes ou de partidos alternativos. Também, pediam pela soltura dos presos em virtude dos eventos dos anos anteriores, dentre eles líderes de oposição, organizadores de protestos e jornalistas, em muitos casos condenados sob acusações e evidências forjadas[3]. Em agosto, houve a maior manifestação desde 2011, na qual cerca de 60 mil pessoas se reuniram para protestar na Avenida Sakharov de Moscou (GERSHKOVICH, 2019a; KHVOSTUNOVA, 2019; MEYER-OLIMPIEVA, 2019).

 A reação do governo

As autoridades da Rússia têm reprimido os movimentos em massa com as mesmas medidas empregadas em 2011-2012, porém, a rigidez e intensidade aumentaram. O governo está fazendo de tudo para censurar e cercear cada vez mais o ativismo e a polícia se tornou mais agressiva na hora de dispersar os eventos públicos. 2019 foi marco de uma brutalidade sem precedente, um número altíssimo de prisões (cerca de 3 mil) e severas sentenças, também muito injustas ou baseadas em provas falsas (KHVOSTUNOVA, 2019; MEYER-OLIMPIEVA, 2019).

Nos últimos anos, várias leis rígidas foram aprovadas, as políticas para a juventude estão mais controladoras e o governo tem criado movimentos juvenis excessivamente nacionalistas – como o Yunarmia (Exército Juvenil, tradução literal), projeto militar patriótico do Ministério da Defesa para preparar a geração para o serviço militar. Nascido em 2015, o Yunarmia atrai crianças e adolescentes de 8 a 18 anos com viagens patrocinadas pelo Estado e promessas de oportunidade de carreira. Os membros frequentemente vão a jogos militares, participando de competições de montagem de armas, precisão de tiro e resistência física. Sem dúvidas, objetiva construir uma juventude que apoie o governo, um “exército” leal, o que ficou ainda mais claro em 2019, quando Putin forçou todos os orfanatos e empresas da indústria de defesa a aderir ao movimento (FREEDOM HOUSE, 2019; GERSHKOVICH, 2019b; MILOV; KHVOSTUNOVA, 2019).

Para sufocar e desencorajar o ativismo em protestos e promover apatia política, os esforços são vários e podem ser menos intensos, como avisos de expulsão de escolas e universidades, bem como ameaças de multas ou processos contra os pais dos jovens que comparecem a manifestações. Contudo, o nível aumenta quando o governo, ao perceber a enorme disseminação de informações e causas pela internet, começa a tentar controlar o fluxo de informações digitais (GERSHKOVICH, 2019a; PETROV, 2020).

De 2018 a 2020, baniu o Telegram pela impossibilidade de acesso às mensagens criptografadas, porém, os usuários mantiveram o app funcionando e, desde 2019, existem tentativas de criar uma lei que imponha firewalls[4] controlados pelo Estado. Com isso, as conexões da Rússia com a World Wide Web[5] seriam cortadas, e o país teria sua própria “internet doméstica”, rigidamente controlada, sem acesso aos sites com “www.” que visitamos todos os dias (GERSHKOVICH, 2019a; PETROV, 2020).

Outro intenso esforço foi uma lei vaga, mas usada desenfreadamente desde então, para manter menores de idade fora das ruas. Pessoas abaixo de 18 anos já eram proibidas de organizarem protestos, porém, a lei do final de 2018 permite processos administrativos contra “qualquer organizador de uma manifestação pública não autorizada que envolva menores”. Assim, apenas convidar e trazer essas pessoas para os protestos se torna objeto de acusação na justiça. Além disso, como existem menores de idade que realizam seus protestos solitários, eles acabam se tornando organizadores e participantes, então, a lei tem sido usada pela polícia também para prender esses indivíduos (FREEDOM HOUSE, 2019; QURESHI, 2020).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É muito importante que algo fique claro: mesmo que todas as informações apresentadas pareçam apontar para uma revolução em toda a juventude, uma grande parte desse grupo ainda está desengajada da política e/ou apoia o governo de Putin. É de maneira muito gradativa que esse tipo de cenário se altera, ainda mais em um país com tantas restrições que faz as pessoas terem medo de se manifestarem. Como reflexo, as pesquisas demonstram uma descrença na eficácia de protestos públicos, mesmo que a população esteja insatisfeita e não tolere a corrupção, pois percebem que o Estado ignora as demandas públicas, e o controle da mídia televisiva omite muitas informações sobre os protestos (MEYER-OLIMPIEVA, 2019).

De fato, muitos jovens são politicamente passivos. Porém, é um fato que a indignação com os problemas da Rússia está aumentando, e apenas nos resta aguardar e acompanhar a resposta da juventude à possibilidade de Vladimir Putin persistir como presidente até 2036.

NOTAS

[1] Documentário dublado em inglês: https://www.youtube.com/watch?v=Wgd-E1XnNBI
Documentário legendado em inglês: https://www.youtube.com/watch?v=qrwlk7_GF9g

[2] Dmitri Medvedev foi presidente da Rússia no tempo de Putin como Primeiro-Ministro (2008-2012), e Primeiro-Ministro quando Putin assumiu a presidência novamente, até sua renúncia em 2020

[3] Em 2017, 11 pessoas foram presas e as autoridades insistiram que eram membros de um grupo ativista de esquerda chamado “Set” (palavra russa para “rede). O caso se baseou, principalmente, em confissões dos indivíduos, porém, eles afirmam que foram torturados até que se incriminassem. Para saber mais: https://www.rferl.org/a/russia-sentencing-set-network-sparks-social-media-outrage/30429323.html https://meduza.io/en/feature/2019/04/09/terrorists-or-terrorized

[4] Firewall é um elemento de uma rede, que controla o tráfego de entrada e saída de informação, através da análise dos pacotes de dados. Assim, determina se esses dados podem passar ou não, de acordo com uma série de regras.

[5] World Wide Web, é o que dá o famoso “www” aos sites. É um sistema de documentos dispostos na Internet que permitem o acesso a informações. Para ter acesso, pode-se usar os navegadores no computador ou no celular, como Internet Explorer, Mozilla Firefox, Google Chrome.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANCO MUNDIAL. Life expectancy at birth, total (years). World Bank Open Data, 2019. Disponível em: <https://data.worldbank.org/indicator/SP.DYN.LE00.IN?end=2019&name_desc=false&start=2019&view=map&year=2018>.

FREEDOM HOUSE. Russia’s War on Youth. 23 abr. 2019. Disponível em: <https://freedomhouse.org/article/russias-war-youth>.

GERSHKOVICH, Evan. Can the Young Activists of ‘Generation Putin’ Build on a Summer of Protests? World Politics Review, Moscow, 05 nov. 2019a. Disponível em: <https://www.worldpoliticsreview.com/articles/28320/how-young-russian-protesters-are-changing-the-face-of-anti-putin-activism>.

GERSHKOVICH, Evan. Russia’s Fast-Growing ‘Youth Army’ Aims to Breed Loyalty to the Fatherland. The Moscow Times, Moscou, 17 abr. 2019b. Disponível em: <https://www.themoscowtimes.com/2019/04/17/russias-fast-growing-youth-army-aimst-to-breed-loyalty-to-the-fatherland-a65256 >.

KHVOSTUNOVA, Olga. Russian youth in the Moscow protests. Atlantic Council, 28 out. 2019. Disponível em: <https://www.atlanticcouncil.org/commentary/long-take/russian-youth-in-the-moscow-protests/>.

LITOI, Alexander. Ações contra o “czar”: espancado, detido, menores. OVD-Info, 08 mai. 2018. Disponível em: <https://ovdinfo.org/articles/2018/05/08/akcii-protiv-carya-izbitye-zaderzhannye-nesovershennoletnie >.

MENDES, Silvano. ‘Geração Putin’ vai às urnas pela primeira vez na Rússia. G1, 17 mar. 2018. Mundo. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/geracao-putin-vai-as-urnas-pela-primeira-vez-na-russia.ghtml>.

MEYER-OLIMPIEVA, Irina. Russia’s Young Civic Activism: Lessons from the Moscow Protests. Wilson Center, 30 out. 2019. Kennan Institute. Disponível em: <https://www.wilsoncenter.org/blog-post/russias-young-civic-activism-lessons-the-moscow-protests>.

MILOV, Vladimir; KHVOSTUNOVA, Olga. Russian Youth: A look inside the blackbox. Free Russia Foundation, 28 mai. 2019. Disponível em: <https://www.4freerussia.org/russian-youth-a-look-inside-the-black-box/>.

OTARASHVILI, Maia. The Political Awakening of Russia’s Youth. Majalla, 22 jun. 2017. Disponível em: <https://eng.majalla.com/2017/06/article55253916/the-political-awakening-of-russia%E2%80%99s-youth>.

PETROV, Nikolai. How Putin Tries to Depoliticize Russia’s Youth. Chatham House, 07 jan. 2020. Disponível em: <https://www.chathamhouse.org/2020/01/how-putin-tries-depoliticize-russias-youth>.

QURESHI, Jasmin. Meet the young Russian activists risking their freedom for the climate. Global Witness, 02 dez. 2020. Russia. Disponível em: <https://www.globalwitness.org/en/blog/meet-young-russian-activists-risking-their-freedom-climate/>.

RADIO FREE EUROPE/RADIO LIBERTY. Moscow Protest Marks Five Years Since Bolotnaya Crackdown. Moscou, 06 mai. 2017. Disponível em: <https://www.rferl.org/a/russia-putin-bototnaya-anniversary-opposition-rally/28471273.html>.

Larissa Rodrigues Cimini

Vinte e um anos, graduanda em Relações Internacionais na PUC Minas. Viciada em comprar livros demais de uma vez só, gosta de arrumar cada vez mais tarefas para ocupar um tempo que não tem, e idealista sem salvação sobre Direitos Humanos e justiça.

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